MANAUS: UM PASSEIO PELA NÃO-CIDADE

SAÚDE MENTAL

Um Olhar Sobre o Território Segmentado de Manaus

Diz-se, a repeito do Estado do Amazonas e sua capital, Manaus, que ficam numa região geográfica isolada por vias terrestres do restante do Brasil, pela Floresta Amazônica, patrimônio da Humanidade, segundo a ONU. Esta região sempre sofreu, de acordo com o discurso oficial, diversas limitações em termos de expansão territorial e econômica devido à preocupação com a preservação deste patrimônio natural . A partir da segunda metade do século XX, com a decadência do chamado ciclo da borracha, a região caiu num declínio econômico, do qual somente sairia, supostamente, com a criação da Zona Franca de Manaus, em 1967. Embora saibamos de todos os furos deste entendimento sobre o quadro econômico da região, esta é, em linhas gerais, a versão ainda aceita por alguns estudiosos e pela quase totalidade da classe constituinte dos poderes governamentais locais. A partir daí é possível compor um quadro que carrega algumas compreensões sobre a condição da saúde mental no Amazonas.

Uma compreensão: este conceito de economia, de estagnação, é próprio da subjetivação capitalista, e tem por objetivo consolidar o modelo econômico de relações que, num país em desenvolvimento como o Brasil, ainda carece de certas estruturas. Fica, portanto, a região amazônica, neste contexto de expansão do modelo de economia industrial, como uma região de dependência de outras áreas, conforme pode se verificar no quadro acima exposto. Dependência econômica, no capitalismo, significa ser ao mesmo tempo consumidor dos produtos industrializados de ponta, e fornecedor de mão-de-obra barata. Evidentemente que as relações não são apenas materiais, mas ultrapassam este domínio. Portanto, significa estabelecer uma estratégia de dominação onde esta relação de dependência se consolide nas mais diversas áreas da convivência humana. Manaus passou a ser um centro importador não só de gêneros alimentícios, mas de um modo de existência típico de setores mais avançados da economia capitalística. Importação de bens materiais, de enunciados, de ressentimentos.

Outra compreensão: uma das conseqüências mais mortíferas deste modo de produção de existência é que, a partir do processo de anulação das potências afetivas e de ação das pessoas, impede-se a construção de outras formas de subjetivação, e esta imposição discursiva-corpórea que se constitui como “única verdade” faz com que os corpos adoeçam, com que os afetos arrefeçam. Existir num quadro em que o corpo esteja preso a limitações estéticas e que os afetos sejam impedidos de se constituir como composições positivas é uma violência, e deixa suas marcas, seja nas inúmeras patologias que acometem o corpo (as doenças da modernidade), seja na tentativa de capturação dos fluxos revolucionários pelos enunciados normatizadores da Psiquiatria e da Psicologia, ou seja, a chamada doença mental.

A partir destas duas compreensões, é possível apontar dois processos que estão intimamente ligados à questão da saúde mental em Manaus.

Migração e Subjetivação. A ilusão de incremento econômico que a ZFM engendrou, trouxe também o processo de incentivo à migração (patrocinado pela farta propaganda veiculada pela classe parlamentar amazonense, principalmente nos últimos 25 anos, visando manter-se nos cargos eleitorais mais propícios à apropriação de recursos financeiros), sobretudo de cidades do interior de estados como Maranhão, Pará e Ceará. Estas pessoas carregam dos seus locais de origem formas de existir e de se relacionar com o outro e com as coisas. Isto se modifica profundamente quando da chegada à Manaus, e toma-se consciência do engano: terão de lidar com uma miséria ainda maior do que a de onde saíram (pois muitos venderam tudo o que tinham e gastaram suas economias na viagem), com o desemprego, com a fome, com a ausência de solidariedade, com uma situação inversa à toda propaganda governamental e de consumo que é veiculada nos meios de mediatização. O desespero surge como conseqüência do engano e da ausência de perspectivas que atinge a maciça maioria dos migrantes. Esta condição torna o terreno fértil para a proliferação do alcoolismo, da exploração pelas igrejas apocalípticas e da violência-ressentimento principalmente da juventude sem perspectivas. Processo semelhante ocorre em outras cidades e até outros países, como pudemos verificar recentemente na França, com o enfoque que recebeu da mídia o revide dos imigrantes, em sua maioria africana e do leste europeu, à constante violência e restrição que sofrem da sociedade e do governo francês. Tanto lá quanto cá, os representantes do governo constituído nada compreenderam, e respondem como de costume: mais violência.

Enunciados da Dependência. A atuação dos governos nos últimos 25 anos principalmente tem contribuído em muito para a proliferação desta subjetivação criadora de enfermidades do corpo e do existir. As políticas implementadas nas mais diversas áreas tem por interesse muito menos o desenvolvimento de lideranças e comunidades autônomas e capazes de compreender, discutir e resolver seus problemas do que engendrar a mercadorização dos serviços públicos e incentivar a concentração de renda. Na saúde, a absoluta falta de investimentos por parte dos órgãos competentes, a mudez e a paralisia política das classes profissionais envolvidas no processo (e que muitas vezes preferem mesmo a mudez, pois que mais ganham em termos de recursos financeiros com a falência da saúde pública), criam um estado de miserabilidade que em nada tem de comum com a propaganda oficial. Na educação, o sucateamento das estruturas, a adoção de uma concepção de educação tecnicizante, excludente do pensamento e da criatividade, adoradora da repetição e da obediência cega, subserviente aos melindres do mercado de trabalho, que infelizmente é compartilhada conscientemente ou não pela maioria da classe técnica e docente (formada numa universidade que aceita e dissemina esta mesma definição de educação, incapaz de compreender sua própria condição, que dirá promover uma ampliação do entendimento com a sociedade), e que tem como conseqüência a transformação das escolas em locais de expiação e humilhação. Nas assim chamada Cultura, a fomentação de uma classe de técnicos – que não são artistas – subalternos de uma visão segregadora e elitista (e em Manaus existe elite?) – que privilegia alguns, usando como critério a bajulação, o clientelismo, o nepotismo, ignorando que um artista é um agenciador de fluxos revolucionários, de afectos e perceptos, e que a arte deveria ser um devir comunitário. Na assistência social, promovendo o assistencialismo que fortalece a dependência e a baixa auto-estima, fomentando programas de atendimento aos chamados excluídos que não ouve, não vê e não compreende o quadro social em que vive e trabalha, aliado à psicologia, psiquiatria e outras áreas da saúde mental com a mesma perspectiva de controle social. Enfim, utilizando os mecanismos governamentais para fortalecer essa subjetivação da dependência, característica de um modo de produção pautado no discurso vazio. A própria compreensão sobre o que vem a ser a floresta, seja sob a perspectiva do turismo, seja a do protecionismo, a da maioria das ONG´s ecológicas, e a mesma concepção: entendem a floresta como uma abstração, um enunciado significante desprovido de materialidade. Resumem-se a repetir o discurso capitalista, que vê a floresta como mercadoria e, mesmo quando procuram defender e preservar, é como mercadoria, como objeto de consumo que o fazem. Pouco ou nada aprenderam com os povos nativos que, à época da conquista do território ainda-não brasileiro, constituíam uma população de mais de um milhão de habitantes em relação ecosófica com a floresta, fazendo parte da mesma, num devir naturante.

Estratégias de Laminação: Saúde Produzindo Doença.

Pode a Saúde Mental aliar-se a governos que engendram enunciados produtores da doença mental? Em Manaus, parece que sim. A compreender todo este contexto, devemos ainda, infelizmente, somar um olhar psiquiátrico que ignora e pior, ajuda a compor este quadro de atraso epistemológico e decadência social na cidade. Todos os projetos que envolvem o uso do termo “saúde mental” na cidade de Manaus (e no Estado) estão intimamente ligados com a manutenção destas estratégias de laminação dos fluxos revolucionários, voluntariamente ou não, visto que em sua estrutura de implantação seguem o mesmo modelo desospitalizante, já explanado acima, desconsiderando todas as reflexões a respeito do processo de desinstitucionalização (ou ignorando-as, o que dá no mesmo). Acreditam que a pulverização dos serviços oferecidos no hospital psiquiátrico em células dispostas nas zonas geo-eleitorais é fazer a reforma psiquiátrica. Acreditam que se unir aos governantes que produzem a subjetividade laminadora é fazer a revolução. Pior, ignora-se a diferença entre as estruturas físicas do hospital e as estruturas semióticas da instituição (confunde-se “vamos desmontar a Psiquiatria” com o “vamos desmontar o hospital”), demonstrando uma certa falta de élan perceptivo-racional ao ignorarem que as grandes modificações na estrutura epistemológica da Psiquiatria ocorreram, em sua maioria, dentro dos hospitais psiquiátricos, e que era todo o tempo de uma transformação das consciências e das atitudes que se falava, e não das estruturas físicas e/ou do engodo burocrático. O entendimento oficial seja do governo, seja das instituições responsáveis por esta discussão, oscila entre o silêncio reacionário (de que nos falava Sartre) e a repetição atabalhoada de enunciados e discursos não-examinados e por isso mesmo em desconformidade com uma idéia de Reforma Institucional.

Enquanto este delírio impõe seus tentáculos nos diversos locais de atuação e discussão, transformando em discussões epistemologicamente características do pensamento mágico infantilizado (do tipo “este hospital é meu”, “eu sou o herói disso-e-daquilo”), enquanto não se for capaz de produzir saberes e afetos não comprometidos com a manutenção deste quadro social adoecido-adoecedor, enquanto não se perceber que a Reforma Institucional é Ético-Estética e Política, mais do que segmentaria, e que deve envolver a todas as pessoas politicamente conscientes das suas potências criadoras, modificando assim o entendimento sobre o conceito de saúde mental, pouco se poderá fazer para mudar este quadro.

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