Arquivo para 20 de novembro de 2007

O FILÓSOFO SARTRE* FALA AO BLOG INTEMPESTIVO SOBRE O SER NEGRITUDE

Não há do que se admirar. Movido pelo ser negritude e a destemporalidade movente intempestiva, este bloguinho da comunalidade foi encontrar o filósofo francês Sartre, morto em 15 de abril de 1980, para um engajado e libertário papo sobre a condição do negro. Como não poderia deixar de ser, o lero trans-correu leve e solto regado por algumas talagadas DA Macia e algumas baforadas cubanas. Presente de seu amigo Fidel.

Sartre no Bloguinho Intempestivo

BLOGUINHO INTEMPESTIVO – Para começar. Como devemos te tratar? Companheiro, camarada, filósofo, “seu” Sartre…

SARTRE (Sorrindo) – Qualquer tratamento antes de ser pronominal, é ontológico. Por mim pode mandar. Como for serei sempre um homem em situação.

BI – Tu és o filósofo que mais fez da filosofia uma práxis da liberdade. Sempre construindo o Homem Ponto Final. Andastes por mil e um territórios, por incrível que pareça, até aqui em Manaus aportastes, que loucura, tudo sempre em situações ontológicas fundadas na condenação do homem como Ser da Liberdade. Pois bem, como a classe oprimida deve se situar frente a esta sociedade das contradições?

S – Não resta dúvida que a classe oprimida deve primeiro tomar consciência de si mesma. Mas esta tomada de consciência é exatamente o contrário de uma reimersão em si: trata-se de reconhecer, na ação e pela ação, a conjuntura objetiva do proletariado que pode definir-se através das circunstâncias da produção ou da repartição dos bens.

BI – E no caso específico do negro?

S – O negro, como o trabalhador branco, é vítima da estrutura capitalista de nossa sociedade; tal situação desvenda-lhe a estreita solidariedade, para além dos matizes de pele, com certas classes de europeus oprimidos como ele; incita-o a projetar uma sociedade sem privilégio em que a pigmentação da pele será tomada como simples acidente.

BI – Mas sua condição de oprimido?

S – Mas, embora a opressão seja uma, ela se circunstancia segundo a história e as condições geográficas: o negro sofre o seu jugo, como negro, título de nativo colonizado ou de africano deportado. E, posto que o primem em sua raça, e por causa dela, é de sua raça, antes de tudo, que lhe cumpre tomar consciência. Aos que, durante séculos, tentaram debalde, porque era negro, reduzi-lo ao estado de animal, é preciso que ele os obrigue a reconhecê-lo como homem.

BI – Mas têm negros que não se querem negros.

S – O negro não pode negar que seja negro ou reclamar para si esta abstrata humanidade incolor: ele é negro. Está pois encurralado na autenticidade: insultado, avassalado, reergue-se, apanha a palavra “negro” que lhe atiram qual uma pedra; reivindica-se como negro, perante o branco, na altivez. Este racismo anti-racista é o único caminho capaz de levar à abolição das diferenças de raças.

BI – Infere-se no que afirmas que as consciências das classes trabalhadoras, branca e negra, são diferentes. E daí?

S – A consciência de classe do trabalhador europeu tem seu eixo na natureza do lucro da mais-valia, nas condições atuais da propriedade dos instrumentos de trabalho, em suma, nas características objetivas de sua situação; ao contrário, como o desprezo que os brancos ostentam para com os negros – e que não possui equivalente na atitude dos burgueses em relação à classe operária – visa tocá-los no fundo do coração, é mister que os negros lhe oponham uma concepção mais justa da subjetividade negra; por isso a consciência de raça centra-se sobretudo na alma negra, ou melhor, já que o termo aparece muitas vezes nesta antologia, em certa qualidade comum aos pensamentos e às condutas dos negros, que se chama negritude.

BI – Como assim, negritude?

S – Ora, para constituir conceitos raciais, só há duas maneiras de operar: transpõe-se para objetividade certos caracteres subjetivos, ou então, tenta-se interiorizar condutas objetivamente discerníveis; assim o negro que reivindica sua negritude num movimento revolucionário coloca-se de pronto no terreno da Reflexão, quer deseje encontrar em si próprio certos traços objetivamente verificados nas civilizações africanas, quer espere descobrir a Essência negra nas profundezas de seu coração (Pausa. Tomou uma talagada Da Macia)… A negritude toda presente e oculta o obseda, o roça, ele se roça em sua asa sedosa, ela palpita, toda distendida através dele, como sua profunda memória e sua exigência mais alta, como sua infância sepulta, traída, e a infância de sua raça e o chamado da terra, como o formigamento dos instintos e a indivisível simplicidade da Natureza, como o puro legado de seus antepassados e como a Moral que deveria unificar a sua vida truncada.

BI – O engajamento negritude implica, também, na libertação da opressão que a linguagem branca lhe impõe.

S – Em parte alguma isso se evidencia tanto como em seu modo de usar os dois termos conjugados “negro-branco” que recobrem ao mesmo tempo a grande divisão cósmica “dia e noite” e o conflito humano do nativo e do colono. Mas é um par hierarquizado: ministrando-o ao negro, o professor ministra-lhe, ademais, centenas de hábitos de linguagem que consagram a prioridade do branco sobre o negro. O negro aprenderá a dizer “branco como a neve” para significar a inocência, a falar da negrura de um olhar, de uma alma, de um crime. Desde que abre a boca ele se recusa, a menos que se encarnice em derrubar a hierarquia.

BI – Quer dizer então, que este truque do branco-colonizador querer o negro preso a cor, é uma das maiores fraudes histórica?

S – O negro não é uma cor, mas a destruição desta clareza de empréstimo que cai do sol branco. O revolucionário negro é a negação porque ele se quer puro desnudamento: para construir sua verdade, deve arruinar primeiro a dos outros. Os semblantes negros, estas manchas de noite que obsidiam nossos dias, encarnam o obscuro trabalho da Negatividade que rói pacientemente os conceitos. Assim, por um retorno que lembra curiosamente o do negro humilhado, insultado, quando ele se reivindica como “negro imundo”, é o aspecto privativo das trevas que funda seu valor.

BI – Assim, para ele, a liberdade…

S (Cortando com entusiasmo) – A liberdade é cor da noite.

BI (Aplaudindo tresloucadamente) – Que porrada, cara! Essa é para se tornar lema de luta, meu irmão! Cacete! Intempestivamente como o tempo escorre. Sabemos da tua gentileza em nos atender, apesar da pressa em ter que viajar para o Oriente, entretanto, gostaríamos que fizesses, para nós e nossos amigos blogueiros, uma pequena síntese desta situação.

S – A situação do negro, sua “dilaceração” original, a alienação que um pensamento estrangeiro lhe impõe sob o nome de assimilação obrigam-no a reconquistar sua unidade existencial de negro ou, se se prefere, a pureza original de seu projeto, por ascese progressiva para além do universo do discurso. A negritude, como a liberdade, é ponto inicial e termo final: trata-se de passá-la do imediato ao mediato, de tematizá-la. Portanto, no tocante ao negro trata-se de morrer para a cultura branca a fim de renascer para a alma negra, assim como o filósofo platônico morre para seu corpo com o fito de renascer para a verdade. Tal retorno dialético e místico às origens implica necessariamente um método. Mas este não se apresenta como um feixe de regras para direção do espírito. Constituí uma unidade com quem o aplica; á a dialética das transformações sucessivas que hão de conduzir o negro à coincidência consigo mesmo na negritude. Não se trata para ele de conhecer, nem de arrancar a si próprio no êxtase, porém de descobrir, ao mesmo tempo, e tornar-se aquilo que ele é.

*Enunciação a título de virtual/atual e real: Tirando todas as perguntas do BI e a primeira resposta de Sartre, que são fictícias, todas as respostas do filósofo existencialista foram elaboradas e extraídas de sua obra, Reflexões Sobre o Racismo.

A CAPOEIRA SENZALA NEGRA

E seg’uindo a potência política da Consciência Negra, soaram os berimbaus lá na Esc. Sônia Maria, no início da grande Cidade de Deus, onde o grupo capoeirista Senzala Negra realizou nesse domingo batizados e trocas de corda de vários capoeiras.

Esse evento de hoje é o 11° Batizado, onde os alunos recebem da 1a graduação pro cordel verde até a troca de cordel, que hoje se deu até a 5aª Graduação, com os cordéis que foram trocados. E hoje também nós faríamos uma homenagem pra uma das pessoas que tem sido muito importante pra nós dentro da capoeira e até agora nós estamos aguardando que ela chegue. Essa pessoa está sendo mantida em segredo, só algumas pessoas do grupo sabiam, porque a gente quer fazer uma surpresa, a gente achou que seria mais do que merecida essa homenagem por tantos anos já dentro da capoeira. Tem várias associações e grupos de capoeira aqui em Manaus. Muitas são legalizadas, mas outras não. Mas nós estamos nessa luta principalmente porque o trabalho do Senzala Negra, nós tentamos resgatar as crianças da ociosidade, tentamos tirá-las das ruas, evitar que cheguem perto das drogas. Às vezes a gente perde alguns, mas numa média de 4 que vem pra nós, nós resgatamos três. Então por isso nós achamos que o papai do céu está nos ajudando muito. E nessa luta a gente tem a ajuda do professor Selvagem que está com a gente há 14 anos e tem nos ajudado com essa rapaziada mais arisca.Ele tem um jeito todo especial que vai conquistando o carinho deles e vai ficando mais fácil de com a capoeira transformá-los em cidadãos brasileiros. (Formada Abelha, Coordenadora do Senzala Negra)


Nós tentamos resgatar os alunos nas escolas, nas ruas e de envolver um trabalho tanto corporal quanto mental, na sociedade deles. Porque muitos deles querem estar nas drogas, na prostituição. A gente tenta resgatar esses alunos pra voltar pra escola e treinar capoeira, e pela capoeira eles voltarem a estudar. A divulgar o próprio trabalho tambem, que é esquecido da capoeira, que é a igualdade social. Mas a capoeira ela sempre fica um pouco discriminada, mas a gente trabalha com isso e com isso nós vamos conseguindo chegar em algum canto. Então a capoeira está se expandindo pelo mundo inteiro, com muita luta e gente vai conseguindo muitas pessoas pra capoeira, inclusive na federação de capoeira. (Professor Selvagem, do Conselho Majoritário do Senzala Negra)

Para quem gosta de assistir uma boa roda de capoeira ou para quem pretende receber os ensinamentos da capoeira, o Senzala Negra reúne 2ª e 3ª feiras, das 18 às 20h,na Escola Sônia Maria, que fica no início da Cidade de Deus, e aos sábados na Escola Vasco Vazquez a partir das 16h. Todos estão convidados!

E fica abaixo uma das fotos do Maculelê apresentado por crianças e adolescente do Senzala Negra.

MANAUS: UM PASSEIO PELA NÃO-CIDADE

Aproveitando o mote do feriado, esta coluna convida os leitores intempestivos a conhecerem a companheira Dulcilene Gomes Batista, ou Dulce para os amigos. Filósofa, militante dos movimentos sociais, amiga de Nestor Nascimento, Dulce falou sobre suas trajetórias e sobre o movimento negro no Amazonas. A entrevista foi originalmente publicada no vetor literário Phylum, da Associação Filosofia Itinerante (que você pode adquirir de grátis através do emeio da AFIN), no final do ano passado:

A FILÓSOFA DULCE: UM DEVIR-MULHER NEGRA

PHYLUM – Começando pelo meio?

Dulce: Começando pelo meio. Nasci no Gama, em Brasília, depois fui para o Rio de Janeiro, onde fiz minha formação. Minha família, formada por meus pais e mais seis irmãos, todos saudáveis, também mora no Rio, na Ilha do Governador, onde em verdade me criei. Em 89 entrei para a Congregação das Filhas da Caridade, fiz noviciado, votos para São Vicente de Paula, fiquei irmã durante oito anos, trabalhei no Espírito Santo, no Rio, e por último em Taubaté, São Paulo, que tinha um projeto com a igreja de Borba chamado Igrejas Irmãs. O Bispo de Borba tinha feito um apelo para que fosse enviado missionários para lá para assessorar pastorais. Como já estava pensando em deixar a Congregação, porque eu achava que não era possível continuar por uma questão de ideologia pessoal e de projeto de vida – aquilo que eu queria para mim mesma – então resolvi sair da comunidade e aceitei um convite de um padre amigo, que já trabalhava aqui a mais de um ano, para vir trabalhar no Amazonas. Então fizemos um contato com Dom José Afonso Ribeiro, que é Bispo de Borba, e vim como leiga missionária para a prelazia de Borba.

Em Taubaté tive uma experiência riquíssima, que foi primeiro trabalho com o acampamento do MST (Movimento dos Sem Terra), na região de Tremembé, que é conhecida até hoje como um projeto de grande força existencial pela forma como trabalham com a educação das crianças, a organização da comunidade, coleta coletiva de lixo. Depois, uma outra experiência interessante foi o estudo da Teologia no Instituto Sagrado Coração de Jesus, que hoje é Faculdade, onde os leigos da igreja de Taubaté estavam na linha de frente das políticas públicas: uma igreja emergente inserida nas lutas sociais. Foi um momento muito importante para ampliação dos meus entendimentos. Outro movimento que participei em Taubaté, foi o CEBI (Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos), que reunia várias religiões que faziam a leitura ecumênica e transformadora da bíblia. Seria as origens dos povos bíblicos, a situação social, econômica, política e a estrutura da Palestina em que nasceu Jesus. Uma leitura bem histórica, colocando a Bíblia no lugar dela. Era um grupo bastante animado e onde se teve a primeira reflexão sobre a Negritude. O CEBI NEGRO, que era um instituto que tinha uma organização muito importante.

P – E a vinda para o Amazonas?

D: Vindo para o Amazonas, em 95, eu não tinha a mínima idéia como se vivia aqui, para onde eu ia, a distância, o que eu ia fazer, não tinha perspectiva de salário, pois vim como voluntária por dois anos para viver com uma comunidade.

P – Lá em Borba?

D: Novo Aripuanã. Eu fui para Borba, mas como o Bispo tinha uma conhecida em Novo Aripuanã, uma cidade de uma realidade com bastante conflito, me mandou para paróquia de lá. Cheguei com a esperança idealista de encontrar uma igreja missionária e encontrei uma igreja tal qual a de São Paulo. Inclusive, pastoralmente, muito aquém do que oficialmente a igreja estava dizendo em termos de catequese, liturgia, de tudo. Um padre que estava mais de vinte e cinco anos na mesma paróquia…

P – Era o dono.

D: Era o dono e eu tive pouco espaço de atuação. Demorei muito a perceber, mas de cara ele teve uma grande antipatia por mim.

P – Percepção psicológica alesada.

D: Isto. Mas a população percebeu logo.

P – Prova de que a percepção coletiva não é alesada.

D: Isto mesmo. O que foi interessante foi meu contato com toda natureza daquele lugar. Nunca tinha visto tanto verde em minha vida. Tanta árvore, tanto rio, tantos animais, pássaros… Outro acontecimento interessante foi a experiência de dormir em rede, viajar de barco, tudo isso foi novo para mim. Bem, depois de dois anos trabalhando nas pastorais sociais eu decidi, por opção, me afastar das atividades da igreja e voltar para o Rio. Eu tinha uma proposta do Bispo Dom Vital, um religioso bastante engajado nas causas sociais na região sul do Rio, para trabalhar na arquidiocese de lá com um contrato e salário. Mas enquanto estava me preparando para voltar, me envolvi na campanha política do prefeito que era do PL. Como no interior não se tem ideologia política e prevalecem as pessoas, famílias, eu achei que naquele momento, politicamente, era esse candidato o melhor indicado, já que tinha uma história de vida interessante na cidade.

P – Como era o nome dele?

D: Raimundo Sobrinho, conhecido como Raiz. Então, ele me convidou para trabalhar na Secretaria de Ação Social. Aí passei a trabalhar, inclusive com os mesmos grupos, só que sem ideologia religiosa. Durante os quatro anos tive uma atividade intensa, trabalhando em quase todas as comunidades, que eram 62, navegando por quase todos os rios, menos no rio Acari, porque é de difícil acesso. Nestes quatro anos eu construí uma casa, fui colaboradora na formação da Associação dos Deficientes, que me deu muito prazer e conhecimento. Foi um projeto aprovado por uma ONG da Espanha tal a sua eficácia e originalidade, já que diziam não haver deficientes na cidade; entretanto, os deficientes eram tratados como loucos.

P – Quer dizer: existiam, mas o diagnóstico indicava outro.

D: Como eu havia trabalhado, também, na educação, eu vim participar em um congresso na UFAM sobre portadores de necessidades educativas especiais. Então, fiquei muito animada e tirei da gaveta um projeto que havia elaborado já há algum tempo. Começamos algumas reuniões com as lideranças da cidade, mas a primeira tentativa não foi adiante. Estavam envolvidos os vereadores, o juiz, etc. Então, comecei a trabalhar com os pais das crianças deficientes. Em uma reunião que compareceram oitenta famílias, nós tiramos uma comissão de quinze pessoas que começaram a trabalhar com seminários sobre deficientes. Trabalhamos um ano com levantamento, cadastro, visitas, elaboramos um Seminário com apoio do prefeito. Convidamos a ADEFA (Associação dos Deficientes Físicos do Amazonas) e depois do Seminário instituímos a nossa associação, ADENA (Associação dos Deficientes de Novo Aripuanã). Conseguimos um terreno para a sede própria, mas o prefeito posterior tomou-o. Outro trabalho importante foi o treinamento de algumas pessoas, inclusive uma deficiente, para lidar com estimulação precoce. Estimulação para síndrome de Down, já tínhamos cinco crianças para serem atendidas. Entretanto, segundo nossas observações, fomos levados a acreditar que, em razão de várias famílias realizarem casamentos consangüíneos, haviam outros casos, e que era preciso um estudo mais aprofundado sobre este tema. Trabalhamos também com pré-natal. Em seis anos fizemos duas turmas de pré-natal por ano. Depois, o contato com a ONG da Espanha, Pelas Crianças do Amazonas, onde fiz o curso de Organização Hospitalar com a Dra. Juana Romã. Essa ONG construiu um Centro Básico de Saúde e eu, como estava trabalhando na coordenação com os agentes de saúde, fui indicada. Então fui para a Espanha.

P – Que lugar da Espanha?

D: Palma de Mallorca. Voltando, tentei fazer um trabalho de saúde, mas a parceria não foi feliz com a Igreja. Bem, depois destes quatro anos me mudei para Manaus, porque estava decidida a entrar na Universidade.

P – E o Nestor, quando tu conheceste?

D: Em 96, antes de entrar para a prefeitura. Ele era assessor jurídico do padre e estava fazendo adoção de uma criança por um casal da Espanha. Quando vim para Manaus, vim junto com este casal, que se hospedou na casa dele, e eu, a seu pedido, também fiquei na casa e ele foi morar em outro lugar. Construímos uma grande amizade. Antes de tudo isso, uma amiga me falou muito sobre ele. Disse que ele havia tido uma forte atividade política em Manaus. E que tinha sido o fundador do primeiro movimento negro no Amazonas. O MOAM (Movimento Alma Negra do Amazonas). Aí, meu interesse por ele cresceu muito. Comecei a me interessar por sua produção literária sobre os negros, sobre a discriminação. Sua assessoria jurídica pioneira aos movimentos Gay. Entrei em contato com um belo artigo que ele escreveu sobre a Praça 14, que inclusive ele me deu e está bem guardado. Outra vez quando voltei para Manaus para passar dois meses de férias fiquei morando na casa dele. Então, começamos a namorar. Quando ele ia para Novo Aripuanã, ficava em minha casa. Ele queria casar comigo. Chegou a falar com meus pais, mas eu não pensava assim. Eu tinha na verdade uma grande admiração por ele. Por sua militância. Sua intelectualidade. Seu despojamento com as coisas materiais. E principalmente sua força de amizade.

P – E tua entrada no movimento negro?

D: Depois que voltei de vez para Manaus, comecei a participar do CEBI, que também tem essa leitura de gênero na linha política, ecológica, etc. E o CEBI, desde 2003, começou a programar o Seminário de Negritude em nível nacional. Não saiu; mas realizamos o local. Eu tinha contato com pessoas que estavam envolvidas com a questão negra. Sempre pesquisei e estudei o assunto. Além de sempre ser convidada para proferir palestras em escolas e centros comunitários. Quando o CEBI lançou a questão de Bíblia e Negritude, em 2004 nós preparamos o Seminário de Bíblia e Negritude. Só que eu achei que pelo fato de ser Bíblia e Negritude, limitaria. Então, resolvemos deixar somente Negritude. Daí, passamos a convidar pessoas que estavam envolvidas com a causa e criamos um grupo que se transformou no Fórum e se encontrou desde setembro até novembro de 2004 quando do evento do Seminário. Depois aconteceu o Fórum de Negritude, que serve de referências para aqueles que estão envolvidos com a questão ou não.

P – E a prefeitura tem uma atuação real e convincente nestes acontecimentos?

D: Não. O prefeito Serafim, que foi apoiado pelos movimentos populares e que representava um desejo de mudança, hoje nós sentimos uma grande distância dele do diálogo do movimento popular. Inclusive na UFAM ele se reuniu conosco, porque havia um grupo da filosofia que estava discutindo a implementação do ensino de filosofia no Ensino Fundamental. E ele afirmou que havia muita possibilidade de realizar essa necessidade. Depois que foi eleito, ele não nos procurou para um diálogo. Ele ainda chegou a participar de uma reunião dos movimentos sociais com paróquias, onde ratificou o apoio às lutas, a questão da gestão democrática que era o que a gente esperava. Mas a gente sentiu um distanciamento dele dos movimentos que o elegeram. Por exemplo: o fórum do orçamento participativo, o pessoal questiona como foi feito. Nós esperávamos que fosse outro processo, que outros grupos fossem chamados, os grupos de luta por moradia e tudo mais. Outra coisa que a gente questiona é que há mais orçamento alocado na propaganda, na mídia, que na área social.

P – E a relação de vocês com o governo estadual?

D: É uma relação que se dá com alguns projetos. Na verdade a Cáritas é também uma captadora de recursos para alguns projetos sociais da igreja católica e a relação se dá quase nesse nível. Não há uma relação de parceria construtiva. Inclusive nós estamos na implementação dos Conselhos Estaduais com muita dificuldade de dialogar com o governo, se não forçarmos com os movimentos populares praticamente não há diálogo.

P – Como tu estás entendendo a discussão sobre a mestiçagem?

D: A primeira vez que ouvi falar sobre o movimento mestiçagem no Brasil foi no Seminário Negritude. Porque a gente sabe que movimento mestiçagem existe na Europa, que são imigrantes estrangeiros, e nos Estados Unidos, os latinos americanos. No Brasil, se existe, não conheço. Aqui em Manaus, eu não conheço um grupo mestiço. Na verdade, eu conheço quatro pessoas que se dizem mestiças e se assumem como mestiças. Eles participaram das reuniões do Fórum de Negritude. Inclusive houve uma discussão que o Fórum de Negritude deveria ser um Fórum da igualdade racial, e o movimento negro achou que não. Já que o que era proposto era a discussão política-social dos negros. Foi aí que os mestiços se desvincularam, porque a ideologia deles não batia com a do movimento negro; muito menos com a do movimento nacional, que está muito avançado nas políticas de afirmação, que é o movimento de reparação de 48% da população brasileira negra excluída.

P – Como tu vês a política do governo federal nesta questão?

D: Eu vejo por um lado muito positiva. Já que pela primeira vez um governo se preocupou em discutir a questão racial. Por outro lado, a maneira como está sendo executada, vamos ter que discutir muito. Desde 1888, desde que se fala em “libertação da escravatura”, nunca nenhum governo discutiu esta questão no Brasil. Considerando que o Brasil é a segunda nação negra do mundo, só perdendo para a Nigéria, nós estamos no mínimo trezentos anos atrasados.

P – Há uma democracia racial?

D: Nós vivemos numa falsa democracia racial, que afirma que não há discriminação racial quando o preconceito salta aos olhos. Até cego vê. Eu já fui muitas vezes discriminada.

P – Tu percebes discriminação na Universidade?

D: A Universidade é discriminatória. Exemplo: na minha turma de filosofia de 60 alunos, eu era a única negra.


USAR O CONTROLE REMOTO É UM ATO DEMOCRÁTICO!

EXPERIMENTE CONTRA A TV GLOBO! Você sabe que um canal de televisão não é uma empresa privada. É uma concessão pública concedida pelo governo federal com tempo determinado de uso. Como meio de comunicação, em uma democracia, tem como compromisso estimular a educação, as artes e o entretenimento como seu conteúdo. O que o torna socialmente um serviço público e eticamente uma disciplina cívica. Sendo assim, é um forte instrumento de realização continua da democracia. Mas nem todo canal de televisão tem esse sentido democrático da comunicação. A TV Globo (TVG), por exemplo. Ela, além de manter um monopólio midiático no Brasil, e abocanhar a maior fatia da publicidade oficial, conspira perigosamente contra a democracia, principalmente, tentando atingir maleficamente os governos populares. Notadamente em seu JN. Isso tudo, amparada por uma grade de programação que é um verdadeiro atentado as faculdades sensorial e cognitiva dos telespectadores. Para quem duvida, basta apenas observar a sua maldição dos três Fs dominical: Futebol, Faustão e Fantástico. Um escravagismo-televisivo- depressivo que só é tratado com o controle remoto transfigurador. Se você conhece essa proposição-comunicacional desdobre-a com outros. Porque mudanças só ocorrem como potência coletiva, como disse o filósofo Spinoza.

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CAMPANHA AFINADA CONTRA O

VIRTUALIZAÇÕES DESEJANTES DA AFIN

Este é um espaço virtual (virtus=potência) criado pela Associação Filosofia Itinerante, que atua desde 2001 na cidade de Manaus-Am, e, a partir da Inteligência Coletiva das pessoas e dos dizeres de filósofos como Epicuro, Lucrécio, Spinoza, Marx, Nietzsche, Bergson, Félix Guattari, Gilles Deleuze, Clément Rosset, Michael Hardt, Antônio Negri..., agencia trabalhos filosóficos-políticos- estéticos na tentativa de uma construção prática de cidadania e da realização da potência ativa dos corpos no mundo. Agora, com este blog, lança uma alternativa de encontro para discussões sociais, éticas, educacionais e outros temas que dizem respeito à comunidade de Manaus e outros espaços por onde passa em movimento intensivo o cometa errante da AFIN.

"Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias; que é atingido pelos próprios pensamentos como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, como por uma espécie de acontecimentos e de faíscas de que só ele pode ser alvo; que é talvez, ele próprio, uma trovoada prenhe de relâmpagos novos; um homem fatal, em torno do qual sempre ribomba e rola e rebenta e se passam coisas inquietantes” (Friedrich Nietzsche).

Daí que um filósofo não é necessariamente alguém que cursou uma faculdade de filosofia. Pode até ser. Mas um filósofo é alguém que em seus percursos carrega devires alegres que aumentam a potência democrática de agir.

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