
Para a grande maioria dos venezuelanos foi quem tirou o país da neocolonização imperial americana e arrefeceu as forças das oligarquias internas. Foi odiado por isso pelas classes altas e pela mídia, que lhe aplicaram o golpe de estado, mas que foram logo golpeadas pela multidão. E daí, com suas intenções humanistas e a autenticidade de sua palavra, ele resolveu utilizar o petróleo venezuelano não só para um progresso egoísta da Venezuela, mas também para auxiliar Bolívia, México, Cuba, Costa Rica, Colômbia, Equador, Peru, além de negociar com o Irã, Alemanha, Rússia… Como se vê, sem distinções, bolivarianos ou não. Alguns doutores chegados a lugar comum o chamam de “o fenômeno Chávez”; outros, mais afeitos à superstição, acreditam ser o diabo que veio para se unir ao diabo velho, Fidel. Mas ele a usar da palavra para conclamar o povo, como Bolívar, e para deprecar os inimigos como só o Cristo de Mateus sabia fazer. Já chamou o presidente da Coca-Cola, Fox, de “cachorro do imperialismo” e ao tibiesco congresso brasileiro de “papagaios dos americanos”. E assim, com inteligência e ação, em sua singularidade, Hugo Chávez foi se tornando sujeito de enunciação (Deleuze/Guattari) das mudanças possíveis hoje na América Latina e outras partes do mundo. Em outro contexto, com uma disposição de Che Guevara. E por isso quase todo dia temos notícias nas mídias internacionais sobre ele. Só esta semana, começou segunda-feira, quando foi preciso ele afirmar que Fidel não havia morrido, como estava sendo disseminado em ruminações virtuais agourentas, que nada tem de reais. Também na segunda, ele se ofereceu para intermediar junto a Marulanda, o líder das Farc, e o presidente, Uribe, um acordo para “desbloquear o jogo bloqueado” sobre os reféns colombianos nas mãos dos guerrilheiros, que exigem a libertação de outros guerrilheiros presos. E também esta semana, chega da portentosa Grã-Bretanha, que em cumprimento a uma doação de US$ 32 milhões que a PDVSA fez a prefeitura de Londres, serão distribuídas a partir desta semana carteiras com as quais os pobres da capital inglesa pagarão apenas a metade da passagem, enquanto os ingleses auxiliarão tecnicamente a melhorar o transporte coletivo de Caracas. Certos ressentidos ingleses o criticaram, a oposição venezuelana também, assim como criticaram quando ele vendeu gasolina com 40% de desconto para o aquecimento de pobres do próprio arqui-inimigo, Estados Unidos, mas também na mesma cota para o Irã. E fazem a lista, que por sinal tem o Brasil como o quarto país em volume dessas doações. Para a economia globalitária, que não vê outra forma de negociação que não seja através da chantagem, do lucro, da exploração, da formação da riqueza de uns privilegiados sobre nações inteiras, é estranho; para seus chefes de estado ambiciosos e ressentidos, é insuportável. Mas para todos que se apresentam como sujeitos da práxis e da linguagem (Hannah Arendt), a potência democrática de Chávez se apresenta como uma possibilidade de um socialismo real. Sem populismo, sem messianismo, como constatou o australiano John Pilger, pelas palavras de Mavis Mendez, de 95 anos, em esclarecedor artigo no site resistir.info.
“Não contávamos para nada no sentido humano. Vivíamos e morríamos sem uma verdadeira escola e sem água corrente, e sem comida que não podíamos comprar. Quando adoecíamos, os mais fracos morriam. No leste da cidade, onde estão as mansões, éramos invisíveis ou éramos temidos. Agora já sei ler e escrever o meu nome e, como eu, muito mais gente; e seja o que for que os ricos, e os seus media digam, plantamos as sementes duma verdadeira democracia, e sinto-me muito contente por ter vivido para assistir a isto.”








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