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UMA SANDÁLIA À PROCURA DE UM PREFEITO

Como já dissemos aqui neste bloguinho intempestivo, conforme Spinoza, os maus governos estão mais interessados em preparar armadilhas para o povo do que em auxiliá-lo a avançar.

Em Manaus, praticamente todos os serviços públicos indispensáveis são insuficientes quando não inexistentes. No caso das condições das ruas, é unanimidade que é um desses piores desserviços in-públicos. Situação propícia para demagogos de velhas eleições atualizarem a antiga anedota: “Se eleito for esta rua será fazida.” E não adianta assessor pular no ouvido: “É feita, doutor!” Não importa, a palavra já está ‘dizida’, mas a rua não está ‘fazida’.

Recuperar as ruas da cidade foi uma das bandeiras de campanha com que Amazonino, juntamente com outras fraudes – como compra de votos e abuso de poder econômico, pelo que acabou sendo cassado pela então presidente do pleito, a insigne juíza Maria Eunice Torres do Nascimento; como os votos puxados pelo vice, Carlos Souza, preso por associação ao narcotráfico -, acabou por ser “eleito”.

A partir da rua Rio Jaú – onde fica a sede da Afin -, no bairro Novo Aleixo, zona Leste de Manô, desde o início deste bloguinho vimos colocando o Projeto Poseidon, tratando da situação tragicômica das ruas da cidade. Para atualizar, passou-se o primeiro ano do prefeito cassado Amazonino e não precisava virem as primeiras chuvas do final de dezembro, que anunciam todo ano o início do período chuvoso, para saber que as condições das ruas continuam do mesmo jeito: sem condições de andar ou trafegar. Se Papai Noel quiser mostrar-se revolucionário, que “bota o pé na lama”, terá de vir de bota sete-léguas.

Quando a rua estava cheia de buracos, Poseidon estava chegando através dos buracos para levar a cidade para novas águas democráticas. Mas veio o período eleitoral e, em troca de votos (crime eleitoral), candidato botou barro e breu. Bem, o breu foi nas primeiras passadas e na primeira chuva o barro virou lama.

Aconteceu que ontem, nas proximidades da sede da Afin, alguém, talvez pelo excesso de lama, resolveu-se por abandonar a sandália no meio da rua. Os moradores – que não perdem o humor com o descaso dos governantes – quando a viram a sandália, começaram a rir e brincar de quem seria a sandália. “Paumerindo, vai lá pegar tua sandália.” “Que? Não é minha não, é da Calotina.” “Dona Xuxa, leve a sandália do Vandinho.”

Após tanto riso, chegaram à conclusão que a sandália era de algum ricaço em disfarçado reconhecimento pela periferia, pois deixar uma havaia assim ainda sem prego no cabresto, ’só gente besta rica’. Foi quando outro, que trabalha por aí em alguma mansão, lembrou que o prefeito cassado, que gosta de se alcunhar “Negão”, sem ter nada de negro, também gosta de aparecer na alta-roda de bermuda e sandália de dedo. “É a sandália do prefeito”, mais outro aventou.

Foi então que convidaram-me, bloguinho intempestivo, para fotografar e noticiar um aviso para o qual fizeram uma placa:

“VENHA BUSCAR SUA SANDÁLIA, PREFEITO!”

Mas logo lembraram – com Amazonino viajando não se sabe pra onde, o vice-prefeito Carlos Souza na cadeia e Carijó assume-não-assumindo – que Manaus está sem prefeito.

Daí deliberaram e chegaram à conclusão, já que a cidade, como diria o poeta do povo, Patativa do Assaré, tem prefeitura, mas não tem prefeito, que o povo deve reclamar o direito à sandália, assim como à prefeitura.

Finalmente, o povo na prefeitura, com direito a sandália, mas sem lama.

POSEIDON DA FALTA D’ÁGUA

E bem depois que a Cosama foi dubiamente privatizada pelo grupo Suez, tornando-se Águas do Amazonas, e enquanto o marketing do prefeito Serafim é levar água para as zonas Norte e Leste de Manaus, moradores do bairro Novo Aleixo vão queixando-se que, além de não terem rua, agora também não tem água. Já são cinco dias que o líquido precioso vai faltando nas torneiras.

No feriado de Corpus Christi, muitas famílias religiosas cancelaram suas comunhões devido à falta d’água… A roupa por lavar… As vasilhas todas sujas… Cinco dias sem tomar banho… No final de semana não deu pra ir à balada, à missa, ao shopping… Houve até quem perdeu a namorada, o emprego… Sabe o que são cinco dias sem água? E anos? E décadas? Em Manaus, há lugares onde nunca houve água encanada.

Para os turistas, vale um passeio pelo encontro das águas do Negro e do Solimões, mas não é possível ver o encontro das águas com a população. Ao contrário, até então, desde a estatal, passando pela privada, aliadas sempre às más gestões municipais, em relação à população, têm sido sempre um mau encontro. Apesar do nome Águas do Amazonas, as águas do maior rio do mundo não estão chegando até Manaus. Mas a população lembra que as eleições, sim, estão próximas. Aí as águas vão rolar… Água rola?

PROJETO POSEIDON E A CIDADE QUE CAIU NO BURACO

As águas correm para o rio,

o rio corre para o mar,

o mar deságua no oceano…

No oceano está Poseidon.”

E a capacidade gestora da Prefeitura de Manaus em fabricar casa para o Aedes aegypti, o mosquito da dengue, continua em alta, empatada ou ganha por pontos da gestão César Maia, no Rio de Janeiro. Se a endemia oficialmente ainda não se tornou epidemia é por benevolência do mosquito, ao contrário do poder público, que pratica sua malevolência para com a população manauara. Até hoje a Secretaria Municipal de Defesa Civil (SEMDEC) não apareceu como prometido para pegar o lixo que há mais de um mês instigou os moradores de ex-ruas do bairro Novo Aleixo a retirar das residências e quintais, como campanha de prevenção à dengue.

Na que nunca foi rua Rio Jaú, há mais de três anos que os moradores estão numa situação que só não é desesperadora devido ao humor e inteligência da população, a qual sabe que este é um ano de eleições municipais. Sabe ainda que a situação atual é fruto da perversidade de todas as (in)gestões dos prefeitos que passaram antes e do atual. Além disso, com as chuvas desse início de ano, os esgotos, que foram colocados a céu aberto, estão sendo fechados por lama, mato e lixo.

Mais além ainda, o nível da ex-rua, vide fotos, está baixando consideravelmente, já está a mais de um palmo. Ao que tudo indica, em Manaus, a cidade dos buracos, as ruas vão cair todas nos diversos buracos, até se encontrarem todas num buraco só. Então Poseidon, que vai chegando por baixo, irá levar todas as ruas para o rio, daí para o mar, daí para outras terras, para longe de toda esta perversidade, onde a população atualizará um novo e autêntico governo democrático, já que governo significa “gestão”, “rumo”, “direção”. Viva Poseidon! Viva!

PROJETO POSEIDON E A EFICIÊNCIA DA DEFESA CIVIL EM FABRICAR CASA PARA O AEDES AEGYPTI

E no curso das águas segue o Projeto Poseidon. Nos períodos em que ocorrem graves problemas infraestruturais em uma cidade se percebem claramente quais as concepções de enunciados como social, saúde, estética, cidadania, política de governantes que passaram e que estão passando. No caso de Manaus, percebe-se que há muito tais enunciados forma esvaziados de realidade, sendo usados apenas como redundância do signo-significante, que não serve senão ao autoritarismo e à tirania, jamais à democracia: prefeitos que passaram são conhecidos pelas conhecidas corrupções divulgadas, e o que vai passando nada fez para diminuir o impacto fulminante na população da ausência de políticas públicas e também pesam acusações de corrupção, como no caso de desvio de verba de merenda escolar, escolas fantasmas, entre outras.

Antigamente e atualmente alguns dos piores problemas são as péssimas condições das ruas e a falta de saneamento básico. Desde que foi criado este bloguinho, acompanhamos a partir do Projeto Poseidon, a situação da inexistência de espaços que possam receber o nome de rua em várias partes de Manaus. No caso da (que nunca foi) rua Rio Jaú, no Novo Aleixo, zona Leste, por ser onde se situa a sede da AFIN, pudemos participar da reivindicação dos moradores, que há três anos reivindicam a construção da rua, que só não continua na mesma condição porque a cada dia as crateras aumentam, a lama toma de conta, o lixo se acumula.

Para corroborar com isso, com a ameaça de dengue em outros estados, e com o alarme de suposto aparecimento de dengue tipo 4 (Denv-4) em Manaus, na quinta-feira 27 de março, na rua Rio Jaú e adjacências passaram soldados do exército monitorando a situação dos quintais e informando que os moradores deviam amontoar na rua os lixos volumosos, os que não daria para o caminhão de lixo levar, que na semana seguinte viriam equipes da Secretaria Municipal de Defesa Civil (SEMDEC) para coletar. Os moradores fizeram a sua parte, mas a Defesa Civil não. Por isso, passadas quase três semanas do aviso, o lixo continua amontoado na rua. No entanto, a se ver pela propaganda televisiva do governo do Estado, que se coloca como responsável pelo Exército nas ruas fazendo o trabalho, é de se desconfiar se a (ir)responsabilidade é apenas prefeitural. Esta mais para jogada marketista-eleitoral do governo. Poder público municipal e estadual agindo juntos, no caso, contra os interesses públicos.

Este acúmulo de lixo tem dificultado ainda mais o tráfego de carros que ainda se aventuram a passar pela rua inexistente e também as pessoas a pé, além de demonstrar o entendimento que a Prefeitura de Manaus está tendo de saúde pública; ou seja, nenhum. O lixo acumulado tem aumentado o mau-cheiro, tem se espalhado com as fortes chuvas e se tornou um local propício e aconchegante justamente para quem a Defesa Civil deveria dificultar a existência: o Aedes aegypti, o mosquito da dengue. Como diz na Campanha Spinozista na barra lateral, “compor com o Aedes aegypti é um mau encontro”. Com a Defesa Civil, na atual (in)gestão da Prefeitura de Manaus, também. Ainda bem que existe Poseidon para movimentar a água, não deixando que a água fique parada, senão a epidemia de dengue já haveria se universalizado em Manaus.

ENQUANTO A PREFEITURA MARQUETEIA, PROJETO POSEIDON CONTINUA

São Pedro está fazendo a sua parte. As chuvas, que nada têm a ver com o que o homem faz na Terra, e não inunda lá onde a natureza Naturante se faz fluxo variação-contínua da Vida, mas que, em contato com o corpo-homem-social, não produz um bom encontro, pois este não partilha com aquela as noções comuns que produzem o aumento da potência de agir, expõe, ou “faz buiar”, como diria aquele poeta, os problemas de uma cidade que não é cidade.

Assim, herdados pelos governos anteriores e muito bem cuidados e ampliados pelo atual, os buracos da cidade em parceria com as chuvas, desde o período chuvoso do ano passado, compuseram o Projeto Poseidon.

“As águas correm para o rio, o rio corre para o mar, o mar deságua no oceano… No oceano está Poseidon”.

 

Este Bloguinho acompanha a evolução do projeto, e já registrou diversos momentos em que os buracos, as ex-ruas, as que nunca foram ruas e as águas oceânicas que por lá passam compõem para o leitor intempestivo e para o cidadão manoniquim um quadro da situação da cidade de Manaus.

Os moradores das ruas onde o Projeto Poseidon passa – inúmeras Manaus adentro – usam sempre o humor e a inteligência para mostrar à prefeitura – esta e as anteriores – que uma cidade não se faz apenas com obras ou com marketing, e que a política não passa apenas pelas instâncias governamentais. Mesmo assim, até esta semana, a prefeitura não havia ainda se manifestado eleitoralmente em relação aos buracos. Até esta semana.

SERAFIM ENCARA O POSEIDON?

Esta semana, através de fontes intempestivas, este Bloguinho apurou que a prefeitura pretende iniciar uma ofensiva contra os buracos da cidade.

A partir de agora, qualquer cidadão que encontre pela frente um buraco, de qualquer tamanho, forma, conteúdo, profundo, raso, feio, lindo, fútil, útil, deve comunicar imediatamente a prefeitura através dos técnicos da Assistência Social, que atuam nos CRAS (Centro de Referência da Assistência Social). Estes técnicos ficarão responsáveis por averiguar e acionar a SEMOSBH, que terá um prazo de 24 horas para tapar o buraco.

Lá, o cidadão será atendido por um psicólogo e por um assistente social, que acolherão o buraco, e tratarão todas as suas demandas, sociais e psíquicas. Caso o buraco esteja deprimido pelos anos de carência e atenção, fruto da falta de entendimento comunitário dos governos, o psicólogo terá de atuar inclusive em parceria com o psiquiatra, administrando fármacos antidepressivos. Este aspecto é muito importante, porque se a depressão do buraco aumentar, ele também aumenta. O assistente social, por sua vez, verá em que condições se encontra o buraco, para que se possa informar à SEMOSBH a melhor maneira de tratá-lo. Feito isto, com material de última geração, guardado a sete chaves durante os últimos 3 anos – o famoso asfalto papelim –, a administração Serafim virá tapar o buraco para que as próximas gerações possam guardar dele somente saudosa lembrança. Até a próxima chuva.

Assim, somente, pode-se justificar que a atual administração lance mais este plano marketístico pré-eleitoral, utilizando inclusive a rede de assistência federal que, embora seja gerenciada pelos municípios, foi criada pelo Governo Federal. Lula certamente não imaginou que o projeto social pudesse incluir a fiscalização de buracos nas ruas. No entanto, duas situações, no mínimo, se colocam para o atento leitor intempestivo: 1) se é necessária a mediação entre SEMOSBH e cidadão por parte da rede assistencial, inclusive cabendo a esta a fiscalização e o acompanhamento das demandas, é porque as tentativas de contato direto (como inclusive já relatadas e decantadas nos posts anteriores do projeto Poseidon) não são eficazes, e não por falta de tentativa e organização popular; e 2) a ineficácia da Secretaria de Articulação Política, que teria exatamente o papel de facilitar o acesso das demandas populares com as secretarias responsáveis por darem uma resposta a elas. Se não estão fazendo isto, qual então o papel destes articuladores?

A eficiência da atual prefeitura em dar continuidade ao cultivo de buracos na cidade de Manaus já causou até inveja em partidários de governos anteriores. O atoleimado presidente da Força Sindical, Vicente Filizola, filiado ao DEMsesperados/AM, carinhosamente alcunhado também ex-PFL, andou distribuindo pela cidade cartazes onde se lia “Cuidado! Buraco do Serafim!”, esquecendo-se que um dos grandes responsáveis pelo altíssimo desenvolvimento manoniquim no quesito buracos, tornando a cidade referência mundial para o cultivo, foi o grande político DEM/PFL, Amazonino Mendes e demais consortes.

Enquanto os governantes se degladiam, Poseidon só…

POSEIDON NA RUA QUE NUNCA EXISTIU E AGORA É QUE NÃO EXISTE MAIS

E a vida continua na que nunca foi rua Rio Jaú, mesmo com os impedimentos da ausência do poder público em cumprir o seu papel de oferecer à população as condições óbvias de sua responsabilidade. O primeiro impedimento quem sofreu foi um caminhão da empresa Força Construtiva, que atolou com cinco milheiros de tijolo no lugar onde antes ficara um canal de esgoto aberto de lado a lado da rua e que acabou sendo tapado pelos moradores, como noticiamos aqui no Poseidon. Alguns ainda brincaram que o caminhão atolou porque o terreno é de areia movediça, mas isso não diminuiu a indignação tanto dos trabalhadores, provavelmente mais ainda do patrão e dos moradores da que nunca foi rua. Os trabalhadores tentaram cavar, colocar pedra, todos os procedimentos, mas não conseguiram desatolar o caminhão. Já pensavam no ardoroso trabalho de ter que descarregar os tijolos para retirar o caminhão e recarregá-lo novamente, mas como passou ali próximo uma máquina da Prefeitura, a responsável direta por esta situação de calamidade, resolveram pedir ajuda e um trator guinchou e desatolou o caminhão, para congratulação dos trabalhadores e moradores que estavam a horas tentando desvencilhar-se do mal que causa o poder, ou melhor, sua ausência. Mas os moradores vêem longe, um deles saiu e disse: “Essa rua está uma calamidade”. Ao que um outro retrucou: “Essa Prefeitura é que é uma calamidade”.

O outro impedimento foi na outra vala aberta e deixada de presente de Natal pela Prefeitura de Manaus aos moradores da que nunca foi rua. Um leitor intempestivo, ao ver no bloguinho a foto tirada em um dia de chuva, riu dizendo que parecia uma cachoeira de Presidente Figueiredo. Um outro, numa gargalhada, continuou: “Porra, então nossa rua vai virar ponto turístico!”.

Só mesmo com muito humor para suportar o descaso do poder dito público. Para diminuir o impedimento, foi preciso que dois moradores fossem até Distrito de Obras do Coroado para exigir que o buraco deixado aberto pela Prefeitura fosse tapado. Primeiro, como noticiamos, apareceu uma caçamba cheia de lama para ser jogada aí, mas os moradores impediram. Depois de semanas, mandaram uma caçamba com mais barro, mais foi insuficiente, ficando ainda para o outro dia o término da tapação.

Mas o que os moradores não querem é mais “tapeação”, e por isso estão brincando com a operação “Tapa Buraco” da Prefeitura, a qual chamam de operação “Tapeia Buraco”. Ainda por cima, descobriram na semana passada que a rua Rio Jaú realmente não existe. Isso eles já sabiam, mas não sabiam que agora é que ela não existe mais, pois que há dois anos a Prefeitura trocou, sem avisá-los, o nome da rua para Edson Vieira Alves. Os moradores não aceitam, pois ainda vão construir, nem que seja na base da “cotinha”, uma rua neste lugar. Apesar dos impedimentos governamentais, os moradores estão realmente de bom humor: “Então eu não existo?”, ironizou um, tocando-se ao corpo. Um outro rematou: “Existir eu existo, mas só vão saber que eu existo no dia das eleições, quando não existirão mais para mim”.

Tal qual estes moradores, para Poseidon, a ausência de poder não é impedimento para seu poder democratizante, e por isso ele vai chegando intempestivo, com humor e inteligência, para compor com a população uma potência cada vez maior, democrática…

ENQUANTO SERAFIM SEGREGA, O POSEIDON SEGUE…

O prefeito Serafim, às vésperas do ano que inicia, afirma em entrevista televisiva que os buracos que ainda existem nas ruas de Manaus, após grande operação da SEMOSBH, se existirem, são “residuais”.

Poseidon I

O resíduo, na semiótica capitalística, é o resto, aquilo que resulta de uma operação, tenha sido algo não esperado ou que “sobrou”, não reagiu, não “aconteceu”. Para Serafim, portanto – e não adianta dizer que não teve a intenção: a palavra escapa ao falante e transborda sentido – os bairros do Novo Aleixo, Monte Sião, Cidade de Deus, Nova Cidade e outros, onde o projeto Poseidon continua vivo e pulsante, são resíduos da Manaus que ele acredita administrar. Ou seja: não fazem parte dela.

Poseidon II

Mais que um desrespeito à cidade (maior exemplo de uma não-cidade é um administrador que não consegue, perceptivamente, compreendê-la), é uma demonstração de que o prefeito e sua equipe não dispõem dos elementos epistemológicos e afetivos necessários à criação de linhas intensivas produtoras de uma cidade-comunalidade.

RESÍDUO-DEVIR

Para a filosofia, no entanto, o resíduo quer dizer outra coisa. Para os filósofos Deleuze e Guattari, o resíduo é justamente o elemento que carrega o intempestivo, o inesperado. Quando se descobriu o processo de refino do açúcar, foi por acaso: era o resíduo de outra experiência. O mesmo se deu com a penicilina e com os raios-x. O resíduo na filosofia é o resultante de um processual, uma experiência: resultado de um encontro de corpos onde as noções comuns proporcionam o surgimento de um outro corpo, para além das expectativas. 1+1 não é igual a 2. 1+1 = 1. É sempre um outro surgindo, carregando o novo. Comunitariamente, os “resíduos” de uma cidade produzem no corpo-cidade alterações nos modos de existir que estão para além do mero entendimento estatístico da ciência oficial dos governos. Daí a impossibilidade de serem capturados tal como são. Somente uma intensidade pode sentir outra intensidade. E esta prefeitura (assim como o governo do Estado e os poderes legislativos e judiciários do Amazonas) não tem intensidade alguma. São corpos com baixa potência de agir, esmagados pelo ressentimento e pela inação. E a população sente isso.

Poseidon III

Veja aqui as linhas do Projeto Poseidon que deixaram rastros neste Bloguinho:

Monte Sião na Trajetória do Projeto Poseidon

Projeto Poseidon e a Comunalidade Natalina

Projeto Poseidon, Meteoro, Kafka e Comunalidade

Projeto Poseidon e as Crianças no Movimento das Águas

E Poseidon Vai Chegando Intempestivo…

Que Venha a Prefeitura, Projeto Oceânico Poseidon…

MONTE SIÃO NA TRAJETÓRIA DO PROJETO POSSEIDON

A rua, como diz o filósofo italiano Toni Negri, é onde todas as ações de uma cidade acontecem. A inexistência da rua em uma cidade atesta a inexistência do espaço público por excelência, a inexistência de política, a inexistência da própria cidade. O que existe é apenas uma jogatina entre grupos que se auto-revesam na dominação decorrente do poder constituído está sendo usado meramente para fins privados por usurpação da coisa pública.

 

 

 

 

O bairro do Monte Sião está localizado na Zona Leste de Manaus, entre a Cidade de Deus, o Valparaíso e o Jorge Teixeira. Lá podemos constatar aquilo que vimos mostrando neste bloguinho através do Projeto Poseidon e que pode ser visto e sentido pela população em todas as zonas da cidade: o péssimo serviço de construção de ruas nas gestões passadas da Prefeitura de Manaus, sem saneamento básico, com materiais de última qualidade em obras paliativas (o famigerado asfalto papelinho), geralmente em períodos eleitoreiros.

Na atual gestão as coisas não continuaram como antes. Nem isso. Como se pode depreender das fotos postadas aqui, você poderá fazer um ‘passeio’ nas ruas do Monte Sião, onde praticamente todas as ruas estão destruídas. Em conversas com os moradores, eles falaram a respeito dessa situação: a dificuldade de locomoção; a erosão fácil pela água das chuvas; a impossibilidade do tráfego de carros, o que impede a passagem regular da coleta de lixo e a entrega de mercadorias aos mercadinhos e tavernas; o mau-cheiro da lama acumulada, que, como se sabe, também acarreta o aparecimento de doenças, etc.

Os moradores relataram que já fizeram reuniões em algumas ruas, já procuraram a SEMOSBH (Secretaria Municipal de Obras, Saneamento Básico e Habitação), que dizem ser um “longo nome pra nenhuma ação”. Também já passaram por lá vários desses programas de televisão, inclusive alguns ligados a parlamentares (vereadores e deputados), quase todos podendo também ser responsabilizados pelo péssimo serviço de construção dessas ruas e a falta de solução atual para o problema. Houve ainda quem lembrasse que um dos “carros-chefes” da gestão do prefeito Serafim, ao lado da “promessa” de água encanada para toda Zona Leste, é a “Operação Tapa Buracos”. Mas, na prática cotidiana de andar por estas ruas-valas, a população sabe que a atual gestão da Prefeitura de Manaus nunca ‘passeou’ por lá, mas nem por isso perde o humor e, neste final de ano, sorri, futurando: ano que vem tem eleição!

PROJETO POSEIDON E A COMUNALIDADE NATALINA

E o Projeto Poseidon vem para participar da novidade Natal com os moradores da que nunca foi rua Rio Jaú. Em outubro recente, um membro da Associação dos Moradores até pediu ao subsecretário da SEMOSBH que ele desse a restauração da rua de presente de natal para os moradores da ex-rua. Pelos códigos de entendimento administrativos da cidade, não existem diferenças entre a atual gestão da Prefeitura de Manaus e as anteriores, mas pode-se dizer, numa avaliação natalina entre a atual gestão e as gestões outras mesmas que a atual gasta menos do que as outras em ornamentações das ruas da cidade e dos prédios públicos. Talvez por isso a ex-rua também não tenha ganhado seu presente de natal. Natal significa nascimento, natalidade. Novo. Por tal a atual gestão não pode comemorar o natal, não tem nada de novo, nem de velho. Não tem nada. Enquanto isso os moradores só preparando as comilanças, bebelanças e a festança da alegria de existir em comunalidades…

PROJETO POSEIDON, METEORO, KAFKA E COMUNALIDADE

Quando leitores do bloguinho viram a publicação anterior do Projeto Poseidon, expressaram-se dizendo parecer que caíra um meteoro na que nunca foi rua Rio Jaú. Havia crateras, havia um lago no meio da ex-rua, que estava servindo de viveiro senão aos ovos do Aedes aegypti, o popular mosquito da dengue. Os bueiros ficaram abertos aos céus e às crianças, pois uma delas caiu e teve de ser socorrida por moradores. E ainda terá quem diga que é negligência dos pais? Que dirão da Prefeitura?

 

Um desses bueiros, que acumulava mau-cheiro, sujeira e muitos insetos, justamente em frente de uma Panificadora, foi aterrado pelos comunitários (foto acima). É a comunalidade das pessoas, que vêem cada vez mais a necessidade de aproximar-se para compor uma potência democrática, enquanto o poder público, por aqueles que o estão representando, é cada vez mais negligente e omisso, antidemocrático.

 

Dizem os moradores que agora já estão até a passar carros e motos por aí. No outro esgoto que ficou aberto, no entanto, uma cratera está se esgarçando rapidamente a cada chuva. Mas os moradores não vão esperar pela operação tapa-buracos da Prefeitura de Manaus e também já estão fazendo uma cooperação entre si para tapar a cratera.

Talvez sabendo disso, ainda há pouco, pela manhã, uma caçamba da Prefeitura veio trazendo uma carrada de lixo para jogar nesta cratera. Os moradores não deixaram a caçamba descarregar. E ele continua assim:

 

Burocracia kafkiana

Uns moradores da ex-rua, só para confirmar o que todos já sabem — a desorganização do serviço burocrático da Prefeitura de Manaus —, ligaram para os números telefônicos que nunca proporcionam nenhuma informação inteligível. Primeiro ligaram para o Distrito de Obras Petrópolis-Coroado (tel. 3663-2110), ao qual sempre ligavam e, apesar de não disporem de nenhuma informação, responsabilizavam-se por se informarem e posteriormente informarem aos moradores sobre a situação da ex-rua, o que nunca cumpriram. Mas desta vez o atendente passou um outro número, da Gerência de Obras do São José (tel. 3248-1644), que explicou que esta Gerência nada tinha a ver com a localização do Novo Aleixo. Os moradores ligaram novamente ao Distrito Petrópolis-Coroado, o atendente desculpou-se “porque estão havendo algumas mudanças” e passou outro número (3644-2102), para falarmos com o Eng° Leandro, mas a ligação foi bater no Serviço de Drenagem, onde explicaram que não tinham nada a ver com este serviço de informação, mas informaram que o Distrito de Obras Petrópolis-Coroado foi novamente desmembrado e o Distrito do Coroado, onde poderíamos falar com o Engº Leandro, ainda não tinha telefone. Assim, confirmou-se aquilo que está presente na burocracia dos romances e contos de Franz Kafka, que a burocracia do Estado nada informa, nada explica, nulidade de inteligência, incapacidade de qualquer entendimento político; seu papel é justamente o de fazer com que o estado de coisas perdure sem nada alterar na ordem do poder constituído. Mas tal qual os personagens de Kafka, que nunca recapitulam, os moradores da ex-rua Rio Jaú continuam e vão tecendo relações de comunalidade por fora da força tirânica deste poder, principalmente agora que o meteoro já caiu e Poseidon vem chegando pelo mar. Contra a Natureza este poder nada pode fazer, nem mau…

PROJETO POSEIDON E AS CRIANÇAS NO MOVIMENTO DAS ÁGUAS

E na ex-rua Rio Jaú, do Novo Aleixo, as obras continuam paradas. E agora, nesse período chuvoso, as águas também estão paradas, o que pode acarretar para os moradores, como já afirmamos aqui neste bloguinho, além do mau cheiro, riscos à saúde, como dengue, diarréia, malária, até a chamada febre do Nilo. Depois as secretarias fazem campanhas de saúde pública contra a dengue, por exemplo, deixando vazar que a saúde é tratada apenas como uma abstração, sem um corpo real, por isso é pensada(?) numa separação com outros serviços públicos.

Novos boatos chegam de longe: que a empresa responsável pelo asfaltamento teria sido mandada para a construção do Terminal Pesqueiro, na Ceasa; que a Prefeitura de Manaus não pagou os fornecedores de materiais e que agora até as obras dos viadutos do prefeito estão paradas; que acabou o asfalto armazenado, etc. Só boatos? Acontece que alguns moradores ligaram para a SEMOSBH, no telefone 3236-1845, do Gabinete do Subsecretário, querendo saber sobre a paralisação das obras na ex-rua e qual a previsão para a continuação, e de lá foram redirecionados a ligar para o Distrito de Obras do Coroado, no telefone 3663-2110, para cobrar informações ao Eng° Leandro, o qual não se encontrava, e a atendente ficou de verificar e entrar em contato. Os mesmos números aos quais os moradores ligam há dois anos. Uma coisa ninguém pode acusar a atual gestão da Prefeitura de Manaus: ela não mente, já que não fica inventando desculpas. Não há nenhuma informação real a ser oferecida ao cidadão. Há dois anos os moradores da ex-rua Rio Jaú confirmam isso, tanto indo à SEMOSBH pessoalmente quanto por telefone.

Como se percebeu no Projeto Oceano Poseidon anterior, ao contrário desses governos, as crianças são sábias, por isso um grupo de crianças passa várias horas a brincar de pescaria nas águas paradas. Isso na verdade movimenta as águas, fazendo com que ela não sirva de abrigo para o aedes aegypti, o mosquito da dengue. Assim como Poseidon, que, sempre em companhia da Boiúna e de Senhor Rei do Mar, vão movimentando as águas oceânicas para que as ruas rios virem mar. Só estes governos não movimentam nada…

E POSEIDON VAI CHEGANDO INTEMPESTIVO…

Enquanto as obras estão paralisadas na ex-rua Rio Jaú, do bairro Novo Aleixo, Zona Leste de Manaus.

Conforme acompanhado por este bloguinho, através do projeto Oceano Poseidon, tudo indica que o projeto de ligar a rua ao mar, de transformá-la em mar, será bem sucedido. A Prefeitura de Manaus está cooperando como pode: não realizando a obra de reconstrução da rua que nunca foi rua. (Quantas “ruas” de Manaus podem verdadeiramente ser chamadas de rua? Questões para geofilósofos manoniquins). Façamos um feedback a partir de uma postagem de abril, para que se perceba a evolução do Projeto Poseidon:

A rua não existe mais, se é que existiu. Os moradores se reuniram, dialogaram, fizeram abaixo-assinado, foram até a SEMOSBH no início de 2006. O sub-secretário à época visitou a rua e viu que seria necessário construí-la por inteiro. Por estarem num período chuvoso, como agora, prometeu que “quando chegasse o verão”, aí por maio de 2006, isso seria realizado… Em junho os moradores voltaram lá, em julho também… Uma secretária do sub-secretário, que então já era outro, disse-lhes que não estavam a par da situação, e que agora iriam tomar providências. Passaram-se meses. Os moradores não apelaram para os sensacionalistas programas de televisão por entenderem obviamente que estes apenas lucram com a miséria da população e a jogatina dos que apenas pretendem instituir a ausência de alternância política no revezamento dos mesmos representantes. Não desanimaram. Em fevereiro de 2007 a SEMOSBH começou a construção da rua. Se a sarjeta era mal construída, se não estavam colocando esgotos, ao menos estavam pondo aquele asfaltamento “papelim”. Mas foram construídos apenas uns 30m e a SEMOSBH foi embora nem Deus sabe pra onde…

O trecho construído foi o da foto acima. Passados poucos meses, vejam-se as condições atuais para que se percebam pelas imagens a qualidade das obras públicas em Manaus, neste trecho aí nenhum metro de esgoto foi colocado.

Depois disso, depois de batalhas por telefone travadas entre moradores da ex-rua Rio Jaú com funcionários da SEMOSBH e Distritos de Obras, depois de várias tentativas individuais de contactar o primo do compadre da tia de algum parlamentar, algum secretário, vereador, prefeito, foi que os moradores, juntamente com a Afin, resolveram criar o Poseidon. Mas eis que pelo final de outubro passado apareceu uma empresa para colocar os tubos de esgoto pluvial (do esgoto doméstico nem se fala).

OBS: O trecho da foto acima não foi contemplado com a rede de esgoto, pois já havia sido dado oficialmente como concluído.

A conversa que se espalhou pela ex-rua era a de que, chegando na esquina do primeiro quarteirão, o asfaltamento já iria sendo posto por outra empresa. Tudo seria rápido e com qualidade. Mas já fazem duas semanas que a rede de esgoto foi concluída (pelo menos até onde constava no contrato oficial, excluindo-se o trecho da foto acima) e nenhum metro de asfalto foi posto, nenhuma polegada. Em compensação, olha em que condições ficou a ex-rua.

Na ex-rua, alguns dizem que a empresa que ia asfaltar a rua foi enviada para outra obra. Qual seria a importância dessa outra obra em relação à da Rio Jaú? A cidade não é vista como um todo? Outros dizem que a obra foi embargada pelo PROSAMIN, que está fazendo desapropriação em área do Igarapé do 40 que passa próximo ao final dessa ex-rua. Tudo boato? Mas o fato é que o caminhão de entregas de mercadoria já não vai mais até a Mercearia Silva, que fica pelo meio da ex-rua; o caminhão de lixo, que já não passava, agora é que não passará mesmo; os esgotos já começam a ser entupidos com a lama (depois a população é que é a culpada). Agora que o período chuvoso se inicia, as obras terão continuidade? Ou novamente a conversa vai para o próximo verão? A conversa, não, diz um morador. A conversa é agora mesmo e é sobre as eleições do ano que vem.

É por essas e outras ações governamentais praticadas na cidade de Manaus que quando um morador da ex-rua Rio Jaú afirmou que sentiu um tremor de terra durante a chuvarada de ontem falamos a ele para não se assustar: é Poseidon que vai chegando, acompanhado da Boiúna e Senhor Rei do Mar. É por isso que o garoto Davisinho, de 1 ano de idade, quando viu a ex-rua inundada, apontando, falou: olha o mar! Olha o mar! As crianças são sábias, já dizia Jesus Cristo. Já estes governos…


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VIRTUALIZAÇÕES DESEJANTES DA AFIN

Este é um espaço virtual (virtus=potência) criado pela Associação Filosofia Itinerante, que atua desde 2001 na cidade de Manaus-Am, e, a partir da Inteligência Coletiva das pessoas e dos dizeres de filósofos como Epicuro, Lucrécio, Spinoza, Marx, Nietzsche, Bergson, Félix Guattari, Gilles Deleuze, Clément Rosset, Michael Hardt, Antônio Negri..., agencia trabalhos filosóficos-políticos- estéticos na tentativa de uma construção prática de cidadania e da realização da potência ativa dos corpos no mundo. Agora, com este blog, lança uma alternativa de encontro para discussões sociais, éticas, educacionais e outros temas que dizem respeito à comunidade de Manaus e outros espaços por onde passa em movimento intensivo o cometa errante da AFIN.

"Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias; que é atingido pelos próprios pensamentos como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, como por uma espécie de acontecimentos e de faíscas de que só ele pode ser alvo; que é talvez, ele próprio, uma trovoada prenhe de relâmpagos novos; um homem fatal, em torno do qual sempre ribomba e rola e rebenta e se passam coisas inquietantes” (Friedrich Nietzsche).

Daí que um filósofo não é necessariamente alguém que cursou uma faculdade de filosofia. Pode até ser. Mas um filósofo é alguém que em seus percursos carrega devires alegres que aumentam a potência democrática de agir.

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