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3° ENCONTRO DE CINEMA NEGRO BRASIL, ÁFRICA E AMÉRICAS

zumbi

Zumbi

Com as presenças do ministro Edson Santos, da Igualdade Racial, e o presidente da Fundação Palmares, Zulu Araujo, foi aberto ontem, dia 9, no Centro Cultural da Justiça Federal, no Rio de Janeiro, o 3º Encontro de Cinema Negro Brasil, África e Américas, que apresentará 48 obras distribuídas em várias salas do Rio, até o dia 18, e terá também atividades no cine Odeon-Petrobras, Centro Afro-Carioca de Cinema, em uma tenda armada na Lapa e no Espaço Tom Jobim.

O nosso quilombo cinematográfico, o nosso ponto de resistência”, afirmou o curador do Encontro, ator, roteirista e cinegrafista Zózimo Bubol, sobre o evento que exibirá longas de ficção, médias e curtas metragens. Sendo 29 brasileiras, 14 africanas, 5 caribenhas, 5 norte-americanas, 1 canadense e 1 colombiana.

Falando sobre o objetivo do Encontro junto à África, Zízimo Bulbol disse: “Nossa meta é promover o diálogo entre Brasil e África e mostrar que há muitas semelhanças entre as duas culturas, mesmo depois de tanto tempo de ruptura”. Ainda comentando sobre a produção cinematográfica da África, Bubol, observou: “A produção de filmes na África é enorme, só a Nigéria faz 300 filmes por ano. Nós estamos na faixa dos trinta e quando temos mais produções, como agora, é uma festa. O governo fez a lei para mais cinemas nas cidades brasileiras, mas quero ver as obras”.

O documentário Barracão – Um Olhar Carnavalesco, que levou um ano para sua produção, do diretor Walter Xavier, 41 anos, com formação profissional em edição de som e imagem na França, é a prova da relação estreita entre as culturas brasileiras e africanas. O documentário apresenta como personagem principal o carnavalesco Wagner Gonçalves e mostra o processo de construção do desfile de uma escola de samba, começando no barracão, chegando à avenida.

A escola é Acadêmicos de Cubango, de Niterói, que desfilou homenageando Mercedes Batista, a primeira bailarina negra do corpo de baile do Municipal, nos anos 40. É um documentário sobre uma escola de samba que vai fazer 50 anos mês que vem e que tem origem em uma comunidade negra de Niterói”, comentou Walter Xavier.

PROJETO CINEMA DA CIDADE

O ministro da Cultura, Juca Ferreira, realizou ontem, dia 4, na Câmara dos Deputados, o lançamento do Projeto Cinema da Cidade, produção do Ministério da Cultura (Minc) e da Agência Nacional do Cinema (Ancine). Na ocasião, Juca Ferreira afirmou que o Projeto tem como objetivo construir ou reabrir cinemas em cidades de pequeno e de médio porte. Cidades de 20 mil e 100 mil habitantes.

Para o ministro, o cinema se elitizou, pois se trancou nos shoppings. A maioria das salas de exibição cinematográfica encontra-se no interior destes estabelecimentos comerciais. Segundo ele, é preciso descentralizar as exibições e levá-las às pessoas de mais baixas rendas.

Em seu discurso na Câmara do Deputados, Juca ferreira foi enfático: “Cultura é a economia que mais cresce no mundo e o Brasil até hoje não conseguiu dar a devida importância”, disse.

Na execução do Projeto nos municípios, a Ancine passará os recursos para as prefeituras, mas para isso é preciso que as prefeituras apresentem à Ancine o projeto de construção e recuperação das salas de cinema. Contemplada, a prefeitura deverá, por edital público, selecionar a empresa exibidora para gestão do complexo.

Entre artistas que compareceram ao lançamento, como Chico César, Eduardo Araujo e Rosemary, o presidente da Câmara do Deputados, Michel Temer, discursou prometendo apoio ao acontecimento. Comprometido, disse: “Em matéria de cultura, contém com o Congresso Nacional e com a Comissão orçamentária”.

AOS FINADOS EM TODOS OS SANTOS

“Que os vivos enterrem seus mortos.”

Os vivos não podem enterrá-los,

pois como diz o poeta Epicuro:

Quando estamos vivos não existe a morte,

e quando estamos mortos não existe a vida.

Portanto, nenhum vivo pode

enterrar um morto.

MINC PROMOVE CURSO DE DESENHO ANIMADO

Hoje, dia 28, no momento da comemoração do Dia Internacional da Animação, em que 400 cidades do Brasil e mais 30 países festejam, o Ministério da Cultura lançou o projeto AnimaEdu de desenho animado, curso de ensino a distância, que permitirá os jovens disputarem vagas no mercado profissional da animação. Para realização do projeto, o Minc conta com as parcerias da Secretaria de Audiovisual, Infraero e a produtora OTTO Desenhos Animados.

Para participar do curso, que é totalmente ‘de grátis’, os interessados devem ter mais de 16 anos, saber algumas noções de desenho, ter computador ligado à internet e scanner.

O curso, que é composto por 18 módulos, dividido em 9 ou 16 aulas, com duração de uma hora duas vezes por semana e com acompanhamento de tutores, irá começar em novembro para ser concluído em janeiro de 2010. Cada aluno receberá um certificado de participação.

A primeira turma será aprovada em caráter experimental, mas há estudos para que depois o projeto atenda um público mais adverso. De acordo com os organizadores do projeto, os formandos poderão atuar na realização de curtas metragens para publicidade, material destinado à internet e a empresas da área de desenho animado.

Quanto ao material didático composto de textos, exercícios e manuais que serão usados durante o curso, o próprio site do AnimaEdu disponibilizará. Mas só será adquirido por quem estiver matriculado no curso.

Aquele que estiver interessado em participar do curso, já pode se matricular a partir de hoje. Para isso, basta acessar o site:

www.animaedu.com.br

Acessa, mano! Mostra teu talento! Como diz o filósofo francês Bérgson: “O desenho é a forma do movimento”.

APROVADO O VALE-CULTURA

A Câmara do Deputados, em meio a grande discussão, aprovou, ontem, dia 14, o projeto de lei do Poder Executivo que institui o vale-cultura para trabalhadores que recebem até cinco salários mínimos por mês. As empresas empregadoras que aderirem ao Programa Cultural do Trabalhador, pelo projeto, distribuirão ao trabalhador o benefício de R$ 50, que comprarão com a quantia serviços ou produtos culturais.

A partir da aprovação da criação do Vale-Cultura, os deputados passam para análise dos destaques que visam alterar o texto aprovado.

O Vale-Cultura confirma a necessidade que o trabalhador tem de vivenciar a estética artística como comprovação de sua gradual transcendência de ser, que sempre se projeta para graus mais sublimes da existência. Um princípio marxista que afirma que no momento em que o trabalhador satisfaz suas necessidades básicas através de sua força de produção, sobra para ele o tempo imprescindível para elevação de seu espírito sensitivo e cognitivo.

Como diria o teatrólogo marxista Brecht: É o trabalhador além da moral da barriga que prende o burguês. “Primeiro a barriga, depois a moral!”

CONVERSANDO COM A NOITE

Fogueira de Dona Mariana 22 por você.

Não somos críticos de literatura para observar aspectos mortos da linguagem cifrada e constituída em artimanhas estilísticas. O que nos interessa é a vida passando através das linhas e entrelinhas de um conto, um romance, um poema.

É nesse sentido que estaremos publicando a partir daqui uma novela (nouvelle) do jovem manauara Alberto de Alencar chamada Conversando com a noite, que ele compilou em uma brochura e distribuiu no ano de 2007.

Candomblecista em culto e estudo, conhecemos Alberto, conhecido por Júnior, no terreiro de Mãe Valkíria, onde, inclusive, colocamos aqui neste bloguinho intempestivo sua saída de santo no Candomblé. Além de candomblecista, ele cultua outras religiões e outras práticas religiosas, faz parte também de uma banda heavy metal, publica com outro parceiro um zine na zona Leste de Manaus e já tem publicada essa novela literária que ora publicamos aqui.

Composta de algumas histórias intercaladas por poemas, contadas em uma espécie de crônica autobiográfica, trabalhadas em sugestões e imagens em névoas que se atualizam como que à procura de uma autenticidade existencial. E é isso que se percebe na escrita de Alberto, que ele busca uma integridade na escritura como um jovem, entre tantas armadilhas existenciais e de estilo, entre loucos e falsos loucos de Manaus, busca uma afirmação autêntica para seus atos, sua trajetória. De qualquer modo, como nas cartas de Rilke, ao menos o exercício literário sirva para fazer uma existência melhor. A dele e a nossa. Se o artista consegue ou não, quem lê o dirá. De início, duas coisas convidam a adentrar nessa Conversa: uma, Alberto consegue escapar aos falsos loucos manoniquins, tanto na arte quanto na existência; outra, ele se distancia do comodismo existencial e da subserviência artística gástrica inútil dos que vão para os simulacros acadêmicos-academicistas.

Hoje, publicamos a imagem da capa, o sumário e o prólogo, e a cada dia publicaremos uma parte da novela.

Conversando com a noite

Sumário

1. Prólogo

2. Orgasmo

3. A Escada

4. O Sorriso

5. Notívago

6. O Conhaque

7. O Anjo Caído

8. Vagido

9. A Kombi

10. A Laje

11. O Inferno

12. A Tesoura

13. Esperma de Tragédia

14. O Amor

15. A Vergonha

16. Soneto de Cauteria

17. A Madona

18. Prelúdio

19. O Reveillon

20. A Casa

21. O Casamento

22. Soneto de Autofagia

23. A Viagem

24. A Traição

25. A Doença

26. Escuridão

27. O Funeral

28. Canto Soturno

29. O Nascimento

Prólogo

Acordei ofegante, atormentado por um pesadelo que corroía minha alma. O agonizante frio rachava minha pele e estalava meus dentes. Minhas mãos, trêmulas. A penumbra das trevas mutava os móveis do quarto e a suave brisa apresentava-se como mau presságio.

Senti sua respiração a meu lado. Coberta por um lençol, em posição fetal, gemia cânticos que meus ouvidos captavam com tesão.

Puxei os panos, então ela cessou os agouros, vagarosamente sentou-se e encostou os lábios em meu rosto. Delicadamente lambeu-me e em seguida introduziu sua quente língua em minha boca, mostrando em um triste e sensual ósculo que não eram lágrimas que desciam de meus cílios.

Pediu-me água, então lhe dei a melhor água que ali havia. Pediu-me um cigarro, então acendi com satisfação um hilton, o melhor segundo havia me dito anteriormente. Pediu-me sangue e perguntei-lhe: Não te satisfez com aquele que agora há pouco levou de meu corpo? Respondeu-me: Quero aquele que sempre me oferece quando deseja minha presença desta forma para ti.

Desci da cama, inebriado pelo toque do demônio, tive dificuldades para sair do quarto. Ao pisar na cozinha, senti o enorme calor e a ferocidade com que a luz dilacerava minha pupila. Voltei à cama trazendo um vinho suave e sua taça, novamente a feminil e tétrica voz cessou seus cânticos de maldição.

Qual o motivo de tua presença? Indaguei-a.

Deu uma forte tragada no cigarro e baforou a nuvem de nicotina em meu rosto. Quero que me conte a história, tua e de tua esposa. Fitei por um instante seus olhos, que de escuros e frios pareciam tornar-se brilhantes e calorentos. Então repliquei: Ninguém melhor do que você para saber dessa história, não acha? Sem mexer os lúridos lábios, sem menção de fala, sua voz chegou a mim. Quero ouvir tuas palavras e guardá-las em minha essência. Acendi outro cigarro, tomei um gole do seu vinho e direcionei-me em seus olhos, penetrando em seu íntimo, ou apenas deixando que fosse levado consigo.

Há duas maneiras do homem

Viver a vida:

I. Viver como se tudo

Fosse um milagre.

II. Viver como se milagres

Não existissem.”

…………………….- Noite.

APÓS CIRURGIA NIEMEYER SE RECUPERA BEM

Após se submeter a uma cirurgia para retirada da vesícula através de laparoscopia, o arquiteto, construtor de Brasília, juntamente com seu amigo Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, no auge de seus bem vividos 101 anos, segundo o boletim médico, passa bem.

A cirurgia acabou às 14:30h, foi bem sucedida e transcorreu sem complicações. O arquiteto está lúcido e deve permanecer em observação por 48 horas no CTI do hospital”, informou o boletim médico, que também notificou que não há tempo previsto para a alta de Niemeyer.

Niemeyer, que lançou a pouco tempo o livro “Niemeyer 1999-2009”, uma síntese dos dez últimos anos de sua obra, e mais o quarto volume da revista trimestral “Nosso Caminho”, que edita junto com sua mulher, Vera Lúcia, deve, ainda este ano, concluir dois grandes projetos: uma torre de 60 metros em Niterói e o prédio que em Argel abrigará uma Biblioteca Árabe Sul-Americana.

Espera-se que Niemeyer se recupere logo, para que em dezembro, no dia de seu aniversário, possa comemorar, com muita felicidade, alegria e desejo seus 102 anos de imbatível comunista do Velho PCBão.

FESTIVAL DE CINEMA DE VENEZA E OS GANHADORES

Lebanon”, de Samuel Maoz, diretor de cinema israelense, foi o vencedor do Leão de Ouro do Festival de Cinema de Veneza como o melhor filme da versão 66ª que teve seu final ontem.

Um filme autobiográfico, conta a experiência de Maoz na primeira guerra no Líbano em 1982, onde a maioria dos planos mostra o movimento de um tanque de guerra israelense onde quatro rapazes observam de seu interior o massacre que impõem as pessoas cumprindo ordens que lhes são passadas. Pelo visor do tanque, os rapazes israelenses, observam estas pessoas desesperadas, outras com expressões de ódio, entre corpos destroçados.

Ao receber o prêmio, Samuel Maoz, lembrando do acontecimento bélico, afirmou: “Dedico este prêmio a milhares de pessoas através do mundo que, como eu, saíram da guerra sãos e salvas, mas, no fundo, tiveram que aprender a viver com essa dor”. Confirmando o que o diretor israelense Maoz disse, o jornal italiano La Republica analisou: “Sem qualquer heroísmo, a vida em combate é mostrada como nunca antes.”

Já como melhor ator do Festival, foi escolhido o ator britânico Colin Firth por sua interpretação no filme “A Single Man”, do diretor Tom Ford, estilista americano, que compõe as características do professor universitário, George Falconer, em idade avançada, cujo companheiro morreu em acidente de carro, o que lhe faz perder o interesse em viver. O filme que passa em 1962, período da tensão entre os Estados Unidos e Cuba, mostra a rejeição contra a homossexualidade.

Como melhor atriz foi escolhida a russa Kseniya Rappoport que ganhou a Copas Volpi como resultado de sua interpretação em “La Doppia Ora”, do diretor Giuseppe Capotondi, no papel de uma jovem imigrante.

É como se eu fosse uma pára-raios que recebeu um relâmpago”, disse Rappoport, ao receber o prêmio.

DE UMA GRAFITAGEM ENGAJADA

Encontrada aqui.

BELCHIOR: “EU SOU APENAS UM RAPAZ LATINO AMERICANO”

REVELADA A FRAUDE DA GLOBO

REVELADA A FRAUDE DA GLOBO

Configurou-se o que já se sabia. O “Fantástico”, confirmando sua decadência, falsificou uma reportagem alucinada/delirante. Propagou que o cantor, compositor e artista/ativista Belchior havia desaparecido magicamente, nisso implicando sua família, amigos e profissionais ligados a ele. Um ato de violento despudor para com uma pessoa e um público.

Como a Globo não trabalha, e nem acredita no princípio de realidade, tentou fraudar seu telespectador, jogando-o para os devaneios de outro mundo. O seu mundo lesivo. Onde ele deveria procurar o artista/ativista. Fora do princípio de realidade. Mas Belchior estava real no princípio de realidade. Território onde os sentidos e razão constroem seus significantes e significados. A objetividade. Por isso ninguém levou em conta a trama da Globo, que agora mostra como se tivesse realmente acontecido. Todos curtiram de montão a babaquice da vetusta Vênus Platinada. Hoje enferrujada, mas sem nenhum perigo de tétano coletivo, já que a população se encontra vacinada.

Nós procuramos você no Brasil e não te encontramos”, disse a ridícula repórter, em sua cena de canastrice comandada pela Globo. “Evidentemente eu estava aqui. Estou fazendo um trabalho, muito, muito especial aqui. Você sabe que eu tenho uma ligação muito grande com a América Latina, ‘eu sou apenas um rapaz latino americano’”, respondeu, zombeteiro, Belchior, em sua casa no Uruguai. A repórter ridícula continuou em seu papel de bem mandada, tentando fazer com que Belchior comentasse sobre o que estavam falando sobre ele no Brasil. Entendedor das malícias e das trapaças dos bem mandados, o arigó sentenciou: “Eu não tenho menor interesse na vida privada de nenhuma pessoa, sabe?” A triste repórter não sabia. Continuou em sua trama vergonhosa de profissional falsária. Belchior não contribuiu.

Mas a Globo não é videotarizante sozinha. Ela tem seus parceiros. Para ilustrar sua patética alucinação/delirante convidou Daniela Mercuri e Alceu Valença, que contribuíram com o que puderam fazer por si mesmos, posto que a natureza não lhes presenteou com a inteligência. Contribuições que só serviram de pilhéria para todos que sabiam da trama da Globo.

Todavia, a Globo não foi de toda inútil como sempre é. Com sua ambição por audiência, conseguiu ter certeza que sua decadência é real. E isso não tem nada com as programações das outras TV’s, que seguem o mesmo modelo de programação alienadora. Tem a ver com o comportamento da população, principalmente internáutica, que fez humor com sua ambição. Demonstrando assim que ela não tem mais poderes de fabricar verdades para o telespectador.

O telespectador sabia que ela desde o começo conhecia o paradeiro de Belchior. Mas só não sabia de seu verdadeiro paradeiro como emissora de inutilidade pública.

BELCHIOR ANDA ENQUANTO A GLOBO SONHA

belchior

Meu delírio é experiência com coisas reais”, canta o cearense Belchior. O mais contundente interprete dos versos de Pessoa e Brecht, emergido na década de 70. O rapaz latino americano que saltou do fundo do prato da comida e da tristeza, na hora do almoço por si descobrir tão moço e passou a cuidar da vida antes que chegasse a morte ou coisa parecida. Caminhou léguas tiranas, e não se curvou a força da lei nas eqüinas por onde passava, em direção aos cabarés da Lapa onde morou. Onde aprendeu que um homem é para mulher o coração para gente dá.

Este Belchior que fala dos senhores que sentam à mesa e decidem por nós negociações, estúpidos idiotas da política, que sabe que é caminhando que se faz o caminho, que quer a vida sua namorada para brincar de amor a noite inteira. Este Belchior, cujo coração selvagem sente pressa de viver, que pretende transformação, pois não dar para ser como nossos pais, A Globo, a mais perniciosa produtora de efeitos comunicacionais resolveu lucrar em audiência em cima deste artista que sempre entendeu quais são os inimigos do Brasil que o querem como artigo de terceira que jamais será passado.

Despudoradamente, como é de sua espectral ambição capitalista, ela, levou ao ar uma insinuação de que Belchior desapareceu. Um propósito, em uma sociedade ‘paranodizada’ que seu sumiço é obra tanática da violência urbana. Uma forma sórdida de estabelecer constrangimento na família do cearense e naqueles que o têm estima.  Um lance mercadológico repugnante, próprio de quem, o respeito para os outros, não tem importância algum quando se pensa em lucrar mantendo uma audiência perversa.

Uma comprovação simples para o cidadão brasileiro de que esta Rede de Comunicação Globo, não tem critério alguém quando trata do tema dignidade humana. Como se não bastasse as intrigas que perpetra cotidianamente contra o governo federal em aliança com a direita parlamentar, agora resolveu aplicar um golpe de reportagem histérica colocando em primeiro plano um cidadão-artista que se comporta e pensa diferentemente  de seus objetivos capitalistas. Um artista que sabe muito por onde andava, enquanto ela sonhava. Um artista que se desesperava, enquanto ela colaborava com a ditadura.

Um cidadão que só quer que esse tipo saia de seu caminho, quer decidir a sua vida, e que sabe juntamente com John Lennon, que o tempo andou mexendo com a gente,sim.

ZIRALDO NA TV BRASIL COM PROGRAMA PARA CRIANÇA

Iniciando a sua nova grade de programação televisiva, a TV Brasil apresentará todos os domingos, a partir da 12h, com duração de 45 minutos, o programa, direcionado exclusivamente para crianças, “ABZ do Ziraldo”, apresentado pelo próprio artista.

Segundo o próprio apresentador, o objetivo maior é auxiliar as crianças a tomarem gosto pela leitura. Por isso, o tema em primeiro plano será a leitura, mas tendo lugar também para temas variados como cidadania e meio ambiente, todos que auxiliem as crianças no universo da leitura.

De acordo com Ziraldo, o programa contará todo domingo com a presença de um escritor que será entrevistado falando sobre sua obra e a importância da literatura para criança. Isto porque, para Ziraldo, “é preciso consciência de que não dá para deixar seu filho chegar ao computador sem passar antes pela leitura”.

Comentando sobre o programa “ABZ do Ziraldo”, e os objetivos da TV Pública, a presidente da TV Brasil, jornalista Tereza Cruvinel, disse: “É o primeiro lançamento de uma série de programas novos que darão uma renovação importantíssima na nossa grade de programação.”

Observando a triste realidade da programação da TV Comercial, ou TV Aberta (e também fechada), em que as Xuxas, as Elianes, Angélicas, Maísas e Cia são verdadeiras câmaras de assalto às mentes das crianças, cujo único propósito é roubar suas infâncias para, atrofiando-as, transformá-las em bons garfos futuros para manterem a alienação psicodélica da sociedade de consumo, o programa de Ziraldo, embora chegando um pouco atrasado – mas chegou, ainda bem -, dado a necessidade urgente que se sente no Brasil deste tipo de programa “criançante”, vem pedagogicamente contribuir para que a criança possa ter uma singela opção para seu olhar, escutar e pensar. Aí o valor do atrasado, mas não faltado.

TEATRO USADO COMO PEDAGOGIA SOCIAL PELO MST

O teatro não é só uma arte. O teatro, por essencialidade ontológica, é a fundamentação da existência humana. O atuar político do homem como sujeito produtor de sua história, como arte, traduz o jogo do existir como representação para ser observado, analisado e transformado. Daí que, como arte-política, carrega enunciações visuais e conceituais como corpus de entretenimentos-afetivos e corpus-cognitivos.

É entendendo estes significados do teatro que o pré-assentado do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Agostinho Reis, desenvolve cursos de teatro e encenações de peças nos acampamentos dos movimentos, em Brasília, acreditando que esta arte e atuar social, pode auxiliar os membros desta organização social a ver, analisar e entender suas condições na sociedade brasileira, e, então, procurar produzir novas formas de relações sociais que libertem as famílias das forças opressivas.

Conhecedor do Método do Teatro do Oprimido, de Augusto Boal, Agostinho, que começou a estudar teatro na Pastoral da Juventude da Igreja Católica, faz dessa pedagogia a forma de conduzir os temas que tocam diretamente as existências dos membros do MST, depois de seu “amor à primeira vista”, quando visitou pela primeira vez um acampamento.

Embora as encenações sejam direcionadas ao público interno dos assentamentos, onde são eles mesmos que pautam os temas, todavia, as apresentações não se reduzem apenas ao interior destes acampamentos. São apresentadas também nas ruas das cidades.

Para Agostinho, um dos temas mais apresentados é o que diz da discriminação que se faz do movimento. Inclusive taxando-o de terrorista. Além da leitura e interpretação cênica da Constituição Brasileira, mostrando os direitos dos cidadãos, como também, às vezes que o Estado, quando erra, não é punido.

No momento encenam a peça “A Crise não é nossa”, cuja personagem principal é a Voz Coletiva.

É o teatro, como diz, Brecht, realizando sua ação política para transformação da sociedade dominada pelos pruridos burgueses.

FERNANDO PESSOA: O GUARDADOR DE PAPÉIS

pessoaguardadordepapeisMultipliquei-me para me sentir,

para me sentir, precisei sentir tudo.”

É o que diz Fernando Pessoa, poeta polipartido, uma multiplicidade, um devir-poetizante. E é assim que a editora portuguesa Texto Editores lança este Fernando Pessoa: O Guardador de Papéis, volume foi organizado pelo colombiano Jerónimo Pizarro, contendo 8 conferências do ciclo de conferências homólogo sobre diversos aspectos da obra do poeta português.

A parte do que teve maior repercussão é o final, que traz uma “edição crítica do texto ‘Associações Secretas’, com notas e observações de José Barreto e alguns textos inéditos de Pessoa, que estão na posse da família, editados por Jerónimo Pizarro”.

As informações são do excelente blog Um Fernando Pessoa, onde você pode encontrar mais informações sobre esse livro e sobre a obra pessoana.

CARIMBÓ “RAIO DE SOL” É DE QUATIPURU (PARÁ-BRASIL)

Raio de Sol

Em janeiro passado, quando este bloguinho compareceu ao Fórum Social Mundial, em Belém do Pará, além dos eventos políticos sociais, o evento foi marcado de forma singular, conforme relato de participantes de todas as edições do Fórum, pela animação de diversos grupos musicais e folclóricos, o que até deixou sisudos alguns sérios revolucionários, como um repórter de uma das mais importantes entidades da mídia alternativa, que ao encontrar algum rapaz ou garota muito festiva, fazia a pergunta: “Você veio pra festa ou pra política?” Como se defender as raízes culturais de uma localidade não participasse da luta global contra o capitalismo de mercado.

Para nós, amazomanoniquins, não bem acostumados à Zona Franca, que importa tudo conforme o ditame da indústria cultural: o rock (sem pedra) de Skank, o axé (des)music de Ivete Sangalo, a senilidade dolorosa de Fábio Júnior, o pagode desvitalizado de Zeca Pacotinho, as emoções recortadas de Zezé de Camargo, Roberto, Claudinha, Jota Quest, Chitãozinho, Dudu Nobre… No caso manoniquim, ainda contribuímos com o boi cocanestlelizado, fabricado pra turista otário assistir como cultura amazônica. São apenas exemplos, a lista da nulidade artística-musical brasileirinha é extensa.

Para nós foi gratificante ver uma cidade (Belém) onde você encontra por todos os cantos — bares, casas, táxis — boa música aliada à musicalidade de raiz paraense. Mesmo o que é ditado pela indústria cultural ao Amazonas e outros estados como sendo paraense, toca em Manaus, mas nem sinal em Belém.

28-01 por você.

Foi numa dessas andanças poéticas-políticas que nos encontramos com o grupo de carimbó Raio de Sol e a Marujada Quatipuru. Quando vimos pela primeira vez aquele velho com uma rapaziada e uma marujada em um palco do FSM 2009, foi um encontro maravilhoso para os olhos e o coração. Era o Carimbó Raio de Sol e a Marujada Quatipuru.

Pessoas de diversas vertentes na luta por justiça social e que assistiam à apresentação, sacando a importância de afirmação, não apenas identitária, do Carimbó como Patrimônio Cultural Brasileiro ante o avassalamento cultural que a indústria cultural globalizada tenta impor, expressaram esse entendimento com seu corpo, caindo na folia do legítimo Carimbó paraense.

28-03 por você.

Um pouco depois, quando procurávamos um restaurante para almoçar, topamos novamente o Raio de Sol, dessa vez embaixo de uma mangueira. Encostamos e conversamos, conforme publicado à época neste bloguinho, com o velho que víramos no palco. Chama-se Mestre Come-Barro:

Neste nosso grupo, a gente toca tudo, a gente faz xote, a gente faz valsa, madruga, a gente toca marujada, ladainha… Eu mesmo, de trabalho, tenho 41 anos, mas o grupo está com oito anos. Eu brinco desde a idade de nove anos. Eu aprendi com os negros antigos lá da minha cidade, Quatipuru, daqui mesmo do Pará. Os meninos aqui já são da nova geração, porque os antigos foram se acabando, destes só tá eu de resto, aí já estou pegando mais jovens para aumentar o grupo, que é para não morrer. O rapaz que toca clarinete é um jovem de 16 anos, tem o vocalista, e o que mais nós apresentamos é o carimbó e a marujada. Mas retumbão, chorado, tudo isso a gente apresenta. Principalmente no festival de Quatipuru, que é em dezembro. Na cantoria de Reis o nosso grupo também sabe, também se apresenta.”

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Para nós, que conhecíamos apenas o carimbó modernizado de Pinduca e, por um acaso, Mestre Verequete, além de encontrar outros realizadores dessa fundamental manifestação popular do criativo povo paraense, foi maravilhoso ver o talento e vitalidade do Mestre e da rapaziada, fundamental para o movimento contínuo do autêntico carimbó, assim como maravilhoso foi ver a alegria das senhoras, moças e rapazes da Marujada Quatipuru em toda a sua simplicidade e alegria de dançar.

28-13 por você.

Para compartilhar com outras pessoas o carimbó do Raio de Sol, pegamos com ele um CD do grupo e pedimos a permissão de Mestre Come-Barro para disponibilizá-lo na rede. Portanto, puxe sua teia, baixando no link abaixo e caia na folia do autêntico carimbó paraense. Afinal, em tempos de sociedade de controle, não há política maior que deixar passar a Inteligência Coletiva e liberar o corpo e a alma para movimentos-ritmos naturais e livres, intensivos e desconcertantes, inimagináveis. Ah! Belém! Quatipuru! Santarém! Oh!, meu Pará, “cuando yo te vuelva a ver”

Baixe aqui: Carimbó “Raio de Sol”

28-11 por você.

28-12 por você.

PARA AUGUSTO BOAL, CRIADOR DO TEATRO DO OPRIMIDO, A MORTE NÃO EXISTE

“Todo teatro é necessariamente político, porque políticas são todas as atividades do homem, e o teatro é uma delas.”

augusto-boal

É assim que se inicia o Teatro do Oprimido, e é assim que culminou ontem a trajetória existencial de Augusto Boal.

A sua atuação teatral, diz-se, chega a mais de 70 países, número que tende a aumentar com sua morte, uma vez que ele afigura-se entre os maiores dramaturgos citados na dramaturgia mundial: “Augusto Boal reinventou o Teatro Político e é uma figura internacional tão importante quanto Brecht ou Stanislawsky”, noticiou o jornal inglês The Guardian.

O teatro realista burguês de Stanislawsky ele conheceu quando foi estudar doutorado em química na universidade de Columbia, participando do curso de dramaturgia, tendo aulas com John Gassner, que deu aulas a Tennessee Williams e Arthur Miller.

Mas foi a partir do teatro épico de Bertolt Brecht, no Brasil, na parceria com José Renato no Teatro de Arena, que o levou a desenvolver um teatro dialético, distanciando-se completamente de todo o ranço aristotélico do teatro realista, e aproximando-se do teatro épico de Bertolt Brecht.

O que Boal observa é, da Grécia antiga até a atualidade houve nuitas degradações e que essas degradações são confirmadas (oficializadas) a partir das principais manifestações sociais, entre elas, o teatro, dada a sua proximidade com a platéia. Por isso, tenta, a partir de uma nova poética, modificar as relações entre os homens, colocando platéia ante platéia, e os atores no meio apenas como aqueles que vão ligar o homem ao homem; mas, por isso, com uma possibilidade de análise a partir da razão, levando em conta as observações exteriores das formações históricas econômicas e sociais, conforme o pensamento marxista, distanciando-se definitivamente do teatro burguês e da teoria hegeliana, ou seja, “da vontade interior e dos caracteres dos personagens”.

Nesse momento, o teatro trabalhado por Boal e pelo Arena rompe de vez com o “sistema coercitivo” de Aristóteles e a empatia entre personagens e espectadores, garantindo sempre a “delegação de poderes por parte destes que se transforma em objetos daqueles”. O que não quer dizer, no entanto, assim como em Brecht, falta de emoção: “Como não vai o espectador emocionar-se com a MÃE CORAGEM, que perde os seus filhos, um a um, na guerra? É inevitável que nos emocionemos até as lágrimas”, diz Boal.

Toda a questão do Arena está não em diminuir a emoção, mas perceber racionalmente a que ponto esta emoção auxilia na manutenção do status quo ou desequilibrar a sociedade, quando a própria essência da sociedade, o povo, passa a participar efetivamente da cena.

Nesse momento, surge o que ficou conhecido como “Sistema Coringa”, que compreende o conhecimento do corpo pelo ator, exercícios e técnicas para tornar o corpo expressivo e utilizá-lo como linguagem e como discurso. Esses estudos culminaram com o “Teatro Invisível”, que “deve explodir em um determinado local de grande influência de pessoas. Todas as pessoas próximas devem ser envolvidas pela explosão, e os efeitos desta muitas vezes perduram até depois de muito tempo terminada a cena”. O Arena realizou esse teatro em restaurantes, trens, praças e muitos outros espaços, que podem ser verificados resumidamente no livro Teatro do Oprimido.

É quando o “espectador” deixa de existir e o teatro, e já “não delega poderes aos personagens nem para que pensem nem para que atuem em seu lugar”. Teatro-Ação.

BOAL ANTES E DEPOIS DA DITADURA

Tudo isso vinha sendo desenvolvido por Boal no final da década de 60. Não deu outra, depois de se exilar na Europa, enquanto desenvolvia trabalhos em vários países da América do Sul, onde sempre tocava nas questões que diziam respeito ás torturas no Brasil. Aí é que não deu outra: ao voltar ao país em 1971 foi preso e torturado. Segundo o anedotário político-teatral brasileiro, estando Boal no pau-de-arara, o torturador o interrogava se havia tortura no Brasil, e ele respondia, claro, que não existia; mas, em momentos em que a dor não era tão forte, não conseguia segurar e não conseguia parar de rir da ironia de ser torturado para afirmar que não existia tortura no Brasil.

E a ditadura não conseguiu diminuir a ação de Boal. Antes ele já vinha fazendo trabalhos em parceria com diversas pessoas, como Gianfrancesco Guarnieri, Oduvaldo Vianna Filho, Milton Gonçalves, Vera Gertel, Flávio Migliaccio, Floramy Pinheiro, Riva Nimitz, dentre outros, com apresentação de peças politicamente engajadas, como Chapetuba Futebol Clube, Gente Como a Gente, Eles Não Usam Black Tie, Revolução na América do Sul e O Testamento do Cangaceiro, que culminou com espetáculos como Arena Conta Zumbi, já apresentados neste bloguinho, que, segundo Boal, “destruiu convenções, destruiu todas que pode”, e que foi seguida de várias outras, como Arena Conta Tiradentes.

Em toda sua trajetória existencial, de 16 de março de 1931 a 2 de maio de 2009, Augusto Boal desempenhou inúmeras atividades, entre elas, a mais conhecida é o teatro, na qual ele estabeleceu toda sua capacidade de perceber e tocar o outro com seus gestos, dizeres e afetos, como forma de agir e transformar o Outro:

Em toda a minha atividade, em tantos e tão diferentes países da América Latina, pude observar essa verdade: os públicos populares estão sobretudo interessados em experimentar, ensaiar, e se chateiam com a apresentação de espetáculos fechados. Nestes casos, tentam dialogar com os atores em ação, interromper a história, pedir explicações sem esperar “educadamente” que o espetáculo termine. Ao contrário da educação burguesa, a educação popular ajuda e estimula o espectador a faze perguntas, a dialogar, a participar.”

Portanto, a morte não existe para Augusto Boal. Enquanto houver a necessidade de realizar esse trabalho de realizar uma arte que não seja realista e chegue aos outros homens como forma de transformação das realidades artísticas-sociais, ele estará presente. E isso é um processual contínuo ininterrupto, assim como a vida, assim como Boal.

18 FESTIVAL DE TEATRO DE CURITIBA, APESAR DO GLAMOUR, VAI À RUA

Com uma programação variada de encenações que vai do dia 18 até o dia 29 deste mês, o Décimo Oitavo Festival de Teatro de Curitiba começou mostrando algumas contradições. Primeiramente, a conhecida manifestação de teatro relacionado diretamente ao fator econômico, dificuldades para produções. Segundamente, o desconforto sentido por seus organizadores pela diminuição da verba destinada ao evento que ano passado fora de R$ 2,8 milhões, e, agora, 2009, baixou para R$ 2,4. Pouco diferença, mas para quem tem produção artística como exclusivamente financeira, a “arte” que deve seguir às leis do mercado, foi grande a perda.

Entretanto, lamentações de lado, o fundamental é que o Festival está “insistindo”, acontecendo para alegria dionisíaca dos artistas e do público que vê uma Curitiba festeira como pede Sátiro.

Se por um lado há encenações que em função das atitudes existenciais de alguns personagens, fora do teatro, como Jô, José Wilker, etc, agentes da maior fábrica de alienação midiática que é a Globo, que não tem nenhuma semelhança com o Festival de Teatro em seu eidos dionisíaco, por outro lado há encenações de grupos e companhias saltimbancos, mambembes, Commédia Dell´Arte, com espetáculos que carregam o espírito dionisíaco como disjunções dos pontos molares dos espetáculos comerciais na orientação de um Jô.

São estes grupos e companhias que estão dando ao Festival o seu movimento de arte transfiguradora. Encenações realizadas nas ruas, estão possibilitando entrelaçamentos lúdicos entre os atores e o público como composição de novos campos de enunciações afetivas e cognitivas. Multiplicidades de idéias como coexistências de novas palavras e novos movimentos. Tudo que o teatro de mercado não carrega. O teatro glamour, prolongamento da semiótica/teratológica da programação televisiva. O mesmo ponto molar, modelo da imobilidade alienadora que carregava Jô com seu “humor” burguês malsão, “Viva o Gordo, Abaixo o Regime”. Em plena ditadura. Enquanto muitos eram presos, torturados e assassinados, este mesmo gordo que se encontra hoje em Curitiba se dava bem com suas “gracinhas” que ainda embalam os pútridos bocejos da classe média e da elite carcomida.

Dizem que o Festival encontra-se sem força. Não tem mais o ímpeto político que apresentava nos primórdios de sua história. É uma pura inverdade. Enquanto o teatro estiver nas ruas, aí se encontra sua potência política. E o teatro encontra-se junto ao Povo de Curitiba. Sem força, ou anêmico, encontra-se aquele que nunca teve ânimo: o teatro, no Brasil, imitação da Broadway, os corrompidos pelos signos da televisão, os rígidos afásicos.

Enquanto o teatro estiver nas ruas haverá o espírito político, o devir democrático. O Canto do Bode, o Tragos, a potência do trágico: o Riso e o Siso. A potência da turbulência poiética.

SE HOUVESSE TEATRO DE RUA NA RUA…

A rua, ou a ágora (a praça, para os gregófilos), é o espaço da aparência, afirma a filósofa Hannah Arendt. Território onde os homens se relacionam carregados por seus temas cotidianos múltiplos. Via pública das apresentações de opiniões e alternâncias dialéticas. Tudo que se refere à proteção e ao crescimento da polis, a cidade-democrática. Palco onde a encenação ontológica do homem, como teatralidade de sua liberdade em situação-engajada, faz dele sujeito histórico por si mesmo, como diz o filósofo Sartre. Local onde o ator observa o povo e encontra os ‘gestus’ de sua arte transformadora, diz o teatrólogo Brecht.

Esta a teatralidade do homem que se confunde com a arte teatral como reflexo analítico de sua condição existencial. Teatralidade que não separa o público do privado, já que a semiótica com seus signos-valores enunciam-se em movimentos difusos, envolvendo todos na mesma cartografia de saberes e dizeres que constituem a chamada realidade. Foi assim na Grécia antiga com a teatralidade tecida pelas forças dos deuses, heróis e mortais, construindo sempre a catarse social, que embora preenchida de elementos míticos, falavam simplesmente da existência humana. Foi assim na Idade Média com a teatralidade cristã com sua dogmática ‘orientadora’, mas que não impediu o desejo se fazer especulativo e preparar o acontecimento Iluminista. Foi assim na modernidade com o engendramento do capitalismo, a queda da nobreza e a ascensão da burguesia industrial e o capital financeiro. Foi assim, e é assim, a teatralidade que se confunde com a arte dionisíaca, pois conta sempre com os negócios de todos os homens que vão além dos “negócios do senhor Júlio César”, como escreve Brecht.

POBRE DO POVO QUE NÃO TEM TEATRO, MAS POBRE AINDA

É O POVO QUE PRECISA TER TEATRO PARA SER POVO

O teatro, como arte, não é nada mais do que a existência do homem posta em um plano duplicado: o homem se observando como produto social de si mesmo. O homem sujeito-examinador de sua obra. Livre das enunciações e designações mistificadas. Aí a necessidade do teatro como instância educativa capaz de tornar o público sujeito-ativo de sua própria história. Observando, examinando e em seguida transformando as contradições que encontrou em sua análise sobre o objeto que lhe foi dado a agir, ele passa, então, a produzir seu próprio texto, a teatralidade-ética de seu Bem Coletivo.

Eis tudo que os governos tiranos não pretendem para que o povo não tenha de si um entendimento de sua condição social em sua terra. E assim, seja fator fácil de aprisionamento pelos perversos interesses destes tiranos. Já que povo que não reflete sobre si mesmo, não conhece seus inimigos e muito menos sua potência criadora capaz de tecer sua própria cartografia de desejos constitutivos de uma história livre.

É desta forma que o povo se isola em si mesmo, sem suspeitar que a dor que sente em sua solidão doméstica (sua casa) passeia pelas ruas produzidas pelos governos que lhe querem como vítima. Isolado, o povo, quando caminha pelas ruas, não vê o texto que lhe escreveram para interpretar sempre como mero coadjuvante, cujo final é sempre previsível: sua dor, desespero, sua desilusão com o existir. Daí sua fuga para o misticismo alucinante.

Manaus tem ruas, mas não tem teatro. As ruas de Manaus são vias de devaneios da classe média que contracena com alguns ditos artistas, apêndices dos governos vampirizantes. Manaus é uma terra que não é fácil para a democracia: não tem teatro. E a democracia só se faz com teatro. Como também a filosofia que pensa a democracia. Que digam os gregos. O simulacro de teatro em Manaus são algumas peças alienadas para embalar bocejos do indiferentes.

É isto que os inimigos da democracia querem. Enquanto não houver teatro na rua, não haverá povo-politizado. E povo não politizado é um “bem” para os tiranos.

TEATRO UNIVERSITÁRIO NOS ANOS 100 ‘UFAMNISMO’

Teatro Cabocão 2 por você.

Uma Universidade é um corpus sistemático de ensino cujo objetivo social é difundir e preservar os saberes que constituem a imagem do pensamento do estado. Para tal, ela põe em atuação agentes, métodos, normas e crenças.

Como uma instituição social, para alguns; aparelho ideológico, ela carrega um organismo dividido em três partes pragmáticas:

Primeira Parte — A parte administrativa-jurídica, composta pela Reitoria, com suas sub-instâncias responsáveis pelo funcionamento técnico da administração, cujos métodos e estratégias são utilizados para fazer vigorar o pensamento do estado por meio dos conteúdos programáticos. Enunciação disciplinar.

Segunda Parte — A parte docente, com seus departamentos-administrativos, responsável pela aplicação, junto aos discentes, dos saberes instituídos como conteúdos programáticos disciplinares. Em relação à imagem do pensamento do estado, é a parte mais comprometida da instituição, já que para realização necessita tanto da crença do corpo docente como do corpo discente quanto às disciplinas. Pois, sabe-se que sua função pragmática visa unicamente disciplinar as mentes através dos saberes postos como verdades necessárias à preservação da sócio-cultura.

Terceira Parte — A parte discente, em quem a imagem do pensamento do estado procura ser refletida como verdades materializadas através dos conteúdos programáticos via atuação do corpo docente confirmadas no momento da diplomação.

SABER FORA DA CELEBRAÇÃO

Os saberes são corpos-signos instituídos como formas a serem tidas como verdadeiras. Se são necessários à preservação sócio-cultural, entretanto, não mais liberam potências criadoras em razão de se encontrarem tematizados como instrumentos à serviço da objetividade. Seus significados fazem parte da ordem dos clichês cotidianos. Servem para garantir o salário profissional, mas não servem para as transformações contínuas que a sociedade historicamente necessita.

Teatro Cabocão 1 por você.

Foi exatamente com o entendimento de que uma Universidade não deve ser apenas a transmissora inquestionável dos saberes imagem do pensamento do estado, onde os conceitos se encontram esvaziados de potências criadoras, que um grupo de estudantes criou em outubro de 1973 o GRUTA – Grupo Universitário de Teatro do Amazonas*. Uma potência/criativa/coletiva, tendo como principal fonte de produção os enunciados teatrosóficos políticos do alemão Brecht, que insistiu até os meados dos anos 80.

Com suas produções cênicas em cumplicidade com autores variados como Sófocles, Brecht, Gheon, Domingos Pelegrini, entre outros, o GRUTA, a revelia da inércia da Universidade, conseguiu estabelecer junto ao público uma textualidade social capaz de enredar a arte teatral em sua vida cotidiana como instrumento pedagógico de análise de sua condição no mundo. Mesmo sendo em tempos de ditadura. Um engajamento estético como Teatro de Encontro ao Povo. Um teatro que muito antes de Milton Nascimento, ia onde o povo estava nos passos e descompassos do Rui Brito, Marcos José, Marco Aurélio, Aparício Moraes, Dinair, Eurico Tadeu, Dinho, Socorrinho, Luis Marreiro, Ricardo Parente, Deise, Greco, Nonato Pereira, Humsilka, Luiza, Badejo, David Guarda-Belo, Silvio-Fuinha… Um grupo que se honrasse o tempo/cronos, com suas celebrações-pulsações, poderia afirmar que foi o único vetor da Universidade que levou seu nome junto ao povo como estética constituinte de novos desejos coletivos. Mas o GRUTA era intempestivo. Seus membros não eram simples alunos — sem luz —, simples crentes dos credos saídos das vozes de comando dos professores. Eram estudantes que acreditavam junto a Nietzsche, que de sua GRUTA poderia sair a potência da terra. 100 UFAMnismo, é claro.

_____________________________

* A linha de atuação do GRUTA se encontra relatada no livro A Flecha do Teatro Cabocão, escrito por Marcos José e publicado pela Editora Universitária.

JUÍZA MARIA EUNICE NO CANTO DO POETA:

QUANDO UM MURO SEPARA UMA PONTE UNE”

Era lá para as bandas de 77, ano do assassinato do jornalista Vladimir Herzog nos porões da ditadura, o Grupo Universitário de Teatro do Amazonas – GRUTA tentava liberar para apresentação pública, junto à Censura Federal, na sede da Polícia Federal, na avenida Joaquim Nabuco, esquina com a rua Ipixuna (Manaus-Am-Brasil), a peça do escritor paranaense, membro do PCB, Domingos Pelegrini, O Troco.

Era um tempo angustiante. Um tempo de sentidos e razão dilatados. Se o teatrólogo alemão Brecht afirma em poema que o partido tem “mil olhos”, a ditadura tem muito mais. Ela não vê “as ruas e a cidade inteira”, ela vê o país inteiro. Foi nessa angústia 70, depois da apresentação do ensaio para as duas agentes responsáveis pela análise do texto e da encenação, no Conservatório de Música, local onde o grupo se encontrava, na avenida Joaquim Nabuco, onde funcionou até pouco tempo o DCE, próximo à sede da CNBB, que fomos conduzidos até a sala da Censura Federal para receber, ou não, o certificado de liberação da peça que já havia sido examinada pela Censura em Brasília. Dois dias após o assassinato de Wlado.

Diante do chefe, as duas agentes apresentaram suas conclusões, mostrando partes do começo da peça que deveriam ser censuradas, além de apresentar a fita com a trilha sonora, que tinha de Waldik Soriano a Caetano, passando por Aldir Blanc e João Bosco, entre outros. Colocada a fita para tocar, uma das agentes disse: “Essa música aí está censurada.” O chefe, um ex-seminarista vindo do sul, conhecido pelo nome de Gambim, um homem comedido e, segundo ele, amante das artes, prestou atenção na música que o grupo MPB4 cantava, e sentenciou: “Não tem problema.” Perguntamos se a música poderia fazer parte da peça, já que era muito importante sua inclusão, posto que era ela que fazia o desfecho socialista de nossa montagem, e ele respondeu que sim. E ainda afirmou que iria assistir a apresentação que seria logo à noite no CENESC – Centro de Estudos e Comportamento Humano da CNBB, na mesma Joaquim Nabuco. A música não era a nada mais que a revolucionária/poética/libertária “Pesadelo/De repente” dos inquietos Paulo César Pinheiro e Maurício Tapajós. O marco da resistência contra a ditadura.

Hoje, dia 11 de fevereiro de 2009, portanto, 32 anos depois, ela nos serve outra vez para cantar a liberdade. A liberdade que vem com os homens e mulheres que pensam em Manaus na justiça, comprometidos, como pensam a magnânima Juíza Maria Eunice Torres do Nascimento e o ilustríssimo procurador da Justiça Federal Edmilson Barreiros Junior.

Aqui fica impressa a poesia. Quem souber a melodia faz um bem cantar.

PESADELO DE REPENTE

Não que eu esteja parado

É que eu prossigo de manso

Graças ao tempo passado eu avanço

Não que teu som seja novo

É precisão de momento

Dar dos dois lado do povo

Movimento

.

Não que eu não sinta mudança

É que eu senti muitas dessas

E o tempo vi nas promessas

Não que eu não queira mais nada

É que o arrojo é imprudente

Tem que dar a guinada de repente

.

QUANDO UM MURO SEPARA UMA PONTE UNE

Se a vingança encara o remorso pune

Você vem me agarra alguém vem me solta

Você vai na marra ela um dia volta

E se a força é tua ela um dia é nossa

Olha o muro, olha a ponte, olha o dia de ontem chegando

Que medo você tem de nós

Olha aí

.

Você corta um verso eu escrevo outro

Você me prende vivo eu escapo morto

De repente olha eu de novo

Perturbando a paz, exigindo o troco.

Vamos por aí eu e meu cachorro

Olha o verso, olha o outro, olha o velho, olha o moço

Chegando

Que medo você tem de nós

.

O muro caiu olha a ponte

Da liberdade guardiã

O braço do Cristo horizonte

Abraça o dia de amanhã

Olha aí

Para quem não conhece a melodia e também cantar, vão aqui três links para poder baixar e ouvir Pesadelo:

  1. No disco Cicatrizes (1972), do MPB4 (36 MB)

  2. Aqui Pesadelo, cantada por Paulo César Pinheiro (2.8 KB)

  3. Ou ainda no Youtube, Pesadelo, pelo MPB4, no especial A Presença de Vlado

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Quer linha de corte? Este é esquizo. Acesse:

Contatos para Apresentações:

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(92) 8809-5152

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VIRTUALIZAÇÕES DESEJANTES DA AFIN

Este é um espaço virtual (virtus=potência) criado pela Associação Filosofia Itinerante, que atua desde 2001 na cidade de Manaus-Am, e, a partir da Inteligência Coletiva das pessoas e dos dizeres de filósofos como Epicuro, Lucrécio, Spinoza, Marx, Nietzsche, Bergson, Félix Guattari, Gilles Deleuze, Clément Rosset, Michael Hardt, Antônio Negri..., agencia trabalhos filosóficos-políticos- estéticos na tentativa de uma construção prática de cidadania e da realização da potência ativa dos corpos no mundo. Agora, com este blog, lança uma alternativa de encontro para discussões sociais, éticas, educacionais e outros temas que dizem respeito à comunidade de Manaus e outros espaços por onde passa em movimento intensivo o cometa errante da AFIN.

"Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias; que é atingido pelos próprios pensamentos como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, como por uma espécie de acontecimentos e de faíscas de que só ele pode ser alvo; que é talvez, ele próprio, uma trovoada prenhe de relâmpagos novos; um homem fatal, em torno do qual sempre ribomba e rola e rebenta e se passam coisas inquietantes” (Friedrich Nietzsche).

Daí que um filósofo não é necessariamente alguém que cursou uma faculdade de filosofia. Pode até ser. Mas um filósofo é alguém que em seus percursos carrega devires alegres que aumentam a potência democrática de agir.

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