Como já dissemos aqui neste bloguinho intempestivo, conforme Spinoza, os maus governos estão mais interessados em preparar armadilhas para o povo do que em auxiliá-lo a avançar.
Em Manaus, praticamente todos os serviços públicos indispensáveis são insuficientes quando não inexistentes. No caso das condições das ruas, é unanimidade que é um desses piores desserviços in-públicos. Situação propícia para demagogos de velhas eleições atualizarem a antiga anedota: “Se eleito for esta rua será fazida.” E não adianta assessor pular no ouvido: “É feita, doutor!” Não importa, a palavra já está ‘dizida’, mas a rua não está ‘fazida’.
Recuperar as ruas da cidade foi uma das bandeiras de campanha com que Amazonino, juntamente com outras fraudes – como compra de votos e abuso de poder econômico, pelo que acabou sendo cassado pela então presidente do pleito, a insigne juíza Maria Eunice Torres do Nascimento; como os votos puxados pelo vice, Carlos Souza, preso por associação ao narcotráfico -, acabou por ser “eleito”.
A partir da rua Rio Jaú – onde fica a sede da Afin -, no bairro Novo Aleixo, zona Leste de Manô, desde o início deste bloguinho vimos colocando o Projeto Poseidon, tratando da situação tragicômica das ruas da cidade. Para atualizar, passou-se o primeiro ano do prefeito cassado Amazonino e não precisava virem as primeiras chuvas do final de dezembro, que anunciam todo ano o início do período chuvoso, para saber que as condições das ruas continuam do mesmo jeito: sem condições de andar ou trafegar. Se Papai Noel quiser mostrar-se revolucionário, que “bota o pé na lama”, terá de vir de bota sete-léguas.
Quando a rua estava cheia de buracos, Poseidon estava chegando através dos buracos para levar a cidade para novas águas democráticas. Mas veio o período eleitoral e, em troca de votos (crime eleitoral), candidato botou barro e breu. Bem, o breu foi nas primeiras passadas e na primeira chuva o barro virou lama.
Aconteceu que ontem, nas proximidades da sede da Afin, alguém, talvez pelo excesso de lama, resolveu-se por abandonar a sandália no meio da rua. Os moradores – que não perdem o humor com o descaso dos governantes – quando a viram a sandália, começaram a rir e brincar de quem seria a sandália. “Paumerindo, vai lá pegar tua sandália.” “Que? Não é minha não, é da Calotina.” “Dona Xuxa, leve a sandália do Vandinho.”
Após tanto riso, chegaram à conclusão que a sandália era de algum ricaço em disfarçado reconhecimento pela periferia, pois deixar uma havaia assim ainda sem prego no cabresto, ’só gente besta rica’. Foi quando outro, que trabalha por aí em alguma mansão, lembrou que o prefeito cassado, que gosta de se alcunhar “Negão”, sem ter nada de negro, também gosta de aparecer na alta-roda de bermuda e sandália de dedo. “É a sandália do prefeito”, mais outro aventou.
Foi então que convidaram-me, bloguinho intempestivo, para fotografar e noticiar um aviso para o qual fizeram uma placa:
“VENHA BUSCAR SUA SANDÁLIA, PREFEITO!”
Mas logo lembraram – com Amazonino viajando não se sabe pra onde, o vice-prefeito Carlos Souza na cadeia e Carijó assume-não-assumindo – que Manaus está sem prefeito.
Daí deliberaram e chegaram à conclusão, já que a cidade, como diria o poeta do povo, Patativa do Assaré, tem prefeitura, mas não tem prefeito, que o povo deve reclamar o direito à sandália, assim como à prefeitura.
Finalmente, o povo na prefeitura, com direito a sandália, mas sem lama.

























































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