Arquivo para 7 de dezembro de 2007

DOS FAZERES E DIZERES DA ECONOMIA MENOR

Como disse o filósofo francês Jean Baudrillard, há uma única exigência para os capitalistas — a necessidade de consumidores — senão eles não nos legariam sequer o pão. E há muito teriam feito isso se por fora dos grandes fluxos capitais das corporações bilionárias não corresse uma pequena economia que, apesar de carregar códigos da exploração macroeconômica, baseia-se sobretudo na capacidade inventiva dos pobres de criar novos fazeres com uma inteligência imperceptível ao poder/saber. Quase sempre a economia maior tenta apropriar-se por usurpação dos feitos dessa economia menor, colando-lhe um falso rosto a partir da ordem do discurso que assegura a simulação das imensas cifras nas bolhas de valores. Seguindo os rastros da imanência necessária à criação desses fazeres e seus dizeres inauditos, este bloguinho começa hoje esta nova coluna, que trará entrevistas do discurso/prática de trabalhadores que, para além de uma mera subvivência, levam/constroem elementos materiais e imateriais nos percursos que fazem sobre a cidade, por isso importa-nos não as segregações existenciais a partir do trabalho capitalístico, nem as esperanças fantasiosas, mas as virtualidades desejantes na totalidade da existência dessas pessoas na rua, no mundo e o que delas passa liberando a vida, desestabilizando o ensejo totalitário do Mercado Global.

ELIELSON: O CASCALHEIRO ANDARILHO

Os pobres se esquivam pelas barreiras e

cavam túneis que enfraquecem as muralhas.”

(Toni Negri, filósofo italiano)

Telengotengo, lengotengo, lengotengo… Quem nunca ouviu a batida ritmada do triângulo? A criançada corre. É cascalho. Foi a partir dessa batida que Luiz Gonzaga atualizou o baião. Teve de estudar com os cascalheiros. Teve de ouvir os ritornelos das ruas. E é pelo som dessa batida que vai nossa primeira entrevista, é com um desses andarilhos do som. Saímos andando com ele pelas ruas e entrevistando-o, enquanto ele caminhava ao ritmo do metal, carregando sua lata ainda com mais de 100 cascalhos…

Bloguinho — Seu nome é…

Cascalheiro — Elielson Carvalho.

Bloguinho Qual a sua idade?

Cascalheiro — 23 anos.

Bloguinho Você é daqui mesmo de Manaus?

Cascalheiro — Sim. Nasci aqui e sempre morei aqui.

Bloguinho Fala pra gente um pouco desse trabalho que você faz, há quanto tempo…

Cascalheiro — Eu sou cascalheiro. Trabalho como cascalheiro faz 4 anos. Antes eu trabalhava com plastificação, separava sacos de plásticos de acordo com o tipo, o tamanho. Isso aí eu comecei lá pelos 17 anos, porque antes eu vendia açaí, quando tinha 13, 14 anos…

Bloguinho Atualmente você mora aonde?

Cascalheiro — No Armando Mendes.

Bloguinho É lá que você pega o cascalho?

Cascalheiro — Não. Eu pego no Zumbi II.

Bloguinho Depois que pega, qual é o trajeto que geralmente você segue?

Cascalheiro — Eu pego uma lotação. Fico na Grande Circular; daí corto o São José II e saio no Novo Aleixo; depois eu rodo toda a Cidade Nova; depois o Renato Souza Pinto I e II; aí vou para o Nova Cidade; e depois para o Canaranas; depois rodo o Conjunto Cidadão; saio então perto da garagem da Eucatur e rodo aquela parte ali; pra terminar eu desço a principal e acabo na Feira do Produtor. Daí da Feira eu pego de novo uma lotação, deixo o cascalho do homem, dou a parte dele e fico com a minha. Aí vou embora pra casa.

Bloguinho Com esse longo trajeto, a que horas você sai e a que horas retorna?

Cascalheiro — Pego assim pelas 9h, dou uma parada meio-dia para almoçar, depois quando chego na Feira do Produtor já é lá pelas 8 da noite, ainda vou entregar o cascalho. Então chego em casa lá pelas 9h da noite.

Bloguinho Com as chuvas que tem dado, não deve ser fácil fazer esse trajeto.

Cascalheiro — É, tem dia que pego chuva; quando não, é sol.

Bloguinho Tem comumente algum problema de saúde por causa disso?

Cascalheiro — Sim. As pernas ficam muito cansadas e às vezes dá muita dor de cabeça.

Bloguinho E, diante de tudo isso, qual é a base que você tira por dia de lucro?

Cascalheiro — Nos dias de semana, em torno de R$ 30,00, tirando o almoço, que é eu que pago, R$ 5,00, fico com uns R$ 25,00; no domingo dá mais, uns R$ 50,00.

Bloguinho Dá pro seu gasto?

Cascalheiro — Dá. É claro que eu gostaria de ganhar um pouco melhor, não pra ficar rico, mas melhor.

Bloguinho Melhor como?

Cascalheiro — Pra não ter de trabalhar tanto, pra ter tempo pra terminar meus estudos.

Bloguinho Você fez até que série?

Cascalheiro — Até a 5ª série. Desde 2003 que não estudo. Parei por causa do trabalho. Esse ano ainda me matriculei, mas não teve condições.

Bloguinho Ano que vem você vai tentar de novo?

Cascalheiro — Vou sim, com certeza.

Bloguinho E diversão, você pratica algum esporte, vai a festas?

Cascalheiro — Esporte não pratico não. Festa às vezes eu vou com meus amigos, um pagode. Eu gosto de ir pro cinema com a minha irmã e os amigos dela, gosto porque as histórias me divertem.

Bloguinho O que você acha mais interessante, curioso, na sua profissão?

Cascalheiro — O som do triângulo. Quando você bate, as crianças saem correndo, as pessoas já sabem que é cascalho. Os adultos compram para elas. Às vezes eles não tem dinheiro. Dá vontade até de dar pra elas às vezes, mas não dá. Se você está vendendo mal, às vezes num bairro inteiro você não vede um, aí você anda mais devagar, não bate direito. Quando você está vendendo bem, aí você anda rápido, bate com vontade o triângulo.

Bloguinho Pra fechar, você que anda por todos esses lugares, conhece a cidade, o trajeto deve ser dificultado com as ruas nessas condições.

Cascalheiro — Tem muito buraco por aí.

Bloguinho Tem outras como essa?*

Cascalheiro — Tem quase como essa, mas essa daqui está horrível.

Bloguinho Você acha que o prefeito vai conseguir fechar esses buracos até o final do mandato.

Cascalheiro — Acho que nem a metade.

Bloguinho — Mas você precisa seguir?

Cascalheiro — É, preciso ir.

* A rua em que a entrevista foi feita e a foto foi tirada é a rua Rio Jaú, no Novo Aleixo, que tem suas precárias condições demonstradas no Projeto Poseidon dois posts abaixo.

DEIXA QU’EU DEIXO – RUA NA ZONA SUL NÃO TEM COBERTURA DO PSF

A rua Ceará, localizada no bairro Santa Luzia, parece não fazer parte da cobertura do PSF (Programa Saúde da Família) que a Prefeitura gerencia.

Um usuário da rede pública de saúde que reside nesta rua informou ao bloguinho que foi até a casinha número 108, localizada à rua Leopoldo Neves, Santa Luzia, a fim de solicitar a visita da Agente de Saúde para um idoso com dificuldades de locomoção. A referida casinha funciona junto ao posto de saúde do bairro. O posto se localiza a pouco mais de 150 metros da rua Ceará. No entanto, o usuário foi informado pelas agentes de saúde que sua rua era contemplada na área de abrangência de outra casinha, a 138, localizada no Educandos, do outro lado da Av. Presidente Kennedy, próximo ao popular beco do Louro, e que lá deveria solicitar a visita da agente de saúde. No entanto, ao visitar a casinha 138, o usuário foi informado que a referida rua é sim, de responsabilidade da casinha 108, e que deveria se dirigir novamente à casinha, desta vez exigindo falar com a médica responsável, a fim de solicitar a visita domiciliar da agente de saúde para um idoso que reside em sua casa.

Em dúvida, o usuário contatou, no dia 31 de outubro, através do e-mail da SEMSA, que respondeu, no dia 06 de novembro, através da assessoria de comunicação da DISA – Sul que a rua Ceará é dividida entre as casinhas 108 e 138, e solicitando detalhes do endereço do usuário a fim de dirimir a dúvida. No mesmo dia, o usuário enviou os dados de seu endereço, mas até hoje não obteve resposta, tampouco a visita das agentes de saúde para o paciente idoso e com dificuldades de locomoção que reside em sua casa.

DEIXA QUE EU DEIXO, TE BALANÇA QUE EU ME BALANÇO, FAIZ QUE VAI QUE EU FAIZ QUE VOU…

Se não há conformidade sobre de quem é a responsabilidade sobre a rua, há ao menos um ponto de concordância entre os agentes públicos envolvidos: nenhum deles quer assumi-la. Independente da questão de área de abrangência ou proximidade, o que se extrai do acontecimento é a sobreposição do enunciado burocrático sobre o da saúde: a questão da área se sobrepõe ao usufruto dos direitos civis. No caso em questão, o Estatuto do Idoso está sendo infringido, uma vez que, de acordo com o Artigo 15, parágrafo 1º, item IV, o idoso com dificuldades de locomoção tem direito a atendimento domiciliar.

O caso será acompanhado por este Bloguinho, que em breve trará novas informações.

PROJETO POSEIDON E AS CRIANÇAS NO MOVIMENTO DAS ÁGUAS

E na ex-rua Rio Jaú, do Novo Aleixo, as obras continuam paradas. E agora, nesse período chuvoso, as águas também estão paradas, o que pode acarretar para os moradores, como já afirmamos aqui neste bloguinho, além do mau cheiro, riscos à saúde, como dengue, diarréia, malária, até a chamada febre do Nilo. Depois as secretarias fazem campanhas de saúde pública contra a dengue, por exemplo, deixando vazar que a saúde é tratada apenas como uma abstração, sem um corpo real, por isso é pensada(?) numa separação com outros serviços públicos.

Novos boatos chegam de longe: que a empresa responsável pelo asfaltamento teria sido mandada para a construção do Terminal Pesqueiro, na Ceasa; que a Prefeitura de Manaus não pagou os fornecedores de materiais e que agora até as obras dos viadutos do prefeito estão paradas; que acabou o asfalto armazenado, etc. Só boatos? Acontece que alguns moradores ligaram para a SEMOSBH, no telefone 3236-1845, do Gabinete do Subsecretário, querendo saber sobre a paralisação das obras na ex-rua e qual a previsão para a continuação, e de lá foram redirecionados a ligar para o Distrito de Obras do Coroado, no telefone 3663-2110, para cobrar informações ao Eng° Leandro, o qual não se encontrava, e a atendente ficou de verificar e entrar em contato. Os mesmos números aos quais os moradores ligam há dois anos. Uma coisa ninguém pode acusar a atual gestão da Prefeitura de Manaus: ela não mente, já que não fica inventando desculpas. Não há nenhuma informação real a ser oferecida ao cidadão. Há dois anos os moradores da ex-rua Rio Jaú confirmam isso, tanto indo à SEMOSBH pessoalmente quanto por telefone.

Como se percebeu no Projeto Oceano Poseidon anterior, ao contrário desses governos, as crianças são sábias, por isso um grupo de crianças passa várias horas a brincar de pescaria nas águas paradas. Isso na verdade movimenta as águas, fazendo com que ela não sirva de abrigo para o aedes aegypti, o mosquito da dengue. Assim como Poseidon, que, sempre em companhia da Boiúna e de Senhor Rei do Mar, vão movimentando as águas oceânicas para que as ruas rios virem mar. Só estes governos não movimentam nada…

PONTOS DO BURACO NEGRO

Buraco Negro em Esquizo-Análise é um sistema que captura corpos para se alimentar

Amazonas ocupa o segundo lugar em tuberculose no país.

É o primeiro em desistência ao tratamento.

12% dos pacientes em tratamento desistem.

Somente 5% terminam o tratamento.

Desistência do tratamento aumenta a resistência do bacilo.

Usuários continuam sob o julgo do transporte coletivo.

Ônibus em destroços continuam circulando ameaçando usuários e não.

Vereador pede que membros faltosos das comissões renunciem.

Apesar da propaganda, água continua faltando nos bairros.

Ornamentação natalina da cidade não traduz a alegria da festa cristã.

Futebol do estado é sinônimo do estado do estádio.

Outdoor de finalistas sugere o conceito da medicina de mercado.

Casa que andou 30cm sobre passeio público continua intocada.

Cortar o Buraco Negro só a Linha-Devir-Potência…


USAR O CONTROLE REMOTO É UM ATO DEMOCRÁTICO!

EXPERIMENTE CONTRA A TV GLOBO! Você sabe que um canal de televisão não é uma empresa privada. É uma concessão pública concedida pelo governo federal com tempo determinado de uso. Como meio de comunicação, em uma democracia, tem como compromisso estimular a educação, as artes e o entretenimento como seu conteúdo. O que o torna socialmente um serviço público e eticamente uma disciplina cívica. Sendo assim, é um forte instrumento de realização continua da democracia. Mas nem todo canal de televisão tem esse sentido democrático da comunicação. A TV Globo (TVG), por exemplo. Ela, além de manter um monopólio midiático no Brasil, e abocanhar a maior fatia da publicidade oficial, conspira perigosamente contra a democracia, principalmente, tentando atingir maleficamente os governos populares. Notadamente em seu JN. Isso tudo, amparada por uma grade de programação que é um verdadeiro atentado as faculdades sensorial e cognitiva dos telespectadores. Para quem duvida, basta apenas observar a sua maldição dos três Fs dominical: Futebol, Faustão e Fantástico. Um escravagismo-televisivo- depressivo que só é tratado com o controle remoto transfigurador. Se você conhece essa proposição-comunicacional desdobre-a com outros. Porque mudanças só ocorrem como potência coletiva, como disse o filósofo Spinoza.

Acesse esquizofia.wordpress.com

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CAMPANHA AFINADA CONTRA O

VIRTUALIZAÇÕES DESEJANTES DA AFIN

Este é um espaço virtual (virtus=potência) criado pela Associação Filosofia Itinerante, que atua desde 2001 na cidade de Manaus-Am, e, a partir da Inteligência Coletiva das pessoas e dos dizeres de filósofos como Epicuro, Lucrécio, Spinoza, Marx, Nietzsche, Bergson, Félix Guattari, Gilles Deleuze, Clément Rosset, Michael Hardt, Antônio Negri..., agencia trabalhos filosóficos-políticos- estéticos na tentativa de uma construção prática de cidadania e da realização da potência ativa dos corpos no mundo. Agora, com este blog, lança uma alternativa de encontro para discussões sociais, éticas, educacionais e outros temas que dizem respeito à comunidade de Manaus e outros espaços por onde passa em movimento intensivo o cometa errante da AFIN.

"Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias; que é atingido pelos próprios pensamentos como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, como por uma espécie de acontecimentos e de faíscas de que só ele pode ser alvo; que é talvez, ele próprio, uma trovoada prenhe de relâmpagos novos; um homem fatal, em torno do qual sempre ribomba e rola e rebenta e se passam coisas inquietantes” (Friedrich Nietzsche).

Daí que um filósofo não é necessariamente alguém que cursou uma faculdade de filosofia. Pode até ser. Mas um filósofo é alguém que em seus percursos carrega devires alegres que aumentam a potência democrática de agir.

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