O que caboco lá na mata serenou (bis)
Já mandei içar bandeira pra caboco baiador (bis)
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Para quem gosta de ver Umbanda boa, velha Umbanda de pé no chão, em casa simples, mas cheia de devoção, espiritualidade e muito axé, terá de ir um dia numa festa lá na grande Compensa, no terreiro de Mãe Regina, Centro de Umbanda Ogum Rompe-Mato.
“Tem hora pra começar, não tem hora pra acabar”, foram umas das primeiras palavras que Seu Sibamba falou logo que chegou na festa, ocorrida no sábado passado, onde se comemorava seus 27 anos na cabeça de Marco Antônio, filho de santo de Mãe Regina, e 18 anos de Caboco Roxo na cabeça da mãe de santo, além do aniversário de 30 anos da médium Sônia.
Eu quero ver quem vem
Eu quero ver quem é
Eu quero ver caboco bom
É no balanço da maré
Entre um ponto e uma pitada de fumo, conversamos com o sempre festeiro, alegre, um dos maiores catimbozeiros da Umbanda: Seu Sibamba. Conversa essa que deitamos aqui acompanhadas de imagens de diversos outras entidades que viam saldar o terreiro e todos os presentes:
Sou Caboco Sibamba da Vera Cruz Trindade. Sou um cearense de 76 anos. O negoceiro aqui não é pra matar ninguém, é pra salvar as pessoas, com a força de nosso senhor Jesus Cristo, com a força de Deus e meu padim Pade Ciço. Trabalho com meu filho há 27 anos. Pela primeira vez, que meu filho vai fazer 41 anos, que ele sentiu força, sentiu confiança, e eu pedi pra ele fazer essa obrigação pra mim, essa festa que tá acontecendo hoje. 27 anos na coroa de meu filho, trabucando, fazendo caridade a quem precisa sem precisar de um vintém, sem precisar de um pataco formoso, porque tudo que tá acontecendo cá é as pessoas que tão dando. Essa festa não é pra mim, é do povo, é pro povo.
A pessoa vem atrás de uma palavra, saber uma palavra, vem também atrás de cura, e quando a pessoa chega dentro dessa casa, todo ser humano tem seu livre arbítrio pra pensar o que pensa, mas a partir do momento que você fala o nome de nosso senhor Jesus Cristo, Ele tá lá. Essa Umbanda que você tá vendo aqui é Umbanda velha, de caboco, numa casa pequenininha, de coração aberto. Todas as pessoas que entram nessa casa vem com seus próprios pés, vindo em busca de uma felicidade, em busca de pelo menos uma palavra, ou que sim ou que não, e sai daqui com a sua alegria, com as suas coisas realizadas.
O meu navio tá no porto
A lua no céu clareou
Meu marujo de guerra
Sibamba bebo chegou
Muitas vezes chega alguém dentro do terreiro e diz: “Quero que o senhor me fale.” Não. Eu preciso conhecer tua essência, eu preciso saber o que você tá vivendo pela primeira vez. Eu prefiro te conhecer, pra não te falar mentira, pra não te dizer coisa que você não quer saber. Nós somos apenas um instrumento, e isso já vem de muito tempo. Já veio dos escravos que vieram lá da África pra cá, e que foram colocados nesse Brasil velho, onde já existiam os índios cultuando a nossa origem, existiam os pajés, só que ninguém sabia da cultura. O povo acredita naquilo que vê. A língua é o chicote do mundo: às vezes fala a verdade e às vezes fala a mentira. A vida é como a palma da mão, não tem um dedo certo. O maior é o que a gente dá cotoco pros outros. Você começa aqui, nasce nu, aprende a se vestir, você chega aqui, e aqui é o dedo maior, você faz de tudo pra não cair dele, porque se você cair você vai começar tudo de novo. Se você sente vontade de fazer uma coisa, vá lá e faça. Se você errou, mas você foi lá e fez. Se você acertou, você foi lá e fez. Você não ficou naquele “porém”: será se eu faço? Será se eu deixo de fazer?
Aqui acontece coisas que muito não vê. Você chega aqui flagelado e sai daqui, com a força de Deus Pai, bom. Mas nem toda vez é assim. Porque aqui também acontece aquilo que às vezes acontece no mundo dos homens de branco, as pesoas só procuram quando já tá no final do seu negoceiro. A fé cura. Aí as pessoas dizem: “a Macumba”. Macumba é um instrumento de couro que existe na Bahia. Isso aqui é uma nação, assim como Ketu, Jejo, Candomblé. A Umbanda é velha, é muito antiga. Caboco continua aqui trabalhando. Se quiser acreditar, acredite; se não quiser, eu não vou dizer pra acreditar. Mas aqui é bom. Cada qual procura seu cada qual, procura sua melhora, pra ouvir, pra aprender o caminho, porque Deus não escreve certo por linhas tortas não. Deus escreve certo por linhas retas. O ser humano é que entorta a conversa. A língua tem o poder de derrubar um homem de dois metros e meio. E o ouvido ouve o que quer.
Zé Pelintra, Zé Pelintra
Boêmio das madrugadas
Vem na linha das almas
E também das encruzilhadas
Isso aqui não é meu, é de Ogum Rompe-Mato, mas eu tenho terreiro em Belém, Salvador, Recife, Fortaleza, já fiz muita coisa nesse mundo pra quem já foi desenganado dos médicos, mas dentro dessa casa aqui eu fiz um negoceiro pr’um filho meu que já tinha andado em muito terreiro, já tinha ido pras igrejas, e ninguém tinha dado a cura do moço. São oito anos de pertubação, de disse-me-disse. Com três meses eu botei ele bonzinho.
Conversamos ainda com o vigoroso Caboco Roxo na cabeça de Mãe Regina, que não só fez os agradecimentos e saudações, como também colocou sua firmeza e posição sobre as principais questões das religiões afro, como preconceitos e difamações. Uma conversa que entra em proximidade justamente sobre o principal motivo do trabalho deste bloguinho com as religiões de matrizes africanas. Também esta conversa deitamos aqui, entremeadas com imagens da continuação da festa:
Se as pessoas tivessem consciência, não faziam o que fazem, porque é daqui dos cabocos, do espiritismo que os outros crescem em religião, porque o povo evangélico faz o mesmo que nós faz aqui dentro. Aonde que Jesus Cristo diz que pra você ter um pedaço no céu você tem que pagar? Ele veio na terra pra dizer isso pra você? A palavra do pecador, do homem da terra, é que diz isso. Você cai se você quiser. O que ele quer é bandeira [dinheiro]. Mas Jesus veio e lutou pra fazer o mundo dEle. Quando Ele chegou no templo e viu que tinha mais era bandeira, ele passou a destruir tudo aquilo. Eu quero dizer que aqui nessa casa humilde quando a gente vem nessa casa a gente não vem por acaso, a gente vem pra trabalhar. A gente vem pra ajudar o ser humano dessa vida. Se ser pra nós, a moça bonita diz que é pra nós; se não ser pra nós ela manda ir pros moços da farda branca [médicos].
Chama papai, mamãe, para me ajudar
A lua nasceu, ela foi feita pra clarear
É o Caboco Roxo, mamãe, que vem saravá
Aqui nas águas doce nós não federação que luta por nós, como tem nas águas salgadas. Belém, Bahia, Rio de Janeiro. Lá tem quem luta por nós. Aqui nas águas doce, o povo não respeita nós. Aonde a gente vai arriar uma obrigação, o povo chega lá e chuta. Pra dar oferenda, pra dar ao nosso povo aquilo que eles precisa, a gente vai arriar na beira da praia, se bota um bebericador, ele vai lá e toma, ele vai lá e mexe. Mas ele não sabe depois a volta do que der. Vem depois a volta, vem depois a cobrança. Eu acho assim no mundo do pecador, respeite a religião de cada um. Não queira ser mais do que ninguém se Deus é só um. Não adianta você pedir uma coisa e seu pensamento ser outro.
Ó, Senhor, abençoa essa filha que eu tô nela! Dona Regina, que é a zeladora de santo aqui dessa casa, filha de Ogum Rompe-Mato. Eu estou esperando uma oportunidade pra eu falar o que eu tenho engasgado dentro de mim pra defender a minha religião. Porque aqui não existem federações. Federações são pra lutar, pra defender a sua religião. Eu quero falar, porque os evangélicos da Universal já vieram aqui dentro da nossa casa pra querer levar minha filha pra lá, e tudo que eles fazem lá dentro é o mesmo que a gente pratica aqui. É o sal bento, é a rosa, é tudo. Se é o mesmo, por que eles falam mal da gente? Por que eles discriminam? Quem crê em Deus crê em Deus. Por que a primeira palavra que eles diz é o Diabo? Não, o erro quem faz é o ser humano na terra. O Diabo já tá tão escabriado, poque dizem de tudo ruim que é ele o culpado; mas o culpado é o ser humano. É ele que pratica o erro e depois diz que é o Diabo. A minha filha quer falar essas coisas, porque ela só é pequenininha, mas ela tem axé. Ela tá com 36 anos nesse cavoucador dela, mas ninguém nunca venceu ela. E eu tô aqui com ela. Eu me chamo caboco Roxo e eu não vim em vão. Eu vim aqui fazer o bonito junto com meu irmão, nosso boniteiro formoso.
Senhor, meu pai, orixalá
Senhor, meu pai, orixalô
Vamos festejar nosso reinado
Que é feito de paz e amor
E como Seu Sibamba falara, a madrugou chegou e se foi e a festa não parava, porque os pontos continuavam rezados com devoção, o toque no tambor cada vez mais contagiante e dança tomava conta da área de fora do terreiro, irradiando axé para toda a grande Compensa…
Se o tambor tocar eu danço
Até o amanhecer
Olha, quase que eu não vinha
Até o dia amanhecer
●●● MÃE REGINA DE SEU ROMPE-MATO ●●●
Rua São Pedro, nº 151 — Compensa II (Manaus-AM)
Telefone: (92) 3625-7897





























































A DOREI O SARAVA E MUITO MARAVILHOSO
gostei muito a festa,gostaria de conversa com vcs bjs