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ECONOMIA DOMÉSTICA ― NO BALANÇO DOS PREÇOS

PREÇO DA MACAXEIRA NA CIDADE SEM PREFEITO

Tiquinho (Brincando na chuva):

Nesta vida atroz e dura

Tudo pode acontecer,

Muito breve há de se ver

Prefeito sem prefeitura;

Vejo que alguém me censura

E não fica satisfeito,

Porém, eu ando sem jeito,

Sem esperança e sem fé,

Por ver no meu Assaré

Prefeitura sem prefeito.

Vó Juracy (Vai brincar com as crianças):

Por não ter literatura,

Nunca pude discernir

Se poderá existir

Prefeito sem prefeitura.

Porém, mesmo sem leitura,

Sem nenhum curso ter feito,

Eu conheço do direito

E sem lição de ninguém

Descobri onde é que tem

Prefeitura sem prefeito.

Jacira (Animada com a entrada da vó):

Ainda que alguém me diga

Que viu um mudo falando

E um elefante dançado

No lombo de uma formiga,

Não me causará intriga,

Escutarei com respeito,

Não mentiu este sujeito.

Muito mais barbaridade

É haver numa cidade

Prefeitura sem prefeito.

Seu Pixa (Chegando da feira, entra na brincadeira na chuva):

Não vou teimar com quem diz

Que viu ferro dar azeite,

Um avestruz dando leite

E pedra criar raiz,

Ema apanhar de perdiz

E um rio fora do leito,

Um aleijão sem defeito

E um morto declarar guerra,

Porque vejo em minha terra

Prefeitura sem prefeito.”

Vó Juracy (Fazendo uma brincadeira de roda com todos): “Prefeitura sem Prefeito”, de Patativa do Assaré, para compor com o momento, em que vivemos em Manaus, Prefeitura sem prefeito… sem amor… sem ternura… sem carinho… sem alegria… sem justiça… sem água… sem moradia… sem transporte coletivo… sem escola… sem saúde… sem educação… sem comida… sem povo para se manifestar!

Seu Pixa: Sem comida mesmo, não consegui comprar a macaxeira para a merenda das crianças.

Jacira: Antes era a cheia. E agora? É a seca do rio?

Tiquinho: É Prefeitura sem prefeito, Jacira! É Prefeitura sem prefeito,Jacira!É macaxeira sem prefeito e preço injusto!

Vó Juracy: Antes de as águas do rio baixar a saca da macaxeira era de R$ 85, de R$ 70 e de R$ 65. Ai, terra sem prefeito!

Jacira: E o quilo era de 2, de 2,50 e 3 tocos. Ficamos sem bolo de macaxeira!

Seu Pixa: E agora o rio secou, e o preço não secou. Tá de 65, de 70, vai a 75 e chega a 80 tocos.

Tiquinho: É Prefeitura sem prefeito, Pixa! É Prefeitura sem prefeito, Pixa! É macaxeira sem prefeito e preço injusto!

Jacira: E o quilo tá ficando com o preço seco?!

Seu Pixa: O quilo tá ficando com o mesmo preço seco e injusto em todas as bancas de vendas das verduras – 3k por 5 patacos -, não tem nem opção de preço justo, e a macaxeira cozida na merenda, só quando tivermos um prefeito justo: o Povo!

Vó Juracy: Sim! O Povo! Quando vamos ter prefeito justo? Quando o povo desta terra deixar de acreditar nesses malversadores das coisas públicas, e acreditar que através do trabalho coletivo fará mudar a tristeza deste lugar, para deixarmos de viver em tamanha privação…

ECONOMIA DOMÉSTICA ― NO BALANÇO DOS PREÇOS

TOSTADO O PREÇO DA FARINHA

Dona Irene (chamando a Juracy no quintal): Juracy! Jura! A Jacira taí?

Vó Juracy: Tava, mulher. Foi na feira com o Tiquinho comprar farinha. Eles estavam querendo tomar o “caribé”!

Dona Irene: Então vou ficando por aqui para tomar o mingau feito pela farinha fina, de curimã, que dá um delicioso “mbeiu” ou “beiju’. No período da nossa infância, fomos também alimentados com bolos de carimã. Esses dois não se largam, os laços de amizade entre eles é muito forte.

Vó Juracy: É mesmo. Você lembra com muito gosto dessa culinária nativa do nosso Amazonas. Eles contaram que a merenda anda ralada, ralada… Diz que ultimamente a merenda e só picadinho escaldado, e sem tempero. Pode?

Dona Irene: E Jacira disse que a diretora estava ajudando a fazer a merenda, pois não há merendeiras para fazer, diz que ela dava tão irritada com tal situação que a senhora que estava ajudando pediu para comprar tempero senão iria azedar o picadinho para o pessoal da noite. Ela disse que se estragasse a merenda, que ela não tava nem aí. E o direito à merenda onde fica?

Vó Juracy: Fica só na “Constituição”, Por isso que devemos continuar a ler para os meninos os Direitos que regem nossa vida Civil e depois discutirmos com eles, como fazemos com as lendas, contos e histórias do nosso folclore.

Dona Irene: Falando em “Constituição”, a Jacira leu para mim o Capítulo XIV Dos Sistemas de Transporte.

Vó Juracy: Esse Capítulo tem sido o um dos mais lidos por eles, porque estão preocupados com a questão do transporte coletivo na cidade, para discutir com seus colegas, como o problema da merenda. E o que a Jacira leu para você?

Dona Irene: Ela leu o Art. 255, que diz: “São isentos do pagamento de tarifas nos transportes coletivos,fluviais e terrestres:

Caput’ com a redação dada pela Emenda Constitucional nº 10/91.

I – as pessoas portadoras de deficiência com reconhecida impossibilidade de locomoção;

II – policiais em serviço;

III – idosos maiores de sessenta e cinco anos;

IV – durante o período letivo, o aluno da rede escolar oficial devidamente uniformizado e identificado;

V – crianças menores de até 10 (dez) anos de idade, devidamente acompanhadas de um responsável.

Inciso acrescentado pela Ementa Constitucional nº 03/91.

Parágrafo único. Cabe aos proprietários de transportes coletivos urbanos e fluviais, a fixação nestes do teor do “caput” deste artigo e seus respectivos incisos, em local visível para o conhecimento dos usuários.

Parágrafo acrescentado pela Emenda Constitucional nº 03/91.”

Vó Juracy: Manaus! Manaus! Manaus não é uma cidade! Uma cidade tem que ter os elementos básicos para sê-la: moradia digna, sistema de saúde coletivo eficaz, um sistema educacional que produza no educando novas formas de dizeres, um sistema de transporte coletivo que preserve a vida humana.

Dona Irene: É mesmo! E as crianças tem que ser envolvidas nas questões sociais desde pequeninas, para que possamos criar espaços em que todos tenham voz ativa. Como é essa situação da isenção, porque os estudantes tem direito a passagem livre, e de alguma forma deram apenas a meia-passagem. Como pode isso?!

Vó Juracy: E se deixar vão tirar também esse direito. Isso só vai mudar quando mudarmos esta condição de privação, que oferece essa “Não-Cidade”.

Tiquinho e Jacira (aparecem correndo no quintal): Vó! Vó! Oh, vó! Não vai ter “caribé” na merenda não!

Vó Juracy: Não tem farinha? Nem para comer Jaraqui frito?

Tiquinho: Ter tem, o problema é que a cheia se foi, mas o preço continua subindo.

Dona Irene: E quanto tava a farinha fina de curimã, vocês encontraram na feira?

Jacira: Ninguém fornece mas essa farinha na feira, tem a de cururi, que vai de 2 e 50 a 5 tocos, isenta do preço baixo…

Dona Irene: E a farinha ova, como tava no preço?

Jacira: A farinha ova só no tamanho, porque no preço tá de R$ 4,00, de R$ 4,50 e chega a R$ 5,00. Vamos nos isentar do seu sabor.

Vó Juracy: E a farinha ovinha, deu pra comprar?

Tiquinho: A ovinha? Tinha de 4,50, de 5,00, de 5,50, e chega a 6,00 paus, isenta do preço baixo…

Dona Irene: A farinha do Uarini, como tava o preço?

Jacira: A Uarini tem de 4,00, de 4,50, e quem pode comprar de 5,00 tocos?

Vó Juracy: Ai, meu “caribé”, vou ficar sem seu sabor? Deu para trazer a farinha d’água?

Tiquinho: Ih, vó!, se depender do preço que está a gente vai ter que começar a fazer uma roça, e plantar mandioca, que nem a banana… Tinha de 1, de 2 e de 3 tocos, isenta do preço baixo e no sabor também… Tinha também uma farinha d’água grossa, de 2,25, mas de grosso já basta o preço.

Dona Irene: Onde a gente vai chegar com esses preços? Vamos ficar sem o “caribé” na merenda e no peixe frito. A farinha de Curuaru, tava de quanto?

Jacira: Essa farinha tá para sumir da feira, e no preço. Só tinha em uma banca, de 2 a 3 paus. Peixe frito, sem farinha, nem pensar!

Vó Juracy: A farinha branca, nem ela dava para comprar?

Tiquinho: Até dava, vó, tinha de R$ 2,00, de R$ 2,50 e R$ 3,00. O problema era o sabor que ela não tinha, tava um verdadeiro talco! Aí a gente andou…, andou… e encontramos uma farinha boa de preço: 1,90 a 2 reais, mas sem sabor e suja como o chão do mercado. Como comprar, não é, vó?

Vó Juracy: Nem pensar em comer uma farinha como essa! Por hora, vamos preparar outra merenda, vamos ao pomar pegar uns cajus e umas goiabas que vi hoje de manhã.

Dona Irene: Eu deixei a massa do pão caseiro descansando, essa hora já tá no ponto para o preparo.

Vó Juracy: Então eu vou acender o forno de barro agora mesmo.

Jacira: E nós vamos logo pegar o caju para fazer um suco e a goiaba para fazer um doce, não é, Tiquinho?

Tiquinho: O que a gente tá esperando! Vamos logo, que a gente aproveita e já come algumas no pé da goiabeira!

ECONOMIA DOMÉSTICA ― NO BALANÇO DOS PREÇOS

Feira da Banana

A PREÇO DE BANANA?!

Vó Juracy (Chegando da feira): Tiquinho! Oh, Tiquinho! Oh, Tiquinho! Cadê esse curumim?!

Tiquinho (Fala da porta da cozinha): Tô aqui, vó, no quintal, volvendo a terra numa parte do canteiro. A Candeia passou aqui e disse que ia trazer uma surpresa para o nosso pomar. E na feira, comprou a banana?

Vó Juracy: Fui na “feira da banana”, falei com a Dona Meire sobre o preço absurdo que estão cobrando aqui no bairro. A banana pacovã tem de R$ 2,59 a R$ 2,60 o kg. Se pesar três ou quatro, o preço fica como?

Tiquinho: Fica escorregando o dinheiro do bolso da gente. E o preço da banana prata, que tá de R$ 1,99 a R$ 2,29 o kg, a senhora falou pra Dona Meire?

Vó Juracy: Falei! Além da venda do kg ser um absurdo, disse a ela que a palma ia de 4,30 a 4,40, indo a 4,50 e chegando a 4,80, 4,90, até de 5,70. O preço fica como?

Tiquinho: Fica escorregando o dinheiro do bolso da gente, vó. Oh, vó! E a banana maçã, que como a senhora mesmo disse que há muito tempo deixou de ser maçã, que vai de 1 a 1,30 tocos, mesmo estando quase podre, mas tem também de 1,40 a 1,50, chegando a 1,90 e ficando nos 2 tocos a palma que não é uma palma, não é, vó?

Vó Juracy: É mesmo! E Meire disse que é por causa do tal “ácaro vermelho”, que devido à má divulgação do que ocorreu em Boa Vista tem prejudicado as vendas e aumentado o preço e a preocupação de quem compra.

Tiquinho: Eeeeee…, vó! Não é do município de Caroebe que vem todo o fornecimento para atender os outros municípios de todo estado?

Vó Juracy: É sim! Ela até me disse que daqui de Manaus chega e sai a banana de Caroebe, para atender o Acre, Porto Velho e Santarém. E que os feirantes estão desconfiando que esse secretário não conhece a dinâmica das vendas da banana aqui, e que a maneira que ele falou gerou nas pessoas um preconceito com os produtores de Caroebe, e que isso é para força as pessoas a comprar banana na feira do SEPROR, que fica na estrada. Só que o secretário não sabe o que é andar de ônibus em Manaus, não é, Tiquinho?

Tiquinho: Eeeeee… É mesmo! Falando em transporte coletivo de Manaus, eu e a Jacyra começamos estudar a “Constituição Brasileira da República Federativa do Brasil” e a “Constituição do Estado do Amazonas”!

Vó Juracy: E o que foi que vocês aprenderam?

Tiquinho: Que a constituição rege a vida de nós cidadãos, e que é muito importante conhecermos ela. A Jacyra leu para mim o que fala a constituição Amazonense sobre o transporte coletivo. Quer ouvir, vó?

Vó Juracy (Vó Juracy põe o Tiquinho no colo): Quero. Diz, então, o que tem nessa lei, meu Tiquinho.

Tiquinho: Ela diz assim: “Capítulo XIV – Dos Sistemas de Transportes

Art.252. Os sistemas viários e os meios de transporte de qualquer natureza, operados no Estado, subordinam-se ao respeito e à preservação da vida humana, à segurança, ao conforto dos cidadãos, à defesa e à observância de normas e preceitos ambientais e à proteção ao patrimônio coletivo”.

Vó Juracy: O que rege nossos direitos sobre o transporte coletivo não existe nessa cidade, sabe, “Tiquo”, o domínio da lei se assenta no poder do povo, que põe fim ao domínio do homem sobre o outro. Isso quer dizer que o povo domina aqueles que o governam. E isso significa o que, meu Tiquinho?

Tiquinho: Que o “poder” não pertence a uma única pessoa, pois assim ele não existe, só existe se o povo, em comunidade, se organiza para o Bem Comum de todos. É isso, vó?

Vó Juracy (abraça o Tiquinho): Meu “Tiquo”, vocês estão aprendendo direitinho.

Tiquinho: Eu e a Jacyra, além de estudar os contos, lendas e histórias do nosso folclore brasileiro, que contribui nas nossas relações afetivas com o mundo, estudar a “Constituição” nos coloca numa condição de responsabilidade com o lugar em que vivemos. Oh, vó!, falando em responsabilidade, e a banana na venda da Dona Meire quanto dava?

Vó Juracy: Ela, como fornecedora, vende, mas a penca que a palma. E o preço da banana pacovã na penca fica de 5, de 6, de 8 e de10 reais a quase podre, a madura de 10, de 12 e 13 reais e a verde de 14, de 16, de 15 e fica nos 18 reais. Dentro da feira da “Manaus Moderna”, 26 reais. E os nossos direitos na penca do preço?

Tiquinho: Vó! Vó! E a penca do preço da banana prata?

Vó Juracy: Vai subindo; e não, despencando. Tem de 7 e de 8 tocos a madura, e dura no preço. A verde, verde no preço, fica de 10 e 12, de 15 e de 16 tocos. Dentro da feira da “Manaus Moderna”, é 25 tocos. Vamos ficar sem banana, Tiquinho?

Tiquinho: Eeeee…, vó! E agora, ficamos sem direito à banana?

Dona Candeia (Chegando com várias mudas de banana): Vamos ficar não! Seu Nezinho mandou pra nós, lá de Boa Vista, essas belas mudas de banana. Vejam! São lindas, não é, Jura?!

Vó Juracy (Ajudando a carregar as mudas para o quintal): São mesmo. Que presente maravilhoso! Você esta trazendo, Candeia…

Dona Candeia: Tem mudas de banana pacovã, prata, maçã…

Vó Juracy: E tem até banana São Tomé, roxa e verde, que nunca mais vi!

Tiquinho: O que nós estamos esperando para atualizar essas mudas. Eu já comecei a tocar na terra com “Carinho, Ternura e Amor”! Vamos para o canteiro?!

Todos: Vamos logo fertilizar essa terra com toda esta alegria, e plantar esse bananal!

ECONOMIA DOMÉSTICA ― NO BALANÇO DOS PREÇOS

Camarão

QUANDO O PREÇO É MAIOR DO QUE O CAMARÃO

Seu Pixa (entra na cozinha da Vó Juracy): Juracy! Juracy! O arroz-hauçá, pelo jeito já tá quase pronto! Que cheiro delicioso!

Vó Juracy: Só não tá mais cheiroso por que esse arroz não é o arroz de outrora. Lembra como se plantava o arroz, na nossa terra, a festa que fazíamos depois da colheita?

Seu Pixa: Como lembro! A música dos tambores, as danças, os quitutes, as fogueiras… Era uma forma de estreitar os laços comunitários entre nós, e a natureza naturante, que nos propiciava uma relação divina com a terra, a Mãe-Terra, a terra em que tudo que se planta com amor, ternura e carinho vai brotar! Mesmo sendo uma terra onde se rouba o direito de uma vida digna, como me é Manaus!

Vó Juracy: Quando viemos para cá, ainda se podia comprar o arroz a granel, que respeitava ainda a condição do dinheiro no bolso, podia-se comprar 100g de arroz para fazer pelo menos o básico na cozinha. Um baião… Agora nem isso tem mais na feira; os grandes supermercados tomaram conta da venda como as distribuidoras!

Seu Pixa: Temos que comprar aquilo que não colhemos.

Tiquinho (entra com a Jacyra na cozinha): Oh!… Vó! Oh!… Vó! Quase a gente não chega da feira! O ônibus como sempre demorou mais de uma hora!

Jacira: E o aumento da passagem, só maltratando a gente!

Vó Juracy: Como vocês estão cansados de tamanha demora nessa cidade que faz a gente penar, vou contar uma lenda africana…

Tiquinho: “Lenda Africana”, vó?

Seu Pixa (as crianças sentam perto dos dois): Sim, uma Lenda Africana, para que, nos Contos e Encantos dessa terra, vocês possam ser iniciados nos cultos afro-brasileiros!

Jacira: Então não demora a contar. Vó, conta logo! Vai! Conta!

Vó Juracy (Seu Pixa pega o tambor e começa a tocar em ritmo pausado): Então lá vai! Vou encantando: Conta uma lenda africana que Yemanjá, filha de Olokun, era casada com Olófim Oduduá, com quem tinha dez filhos orixás. Por amamentá-los, ficou com os seios enormes. Impaciente e cansada de morar na cidade de Ifé, ela saiu em rumo oeste e conheceu o rei Okerê; logo se apaixonaram e casaram-se. Envergonhada de seus seios, Yemanjá pediu ao esposo que nunca a ridicularizasse por isso. Ele concordou. Porém, um dia, embriagou-se e começou a gracejar sobre os enormes seios da esposa. Entristecida, Yemanjá fugiu. Desde menina trazia numa garrafa uma poção que o pai lhe dera para casos de perigo. Durante a fuga, Yemanjá caiu quebrando a garrafa. A poção transformou-a num rio cujo leito seguia em direção ao mar. Ante o ocorrido, Okerê, que não queria perder a esposa, transformou-se numa montanha para barrar o curso das águas. Yemanjá pediu ajuda ao filho Xangô, e este, com um raio, partiu a montanha no meio. O rio seguiu para o oceano e, dessa forma, Yemanjá tornou-se a…?

Tiquinho e Jacira (fazem movimentos com o corpo, representando as ondas do mar): “Rainha do Mar! Rainha do Mar!”

Seu Pixa: Princesa de Iaocá! Princesa de Iaocá! Que nas águas fundas do mar é capaz de enamorar os incautos que vagueiam em seus domínios.

Vó Juracy: Crianças! Antes que o Pixa se encante com Dona Janainha, vou pegar meu balaio para jogar no mar, o preço da cebola, e do camarão do molho do arroz-de-hauçá, para ela levar ao fundo do mar. Vai, meu balaio, pega esse preço aí…

Tiquinho: Yemanjá! Yemanjá! Leva para as águas fundas do mar este preço que está! A cebola no balaio vai de R$ 1,50 a R$ 2,00, vai R$ 2,50 de 2,60, vai R$ 2,70 a R$ 2,79, vai de R$ 2,80 a R$ 2,90, vai de R$ 3,00 e chega R$ 3,79 o kg. E a sacola dentro da feira de R$ 2,00 a R$ 3,00, e lá fora R$ 1,00. E o rio dos domínios da Iara vai baixando… E o preço só subindo!

Seu Pixa: Manda para balaio o preço do Camarão, que o da cebola Yemanjá vai levar para o fundo do mar. Leva! Leva! Rainha do Mar! Rainha do Mar!

Vó Juracy: Yemanjá! Yemanjá! Leva para as águas fundas do mar este preço que está! O camarão Tutoia vai de 5 a 15 tocos, de 17 a 20tocos, chega a 24 e ficou nos 35 tocos o kilo!

Vó Juracy: Dá para o preparo o “camarão com casca”, crianças?

Tiquinho: Yemanjá! Yemanjá! Leva para as águas fundas do mar este preço que está! O “camarão com casca”! Vai! Vai! Vai ficando na casca do preço de 5, de 8 a 10 reais e vai a 27 o kg. Vai?

Seu Pixa: Eita preço que está! E o “camarão sem casca”, crianças?

Jacira: Yemanjá! Yemanjá! Leva para as águas fundas do mar este preço que está! O “camarão sem casca”! Vai! Vai! Vai ficando sem a casca por causa do preço de 14, de 16 a 18 contos, e de 20 a 22 o kg. No toco do preço!

Vó Juracy: O “camarão seco” também tá no toco do preço?

Tiquinho: Yemanjá! Yemanjá! Leva para as águas fundas do mar este preço que está! O “camarão seco”! Vai! Vai! Vai fazendo secar o bolso da gente! Tem de 24, de 30, e fica secando a 32 o kg.

Seu Pixa: Dona Janainha, olha esse preço que tá! E o “camarão médio”, dá pra comprar?

Jacira: Yemanjá! Yemanjá! Leva para as águas fundas do mar este preço que está! O “camarão médio”, de médio só o camarão, pois o preço que vai de R$ 10,00 a R$ 20,00, tem de R$ 22,00, de R$ 25,00 o kg. A gente vai comer o arroz sem molho, não é, vó?

Vó Juracy: Vai mesmo, do jeito que tá! E o “camarão grande”, vocês encontraram?

Tiquinho: Yemanjá! Yemanjá! Leva para as águas fundas do mar este preço que está! O “camarão grande”, e grande só no preço de 10, de 14, de 18 tocos, tem também de 22, de 29, de 33, e fica no tamanho de 35 tocos o kg. Ai! Ai! O molho não vai ter não, não é, Pixa?

Seu Pixa: Desse jeito que vai o arroz vai ficar sem molho e sem alegria. O “camarão fresco”, vocês encontraram por lá?

Jacira: Yemanjá! Yemanjá! Leva para as águas fundas do mar este preço que está! O “camarão fresco”, de fresco ele não tem nada, é no gelo que ele tá! Vai ficando de 16, de 17, de 18 e 20contos o kg. Não vai ter no molho não.

Vó Juracy: Desse jeito a gente vai deixar de preparar a comida dos orixás. Ah!Princesa de Iaocá, leva para o fundo do mar e encanta esse preço que tá! E o “piracuí de camarão”, trituraram no preço também?

Tiquinho: Yemanjá! Yemanjá! Leva para as águas fundas do mar este preço que está! Trituraram no preço também, tem de R$ 12,00, de R$ 15,00, de R$ 16,00, de R$ 17,00, e chega a triturar de R$ 20,00 o kg. Estamos ficando triturados, vó!

Seu Pixa: Triturados nesta situação estamos sempre a ficar, oh!, Dona Janainha, desencanta esse povo incauto, que não vê essa situação que tá! A “pimenta malagueta”, não deu também para comprar?

Jacira e Tiquinho (falam em voz alta): Yemanjá! Yemanjá! Leva para as águas fundas do mar este preço que está! Tá ardendo só num preço! Um copinho de malagueta está de 5 tocos, e está 35 paus o kg. Como podemos comprar, vó? E o arroz-de-hauçá, não vamos provar?

Vó Juracy: Não se apoquentem, meu Tiquinho e minha Jacira, o arroz-hauçá nós vamos preparar. Vamos todos pedir a Yemanjá para falar com seu filho Xangô, fazer justiça que nessa terra ainda não há!

Seu Pixa: Vamos cantar para os males dessa terra espantar! (Todos cantam juntos)

Yemanjá! Yemanjá!

Rainha do Mar! Rainha do Mar!

Traz nas ondas do mar

Alegria para este lugar

Oferendas na beira-mar

De flores brancas devemos ofertar

Rosas, palmas brancas

Orquídeas, crisântemos brancos e jasmim

Para mãe dos Filhos-Peixe

Em suas águas ofertar

Para reger sempre amparo materno

Para defender seus filhos desta cidade

Que não dá dignidade

Mas sim muita privação

Emerge fertilidade, fecundidade

Para esse povo conhecer

Os laços que constroem

A Comunalidade e o Bem Comum

ECONOMIA DOMÉSTICA ― NO BALANÇO DOS PREÇOS

Frango Assado

CASEIRO OU “BROTÃO”, NÃO PIA O PREÇO DO FRANGO

Vó Juracy (brinca no terreiro com o tiquinho): Corre! Corre! Pega ela! Pega ela! Não deixa ela chegar no canteiro! Corre, Tiquinho! Corre, Tiquinho! Pula!Pula, Tiquinho! Que desse jeito tu vai saltitar que nem Saci-Pererê!

Tiquinho: Ajuda, vó! Ajuda, vó! Se a Diretora pega, ela vai parar na panela!

Dona Candeia (chega no terreiro e corre para cerca a galinha): Deixa comigo, que essa penosa, o destino dela é a panela. E ela não tem a mesma ginga que eu e a Jura! Vai, Jura! Agora! Pega ela! Pega! Fugiu de novo!

Vó Juracy: Deixa ela. Essa ai não vai para a panela! É de sua natureza ficar ciscando no quintal! Só vigia ela para não ir para rua, Tiquinho! Porque aqui nessa cidade o motorista não respeita gente, quanto mais os bichos.

Tiquinho: A Senhora tem razão, vó! Vou prestar atenção nela direitinho (corre para o fundo do quintal).

Dona Candeia: Falando em galinha, essa não era a galinha do almoço do aniversário da Irene?!

Vó Juracy: Ih!, essa galinha já deu muita história. O Pixa deu essa galinha para o preparo do almoço como presente pra Irene. Aí as crianças levaram ela antes de eu ti chamar para matar.

Dona Candeia: Esses meninos! Sempre na molecagem!

Vó Juracy: O problema foi depois na escola. Fui até chamada pela diretora hoje lá!

Dona Candeia: E o que o “Saci”, depois de solto da garrafa, aprontou junto com o Tiquinho e Jacyra? Qual foi a travessura deles?

Vó Juracy: Vou chamar ele para te contar! Tiquinho! Tiquinho! Vem cá, meu filho (Tiquinho entra na cozinha junto com a galinha e a Jacyra). Vem cá, seu moleque (abraça Tiquinho e Jacyra). Conta para a Candeia o que vocês fizeram com a galinha. Conta! Foi muito divertido!

Tiquinho: O Saci disse que a nossa escola está muito triste, e que deveríamos armar umas reinações!

Jacira: Resolvemos levar a galinha do Pixa para a escola e arranjar reinações.

Tiquinho: A primeira travessura que fizemos foi colocar ela na sala de aula como estudante.

Jacira: Quando a professora viu a galinha a cacarejar, dissemos pra ela que era a nova estudante da sala. A professora ficou tão nervosa, tão nervosa que chamou a diretora. Daquele jeito ela não iria dar aula.

Tiquinho: As duas ficaram correndo atrás da galinha na sala toda. Todos riram tanto, tanto que até esquecemos que aquele lugar faz tanto mal a todos nós!

Jacira: E toda vez que elas corriam atrás da galinha, carcarejavam: cocococooooocooorrroooocooocoooo! E todos repetiam: cocococoooorrroooocccooooo! Foi uma alegria só!

Tiquinho: Aí chamaram o professor de Educação Física, seu Raposo, que pegou tanto salto da galinha que desmaiou de cansado. Aí a diretora disse que a galinha ia virar merenda da escola!

Jacira: Então fizemos um protesto. Dissemos que a galinha era o Saci-Pererê transformado, não tinha culpa de não ter merenda na escola, e que ela não tinha o direito de fazer aquilo com o Saci, e que ela deveria reivindicar à Secretaria de Educação a nossa merenda. Então a diretora disse que só entraríamos na escola com os nossos responsáveis. E voltamos com a galinha para casa.

Tiquinho: Ou seja, o Saci (sai pulado junto com a Jacyra numa perna só)! Olha o Saci! Saci! Pererê! Saci! Saci! Tererê!

Dona Candeia: E tu foi lá?

Vó Juracy: Fui não!? E expliquei à diretora que as crianças não tinham culpa nessa história, que tudo isso foi uma travessura do Saci-Pererê, e que conta o preto velho que tudo que viu e falou com o “saci-galinha”, acontece sempre uma desgraça. Aí ela correu pra dentro da sala dela para rezar. Viu só uma coisa dessa!? Eu acho que ela acreditou.

Dona Candeia: No caso dela tem mais é que acreditar. Falando em galinha, e agora o almoço da Irene?! Vai ter não?

Vó Juracy: Se depender da cilada que é esse preço, vai ter não. O Saci dá cambotes e assobia o preço!

Tiquinho (pulando): Saci, Saci, Saci, Saci, oi, ai, oi, ai, oi, ai, na Feira da Redeca e na feira móvel do Ajuricaba o preço da galinha de terreiro pequena de R$ 5,00 a R$ 6,00 a unidade. Azeda esse preço aí, Saci!

Dona Candeia: E média, tem não? O Saci dá cambotes e assobia o preço!

Jacira (pulando): Saci, Saci, Saci, Saci, oi, ai, oi, ai, oi, ai, o preço da galinha de terreiro média de 12 a 13 tocos a unidade. Azeda esse preço aí, Saci!

Vó Juracy: E a grande, ciscou bastante? O Saci dá cambotes e assobia o preço!

Tiquinho: Saci, Saci, Saci, Saci, oi, ai, oi, ai, oi, ai, o preço da galinha de terreiro grande de 15 a 18 reais a unidade. Azeda esse preço aí, Saci!

Dona Candeia: E frango sem gelo, hormônio e vitamina? O Saci dá cambotes e assobia o preço!

Jacira: Saci, Saci, Saci, Saci, oi, ai, oi, ai, oi, ai, o preço do frango que ainda quer ciscar como galinha, tem de 17,00, de 18,00 e vai a 20,00 tocos o kg. Azeda esse preço aí, Saci!

Vó Juracy:E o frango com gelo, hormônio e vitamina, que cresce em trinta dias! O Sacy dá cambotes e assobia ai o preço!

Tiquinho: Saci, Saci, Saci, Saci, oi, ai, oi, ai, oi, ai, o preço do frango que cresce em trinta dias na taberna, o “brotão”, na promoção, de R$ 2,99, de R$ 3,39 a R$ 3,49, R$ 3,59, e chega a R$ 3,69 o kg. Azeda esse preço aí, Saci!

Dona Candeia: Esse frango que cresce em trinta dias, saltitando no preço, mas que Saci! Tem outra marca não?

Jacira: Saci, Saci, Saci, Saci, oi, ai, oi, ai, oi, ai, o preço do frango que cresce em trinta dias, no supermercado, na moringa do “Maringa”, 3,15, de 3,19 a 3,29 tocos o kg. Azeda esse preço aí, Saci!

Vó Juracy: Esse frango que cresce em trinta dias, Sacy, muito reinador, atenta esse preço ai!

Tiquinho: Saci, Saci, Saci, Saci, oi, ai, oi, ai, oi, ai, o preço do frango que cresce em trinta dias ainda no supermercado, “Avis do Pará” e “Pena Branca” no preço e no gelo, iguaizinhos, de 3,29 tocos o kg. Azeda esse preço aí, Saci!

Dona Candeia: Esse frango que cresce em trinta dias! Sacy muito reinador, amarra esse preço aí!

Jacira: Saci, Saci, Saci, Saci, oi, ai, oi, ai, oi, ai, o preço do frango que cresce em trinta dias, ainda no supermercado, “Anhambi” de 3,59, e o “Sadia” de 3,65 a 3,69 tocos o kg, congelando a bolso da gente. Azeda esse preço aí, Saci!

Vó Juracy: Eu acho bom todos nós evocarmos mesmo o Saci! Porque com esse preço que está aí.

Todos: Vamos evocar logo esse Saci! Vamos assobiar para ele aparecer logo aí. Saci, Saci, Saci, Saci, oi, ai, oi, ai, oi, ai, vem fazer reinações neste lugar!

Remexe o vento no terreiro

Para trazer na poeira que rodopia

O moleque matreiro

Que vai dar cambotes nesses preços

Saltitante apesar de perneta

O feiticeiro

Vive só a fazer estrepolia

Sova esse preço

Desgalha essa miséria

E faz por toda parte

Onde está este mal

Uma arrelia

Não tem morada certa

É vagabundo expulso dos infernos

Vem ao mundo por ser

Demais perverso e malcriado

Então nessa terra onde vivemos

Dá nó nesse castigo

Contando e amarrando em cada canto

Os inimigos dessa boa gente

Que não tem um bom lugar

Para viver alegremente!

ECONOMIA DOMÉSTICA ― NO BALANÇO DOS PREÇOS

CarnesImagem: http://dicasereceitas.com/dicas-carnes/

…E A CARNE SOBE NA CIDADE

Tiquinho (entra no quintal junto com a Jacira cantando):

Gigante que bicho é esse que na mata apareceu?

Foi por causa desse bicho que o Amazonas se perdeu

Êêê… Bumba-Meu-Boi!

Êêê… Bumba-Meu-Boi!

Êêê… Bumba-Meu-Boi!

Êêê… Dança Meu Boi!

Êêê… Bumba-Meu-Boi!

Êêê… Canta Meu Boi!

Meu Boi Bonito, Boi Ventania

Estrela do Norte, Estrela do Dia

Êêê… Bumba-Meu-Boi!

Êêê… Bumba-Meu-Boi!

Êêê… Bumba-Meu-Boi!

Êêê… Dança Meu Boi!

Êêê… Bumba-Meu-Boi!

Êêê… Canta Meu Boi!

Levanta de Boi Bonito!

Balança as orelhas e vem

Se a Dona da Casa dança

E as filhas dança também

Êêê… Bumba-Meu-Boi!

Êêê… Bumba-Meu-Boi!

Êêê… Bumba-Meu-Boi!

Dança Meu Boi!

Êêê… Bumba-Meu-Boi!

Canta Meu Boi!

Meu Boi Bonito

Boi prateado vem

Dar um viva ao cordão encarnado

Gigante que bicho é esse que na mata apareceu?

Foi por causa desse bicho que o Amazonas se perdeu

Êêê… Bumba-Meu-Boi!

Êêê… Bumba-Meu-Boi!

Êêê… Bumba-Meu-Boi!

Êêê… Dança Meu Boi!

Êêê… Bumba-Meu-Boi!

Êêê…Canta Meu Boi!

Jacira: Oh! Vó Juracy! O Tiquinho aprendeu direitinho os cantos da Festa de São João!

Vó Juracy (abraça a Jacira): E você também, minha filha! Assim não deixa morrer no coração de vocês o Bumba-Meu–Boi! Brinquedo de São João! Como foi no “Mercado Flutuante”? Compraram a carne?

Tiquinho: Vó, tudo continua na mesma. O preço só subindo. Eu e a Jacira vamos fazer promessa a São João. Fazer todos os anos nosso boizinho, Brinquedo de São João! Para que nos próximos anos o povo se desencante, e seja mas responsável para cuidar dessa cidade!

Jacira: Lá vem! Lá vem, moreninha! Meu boi Brinquedo de São João! Pede licença da dona da casa pra brincar no seu salão…

Tiquinho: Oh!, vó, como ocorre a encenação da morte do boi Brinquedo de São João?

Vó Juracy: A encenação da morte do boi é assim representada, meu Tiquinho: o miolo fica com um litro de vinho.

Tiquinho: O miolo deve ser bem o Pixa! Hahahahah!

Vó Juracy: Colocam no pé do Mourão uma bacia para sustentar o sangue. Quando o vaqueiro amarra o boi, Pai Francisco vem com uma faca e sangra o animal, recolhendo o sangue. Este é distribuído entre todos.

Jacira: Aí, finalmente, a gente entoa algumas toadas, melancolicamente, suavemente nostálgicas, sempre insistindo no tema da despedida, do adeus, rogando aos santos protetores para brincarem novamente no próximo ano. Não é, vó Juracy?

Vó Juracy: É mesmo!

Tiquinho: Então está é, por sinal, a parte mas emocionante do folguedo, devido a seu tema, profundamente triste. Não é, vó?

Vó Juracy: É mesmo! Não se preocupem, meninos, com a tristeza; umas duas rodadas daquela cachaça preparada pelo Pixa, a alegria ressurge em todos nós, eufóricos, vamos outra vez participar da festa dançante patrocinada pelo dono do boi, a nossa comunidade alegre! Vamos cantar para desencantar o preço da carne. Vamos fazer a partilha dos pedaços do boi fazendo versos. Vai, Tiquinho, canta com a Jacira! Vai, que eu acompanho com o pandeiro!Vai! Eu vou começando: Ôôô… Lêlê… Ôôô… Lálá… Olha Esse Boi que te Dá!

Tiquinho (encena a morte do boi com a Jacira): Ôôô… Lêlê… Ôôô… Lálá… Olha Esse Boi que te Dá!

Vó Juracy: A picanha da Dona Antonia deu pra comprar?

Jacira: Olha esse boi que te dá! Que ele te dá! Dar só, não dá. Este preço que está de R$ 12,00, de R$ 14,00 e R$ 15,00 o kg.

Tiquinho: Ôôô… Lêlê… Ôôô… Lálá… Olha Esse Boi que te Dá!

Vó Juracy: A maminha da dona Marina deu pra comprar?

Jacira: Olha esse boi que te dá, que ele te dá. Dar só, não dá. Este preço que está de 12 e 15 paus o kg.

Tiquinho: Ôôô… Lêlê… Ôôô… Lálá… Olha Esse Boi que te Dá!

Vó Juracy: A alcatra da dona Renata, a balança tava pesada?

Jacira: Olha esse boi que te dá, que ele te dá! Dá só, não dá. Este preço que está de 12 e 15 tocos também o kg.

Tiquinho: Ôôô… Lêlê… Ôôô… Lálá… Olha Esse Boi que te Dá!

Vó Juracy: O patinho do seu Nezinho, ah!, não vai dar não?

Jacira: Olha esse boi que te dá, que ele te dá! Dá só, não dá. Este preço que está igual no preço da alcatra da dona Renata, de 12 e 15 paus também o kg.

Vó Juracy: A pá do seu Zé Coveiro tá no fundo da cova?

Tiquinho: Ôôô… Lêlê… Ôôô… Lálá… Olha Esse Boi que te Dá!

Jacira: Olha esse boi que te dá, que ele te dá! Dá só, não dá. Este preço que tá no fundo do preço, de 8 a 8,90 e chega a 9 o kg. Tá no fundo.

Vó Juracy: O coxão da dona Zeti tá duro ou mole?

Tiquinho: Ôôô… Lêlê… Ôôô… Lálá… Olha Esse Boi que te Dá!

Jacira: Olha esse boi que te dá, que ele te dá! Dá só, não dá. Estes preços que estão, o mole e o duro, tão pesando no preço, de 10, de 11 e de 12reais. Nem mole nem duro, desse jeito não dá.

Vó Juracy: O Chão de Dentro e de Fora da Dona Maroca…O preço tá no chão…?

Tiquinho: Ôôô… Lêlê… Ôôô… Lálá… Olha Esse Boi que te Dá!

Jacira: Olha esse boi que te dá, que ele te dá! Dá só, não dá. Este preço que está, tanto faz dentro como fora, de R$ 10,00, vai a R$ 11,00, chega a R$ 12,00 o kg. Nem fora nem dentro, não dá pra comprar.

Vó Juracy: O lagarto do Lázaro, dá pra fazer recheado?

Tiquinho: Ôôô… Lêlê… Ôôô… Lálá… Olha Esse Boi que te Dá!

Jacira: Olha esse boi que te dá, que ele te dá! Dá só, não dá. Este preço que está de 12 tocos na balança. Só um preço em todas as bancas. Não dá!

Vó Juracy: A costela da dona Maristela, vamos comprar?

Tiquinho: Ôôô… Lêlê… Ôôô… Lálá… Olha Esse Boi que te Dá!

Jacira: Olha esse boi que te dá, que ele te dá! Dá só, não dá. Este preço que está de 5, vai a 6 e chega a 7 tocos o kg. Dona Maristela vai ficar sem costela.

Vó Juracy: A bisteca do seu Panela, dá para a festa?

Tiquinho: Ôôô… Lêlê… Ôôô… Lálá… Olha Esse Boi que te Dá!

Jacira: Olha esse boi que te dá, que ele te dá! Dá só, não dá. Este preço que está de R$ 6,50 e vai até R$ 8,00 o kg. Na festa não vai ter não.

Vó Juracy: A agulha para costurar a alegria nos males produzidos por essa administração sem respeito e amor!

Tiquinho: Ôôô… Lêlê… Ôôô… Lálá… Olha Esse Boi que te Dá!

Jacira: Olha esse boi que te dá, que ele te dá! Dá só, não dá. Este preço que está de 6 a 7 o kg, tanto nó na costura!

Vó Juracy: No peito, da ausência do prefeito, qual preço nós estamos a pagar?

Tiquinho: Ôôô… Lêlê… Ôôô… Lálá… Olha Esse Boi que te Dá!

Jacira: Olha esse boi que te dá, que ele te dá! Dá só, não dá. Este preço que está de 6, vai a 7 o kg, dependendo do horário o preço vai mudando. O preço que estamos a pagar é ficar sem as condições básicas para viver nesse lugar!

Vó Juracy: O músculo com osso ou sem osso, dos vereadores!, vai ficar bom no Guizado?

Tiquinho: Ôôô… Lêlê… Ôôô… Lálá… Olha Esse Boi que te Dá!

Jacira: Olha esse boi que te dá, que ele te dá! Dá só, não dá. Este preço que está de 4, de 5 a 6,50 reais o kg. Esse músculo, com osso ou sem osso, é só músculo, sustentando tristeza e pobreza nesse lugar!

Vó Juracy: A rabada dos deputados, dá para comer?

Tiquinho: Ôôô… Lêlê… Ôôô… Lálá… Olha Esse Boi que te Dá!

Jacira: Olha esse boi que te dá, que ele te dá! Dá só, não dá. Este preço que está de 10 tocos o kg em todas as bancas. Como rabada do governo, eles vão ficar!

Vó Juracy: O picadinho comum e especial do nosso governador?

Tiquinho: Ôôô… Lêlê… Ôôô… Lálá… Olha Esse Boi que te Dá!

Jacira: Olha esse boi que te dá, que ele te dá! Dá só, não dá. Este preço que está de 7 a 8 contos o kg do comum, o especial é 9 o kg em todas as bancas, fazendo do povo um picadinho, para não pensar na miséria em que ele está!

Vó Juracy: A língua do Boi,para fazer este povo falar…?

Tiquinho: Ôôô… Lêlê… Ôôô… Lálá… Olha Esse Boi que te Dá!

Jacira: Olha esse boi que te dá, que ele te dá! Dá só, não dá. Este preço que está, Pai Francisco! Não vai levar pra Catirina, porque na banca, língua não está pra venda!

Vó Juracy: Então ela vai abortar?

Mãe Catirina! Mãe Catirina!

Na força do seu mijo

Faz esse povo ressuscitar

Para produzir alegria

Que falta neste lugar

Mãe Catirina! Mãe Catirina!

Mija para esse povo ressuscitar!

Para tomar atitude de enfrentar

As diferentes situações sociais deste lugar

Mãe Catirina! Mãe Catirina!

Mija para esse povo ressuscitar!

Na alegria, construir comunitariamente

Um lugar digno para morar.

ECONOMIA DOMÉSTICA ― NO BALANÇO DOS PREÇOS

Caldeirada por você.

Vó Juracy (canta preparando a comida):

Oh! Menina varre o terreiro!

Com a vassoura de algodão!

Oh! Menina varre o terreiro!

Com a vassoura de algodão!

A barra do boi é branca!

E não pode arrastar no chão!

A barra do boi é branca!

E não pode arrastar no chão!

Dona Irene: Oh!, Juracy! Oh!, Juracy! Cadê você, mulher?!

Vó Juracy: Entra! Estou aqui na cozinha, mulher! Tá vindo de onde?

Dona Irene: Da escola da Jacira.

Vó Juracy: Gostou da Festa de São João?

Dona Irene: Gostei mesmo! Foi lindo! Foi lindo! Lembrei de nossa terra! Nosso Maranhão!

Vó Juracy: E o que houve na escola?

Dona Irene: Não teve a greve! Pois então, não deixaram a Jacira entrar na escola, porque ela tinha chegado atrasada. Além disso, perdeu a avaliação.

Vó Juracy: Essa diretora não deve morar em Manaus. Ela não conhece a precariedade do transporte coletivo na cidade, que está interferindo na vida de todos nós.

Dona Irene: E ela falou para mim que a professora disse que não tinha nada a ver com a greve, e que a obrigação deles era chegar no horário, e se quisessem fazer a prova tinham que trazer um atestado médico, ou então pegar uma autorização com o Pedagogo. Pode isso, Juracy?!

Vó Juracy: Como pode existir uma educação onde o direito de estudar é tirado pela ausência de uma administração que só produz a tristeza, e não a alegria? Ah!, meu São João! Meu São João!

Seu Pixa (entra com as crianças cantado):

Meu São João!

Meu São João!

Meu São João!

Eu vim pagar a promessa

De trazer esse boizinho

Para alegrar sua festa

Olhos de papel de seda

Com uma estrela na testa

Chora, chora, Boi da Lua

Vem pedir uma esmola

Pra aquela boneca de anil

Mamãe eu vi Boi da Lua

Dançar no planeta do Brasil

Mamãe eu vi Boi da Lua

Dançar no planeta do Brasil”

Dona Irene: Viva São João! Viva São João! Viva Nosso Bumba-Meu-Boi!

Vó Juracy: As crianças aprenderam muito com a festa! Viva São João! Viva São João! Viva Meu Boi de Raça!

Tiquinho e Jacira: Viva Boi da Gente! Viva Boi da Gente!

Vó Juracy: E o peixe pra caldeirada, comprou?!

Seu Pixa: A Candeia disse que o mercado tava alagado de bosta. E tá mesmo!Tem gente dizendo que é o novo mercado, Mercado Flutuante! Projeto de revitalização turística para a Copa de 2014! Vai ter até catraia! Nos íamos trazer tambaqui, mas tava de 20, de 25, de 30, de 70, de 90, de 100 e 120 paus! E a Boiúna já tá o rio para alagar a canoa desses preços…

Tiquinho: Vem-que-vindo! Vem-que-vindo! A Boiúna no remanso esse preço alagar! E nadar no rio de bosta nem pensar, não é, vó?

Vó Juracy: É mesmo! E o pirarucu, deu para comprar?

Jacira (canta para todos): Sai Boiúna! Sai Boiúna! Sai! Sai de seus domínios!Com seus olhos prateados encantar esse preço, menino! Dona Jura, tinha de 25 e 28 tocos o kg seco, o fresco de 17 a 18 o kg. Pirarucu só se for pra rico!

Dona Irene: Deixa que a Boiúna vai encantar… Não tinha pacu de pobre?

Seu Pixa: Só de rico. Dez por 10 do graúdo, que ainda não graúdo, e dez por 20. Pacu na folha da bananeira, nem pensar…

Vó Juracy: Matrinxã, não deu pra comprar não?

Tiquinho: Vó, a Boiúna vai comer esse preço! Duas por 10, três por 10, quatro por 10. Se eu tiver que nadar eu nado!

Dona Irene: O tucunaré, que dá um delicioso caldo, deu para comprar?

Seu Pixa: Ó, rainha dos rios, devora esses preços. Tem de 5, de 6 , de 7, de 8, de 10 tocos o kg. Vai?

Vó Juracy: Na passagem pelos igarapés, ela vem trazendo muito peixe! Muito peixe! E o preço, como vai ficar? E a prima da matrinxã, a curimatã?

Tiquinho: A “curica”, graúda, tava cinco por 10, sete por 10, onze por 10, doze por 10, dezesseis por 10, vinte por 10, e o monte 10 tocos.

Dona Irene: Olha o olho da Boiúna prateado encantando esse preço! Não tinha aracu? Frito é uma delícia!

Seu Pixa: Tem o grande de dois por 10, três por 10, e de quinze por 10, o preço sobe.

Vó Juracy: E o nosso delicioso jaraqui, deu para comprar?

Jacira: Ei, Pixa! Da para acordar a Boiúna, que tá adormecida debaixo dessa cidade, para ela engolir esse preço? O “jaraca”, frito, cozido, é muito gostoso com um tucupi. Mas tinha de dez por 10, dez por 15, dez por 30. A cheia vai trazer fartura. O graúdo, dez por 20.

Dona Irene: Eu vou com você! E o mapará, tinha não?

Seu Pixa: Tinha numa só banca de cinco por 15 tocos. Boiúna, sobe o rio e devassa esse preço!

Vó Juracy: Eita preço brabo! Vou pegar meu balaio; o Pixa, sua tarrafa; Irene pega a zagaia, que vamos sair para pescar com as crianças, para a gente na alegria da pesca desencantar esse rio de preço alto.

Jacira: Posso cantar e encantar vocês com a lenda da Cobra Grande!?

Dona Irene: Claro! Conta, enquanto a gente se prepara para a pescaria. Conta, o tiquinho ta doido para ouvir.

Jacira: “Conta a lenda que numa tribo indígena da Amazônia uma índia, grávida da Boiúna (Cobra-grande, Sucuri), deu à luz a duas crianças gêmeas que na verdade eram cobras. Um menino, que recebeu o nome de Honorato ou Nonato, e uma menina chamada de Maria. Para ficar livre dos filhos, a mãe jogou as crianças no rio. Lá no rio, eles, como cobras, criaram-se. Honorato era bom, mas sua irmã era muito perversa, prejudicava os outros animais e também as pessoas…”

Tiquinho: Como os governantes dessa terra, não é, Jacira?

Jacira: É mesmo. “Eram tantas as maldades praticadas por ela que Honorato acabou por matá-la para pôr fim às suas perversidades…”

Vó Juracy: Com amor, diálogo e amizade a gente acaba essa perversidade.

Jacira: Acaba mesmo! “Honorato, em algumas noites de luar, perdia o seu encanto e adquiria a forma humana, transformando-se em um belo rapaz, deixando as águas para levar uma vida normal na terra. Para que se quebrasse o encanto de Honorato era preciso que alguém tivesse muita coragem para derramar leite na boca da enorme cobra, e fazer um ferimento na cabeça até sair sangue. Ninguém tinha coragem de enfrentar o enorme mostro. Até que um dia um soldado de Cametá (município do Pará) conseguiu libertar Honorato da maldição. Ele deixou de ser cobra d’água para viver na terra com sua família.” Boiúna!, encanta os maus versadores das coisas públicas.

Tiquinho (abraça carinhosamente Jacira): Essa lenda é de origem da região norte do Brasil, Pará e Amazonas. E boiúna quer dizer, no tupi, boi = “cobra” e una = prata. Não é, Jacira?

Jacira: É sim! Agora vamos todos cantar (todos se reúnem para cantar):

Vem Boiúna! Vem!

Vem Boiúna! Vem!

No remanso encantar

Vem Boiúna! Vem!

No remanso encantar

Os políticos que dessa terra

Não sabem cuidar

Os políticos que dessa terra

Não sabem cuidar

Embaixo dessa terra

Vive adormecida

Traz no brilho dos seus olhos

A luz prateada do Luar

Vem Boiúna! Vem!

Vem Boiúna! Vem!

No remanso encantar

Vem Boiúna! Vem!

No remanso encantar

Os políticos que dessa terra

Não sabem cuidar

Os políticos que dessa terra

Não sabem cuidar

Encanta quem produza

A miséria desse lugar

Que na falta d’água

Do transporte coletivo

Do bem estar na escola

Saúde e moradia

Faz essa gente penar

Vem Boiúna! Vem!

Vem Boiúna! Vem!

ECONOMIA DOMÉSTICA ― NO BALANÇO DOS PREÇOS

Feioada

O PREÇO DO PORCO NO DES-GOVERNO DA CHEIA

Dona Candeia (entra na cozinha de Dona Juracy): Oh!, Juracy! Oh!, Juracy!Trouxe os ingredientes para preparar a feijoada para a festa!

Vó Juracy: Que bom! E a cheia continua fazendo o preço subir?

Dona Candeia: Tá mesmo! Além do preço subindo no “pau de sebo”, para entrar no mercado tem que pular por cima de pontes improvisadas pelos comerciantes! O rio já encheu muito, e tá empurrando de volta toda bosta que os prefeitos fizeram em Manaus! É a Iara que não quer mais seu rio poluído! Cadê o Tiquinho?

Vó Juracy: Manaus não tem tratamento de esgoto! O Tiquinho tá lá no fundo do quintal com o seu Pixa, ensaiando o Bumbá-Meu-Boi! Já sabe qual a lenda que vai contar na festa?!

Dona Candeia: Já sim! Depois quero contar ao Tiquinho! (Entra com seu Pixa na cozinha, cantando e dançando):

Eu tô soltando toada!

Mexendo com a ilha

Confirmando meu valor…

Eu tô soltando toada!

Mexendo com a ilha

Confirmando meu valor…

Garoto traz o mexiquerador!

Eu vou dar matacá neste cantador!

Garoto traza o mexiquerador!

Eu vou dar matacá neste cantador!

Vó Juracy: Que beleza essa toada! Só o Pixa para fazer a gente se lembrar de nossos laços culturais com nossa terra! Ah!, meu Maranhão!

Seu Pixa (continua a dançar com o Tiquinho): E a feijoada, vai ter?

Dona Candeia: Fui comprar feijão! Encontrei o feijão Preto de 4 tocos a 4 e meio, vai 5 tocos. Não da pra comprar não!

Tiquinho: O Curupira vai falar com Iara pra baixar as águas do rio e junto com ela o preço, não é, vó?

Vó Juracy: Vai mesmo! E o feijão carioquinha, deu pra comprar?

Dona Candeia: Pensei em comprar, mas tava R$ 2,50, encontrei de R$ 3,00, foi a R$ 4,00, e tem até de R$ 5,00. Vai na feijoada?

Seu Pixa (noutra toada): Curupira, cadê Meu Boi?

Ê, meu Boi!

Curupira, cadê Meu Boi?

Ê, meu Boi!

Deixar soltar o Urro!

Nos cantos e encantos da Natureza!

Para essa gente acordar!

Tiquinho: Curupira vai falar! Curupira vai falar com a Mãe das Águas pra fazer o preço baixar, não é vó?

Vó Juracy: Vai mesmo! E o feijão rajado, subiu no preço?

Dona Candeia: O preço era R$ 3,70, foi a 5 tocos e quem pode comprar de 6 reais vai pular o banzeiro de bosta!

Seu Pixa (pega o aluá e começa a servir a todos): Vai uma dose de aluá?

Curupira vai deixar meu boi urrar na floresta!

Urra! Urra!, meu boi bonito!

Vó Juracy (prova o aluá): Ei, tá! Até a festa isso vai tá uma beleza! E o feijão branco e o manteiguinha, nem esses deu pra comprar?

Dona Candeia (dá uma talagada): O aluá tá bom mesmo! Docinho! Docinho!Porque o preço do feijão branco é amargo, de 5 e 6 tocos; o manteiguinha, de 6 a 7. Vai feijoada sem feijão?

Tiquinho (cantando): Iara, Mãe dos Rios!

Houve o Curupira encantar!

Iara, Mãe dos Rios!

Houve o Curupira encantar!

(perguntando) Não, é vó?

Vó Juracy (passa a mão no rosto do tiquinho): A Iara vai escutar sim, meu Tiquinho! E a farinha branca, subiu nas águas?

Dona Candeia: Subiu também! E não é culpa da Iara! Muito menos do Curupira! Vai de 2,50 a 3,00 reais a seca, e a surui, 4 reais. Não tem como comprar mesmo.

Seu Pixa: Peraí! Curupira não deixa o porco sumir no preço! Feijoada sem feijão é brabo. Feijoada sem “leco leco”, tô lascado! Vai baixar o rio, minha Mãe Iara?

Vó Juracy: Vai, diz logo o preço, que eu vou tomar uma dose de aluá para aguentar a subida do preço!

Dona Candeia: Deixa eu tomar mas uma também! A orelha do “leco leco”, 8 tocos o kg; pé, também 8 tocos o kg; um rabinho (Rhuuuu!) 8 tocos o kg, a língua, que não é a que a Catarina gosta, tá 12 reais o kg.

Tiquinho: Ainda bem que a Catirina só gosta dá do boi.

Dona Candeia: Coitado do Chico se ela desejasse a do porco!

Seu Pixa: A costela da Eva, vai ter?

Dona Candeia: Da Eva pode até ser! A do “leco leco” tá de 10 tocos, vai a da Eva ou a do porco?

Vó Juracy: Linguiça, paio e bacon para dá um gosto, vai ter não?

Dona Candeia: Tudo um preço só 12 paus, e só é vendido em duas bancas. Deu não, minha amiga! Deu não!

Tiquinho: Candeia! Não vende tudo misturado não?

Dona Candeia: Tem, meu filho! Mas quem vai comprar de 9 tocos o kg.

Vó Juracy: Não vamos desanimar! A alegria faz parte dessa comunidade, e a festa vai ter assim mesmo, não é, Pixa?! Manda um canto para compor a alegria de estar com vocês. E, Candeia, conta a tua lenda! Vai! Eu e o Tiquinho acompanhamos com o pandeiro e o checo-checo que ele aprendeu a tocar!

Dona Candeia: Eu começo! E o Pixa canta no final da lenda!

Seu Pixa: Enquanto isso, eu aqueço com o aluá!

Tiquinho: Ei, quero pedir uma coisa à Candeia. De tanto falar na Iara, dá pra contar a lenda sobre ela?

Dona Candeia: É ela que vou contar agora. Vai, Jura, toca esse pandeiro! Lá na Paraíba li um livro que dizia que: “A Sereia européia – e grega – encontrou no Brasil duas mitologias dos povos formadores de nossa nação, onde há uma entidade feminina ligada à água possuidora de dotes maternos, e beleza capaz de enamorar o incauto que vagueie em seus domínios. Assim é Iemanjá, Dona Janaína, Princesa de Iaocá, Rainha do Mar, dos cultos afro-brasileiros, dominando mares e amando Xangô. Mãe e amante dos afoitos pescadores e mestres de saveiros dos mares do norte. Assim é a Iara dos indígenas, habitando rios e enamorando-se dos bravos e solitários guerreiros das tribos amazônicas. A mitologia indígena é constituída de deuses – Heróis míticos, criadores e civilizadores, que deram origem às tribos, que deram origem às primeiras coisas aos homens – e demônios ou gênios maus – com poderes quase idênticos aos deuses – que maltratam e perseguem índios. A estes, como aos primeiros, seguem os selvagens prestam culto, com cerimoniais que incluem canto, dança e oferendas.” Deixa eu tomar um pouco de aluá para continuar o canto!

Vó Juracy: Cuidado, Pixa! A Irara vai te encantar!

Seu Pixa: Vou já para a beira do rio!

Dona Candeia: Olha o encante, Pixa! “A Mãe das Águas, Iara, é uma personagem do nosso folclore brasileiro. De acordo com a lenda, de origem indígena, Iara é uma sereia (corpo de mulher da cintura para cima e de peixe da cintura para baixo) morena de cabelos negros e olhos castanhos. A lenda conta que a linda sereia fica nos rios do país, onde costuma viver. Nas pedras das encostas, costuma atrair os homens com seu belo e irresistível canto. [Olha o encante, Pixa!] As vítimas costumam seguir Iara até o fundo dos rios, local de onde nunca mais voltam. Os poucos que conseguem voltar acabam ficando loucos em função dos encantamentos da sereia. [Tá vendo o que acontece com os homens, Pixa?] Neste caso, conta a lenda, somente um ritual realizado por um pajé – chefe religioso indígena, curandeiro – pode livrar do feitiço.” Nem o mijo da Catirina te salva!

Vó Juracy: Ainda vai pro rio, Pixa?

Seu Pixa: Vou mesmo! Vou tomar aluá com ela no fundo do rio! Conta sua origem para o Tiquinho saber!

Dona Candeia:Contam os índios da região amazônica que Iara – [Ouviu, Pixa?] – era uma excelente índia guerreira. Os irmãos tinham ciúmes dela, pois o pai a elogiava muito. Certo dia, os irmãos, como forma de defesa. Após ter feito isso, Iara fugiu para as matas. Porém, o pai a perseguiu e conseguiu capturá-la. Como punição, Iara foi jogada no rio Solimões (região amazônica). Os peixes que ali estavam a salvaram e, como era noite de lua cheia, ela foi transformada numa linda sereia.”

Tiquinho: Então Iara significa “aquela que mora nas águas”, não é, vó?

Vó Juracy: Belíssimo! Belíssimo!, Candeia! É mesmo, Tiquinho! E ela vai baixar as águas para a gente festejar São João! Mas espero que ela encante todos os maus políticos que dizem cuidar dessa terra!

Seu Pixa: É que é para eles serem comidos pela pirará lá no fundo do rio!Posso cantar?!

Dona Candeia: Pode mesmo! Canta logo, home, que a noite já vai chegando, e a Iara vai tá te esperando!

Seu Pixa: Deixa ela me encantar!

Ô dona da casa, deixa meu boi entrar!

Ô dona da casa, deixa meu boi entrar!

Que no som da matraca ele possa sua casa alegrar!

Que no som do Zabumba ele possa sua casa alegrar!

Urra, meu boi, na alegria da canção!

Urra, meu boi, na alegria da canção!

ECONOMIA DOMÉSTICA ― NO BALANÇO DOS PREÇOS

Frutas

SUBINDO NO PAU DE SEBO

Tiquinho (entra em casa a cantar): Boi! Boi! Boi… Boi! Boi… Bumba-Boi!Arreda, Arena… Deixa meu Povo passar! Arreda, Arena… Deixa meu Povo passar! Arreda… Arreda… Deixa meu Povo passar!

Vó Juracy: De boa! Que folguedo!

Tiquinho: Seu Pixa começou a ensinar os cantos para a Festa Junina!

Vó Juracy: Ainda bem que na rua em que moramos os traços culturais que cada um trouxe para a nossa comunidade são alegres!

Tiquinho: É mesmo! Tem paraense, piauense, maranhense, cearense…, que mantém seus laços culturais para não se deixar envolver com as falsas políticas do governo! Quando eu estava a meio caminho da feira, encontrei Dona Dalva, ela falou que ia à escola do Caneca!

Vó Juracy: O que foi que aconteceu?

Tiquinho (coloca a sacola da feira na mesa): É que na escola dele, ela foi chamada, porque lá o estudante até recebe a farda do governo, mas o pai e a mãe tem que assinar um termo de responsabilidade comprometendo-se de comprar a farda sugerida pela escola. É o tal de Centro de Excelência, vó!

Vó Juracy: Eles estão impedindo as realizações concretas do existir do estudante, fazendo se afirmar o blefe que é a educação no estado do Amazonas!

Tiquinho: Dona Candeia me disse uma vez: “Educação é movimentar, elevar a potência criadora, partindo do já conhecido para além dele. É que isso vai possibilitar as construções de situações constantes de cidadania”. E é o que menos ocorre nessa cidade, não é, vó?

Vó Juracy: É mesmo! E aí, como foi na feira? Comprou as frutas para nos ajudarmos a fazer o “Pau de Sebo” para a brincadeira de Santo Antônio!

Tiquinho: Vó, se depender da cheia, santo vai ficar sem “Pau de Sebo”! O maracujá, a senhora disse que era 15 tocos o cento, agora tá 40. Não deu para comprar…

Vó Juracy: A cheia tá fazendo o preço subir no “Pau”. E o mamão, vai ter?

Tiquinho: Ainda tá subindo no “Pau”. Era 1 real, foi a 1,50, e agora é 3 tocos. E agora, vó?

Vó Juracy: A cheia vai subindo no “Pau”. E a laranja, comprou?

Tiquinho: Tinha a Paulista, de 28 a 30 tocos; a regional, de 14 foi a 15, depois a 20, e agora é 25 o cento. Não deu para comprar.

Vó Juracy: Não tinha tangerina?

Tiquinho: Andei muito! Encontrei de R$ 3,30 a R$ 4,50 a dúzia. O cento era R$ 25,00. O pessoal se aproveita, não é, vó?

Vó Juracy: Esse “Pau” vai ficar pobre! E a goiaba?

Tiquinho: Tá em falta. Agora que industrializaram, só na polpa batizada. Quando encontrei, foi de 2 tocos a 3. Cheia na goiaba, não é, vó!

Vó Juracy (canta na cozinha): “Sou eu, Rosa Menina da Folha da Jussareira, da Folha da Jussareira! Eu, Rosa Menina da folha da Jussareira! Da folha da Jussareira! Da folha do Jussara!” Vamos passar bastante “sebo” para ver se o preço escorrega. E abacate, tinha?

Tiquinho: Só o de fora, R$ 2,19 o kg ,vai a R$ 2,50 e tem de R$ 2,80, de R$ 3,00, e ficou R$ 3,70. O regional, quando tinha era de 2 a 3 tocos. Só se for na mesa da lembrança do sabor! Passa “sebo”, vó!

Vó Juracy (começa a cantar): “Meu balaio! Meu Balaio de Guaimã! Meu balaio!Meu balaio de Guaimã! Que eu deixei no Maranhão! Ai! Ei! Meu Balaio! Ai! Ei! Meu Balaio!” O biribá, a graviola, jenipapo, bacuri, piquiá, uixi coroa, uixi liso… subiram também no “Pau”?

Tiquinho: Subiram? Não! Sumiram, vó! E não foi o Curupira!

Vó Juracy: E o abacaxi para fazer o aluá, deu para comprar? Seu Pixa perguntou de mim se ia ter o aluá, que ele conseguiu destilar uma cachacinha, e queria apurar o aluá. Além da música, pediu para cada um de nós contarmos uma lenda no dia da festa. Você já sabe sua lenda?

Tiquinho: O aluá vai ficar sem a cachaça! E a cachaça vai ficar sem o aluá. O preço vai de 1 real a 2,50. E só vende se for de 50 unidades.

Vó Juracy (os dois começam a dançar): “É Pau Pereira! É Pau Pereira! É o Pau de opinião! Todo pau dobra o galho! Só o Pau Pereira não!” Vamos falar com a vizinhança para ver se eles ajudam. Quando viemos para cá, muitos de nós plantamos árvores dessas frutas, e com certeza com a alegria dessa gente essas frutas vão aparecer nesse “Pau de Sebo”! A gente é Pau Pereira! Pau de Opinião!

Tiquinho: A Lenda que estudei é a do Bumba-Meu-Boi!

Vó Juracy: Vou me alegrar! Conta! Peraí, vou pegar o pandeiro para acompanhar! Vai, começa…

Tiquinho: SOBRE O BUMBA MEU BOI!

O bumba-meu-boi é uma das mais ricas manifestações do folclore brasileiro, ou da nossa cultura popular, como preferem outros.

É uma festa popular, de grande sensibilidade cultural, cujo conteúdo varia entre os inúmeros grupos de bumba-meu-boi, existem quatro principais formas de dança: o Boi de Orquestra, Boi de Pindaré, Boi de Zabumba e o Boi de Matraca, mas, basicamente, desenvolve-se em torno da lenda do fazendeiro que tinha um boi de raça, muito bonito, e querido por todos e que, inclusive, sabia dançar.

Na fazenda trabalhavam Pai Chico, também chamado negro Chico, casado com Catirina, tem o Cazumbá, Amo, os vaqueiros, o rapaz do Amo, o Diretor dos índios, os índios. E ainda tem o Gavião Real!

Catirina fica grávida e sente desejo de comer a língua do boi. Pai Chico fica desesperado. Com medo de Catirina perder o filho que espera, caso o desejo não seja atendido, resolve roubar o boi de seu patrão para atender ao desejo de sua mulher.

O fazendeiro percebe o sumiço do boi e de Pai Chico e manda os vaqueiros procurá-los, mas os vaqueiros nada encontram. Então o fazendeiro pede para o Diretor dos Índios que ajude na procura.

Os índios conseguem encontrar Pai Chico e o boi, que neste intervalo havia adoecido. Os índios levam Pai Chico e o boi à presença do fazendeiro, que interroga Chico e descobre porque ele havia levado o boi.

Os pajés (ou doutores) são chamados para curá-lo, e após várias tentativas conseguem curar o boi, que se levanta e começa a dançar alegremente. Então o fazendeiro perdoa Pai Chico e tudo termina em festa. Mas, vó, o Seu Pixa disse que o mijo da Catirina é que salva o Boi?

Vó Juracy: Valeu! Lindíssimo! Esse seu Pixa! É porque ela era a mulher mais bonita da fazenda! É sobre o Ciclo do BUMBA-MEU-BOI. Aprendeu?

Tiquinho (a vó continua a tocar): Aprendi! Escuta só! Os ensaios iniciam por volta do mês de maio. Nessa época, o “couro” do boi, que na verdade é um veludo, já está sendo bordado, e só pode ser visto pelas pessoas por quem está sendo bordado. É um segredo guardado a sete chaves, até que o boi seja batizado e consagrado a São João. A religiosidade está presente todo o tempo na brincadeira do bumba-meu-boi.

Os ensaios continuam até 13 de junho, dia de Santo Antônio, quando ocorre o último ensaio. Dia 23 de junho, véspera do dia de São João, o boi é batizado e o novo “couro” bordado e montado na armação de madeira em forma de touro. É mostrado para todos.

A partir daí o boi passa a apresentar-se, frequentemente, até por volta do mês de setembro.

Uma vez convidado, o grupo apresenta-se defronte a casa de quem o convidou. A apresentação começa um pouco antes da casa, quando o amo do boi canta a toada inicial, chamada Guarnecer, organizando o grupo para a apresentação.
Depois do
Guarnecer, é a hora do Lá Vai, que é uma toada para avisar o dono da casa e demais que o boi já está indo. Depois do Lá Vai, é cantada a Licença, quando o boi pede licença para se apresentar.

No decorrer da apresentação, cantam louvores a São João, São Pedro, ao boi, ao dono da casa e vários outros temas, como a natureza, lendas da região, amores, política, etc. Em determinado momento começa o auto, quando apresenta a história básica de Catirina e Pai Chico, que, no entanto, pode variar muito de um grupo para outro. Também é cantado o Urra do Boi e a toada de despedida. E a apresentação termina.

As apresentações sucedem-se até por volta do mês de setembro, quando ocorre a morte do boi. Para a morte do boi, é preparado um grande mourão no centro do terreiro, todo enfeitado. Defronte ao altar de São João reza-se a Ladainha. A matança do boi dura três dias ou mais, com muita festa e dança.
No final, o boi é morto simbolicamente, onde o vinho representa o seu sangue. O “couro” que envolvia a armação de madeira é retirado. Para o próximo ano, outro “couro” será bordado, novas toadas serão compostas e o ciclo recomeça.

Vó Juracy (abraça o Tiquinho): Lindo! Lindo! É a potencia de agir de uma criança na construção dos seus afetos comunitários alegres! “Se o boi morrer, o que será de mim?”

Tiquinho (canta): Vai morrer não, vó. Vai morrer não! Vou por a mão no regador, não vou deixar meu boi queimar…

Ele não sabe que seu dia é hoje,

Ele não sabe que seu dia é hoje,

Ele não sabe que seu dia é hoje,

Ele não sabe que seu dia é hoje.

.

O céu forrado de veludo azul marinho,

Veio ver devagarinho,

Onde o boi ia dançar,

Ele pediu pra não fazer muito ruído,

E o santinho distraído,

Foi dormir sem se rezar.

.

E vem de longe o eco surdo do bumba, sambando,

A noite inteira encurralado batucando,

E vem de longe o eco surdo do bumba, sambando,

A noite inteira encurralado batucando.

.
Bumba meu Pai do Gambo ô ô,

Bumba meu Boi Bumbá,

Bumba meu Pai do Gambo ô ô,

Bumba meu boi bumbá.

.
Bumba meu Boi Bumbá,

Bumba meu Boi Bumbá.

.
Estrela D’alva lá no céu já vem surgindo,

Despertou quem tá dormindo,

Por ouvir galo cantar,

Na minha rua restam cinzas da fogueira,

Que levou a noite inteira,

Fagulhando para o ar.

.
E vem de longe o eco…

(Boi Bumbá, Waldemar Henrique)

ECONOMIA DOMÉSTICA ― NO BALANÇO DOS PREÇOS

Mesa Junina

NA PREPARAÇÃO DA MESA JUNINA

Tiquinho (olha da janela o fundo do quintal): Vó! Ô, vó!Como tá ficando belo o nosso canteiro!

Vó Juracy: É cada vez mais belo!Como foi hoje na aula, teve merenda?

Tiquinho: As sementes estão se atualizando… Vai dar belas verduras! Lá na escola continua na mesma, sem merenda… A “mesa não tá farta”, e, além disso, agora a diretora da escola anda cobrando o fardamento escolar, só entra se tiver com a farda completa!

Vó Juracy: E ela não sabe que na ausência da farda o estudante tem o direito de entrar na escola de blusa branca e calça? Faz tempo que o governo não fornece o fardamento escolar, e ainda fica obrigando as famílias a comprar. Os pais deveriam reclamar os direitos de seus filhos, que o governo não está cumprindo: distribuir gratuitamente o fardamento!

Tiquinho: E tem gente que ainda fala que tem orgulho de ser Amazonense… Vó! Você comprou os preparos para a “Festa Junina” na nossa rua?

Vó Juracy: Eu ia fazer banana em calda, mas de 5 tocos foi a 8, e agora é 10 reais…

Tiquinho: O rio não tá baixando, vó?

Vó Juracy: Então resolvi fritar umas bananas pacovão para ajudar na festa. O cacho verde é 15 reais. A amarela 10 e a podre 5 reais. Chegando o caminhão com novo carregamento, o preço não muda! A banana fica podre e o preço não baixa.

Tiquinho: O rio vai secar, não é, vó? Vai ter aquele bolo de macaxeira?

Vó Juracy: Eu até queria fazer, mas o saco era 30 e agora são 60 reais. Só compra quem pode!

Tiquinho: Vó, o rio vai baixar, não é, vó? Vai ter pelo menos a tapioca?

Vó Juracy: É que o litro da goma é R$ 1,00 e chega R$ 3,50. Tapioca, nem pensar!

Tiquinho: A cheia vai pegando a culpa, não é, vó? Vai ter ao menos castanha…, a do Pará?

Vó Juracy: É R$ 1,00 o litro, vai a R$ 1,50 e chega a 2 tocos, eu acho que esse ano nem a tapioca nem o mugunzá vai ser preparado junto com a castanha…

Tiquinho: Eita cheia braba, não é, vó?! Nem o mungunzá?

Vó Juracy: A Candeia disse que foi comprar, mas era R$ 2,00, foi a R$ 2,50, e está R$ 3,00 o kg. Não vai ter não.

Tiquinho: Se não vai ter tapioca nem mungunzá com castanha do Pará, não dá para colocar coco seco?

Vó Juracy: Seu Xaveirinha ficou de dar, mas era 50 centavos a unidade, foi a 80, e agora é 1 real. Vai comprar só quem pode.

Tiquinho: Vó! Dona Jacutinga disse que ia cozinhar uns cará roxo…?

Vó Juracy: Mas ela disse que não vai dar não. O quilo era R$ 1,50, foi a R$ 2,00, e agora é R$ 6,00. Não da para comprar não.

Tiquinho: Vó, seu Tabaco disse que ia trazer uns tucumãs pra gente comer e depois brincar com os caroços…

Vó Juracy: É, o tucumã sofre a variação de preço conforme a demanda, e ele vem do Pará, o cento vai de 20, 25 a 30 tocos. E não é a cheia, não é, Tiquinho?

Tiquinho: Vó!, o seu Cavaco disse que ia trazer farinha de tapioca… especial…

Vó Juracy: Tiquinho, a cheia vai acabar, mas a farinha de tapioca que ele foi comprar era R$ 3,00, estava R$ 3,50, e está R$ 4,00. A cheia vai acabar!

Tiquinho: Vó, antes da festa, o rio vai baixar, Dona Zefa disse que ia fazer vatapá, seu Bicalha vai dar o pão…

Vó Juracy: Só que Dona Dalva foi comprar o camarão, aí a cheia fez o preço subir de R$ 9,00 o kg, foi a 14, encheu mais, foi a 16, encheu mais ainda, foi a 18, e hoje quem pode compra de 24 reais. Vai vatapá sem camarão?

Tiquinho: Vó! Não vou perguntar nem pelo tacacá, que já vi que não vai ter. E o milho para fazer canjica, bolo, pipoca?

Vó Juracy: Sumiu! E a gente não vai comprar o do supermercado, né?!

Tiquinho: Além de vir embalado e sem sabor, pode ser transgênico, e isso dá aquela doença, câncer, não é, vó?

Vó Juracy: Não é… Mesmo! Principalmente o social, que é o mas perigoso!Seu Cabaça disse que ia preparar o “gengibebe” para ao menos animar, mas tá na dependência do preço, é 4 tocos, em alguns cantos 6, e chega a 10 o kg.

Tiquinho: Seu Pixa não vai ficar bêbado. E vamos ficar sem as cantorias de Bumbá-Meu Boi e as histórias de lendas de nossa terra.

Vó Juracy: Não se preocupe, Tiquinho, com amor, a amizade e o dialogo que possuímos, a festa vai acontecer, e toda a rua vai transformar tudo isso em alegria!

Tiquinho: Vó, e o Pé de Moleque vai ter não?

Vó Juracy: Vai não! Por causa da cheia. E tem cuidado com o seu…

Tiquinho: Vó, até o Curupira tem que ter cuidado?

Vó Juracy: Esse, tá difícil perder o pé. Eles têm medo da natureza naturante. E, além do mais, vão ter que desfazer o nó que é essa administração da Zona Franca Verde!

Tiquinho: Eita! Vou esperar o curupira na festança!

ECONOMIA DOMÉSTICA ― NO BALANÇO DOS PREÇOS

LegumesAFOGAMENTO DOS PREÇOS PELA ZONA FRANCA VERDE

Vó Juracy: Vizinha, que bom que a senhora cedeu essa parte do terreno para a gente poder fazer o canteiro!

Dona Candeia: Jura, do jeito que vai o preço das coisas, o melhor que temos a fazer é fazermos a nossa economia menor!

Vó Juracy: Vou revolver bastante a terra para que ela possa se sentir acariciada por quem tem o tom da fertilidade, nós, mulheres!

Dona Candeia: A senhora tem razão! Vamos fazer esse canteiro produzir o suficiente para nossas necessidades básicas, e ainda distribuir o que sobrar na vizinhança!

Vó Juracy: É mesmo! Tô esperando o Tiquinho trazer as sementes que seu Jorge ficou de arrumar pra nós!

Dona Candeia: São sementes de quê?

Vó Juracy: De tomate, cebola, chicória, cheiro, cebolinha, pimenta doce e pimenta ardosa.

Dona Candeia: Ah!, é bom plantar isso porque deste que começou a tal “cheia do rio” que eu não sei o que é tomar um caldo com sabor da terra!

Tiquinho: Vó! Vó! Oi, vó! Cheguei!

Vó Juracy: Pegou as sementes com seu Jorge?

Tiquinho: Peguei! Ele também mandou umas sementes de jerimum caboclo, couve, feijão verde, batata e repolho!

Vó Juracy: Ainda bem! Porque hoje o almoço ia ter cozidão, mas vai ficar só na água e no sal!

Tiquinho: Ainda é a cheia, vó?

Vó Juracy: É que o jerimum caboclo grande era 2 tocos, agora é de 5 a 20 reais. Quem pode, leva…

Dona Candeia (sulca a terra com as mãos): “Debulhar o trigo… Recolher cada bago do trigo… Forjar do trigo o milagre do pão… E se fartar de pão…”

Vó Juracy (acompanha a canção): A couve era 0,10 a 0,20 e agora é 0,40 centavos… Muita variação de preço…

Tiquinho: (ajuda separar as sementes): Ainda é a cheia, vó?

Dona Candeia: “…Decepar a cana… Recolher a garapa da cana… Roubar da cana a doçura do mel… Se lambuzar de mel…”

Vó Juracy (começa a plantar as sementes): O feijão verde era 1 real, passou para 3 e agora é 5… Quem pode, leva…

Tiquinho: Ainda é a cheia, vó?

Dona Candeia: “…Afagar a terra… Conhecer os desejos da terra…”

Vó Juracy: (agua o canteiro): O repolho era R$ 2,50, passou para R$ 3,50, foi a R$ 4,00, e sumiu… Não tem mesmo…

Tiquinho: A cheia já vai acabar, não é, vó?

Dona Candeia: “…Cio da terra, propícia estação…”

Vó Juracy: A batata era R$ 2,50, foi a R$ 3,50 e chegou a R$ 4,00… Não queira saber…

Tiquinho: O rio tá baixando seu volume, não é, vó?

Dona Candeia: “…De fecundar o chão…”

Vó Juracy: “Cio da Terra”, Chico Buarque de Holanda, não é, Candeia?

Tiquinho: Que bela canção vocês cantaram!

Dona Candeia: Quem tocar na terra para fecundá-la, é preciso saber que ela possibilita compor os afetos alegres que sustentam a existência das pessoas na comunidade!

Vó Juracy: É a natureza naturante naturando o homem para viver alegremente em sociedade!

Tiquinho: Vê só se eu aprendi. O corpo terra compõe com a semente, a semente traz nela uma pequena plantinha, que para se atualizar, compõe com o vento, a chuva, o sol e alegria de quem planta! E a Zona Franca só no “campo forte e mesa farta” trazendo a tristeza!

Dona Candeia: Mas agora eles é que vão ficar tristes com nosso canteiro, nossa alegria, e tantos outros canteiros e tantas outras ações coletivas para diminuir a força desses falsos governos…

ECONOMIA DOMÉSTICA ― NO BALANÇO DOS PREÇOS

O Brasil, hoje!, a partir do governo Lula, é um país considerado internacionalmente como tendo uma economia forte, que não chegou a ver-se, em momento algum, como seria a fantasiosa perversão da direita/mídia sequelada, alquebrado com a denominada crise. E embora não creiamos nessa crise já que crise é mudança, alteração ontológica , pois desde Marx sabe-se que o Capitalismo mantém-se sempre a partir de simulações de crise falsas crises que desestabilizam apenas para os capitalistas possam auferir seu lucro do estado de exceção —, é entre os trabalhadores, as donas de casa, os estudantes, etc, que se sente na hora do almoço a ausência de ingredientes caros ao um paladar, mas é aí também, quando estes se despessoalizam em multidão que todas as possibilidades se tornam reais linhas de fuga de preservação de um aroma, de um tempero. Por isso este bloguinho passa a trazer situações onde se percebe os efeitos da malfadada crise na alta dos preços e… com vocês Tiquinho e Vó Juracy…

verduras1

O ESTADO DE ESCASSEZ DAS VERDURAS

Tiquinho: Vó! Vó! Cheguei! A caldeirada tá pronta?

Vó Juracy: Tá… Que fome é essa?! Não teve o desbrocante na escola?

Tiquinho: É que tá sem merenda!

Vó Juracy: (servindo o caldo) De novo? Foi a semana toda isso…

Tiquinho: É jaraqui!?

Vó Juracy: Não! (O garoto da uma colherada no prato) Hoje só deu pra comprar branquinha!

Tiquinho: Cadê o sabor do tomate?

Vó Juracy: É que o valor era 1 real o kg, e agora 4 a 6 reais. Os feirantes jogam um preço, é um só…

Tiquinho: É a cheia vó…?! E o sabor da cebola?

Vó Juracy: É que o valor era 2,70 o Kg, e agora de 2,80 a 3,50. Muita variação de preço…

Tiquinho: É a cheia vó…?! E o sabor do pimentão?

Vó Juracy: É que o valor era 2,50 o Kg, e agora é 5 paus. Muita alta no preço…

Tiquinho: É a cheia vó…?! E o sabor do cheiro-verde?

Vó Juracy: É que o valor era 2 reais um pacote com cheiro, cebolinha e chicória, e agora é 5 só o cheiro… Não queira nem saber!

Tiquinho: Não dava pra comprar só cebolinha, pra dar sabor?

Vó Juracy: (Prepara o pirão) É que o valor foi de 2 reais o maço, e agora é 2,50… Quem quer, leva…

Tiquinho: É a cheia vó…?! Nem chicória?

Vó Juracy: É que o valor era 50 centavos o maço, e agora é 4 reais… E não tem, o seu Cardoso disse que vinha uma remessa de Belém, e que ia baixar o preço… Ficou foi mais caro!!!

Tiquinho: É a cheia Vó..?! (Prova o caldo mais uma vez.) Não tem pimenta “doce” pra dar um gostinho?

Vó Juracy: É que o valor era de 2 a 2,50 o Kg, e agora é 7 a 8 contos o Kg. Quem não quer, não leva…

Tiquinho: É a cheia Vó…?! Não tem pimenta ardosa pra compensar a falta do tomate, da cebola, do pimentão, do cheiro, da cebolinha, da chicória e da pimenta doce?

Vó Juracy: É que o valor era de 1 a 2 reais o litro, e agora é 15 reais o Kg. Quem pode comprar, compra; quem não pode, fica sem…

Tiquinho: É a cheia Vó…?!

Vó Juracy: Não é não meu neto. O ribeirinho sempre plantou, acompanhado o fluxo das águas, para suprir sua necessidades básicas, e hoje dependemos dos produtos de outros estados, e a Zona Franca Verde só… Nada! É o triunfo da tal economia capitalista e a despolitização do mundo. E, de quebra, ainda jogam a culpa na natureza, o Governo na sua ausência de inteligência, cria um estado de escassez, que coloca o cidadão numa condição de carestia geral!

Tiquinho: Pelo jeito, o caldo vai ficar só na pimenta do reino e no coloral…

Vó Juracy: Do jeito que tá, vai ficar só na água e no sal! O melhor é a gente fazer um canteirinho ali do lado da varanda, senão…

Tiquinho: E eu te ajudo, vó! Mas deixa só fisgar aqui essa branquinha, que tá deliciosa assim, imagina quando a gente tiver as verdurinhas!…


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VIRTUALIZAÇÕES DESEJANTES DA AFIN

Este é um espaço virtual (virtus=potência) criado pela Associação Filosofia Itinerante, que atua desde 2001 na cidade de Manaus-Am, e, a partir da Inteligência Coletiva das pessoas e dos dizeres de filósofos como Epicuro, Lucrécio, Spinoza, Marx, Nietzsche, Bergson, Félix Guattari, Gilles Deleuze, Clément Rosset, Michael Hardt, Antônio Negri..., agencia trabalhos filosóficos-políticos- estéticos na tentativa de uma construção prática de cidadania e da realização da potência ativa dos corpos no mundo. Agora, com este blog, lança uma alternativa de encontro para discussões sociais, éticas, educacionais e outros temas que dizem respeito à comunidade de Manaus e outros espaços por onde passa em movimento intensivo o cometa errante da AFIN.

"Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias; que é atingido pelos próprios pensamentos como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, como por uma espécie de acontecimentos e de faíscas de que só ele pode ser alvo; que é talvez, ele próprio, uma trovoada prenhe de relâmpagos novos; um homem fatal, em torno do qual sempre ribomba e rola e rebenta e se passam coisas inquietantes” (Friedrich Nietzsche).

Daí que um filósofo não é necessariamente alguém que cursou uma faculdade de filosofia. Pode até ser. Mas um filósofo é alguém que em seus percursos carrega devires alegres que aumentam a potência democrática de agir.

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