Essa foi uma grande e maravilhosa festa no terreiro de Nochê Hunjaí Emília de Toy Lissá, ocorrida nos dias 31 de julho e 01 e 02 de agosto passados, nos quais se comemorava o aniversário do Centro dos Tambores de Mina Jeje Nagô Toy Lissá/Agbê Manjá e sendo também realizadas as obrigações de dois filhos da casa, Pai Dinho (Júlio César) de Azaá Ká e Floriza de Navé.
E quem nos fala sobre os preparativos anteriores e os significados desses três dias de festa é sua maior responsável, Mãe Emília de Toy Lissá:
Faz 26 anos que eu vim da Praça 14 pra cá, 26 anos que esse terreiro foi inaugurado aqui. E teve também a obrigação de dois filhos, meu filho carnal, o Dinho (Júlio César) de Azaá Ká, que estava atrasada, e a Floriza, que está se preparando pra noviça, está iniciando, dando as primeiras obrigações. Mesmo ela sendo noviça, ela já tinha várias atividades, já era oborizada. E dentro da Fucabeam ela é meu braço direito, é como uma guia da casa. O Dinho é meu filho carnal, e é a segunda pessoa dentro desse terreiro. Ele está pagando a obrigação dele de anos e anos que estava atrasada. A primeira obrigação ele deu em São Luís do maranhão, com Jorge Itaci de Oliveira. Ano que vem ele dá outra obrigação, aí terminam os graus dele.
Antes dos três dias de festa pública houve sete dias de preparação interna, só com os da casa. São as oferendas, são as obrigações que se faz. Durante estes sete dias, é só pra fazer isso dentro de casa. Tem que fazer antes de começar as festas maiores. Depois se toca três dias. No primeiro dia toca-se pra Lissá, que é Oxalá; no segundo dia é pros voduns; no terceiro dia, pros encantados. Quando vem pais de santo de outras nações, nesse último dia é liberado pra eles cantarem pras nações deles.
Veio muita gente, irmãos de santo do Maranhão, de Belém, sobrinhos, vieram participar da festa. Pai Brasil, que é de Lissá também, filho também de Dom Jorge, como eu. Pretendo ir no Pará conhecer a casa dele. Pai Miguel, irmão de santo, que conheço há muitos anos. Ele vem toda festa de aniversário do terreiro, desde que inauguramos, ele sempre vem, sempre ele está presente.
Pai Brasil de Lissá, da casa Mawukwê (“O Sopro da Vida”), de Belém-PA, irmão de Mina de Mãe Emília também estava presente e nos falou do que viu e sentiu no terreiro de sua irmã:
A Mãe Emília é do vodun Lissá, da família de Kevê Ossô, e, por coincidência, eu também sou untó e vodunon desse mesmo vodun. Então, a energia já soma duas vezes, não só por ela ser uma irmã minha, de descendência de uma mesma casa, que é a Casa da Fé em Deus, de São Luís, no Maranhão, como do próprio vodun que a gente carrega, que é o mesmo vodun. Logicamente que existem em cada região algumas diferenciações no toque, nas cantorias, devido ao próprio linguajar e tudo. Mas a essência, o contexto de uma maneira geral, na forma ritualística que aconteceu o toque para o vodun é o que acontece no meu axé, é o que acontece no axé do meu pai de santo, e aqui eu também tive a alegria e o prazer de ver um Tambor de Mina, ver um orixá, que foi a Oxum, ver o vodun Azaá Ká, ter o meu irmão comigo, Pai Miguel, que veio de São Luís pra comandar esse tambor.
Enfim, eu acho que isso que o Tambor de Mina está precisando, é isso que a afro-religiosidade está precisando, é de unir. Se não existir união, os evangélicos cada vez mais vão se fortificando, cada vez mais vão se unindo, e nós afro-religiosos brigando até por um poder – acredito que cada um tem o seu axé, cada um tem sua força -, então, em cima dessas coisas, em cima dessa fala é que eu acredito que há necessidade de unir. Tendo união, vai ter paz, e, tendo paz, com certeza o Tambor de Mina, não só no Maranhão, como também no Pará, como também no Amazonas, só vai evoluir cada vez mais. Mãe Emília está de parabéns por tudo aquilo que eu vi, e hoje ainda é a primeira noite, vão haver mais duas noites, eu tenho certeza que vai ser tudo como manda o figurino do Tambor de Mina.
Pai Dinho, que é filho carnal de Mãe Emília, e que, segundo ela, é a segunda pessoa dentro do terreiro, demonstra na conversa que nos concedeu uma vida de envolvimento com as religiões afro:
Dentro de qualquer nação, cada obrigação tem um propósito, cada obrigação tem um grau, ou seja, aumenta o conhecimento da gente. Então, na minha nação, Mina Jejo Nagô, aumentam os meus conhecimentos, confirma os meus voduns, os meus orixás, porque eu paguei a minha última obrigação, de deitar, foi em 1989, em São Luís do Maranhão, com Dom Jorge. Como eu não tinha mais feito nenhuma obrigação, agora essa obrigação é pra confirmar tudo o que eu já fiz, ou seja, pra me atualizar. Daqui a um ano eu vou fazer uma outra obrigação, que é mais um outro grau que eu vou receber dentro da nação Mina.
Devido à experiência que eu tenho, devido ao tempo que eu tenho de nação, é necessário eu fazer essa obrigação pra serem confirmados os meus orixás, serem confirmados os meus voduns, pros meus voduns poderem trabalhar e aumentar meus conhecimentos. A única coisa que a gente leva é o nosso conhecimento e a nossa experiência, isso nunca vai se acabar. É uma obrigação muito valorizada pra mim, principalmente porque eu sou a raiz da casa da Mãe Emília, que é minha genitora, e eu sou o herdeiro nato desse terreiro de Toy Lissá/Agbê Manjá. Então, isso tudo faz parte do tempo da Mina, do tempo da minha Mãe de Santo.
Então veio um dos momentos mais bonitos da festa, o momento que Azaá Ká liberta os pássaros que estavam presos. Pai Dinho fala sobre o significado desse ritual:
A cerimônia dos pássaros simboliza o quê? Prosperidade. Do meu vodun, Azaá Ká, qual é a palavra principal? “Não prenda os animais! Deixem soltos para que eu possa caçar.” É até uma mensagem ecológica, em um ritual que simboliza prosperidade. E a gente pede para as pessoas que pegam no terreiro pra não prender, para soltar.
Também Mãe Emília nos falou desse belíssimo ritual:
Essa foi uma saudação de liberdade de soltar os pássaros, por Azaá Ká. Os pássaros estavam presos, e ele veio e soltou todos. É como se fosse um abrimento de caminhos, uma luz que libertou as vidas daqueles pássaros. Isso faz parte de Oxóssi, de Azaá Ká. Significa o quê? Que eles não matam, só matam por necessidade, o que tem que comer. Mas os pássaros devem continuar soltos. Se estão presos, eles libertam, eles não gostam de ver bichos presos. Fizemos simbolicamente o ritual das matas.
E já ia pelo segundo dia de festa, então colocamos aqui a continuação da conversa com Pai Dinho sobre seu vodun, Azaá Ká:
Essa obrigação não deixa de ser um casamento confirmado. Toy Azaá Ká já era fundamental pra mim, e passa a ser mais fundamental ainda. Toy Azaá Ká pra mim hoje é tudo. É uma lição de vida, é uma lição de comportamento, é uma transmissão de poder pra eu poder ajudar muita gente, poder transmitir a calma, poder ajudar as pessoas a resolver alguns problemas através da mão dele. Ele é um vodun da linha de Oxóssi, que é um caçador, e eu espero prosperar muito com ele, que é um vodun das matas, e por isso veste o verde – suas cores são verde, vermelho e branco.
E também Floriza de Navé, conhecida no terreiro de Mãe Emília simplesmente como Flor, também nos falou de sua obrigação, de sua vodun, Navé:
Eu tenho quatro anos na casa, mas a obrigação de vodun é a primeira. Eu passo a receber um vodun, no caso, Nochê Navezuarina, que no Candomblé chamam Oxum. Hoje é como se fosse o meu batismo, é a confirmação, é um renascimento. A gente cresce dentro da religião, tendo um costume de tudo, é todo um aprendizado que a gente recebe aqui dentro, mediunicamente, espiritualmente. Eu já recebo, com isso, um grau dentro da casa, e assim vou poder participar de rituais que eu não podia. Na minha família, a religião vem de berço, veio de minha avó, de minha mãe, meus filhos, tá no sangue. Navê pra mim é tudo, ela é dona das riquezas, é uma grande mãe. Ela é superprotetora, ela é graciosa. Com a presença dela eu passei a ver de outras formas as coisas.
Tanto Mãe Emília quanto Pai Dinho e Floriza teceram elogios ao papel fundamental de Jéssica de Iemanjá (ao centro na foto abaixo), como guia da casa, em conduzir as obrigações com o empenho e a dedicação exigidos, como salienta Mãe Emília:
A Jéssica é uma guia da casa, cumpre o seu dever, respeita a religião. E tem aquele amor, aquela dedicação, filha de Iemanjá, como ela é.
Pai Dinho, em mais uma fala sua, deixa uma mensagem para todos que cultuam os cultos afro, seus irmãos e a todos que simpatizam com essas fundamentais religiões, que fazem parte da história de nosso povo:
Uma coisa que eu digo pra todos que frequentam nosso culto, que todas as nações se possam dar as mãos, procurar ser diferente, porque é uma coisa que falta ainda, a gente ainda é carente disso, a gente ainda é carente de vestir a camisa, de dizer eu faço parte dos cultos afro, sem vergonha e sem demagogia, com peito aberto, de cabeça erguida. Temos que estudar bem nossos orixás, nossos voduns, se aprofundar, levantar essa bandeira, não só de cultuar, mas mostrar pra sociedade, fazer um trabalho social também.
E Mãe Emília, com sua serenidade e sua sabedoria, deixou mais uma vez seus votos de amizade, esperança, todos os bons afetos, bons fluidos para todos os adeptos e gostam da proximidade com as religiões afro:
Que esses 26 anos sejam de muito axé, de muitas forças de Toy e Lissá, de Agbê Manjá, de luz para todos aqueles que participam do culto. Daqueles que vem em busca de uma paz, que eles sempre batam nessa casa. Que Lissá, que é o próprio Deus, nos dê força, luz, muito axé pra eu continuar por muitos e muitos anos junto com meus irmãos, com os visitantes, é o que eu desejo a todos, paz, amor, esperança.
E deixamos aqui mais algumas imagens dessa imensa e magnífica festa, com suas cores, seus sons, suas comidas singulares, contagiantes aos olhos e ao espírito…
Pai Edson de Codoense e seu Zé Raimundo (Pai Válter).
Seu Baianinho (Pai Miguel) e Pai Tota.
Pai Tota incorporado e Pai Lala.
Dona Chica Baiana (à esquerda).

● CENTRO DOS TAMBORES DE MINA JEJO NAGÔ TOY LISSÁ/AGBÊ MANJÁ ●
- Mãe Emília de Toy Lissá -
Rua Pintassilgo, nº 100 — Cidade Nova II – Núcleo II (Manaus-AM)
Telefone: (92) 9995-3894








































































































Parabens pela materia !!!
Ficou muito lindo
muito obrigada pelo trabalho de divulgação não só da Mina mais de todos os cultos afros.espero ke vc possa alcançar todos as graças desejadas.
Muito Axé para vc e para todos aqueles que buscam diminuir essa barreira que as religiões afro enfrentam perante a sociedade.
E te espero sabado!!!!
jessica, Kolo fé, olurum
Gosto de ver sua dedicação aos voduns e a mãe emilia, lissá lhe conserve sempre assim dedicada, nunca desistas de seus propositos. de seu irmão que voce ainda não conhece redson de oshalufan….
Mas uma vez venho participar em comentar essa e tantas outras festas que minha mãe de santo elabora, mãe emilia sei de sua dedicação aos voduns e mais uma vez a senhora se supera, foi uma maravilhosa festa, mas logo, logo estarei de volta e ao seu lado e de todos para louvar nossos voduns, lissá nos abençoe
Redson de Oshalufan – Fiel de Vodun
Fico feliz ao ver meu irmão,crescendo cada vez mas.
Sempre tive admiração pela senhora.
Que pena que eu não poder estar no meio desta linda familia.
Mas a senhora sempre vai estar em meu coração.
Parabes mãe.
Sei o quanto a senhora lutou por tudo isso.
E luta ate hoje.
Te amo.
Olá. Meu nome completo é Giancarlo Roger Hilário e tenho 44 anos. Sou professor de Educação Física, embora gordo (sou filho de Badé), aqui em Maringá, no Paraná. Sou filho de santo há 2 anos aqui da casa de Tambor de Mina da Mãe Glória de Abe. Vim da Umbanda, que frequentei desde 1985 como medium de incorporação. Estou tendo algumas dificuldades pra me adaptar às diferenças, mas estou gostando muito. Aqui encontrei uma verdadeira e grande família. Gostaria de manter contato com voces por email.
Axé.