A minha catatumba tem mistério
Ai, eu sou pombogira do cemitério
Cabelos negros, olhos azul
Sou Maria Molambo, filha de rei Omolu

foto: Afinsophia
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Foi na sexta-feira passada, lá no João Paulo II, onde o terreiro de Mãe Valkíria estava enfeitado, perfumado, iluminado e quando os filhos, clientes e convidados chegaram, a mesa foi posta para o jantar com Dona Maria Molambo.

foto: Afinsophia

Enquanto os tambores esquentavam, conversamos com Mãe Valkíria, que nos falou dos significados desse jantar com Dona Maria Molambo:
A festa de hoje é uma tradição, é o aniversário de Dona Maria Molambo na minha cabeça, fazendo 25 anos que eu carrego Maria Molambo e hoje estamos fazendo uma homenagem pra ela, em comemoração à data que ela nasceu na minha cabeça, dia 15 de agosto. É um jantar que a gente faz pra Dona Molambo, que é um exu, uma pombogira. Nós temos a mesa dela, que a gente arreia, faz um toque pra ela e oferece o jantar aos convidados. Todos podem entrar, podem se servir, podem comer à vontade. Vem ela e vem outras irmãs dela, outras pombogiras. Vêm várias pombogiras, inclusive do meu pai de santo, irmãos de santo, de outros membros de outros barracões que comparecerem pra marcar presença. Eu tenho 13 anos de santo, feita dentro do Ketu. Sou filha de Pai Ribamar, meu primeiro pai de santo. Hoje estou com Pai Gilmar, graças a Deus, foi ele me deu meu oiê, estou muito bem, obrigada. Estou com 12 anos que moro aqui no Jorge Teixeira, e há 12 anos eu faço essa festa pra ela. O nome do meu barracão é Ilê Axé Omin Zô. Aqui em casa têm consultas dias de segunda, com Dona Maria Molambo, e quarta, com Dona Mariana. Tanto uma como outra trabalham no amor, feitiço. Elas não trabalham com bruxaria. Trabalham na magia branca e não na magia negra. Nós não cultuamos magia negra na minha casa…

foto: Afinsophia

Na noite negra de Exu
Em toda parte elas são comemoradas
Na noite negra de Exu
É pombogira que chegou da encruzilhada

E não demorou para a dona da festa, Dona Maria Molambo, baixasse com sua alegria para receber a homenagem que lhe prestavam nesse dia, vindo distribuir sua abençoada farofa e oferecer sua comida a todos os presentes.

foto: Afinsophia
Ê, farofê, farofá
Olha a farofa que Exu vai dar
Farofê, farofá
Olha a farofa que Exu vai dar

A essa altura o terreiro já era povoado por diversas pombogiras, todas formosas, que vieram prestigiar a festa de sua irmã, e o terreiro foi tomado pelos belos e animados pontos que elas entoavam enquanto bebiam, dançavam ou conversavam com os presentes, sempre com suas estridentes gargalhadas que tomavam conta da noite.

O povo da macumba diz
Que Exu não vale nada
Olha lá que ele é exu
Rei das sete encruzilhadas

Segunda plantei a cana
Na terça eu fiz crescer
Na quarta fiz o engenho
Na quinta eu fui colher
Na sexta fiz a cachaça
No sábado eu vou beber
Domingo eu vou pra rua
Que é pro povo me ver

Dizem que pombogira é uma rosa
Que mora no meio dos espinhos
Dizem que Maria Molambo é uma rosa
Maria Molambo é uma rosa
Que abre os teus caminhos

Depois que o jantar foi servido a gosto e à vontade, tendo ao fundo o som do tambor, dos pontos, das gargalhadas, então tivemos uma longa conversa com Dona Maria Molambo, que, sempre bem humorada, falou sobre diversos assuntos da religião, sobre sua filha, sobre seus trabalhos, etc. Abaixo vão alguns trechos dessa conversa.
Eu sou Maria Molambo. Sou filha de rei Omolu. Vivo no cemitério. Dentro de umas catatumbas. Sou uma pombogira que trabalho pro bem e pro mal também. Têm várias marias padilhas, têm várias ciganas, mas Maria Molambo sou só eu. Nós somos três irmãs: Maria Molambo, Maria Farrapo e Maria Mulher. Hoje é minha homenagem, estou fazendo 26 anos na cabeça de Dona Valkíria, e não marco data pra minha era. Todo ano eu mudo minha data. Eu faço ano em cima da cabeça da Dona Valkíria no dia 26 do 12, mas como eu não gosto da data, pra cada ano eu boto um dia. Só agosto, só mudo o dia. De três em três anos eu como bicho de quatro pé, como hoje eu tô comendo a cabra; mas não sirvo minha cabra pra pecador. Eu como a cabra, mas não dou pro pecador comer. Como só. Somos várias pombogiras, somo uma irmandade, gosto das minhas irmãs, gosto das minhas cumade, que são as cabocas.

foto: Afinsophia
Juraram de matar essa rolinha
Juraram de matar essa mulher
Ela tem peito de aço
Ela tem peito de aço
E o coração de um sabiá

Já fiz muitas coisas na vida de Dona Valkíria. A minha filha é neta de Angélica Sara da Costa, uma moça que teve terreiros muito grandes aqui dentro do Amazonas. Ela era da Bahia, e teve terreiro muito grande em Tefé, e hoje a minha filha tá seguindo o que ela deseja. É isso que a religião quer: respeito. Ela já progrediu muito na vida dela, eu sempre ajudei. Eu tenho meus filhos, tenho meus clientes. Aqui hoje a maioria são meus clientes. Gosto mais de fazer trabalho pro amor. Trabalho muito pro amor, pra negócios, gosto de ajudar pecador. Se tá desempregado, se tá trabalhando e tá com dificuldade, eu gosto de trabalhar. E pras moços que têm assim mais idade. Não gosto de trabalhar pra moço pequeno, mocinho novo, os meus clientes tudo são de idade, pra juiz, pra advogado…

foto: Afinsophia

Já fiz vários trabalhos especiais.