MANAUS – UM PASSEIO PELA NÃO-CIDADE

Em Manaus, os governos acreditam muito mais na força do marketing do que na potência de agir das pessoas. Eles não sabem o que é uma cidade. Confundem cidade com aglomeração, chamam de cidade, comunidade, apenas uma aglutinação de pessoas no gerir seus interesses particulares, quase sempre patologizados pela subjetividade capitalística.

Uma cidade só pode existir como um organismo afetivo-afetante. Não se cria uma cidade. Ela é engendrada. Só há cidade quando a política surge como produção humana da coletividade, onde as potências se aglutinam numa potência-comunalidade, e os interesses são criados a partir dos acasos tomados pelas pessoas e tornados expressões de singularidades. Para tal, é necessário produzir condições para que as pessoas tomem a cidade como sua, no plano da razão, e passe a utilizar seus talentos na produção de outros modos de existir. Tal pode se dar nas mais diversas formas de expressão humanas, e quando tal ocorre, temos um período rico nas artes, nas ciências, na filosofia.

Infelizmente, não é o caso de Manaus. Tomada como abstração marketista, Manô não pode ser considerada cidade, no sentido que tomamos aqui. Não há por parte dos governos iniciativas políticas de publicidade (no sentido do acontecimento que se torna visível ao público pelos movimentos que engendra e pelas modificações que produz nos modos de existir das pessoas). Assim, torna-se difícil criar uma subjetividade mais afeita à produção de conexões afetivas que permitam às pessoas se posicionar no mundo e sentir como seu o espaço vivido, sentir que pertencem à cidade e que ela pertence a si, para além do microfascismo do amor do censor, que toma o si como cristalização dos ressentimentos e por isso precisa se apossar dos objetos para ter a ilusão do existir.

Não por acaso tem força em Manaus duas ocorrências, expressões desta subjetividade dura:

1) um re-sentimento esvaziado e produzido pela mídia e governos locais, travestido de “valorização cultural”, que prega o culto cego às produções locais, sem o olhar afetante pela razão. Toma-se o efeito pelas causas: é bom por que é de Manaus, por que é do Amazonas (o boi nestlecocacolizado, os artistas subservientes à força do dinheiro, a universidade-cadáver, são ilustrações). Movimento semelhante à valorização da cultura do Reich que se deu na Alemanha pós-1ª guerra, e que se tornou terreno fértil para a ascensão de Hitler, e de manifestações xenófobas, como as de preconceito contra os negros e judeus, que culminou no Holocausto. Fenômeno semelhante dá sinais em Manaus, em relação aos paraenses. Só teme o diferente aquele que desconhece a si.

2) A partir do momento que Manaus (ou qualquer outra não-cidade) não consegue produzir elementos corporais e incorporais que permitam às pessoas se posicionarem no mundo a partir dos seus talentos, estas pessoas estabelecem uma relação de alheamento com o seu entorno. O filósofo do engajamento estético-político, Sartre, explica como construímos nosso entorno e nosso próprio existir a partir das relações que estabelecemos com os objetos. Assim, quando nosso ambiente é pobre de possibilidades de construções subjetivas-coletivas, é natural que não consigamos estabelecer vínculos afetivos com a cidade. Não há então comunidade, e o direito natural (guerra) se fortalece. Cada um é inimigo potencial. Situações como a banalidade da violência, o descuido das pessoas para com os locais onde vive (o jogar dos resíduos do consumo nas ruas e igarapés, por ilustração), o estado de confronto generalizado entre professores e alunos nas escolas, a inépcia redundante da mídia local, a mercantilização da saúde, a proliferação das igrejas apocalípticas, são sintomas da impossibilidade de estabelecer conexões afetivas-afetantes nesse modo de existência que são engendrados pelos governos, anteriores e atuais.

E como, contra a estupidez que é produto da ignorância, somente o conhecimento como linha afetiva-constitutiva pode constituir modos de resistência, este bloguinho inicia hoje uma outra coluna, “Manaus- Um Passeio Pela Não-Cidade”, onde coloca situações cotidianas da Manô (vale também a RMM – Região Metropolitana) em uma outra perspectiva, diferente da oficial, e convida o leitor intempestivo a produzir outros entendimentos acerca do que se quer estabelecer como realidade social em Manaus.

O leitor intempestivo pode participar produzindo textualizações ou imagens fotográficas sobre alguma situação que existe ou que ocorreu em Manaus, e compartilhar com os afinados, através do emeio.

1 Response to “MANAUS – UM PASSEIO PELA NÃO-CIDADE”


  1. 1 Anônimo quinta-feira, 27 março, 2008 às 3:23 pm

    nao encontrei o que eu queria


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USAR O CONTROLE REMOTO É UM ATO DEMOCRÁTICO!

EXPERIMENTE CONTRA A TV GLOBO! Você sabe que um canal de televisão não é uma empresa privada. É uma concessão pública concedida pelo governo federal com tempo determinado de uso. Como meio de comunicação, em uma democracia, tem como compromisso estimular a educação, as artes e o entretenimento como seu conteúdo. O que o torna socialmente um serviço público e eticamente uma disciplina cívica. Sendo assim, é um forte instrumento de realização continua da democracia. Mas nem todo canal de televisão tem esse sentido democrático da comunicação. A TV Globo (TVG), por exemplo. Ela, além de manter um monopólio midiático no Brasil, e abocanhar a maior fatia da publicidade oficial, conspira perigosamente contra a democracia, principalmente, tentando atingir maleficamente os governos populares. Notadamente em seu JN. Isso tudo, amparada por uma grade de programação que é um verdadeiro atentado as faculdades sensorial e cognitiva dos telespectadores. Para quem duvida, basta apenas observar a sua maldição dos três Fs dominical: Futebol, Faustão e Fantástico. Um escravagismo-televisivo- depressivo que só é tratado com o controle remoto transfigurador. Se você conhece essa proposição-comunicacional desdobre-a com outros. Porque mudanças só ocorrem como potência coletiva, como disse o filósofo Spinoza.

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Este é um espaço virtual (virtus=potência) criado pela Associação Filosofia Itinerante, que atua desde 2001 na cidade de Manaus-Am, e, a partir da Inteligência Coletiva das pessoas e dos dizeres de filósofos como Epicuro, Lucrécio, Spinoza, Marx, Nietzsche, Bergson, Félix Guattari, Gilles Deleuze, Clément Rosset, Michael Hardt, Antônio Negri..., agencia trabalhos filosóficos-políticos- estéticos na tentativa de uma construção prática de cidadania e da realização da potência ativa dos corpos no mundo. Agora, com este blog, lança uma alternativa de encontro para discussões sociais, éticas, educacionais e outros temas que dizem respeito à comunidade de Manaus e outros espaços por onde passa em movimento intensivo o cometa errante da AFIN.

"Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias; que é atingido pelos próprios pensamentos como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, como por uma espécie de acontecimentos e de faíscas de que só ele pode ser alvo; que é talvez, ele próprio, uma trovoada prenhe de relâmpagos novos; um homem fatal, em torno do qual sempre ribomba e rola e rebenta e se passam coisas inquietantes” (Friedrich Nietzsche).

Daí que um filósofo não é necessariamente alguém que cursou uma faculdade de filosofia. Pode até ser. Mas um filósofo é alguém que em seus percursos carrega devires alegres que aumentam a potência democrática de agir.

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