Discursando no plenário do Senado para uma platéia com a face do desalento que vivencia a Casa, o senador Cristovam Buarque, ontem, dia 10, desdobrava o quesito que é propulsor de sua carreira política: a Criança na Escola. Sua crença de que a revolução é feita na escola. O que é quase uma verdade política. Quase, porque se não mudar a semiótica dominante que fere a dignidade humana, não haverá revolução. Mas tão somente uma simples mexida nos setores administrativos do Estado. Para que haja revolução é preciso que professores e pais compreendam até onde estão sendo pobres ecos da caixa de ressonância da voz de comando do regime de signos do Capital.
De qualquer sorte, o senador Buarque, faz sua parte, como se diz no jargão reducionista. Eis que em seus exemplos de vivências sociais, que servem para ilustração de seus propósitos escolares, o senador afirmou haver um grande contraste entre a criança que joga bola e a criança que vai à escola. Para ele, a bola é redonda para todas as crianças. Toda criança, aos 4 anos, seja de qualquer raça e situação econômica, traça com igualdade a Dendeca. Já na escola é diferente: nem toda criança entra na escola na idade certa. Principalmente as crianças pobres. E mais ainda a criança negra. Neste quesito o senador esta certíssimo.
Tirando o desentendimento de que a bola é redonda para todos, no resto Critovam ia bem nos seus propósitos. Só que, empolgado, vacilou e mostrou um exemplo que o levou de vez para as garras do capitalismo consumista, via marketing, onde a imagem da criança é explorada. O senador elogiou a Globo, pro UNICEF, por sua propaganda “Criança Esperança”, que mostra uma criança de classe elite no interior de um carro ostensivo, sentada na poltrona de trás, olhando para a calçada, onde se encontra uma criança pobre fitando a criança rica. Por sua vez, sua mãe, dirigindo, preocupada com sua realidade classista, quando a criança, possivelmente seu filho, mostra a criança na rua, e ela responde com a pergunta, um quase: “Que criança?” Mostrando, para Buarque, que os adultos não conhecem as crianças.
ONDE CRISTOVAM NÃO VIU AS “CRIANÇAS INVISÍVEIS”
As sequências filmográficas são verdadeiros plágios de uma das histórias apresentadas no conjunto de histórias no filme “Crianças Invisíveis”, realizado com o apoio da Italian Development Cooperation Ministry of Foreign Affairs, dedicado à UNICEF. São histórias que, segundo seus realizadores, de vários países – inclusive Brasil -, mostram as crianças vivenciando violências produzidas pelos próprios adultos. No caso do plágio, o filme do cinegrafista chinês John Woo, “Song-Song e a Pequena Gatinha” onde nas sequências só mudam a locação, a sonoplastia e os atores, e, lógico, os diretores.
A menina é filha de uma casal de chineses ricos, em conflito. Ela pretende se comunicar com alguém. Além da distância do pai, há presença-distante da mãe. Em algumas cenas de rua, acontece da criança rica, dentro do carro, dirigido por sua mãe, ver na calçada uma menininha pobre, de sua idade, vendendo flores. Ambas se olham. Cada qual em suas perspectivas sociais, mas com uma cumplicidade terna. É o plágio configurado. Tudo que o Cristovam não viu. Se viu, pior: quis fazer propaganda da Globo e da UNICEF. A Globo que, em nome das crianças, faz propaganda de si com o dinheiro dos outros. Colhe o dinheiro alheio em seu “Criança Esperança” para mostrar ao incauto seu “engajamento” na luta contra a violência e a exclusão infantil. O que não elimina, em nada, o entendimento de outros, que sabem que se a Globo estivesse engajada contra todos os signos que violam as crianças, enfraquecendo seus futuros criativos e atuantes, como voz de si mesmas, a primeira decisão que deveria tomar era acabar com seus programas ditos infantis e juvenis. Verdadeiras instâncias de enlouquecimento dirigido para uma vida adulta apática e indiferente. Bons garfos e facas (e colheres) da sociedade capitalista de consumo. Os indiferentes.
Com sua propaganda global, o senador Buarque confirma que, embora tenha a criança na escola como seu quesito, em parte ela continua invisível para ele.










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