UM FILME HOLYWOODIANO: RASTROS PARA FORMAÇÃO DE UM PSICÓLOGO JUDICATIVO

Um rastro carrega elementos indicativos do objeto que o originou. Como um signo, ele carrega, sem ser o objeto, características que permitem ao observador conhecer o objeto que o produziu. O que é um rastro de existência? Conhecemos uma pessoa por aquilo que ela produz, o que ela deixa no ambiente como conseqüência daquilo que produziu, seja na sua fala, no seu comportamento, convicções ou ações. Se essa existência tiver sido capturada em sua origem por uma subjetividade reativa, ela só se tornará produtiva se operá um corte que a fará entrar na ordem do devir, que ativará o aumento de sua potência.

COMPOSIÇÃO DA PERSONAGEM ou CENAS DE LOCAÇÃO E SEUS ENUNCIADOS

Imaginemos então uma personagem composta pelos enunciados da subjetividade-moral cristã (sem Cristo) e capitalista. Tal personagem certamente estaria mais para uma produção com tendências stanislawskianas para a exacerbação enfática de um personagem construído para produzir empatia no outro e não o distanciamento brechtiano que lhe levaria ao exame da realidade constituída, que lhe levaria a ser o sujeito que estranha o que não for estranho. Seria essa personagem apenas uma conseqüência destas forças, um imbricamento destes enunciados, sujeito de enunciado, não de enunciação. O Psicólogo Judicante. Examinemos:

Um rastro (enunciado da dogmática cristã): no seminário capuchinho

I Cena: em dias de visitas à Santa Casa de Manaus, vai à frente, em marcha militar, liderando a fila dos capuchinhos, um atrás do outro, distribuir as benesses do amor ao próximo.

II Cena: estudante de Teologia do Cenesc, é escolhido para ser auxiliar do Pe. Mauro Fancello, italiano e capelão militar.

III Cena: segundo relatos da época, exerceu funções litúrgicas em Manaus e no Nordeste, sem ter sido ordenado.

Outro rastro (enunciado panóptico da mídia): como apresentador de programa de TV e articulista de jornal

I Cena: surge como apresentador do programa Alô Manaus!, lá pelos idos de 80, e passa a aparecer como o grande comunicador local.

II Cena: publica em jornal um artigo sobre “os subterrâneos da igreja católica de Manaus”, adequando os acontecimentos da época, quando o então bispo Dom Mílton havia falecido, a seus próprios devaneios.

Outro rastro (do vazio do poder como ilusão do existir): anos depois, como psicólogo formado pela ULBRA

I Cena: como psicólogo, se aproxima da vertente psicanalítica Kleiniana, que carrega fortes cores da moralidade burguesa-cristã (não Cristo) que serve de sublimação para o sentimento de culpa fetichizada no binômio seio bom/seio mau da posição esquizoparanóide.

II Cena: torna-se presidente da Associação dos Psicólogos do Amazonas.

III Cena: na imobilidade compulsiva, vira coordenador do CARMA (Coordenação Amazonense das Religiões de Matrizes Africanas e Ameríndias).

IV Cena: no giro circunferente da imobilidade, integra chapa para o Sindicato dos Psicólogos (SINPSI/AM).

V Cena: na delusão que a imobilidade gira, tenta eleição para o CRP/AM, com farta campanha eleitoral, desta vez sendo derrotado.

ROTEIRO MIDIÁTICO

Para a mídia oficial, o fato é apenas um justificativa para o marketing. A nótícia é propaganda travestida de informação. E quando não há o fato, é necessário simulá-lo. Por isso a linguagem da mídia é carregada de clichês, palavras de ordem que não tem a função de comunicar, mas de ordenar (Deleuze), posicionar. É o trinômio identificar-classificar-ordenar: identificar o acontecimento, classificá-lo segundo a sintaxe vigente e ordená-lo dentro da burocracia do Estado, tornando-o inócuo.

O termo “Amor Bandido” é uma destas frases-clichê. Aos olhos da moral e da legalidade policial que a mídia carrega, a frase diz respeito aos relacionamentos entre mulheres (principalmente das classes média e alta), que trocariam um ambiente socialmente aceito e confortável para se relacionar amorosamente com homens que atuam fora da legalidade do Estado, geralmente de classes economica e moralmente mais baixas. Dupla perversidade: adesiva à mulher a condição de submissa aos caprichos do homem (também estereotipado), e impõe a ela com o olhar julgador uma condição econômica determinada. Uma chaga moral que só atinge à população feminina, de acordo com os preceitos do psicólogo judicante. Só há “amor bandido” no relacionamento com as classes baixas? Uma mulher de senador, ou deputado, ou prefeito, ou governador, ou vereador que permita que o marido use seu nome como laranja para suas trambicagens não seria, por esta lógica, também uma vítima do “amor bandido”? A jornalista que teve um filho com o ex-presidente FHC, e que teve a pensão alimentícia paga pela Globo, é uma vítima deste tipo de amor? É que a adesivagem, o clichê, só interessam no sentindo de impôr à mulher uma condição de objeto de consumo, manipulável e vendável. A lei do tirano só vale para condenar o outro, nunca a si próprio. E como toda moral é uma moral de classe…

Tal juízo moral da mídia (justificada, como veremos, pelo olhar julgador da nossa personagem) bem poderia ser considerado uma ofensa à condição das mulheres, passível de enquadramento na lei Maria da Penha.

Para oficializar e dar um verniz de real àquilo que só interessa ao olhar decadente que cultua a dor, a mídia oficial convoca o saber de Estado: o especialista que irá sublinhar a notícia e compor uma ilusão de que ela tem relação com o real. Eis que entra em cena nossa personagem.

CLÍMAX

Na primeira frase, deixa escapar sua cumplicidade com a estratégia marketista da mídia, confirmando o clichê como real: “o amor bandido sempre existiu e sempre existirá”. Procura a Psicologia/Psicanálise para justificar o factóide, mas recai na moralidade. Psicologia é análise dos modos de existência do ser humano no mundo, para além do constituído. Para compreender o atual, é necessário escapar pelo inatual, pelo intempestivo (Nietzsche). Nossa personagem não sai do moralismo rasteiro.

Preso em sua compulsão pela Lei (Norma Moral), é para ele – o psicólogo judicante – imprescindível o julgamento e condenação do outro. Padece do mesmo sintoma que acometeu Paulo, na estrada para Damasco, quando delira, compreendendo a impossibilidade de capturar o devir-cristo, não suportando e pregando eternamente um substituto na cruz, inventando a religião da dor e da dívida eterna. Precisa, para ter a ilusão de sua própria existência, subjugar o modo de ser alheio, para que possa se tomar como objeto privilegiado deste olhar. Por isso a necessidade/compulsão pelos cargos da burocracia de poder do Estado. Por isso também – outro sintoma da compulsão – a adequação constante do real ao seu delírio. Há, por outro lado, uma dificuldade quase intransponível de transitar por outras afecções que não as da dor e do ressentimento. Tudo o que é aberto, que faz conexões, que permite a passagem dos fluxos de afetos, que potencializa os modos de ser, que anima o ser desejante, é um potencial perigo para o psicólogo judicante, já que o impossibilitaria de agir como juiz, aniquilando seu modo de ser.

THE END?

Evidente que tal personagem, dentro de uma subjetividade de censura à inteligência, onde o capital financeiro dos mercados dita as formas de relações entre as pessoas, destaca-se e encontra aí lugar profícuo para se desenvolver. Numa sociedade onde houvesse fluxos democráticos, no sentido da construção de comunidades de afetos e com-vivência política, tal personagem não teria vez. Sequer existiria. Pelos rastros que deixa por onde passa, percebemos facilmente que se trata de um personagem-produto, conseqüência da subjetividade atual.

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