Essa festa, ocorrida no sábado trasado, foi a festa dos 14 anos de santo do babalorixá Pai Geovano de Ajagunnon, nesta casa que foi onde iniciamos estes trabalhos com as religiões afro, e mais uma vez esse respeitado pai de santo fala a este bloguinho com toda a singela e sabedoria que o acompanha sempre, numa entrevista longa que distribuímos com imagens do santificado ritual:
Essa festa foi uma das minhas obrigações, que no axé de Ketu nós temos primeiro a feitura, a iniciação, depois disso temos obrigações de 1, de 3, obrigação de 7, que quando recebe-se o ibaxé, que é chamado de decá, que quando nos tornamos pais ou mães de santo, zeladores de orixás. Depois disso as obrigações só serão repetidas de sete em sete anos, geralmente em uma festa só. Depende tanto da questão financeira quanto do tempo. Hoje em dia não dá mais pra se fazer um mês de festa, porque todo mundo trabalha, todo mundo tem seus afazeres. O Candomblé não é feito de pessoas desocupadas. São pessoas que trabalham, que estudam, que fazem faculdade, fazem cursinhos, pra um dia vencer na vida também, é um direito deles e que os orixás apoiam e ajudam, pois só assim eles irão progredir em suas vidas.
Essa festa foi de 14 anos. Já estava atrasada, eu já estou com 17 anos de santo, raspado, porque eu já havia passado mais de 4 anos de abiã, antes de iniciar, mas isso não conta. Já estava atrasada, uma porque é uma obrigação muito grande, tem de ser tudo muito certinho, tem de dar de comer aos santos todos, fazer todos os fundamentos da casa, a cumeeira, o entoto, os exus, os santos. A gente se prepara anos pra fazer uma obrigação destas. Graças a Deus foi uma obrigação muito bonita, não faltou nada. Com muita gente bonita, muita gente do axé, muita gente que veio prestigiar, me senti muito honrado. Agora vem a de 21, até lá da para a gente se preparar.
Eu vejo a minha trajetória como muito boa, porque com 14 anos de santo, eu já estou na terceira casa, uma casa mesmo e este é meu segundo barracão. Para quem conhece minha trajetória, pode dizer muito bem que da minha feitura de santo pra cá a minha vida foi simplesmente progresso visível ao olho de qualquer um. Pra mim é muito satisfatório, é muito reconfortável saber que meus santos me apoiam, meus santos me dão luz, meus santos me dão caminhos, me dão retorno de tudo que eu faço.
A COMPANHIA DE PAI RIBAMAR DE XANGÔ
O que me deu aquele tchan pra eu entrar mesmo na religião, saber que aquela era realmente a minha religião foi o simples fato da presença do orixá, principalmente no Seringal, onde é o axé do meu pai. Na primeira vez que eu fui lá, a primeira vez que eu entrei num terreiro de Candomblé, estava saindo um Oxalufã, de um irmão de santo meu, aquilo me tocou muito. Eu senti a presença do santo, eu senti a presença do orixá ali naquele instante. Então isso foi um incentivo muito grande. E foi a maior satisfação conhecer meu pai, que hoje em dia ele não é só meu pai, é um irmão, é uma pessoa que eu tenho muita consideração, a gente tem até nossas desavenças, que todo mundo tem, como em toda família tem, mas jamais eu lhe faltei com o respeito, nunca ocorreu algo que me impedisse de acrescentar deposi que ele é um grande amigo, em todos os sentidos. Se não fosse por ele, a minha obrigação não tinha saído, porque hoje em dia o comércio da religião é muito grande. Você tem que ter um amigo, uma pessoa que já vem contigo há muito tempo, uma pessoa que tu confie, que não te engane, da qual você conheça a índole, e isto eu tenho na minha família de santo, que é meu pai. E pretendo dar também a mionha obrigação de 21 com ele, enquanto ele tiver vida e eu também, eu espero estar com ele.
E Pai Ribamar de Xangô, em seu discurso no decorrer da festa, exalta a dedicação de Pai Geovano à religião, ele que o fez e sempre o auxiliou nessa jornada que os santos vem abençoando a cada dia com mais axé, porque a cada dia de devoção, de aprendizado, o babalorixá vai tornando especial sua forma de culto aos orixás.
Essa obrigação de meu filho Geovano de Oxaguiã. Pra mim é uma satisfação imensa, porque ele iniciou na minha casa, ficou muito tempo, depois fez o santo, deu a obrigação de 1, deu a de 3, a de 7, e hoje estamos na festa de 14 anos dentro do ilê dele. Aqui tem muitos filhos de santo dele, ogans, ekédis. Pra nós é muito motivo de satisfação acima de tudo ver uma casa dentro dos cultos afro prosperar.
O MAGNÍFICO RUM DE PAI LÍDIO DE OXAGUIÃ
Quando indagamos a Pai Geovano quem era o senhor que puxava o xirê com tanta simplicidade, leveza e alegria, ele explicou-nos ser nada menos do que o conhecido e respeitado bablorixá baiano Lídio de Oxaguiã:
É meu avô de santo, Lídio de Oxaguiã. É pai de Pai Ribamar de Xangô, meu pai. Ele é do axé Opô Afonjá, e tem um dos maiores axés de Salvador, em Itaparica, onde ele mora. Um dos maiores axés de Salvador é o axé de Lídio de Oxaguiã, em Itaparica. Ele está aqui em Manaus dando obrigações de alguns irmãos de santo. Como era minha obrigação, ele veio dar uma volta aqui em casa, que foi uma surpresa muito grande pra mim, porque ele deixou de fazer o compromisso dele pra vir pra minha festa. Foi uma alegria muito grande. É difícil a gente ter uma pessoa vinda de longe, com o respaldo que ele tem, pra prestigiar nossas festas. Então, eu só tenho é a agradeceer a Oxaguiã e à presença dele na minha festa. O rum que ele deu no meu santo foi muito bonito, de muito bom gosto, ele é uma pessoa muito centrada no que faz. Então, eu só tenho a agradecer.
Pai Lídio de Oxaguiã, Pai Ribamar de Xangô, Pai Geovano de Oxaguiã e Pai James d’Ogum
ROBSON DE OXÓSSI, OGAN DE OXAGUIÃ
Também foi dada a obrigação do ogan Robson, segundo ogan da minha casa. Também estava atrasada, pois ele deu a de 3, e já está chegando a de 7. Dentro da religião o Robson tem sido muito bom, mas como ele é muito jovem é claro que às vezes ele não tem toda aquela responsabilidade que uma pessoa de 30, 40 anos tem. É um caminho árduo pra ele, mas ele vai se aperfeiçoando, tomando mais conhecimentos das coisas. É um ótimo ogan, um querido filho, eu tenho um apreço muito grande por ele. É uma pessoa que eu não meço esforços de ajuda para que ele continue na religião, continue o amor que ele tem pelo santo.
O Robson é meu filho. Eu crio ele desde 10 anos de idade, hoje em dia ele tem 26 anos, é uma pessoa que se eu estiver chorando ele chora comigo, se eu estou rindo ele tá rindo comigo, se eu estiver doente ele está perto de mim, e a mesma coisa eu faço por ele. Então é por isso que ele tem esse apreço grande por mim e eu também por ele. Agradeço muito a Oxalá por um dia ter aberto as portas da minha casa e ter adentrado o Robson pra dentro dela, que hoje em dia ele é um dos alagbês da minha casa que tem muito conhecimento, tem um aprendizado muito grande de atabaque, sem ele minha casa para de tocar porque ele é um incentivador, ele é o chefe dos atabaques da minha casa.
E conversamos com o próprio Robson sobre sua trajetória como ogan, sobre seu longo e contínuo aprendizado e sobre sua expectativa em tocar e cantar aos orixás, pois, como ele mesmo nos falou uma vez, a importância dos ogans é tão grande, na medida em que os próprios atabaques na África são cultuados como orixás.
Essa obrigação é de três anos, que estava atrasada, e já tem a outra de sete, que também está atrasada, e que eu pretendo pagar ano que vem. Eu estou muito contente. Eu comecei a participar do Candomblé desde criança, entre os 10, 11 anos. Desde quando eu morava em outro bairro eu já era simpatizante e frequentava terreiro de Umbanda, eu ia pra festas de Cosme e Damião, ia pegar bombom. Eu via o pessoal tocando e achava legal, o pessoal às vezes deixava eu tocar, eu não sabia muito, mas como deixavam eu fui aprendendo.
Eu ainda não conhecia o Candomblé, aí quando eu conheci melhor a religião, quando eu vim pra cá pro Geovano, que hoje é meu pai de santo, eu me interessei e até hoje estou aqui. Ele me ensinou a tocar, e eu comecei a frequentar outras festas, em casas pra ver como era o ritmo que eles tocavam. Fui prestando atenção e aprendi um pouco. Aqui é que nem a gente tá na escola, é um idioma, a cultura afro-brasileira, que a gente tem que aprender. Quando a gente vai vendo o que as rezas em yorubá querem dizer aí fica mais fácil. Dá pra eu tocar e cantar o básico de Exu a Oxalá, mas ainda não sei o bastante Porque há uma importância muito grande do ogan dentro do Candomblé, principalmente o alagbê, é ele que toca, que canta e anima as festas. Se o pai de santo não estiver por perto é o alagbê que tem de iniciar tudo.
A DESENVOLTURA DOS PEQUENOS OGANS
Foi a saída de mais dois ogans da minha casa, duas crianças, com a autorização da mãe e do pai. São crianças muito cobradas pelo santo, não pelo que eles fizeram, mas pelo que eles passaram, pelas promessas que a mãe fez para que eles vivessem, porque eram crianças muito doentes; então, chegou um momento que o santo em si queria a obrigação deles, fizemos. Tem um que tá com três anos, o outro vai fazer dois anos.
São jogados búzios para ver o que os orixás falam, se é pra iniciar, a gente inicia. (Todo o ritual, com toda a obrigação que por ventura se venha a fazer para uma pessoa, ela tem de ser autorizada automaticamente pelo orixá dela.) O menor é de Oxóssi e o maior de Oxaguiã. Não é porque sejam crianças que vai fugir da hierarquia, não foge, tem de ser como o orixá manda, tem de ser como o antigo. Se for um aleijado, a mesma coisa; se for um mudo, a mesma coisa; se for um rico, a mesma coisa; se for um pobre, também. O fundamento é um só. Pra ogan, por exemplo, são sete dias de recolhimento; pra ekédi, também; pra yaô, depende do orixá, tem orixá que faz com 21 dias, tem orixá que faz com 16, com 12, e assim vai.
Eles não apresentaram nenhuma dificuldade. Da limpeza de corpo deles, que eles tiraram ebó, aliás, todos nós, porque o Robson e eu também tiramos ebó. No caso deles, minha maior surpresa e alegria foi começar os preceitos e ver que parece que eles nasceram pra isso mesmo. Quando foram colocados os preceitos neles, no caso contra egun, pra evitar de espíritos ruins encostarem neles, eles aceitaram com a maior tranquilidade e, detalhe, quando um contra-egun desatava, eles corriam imediatamente pra eu amarrar de novo, pra que não ficasse caído, como se eles já soubessem que aquilo era uma proteção pra eles. Se fosse rezar de manhã, como aconteceu, eles acordavam, estavam caindo de sono, mas estavam ali, falando não sei o que, que eles não falam direito, só fazem escutar, na hora de bater palmas eles batiam. Quando terminava a reza, eles simplesmente viravam pro lado e dormiam. Na hora de tomar banho, eles iam tomar banho, tudo assim com uma maior naturalidade, como se eles já tivessem vivido essas experiências há tempos. E na festa, como todo mundo viu, eles estavam muito à vontade.
A IMPORTÂNCIA DA BANDEIRA DA NIGÉRIA PARA O CANDOMBLÉ
Eu quis fazer assim com essas bandeiras. É uma interligação, do Brasil para o Amazonas e à Nigéria, que é o berço dos nossos orixás, do Ketu, que foi lá a primeira cidade de Ketu. Então, esta bandeira nós temos de levantar, porque apesar de estarmos no Brasil, vivermos no Amazonas, mas é a África que nós cultuamos, é a África que nós temos em comum.
Então você vê, eu quis fazer uma homenagem também de história, você vê que na minha parede tem 16 orixás, todos muito bem desenhados. É uma homenagem que eu fiz, porque a gente está acostumado a ir pelos barracões, chega lá tem um monte de imagem de Santa Bárbara, de São Benedito, de São não sei que, São não sei de onde. E as nossas imagens, dos nossos orixás, por que não tem? Santa Bárbara é Santa Bárbara, não é Iansã. Quem diz isso está falando uma coisa muito errada. Tem sim uma ligação de se esconder atrás dessas imagens, mas isso foi no passado, hoje em dia nós temos mais porque nos esconder atrás de imagens que não sejam as dos nossos orixás. Então eu quis fazer uma homenagem a mais ao berço dos orixás, à Nigéria, por isso eu coloquei a bandeira da Nigéria.
Teve a presença de muitos pais de santo, que não deu pra gente olhar bem tudo, poRque numa obrigação grande assim, a gente fica meio atarantado, fica desnorteado, depois incorpora com o orixá, aí é que não se vê mais nada. Graças a Deus, o que deu para eu perceber, eu só não vou citar nomes para não ser injusto para com outros. Eu agradeço a todos, podem contar que nas festas na casa deles, sempre que for convidado, irei retribuir a presença deles aqui, porque eu fiquei muito honrado.
●●● PAI GEOVAŅO DE AJAGÙNNỌN ●●●
Travessa Guape, nº 173 — Jorge Teixeira IV (Manaus-AM)
Telefone: (92) 3682-5727 / 3638-7472 / 8111-5335



















































amores o robson nam e de oxala ele e de oxosse
vcs confundiram mas realmente estava linda a obrigaçao do pai geovano muito axé pra todos
Amada Leia,
valeu pelo toque, realmente o que você diz procede, conforme confirmamos com Pai Geovano. Por isso, já modificamos o texto…
Axé!
foi uma das festas mas linda da qual eu ja participei, pai geovano é meu pai de santo,pelo qual eu tenho um grande apreço e muito respeito. ele esta de parabens,sua festa foi muito bonita.os ogans estavam lindos,sem contar que a presença dos orixás iluminou a todos.{ pai geovano parabéns]
adorei sempre quis trabalhar em um terreiro de candomble mais minha
raiz é a umbanda