
Não somos críticos de literatura para observar aspectos mortos da linguagem cifrada e constituída em artimanhas estilísticas. O que nos interessa é a vida passando através das linhas e entrelinhas de um conto, um romance, um poema.
É nesse sentido que estaremos publicando a partir daqui uma novela (nouvelle) do jovem manauara Alberto de Alencar chamada Conversando com a noite, que ele compilou em uma brochura e distribuiu no ano de 2007.
Candomblecista em culto e estudo, conhecemos Alberto, conhecido por Júnior, no terreiro de Mãe Valkíria, onde, inclusive, colocamos aqui neste bloguinho intempestivo sua saída de santo no Candomblé. Além de candomblecista, ele cultua outras religiões e outras práticas religiosas, faz parte também de uma banda heavy metal, publica com outro parceiro um zine na zona Leste de Manaus e já tem publicada essa novela literária que ora publicamos aqui.
Composta de algumas histórias intercaladas por poemas, contadas em uma espécie de crônica autobiográfica, trabalhadas em sugestões e imagens em névoas que se atualizam como que à procura de uma autenticidade existencial. E é isso que se percebe na escrita de Alberto, que ele busca uma integridade na escritura como um jovem, entre tantas armadilhas existenciais e de estilo, entre loucos e falsos loucos de Manaus, busca uma afirmação autêntica para seus atos, sua trajetória. De qualquer modo, como nas cartas de Rilke, ao menos o exercício literário sirva para fazer uma existência melhor. A dele e a nossa. Se o artista consegue ou não, quem lê o dirá. De início, duas coisas convidam a adentrar nessa Conversa: uma, Alberto consegue escapar aos falsos loucos manoniquins, tanto na arte quanto na existência; outra, ele se distancia do comodismo existencial e da subserviência artística gástrica inútil dos que vão para os simulacros acadêmicos-academicistas.
Hoje, publicamos a imagem da capa, o sumário e o prólogo, e a cada dia publicaremos uma parte da novela.
Sumário
1. Prólogo
2. Orgasmo
3. A Escada
4. O Sorriso
5. Notívago
6. O Conhaque
7. O Anjo Caído
8. Vagido
9. A Kombi
10. A Laje
11. O Inferno
12. A Tesoura
13. Esperma de Tragédia
14. O Amor
15. A Vergonha
16. Soneto de Cauteria
17. A Madona
18. Prelúdio
19. O Reveillon
20. A Casa
21. O Casamento
22. Soneto de Autofagia
23. A Viagem
24. A Traição
25. A Doença
26. Escuridão
27. O Funeral
28. Canto Soturno
29. O Nascimento
Prólogo
Acordei ofegante, atormentado por um pesadelo que corroía minha alma. O agonizante frio rachava minha pele e estalava meus dentes. Minhas mãos, trêmulas. A penumbra das trevas mutava os móveis do quarto e a suave brisa apresentava-se como mau presságio.
Senti sua respiração a meu lado. Coberta por um lençol, em posição fetal, gemia cânticos que meus ouvidos captavam com tesão.
Puxei os panos, então ela cessou os agouros, vagarosamente sentou-se e encostou os lábios em meu rosto. Delicadamente lambeu-me e em seguida introduziu sua quente língua em minha boca, mostrando em um triste e sensual ósculo que não eram lágrimas que desciam de meus cílios.
Pediu-me água, então lhe dei a melhor água que ali havia. Pediu-me um cigarro, então acendi com satisfação um hilton, o melhor segundo havia me dito anteriormente. Pediu-me sangue e perguntei-lhe: Não te satisfez com aquele que agora há pouco levou de meu corpo? Respondeu-me: Quero aquele que sempre me oferece quando deseja minha presença desta forma para ti.
Desci da cama, inebriado pelo toque do demônio, tive dificuldades para sair do quarto. Ao pisar na cozinha, senti o enorme calor e a ferocidade com que a luz dilacerava minha pupila. Voltei à cama trazendo um vinho suave e sua taça, novamente a feminil e tétrica voz cessou seus cânticos de maldição.
Qual o motivo de tua presença? Indaguei-a.
Deu uma forte tragada no cigarro e baforou a nuvem de nicotina em meu rosto. Quero que me conte a história, tua e de tua esposa. Fitei por um instante seus olhos, que de escuros e frios pareciam tornar-se brilhantes e calorentos. Então repliquei: Ninguém melhor do que você para saber dessa história, não acha? Sem mexer os lúridos lábios, sem menção de fala, sua voz chegou a mim. Quero ouvir tuas palavras e guardá-las em minha essência. Acendi outro cigarro, tomei um gole do seu vinho e direcionei-me em seus olhos, penetrando em seu íntimo, ou apenas deixando que fosse levado consigo.
“Há duas maneiras do homem
Viver a vida:
I. Viver como se tudo
Fosse um milagre.
II. Viver como se milagres
Não existissem.”
…………………….- Noite.











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