O MEDIUM TELEVISIVO E A OPINIÃO PÚBLICA

TELEJORNAL: QUEM OLHA QUEM?

De tanto olhar, a gente esquece que pode também ser olhado.”

(Roland Barthes)

Há noventa e nove anos os irmãos Lumière, pela Casa Lumière, demonstraram, mandando cineastas-repórteres ao mundo, que imagens de outros lugares poderiam chegar aos olhos de todos, mesmo que houvesse uma distância espacial-física a perder de vista o horizonte. Acontecimentos transformados em fatos ou meras curiosidades ocorridas em lugares distantes, a partir de então, chegavam como notícias, informações em pequenas salas de projeção onde eram exibidas ao público.

Começavam assim os chamados jornais-cinematográficos ou noticiários de actualidad, como eram chamados. As imagens trazidas de longe, postas em aparelhos (cinematógrafos) que as colocavam em movimento ou simplesmente paradas aos olhos do público, inauguravam a diminuição das distâncias geográficas no espaço e subtraiam o domínio físico temporal da regularidade início/meio/fim, uma vez que as imagens podiam ser vistas várias vezes e em ordens invertidas à maneira de quem as estivesse controlando através dos aparatos tecnológicos da época.

A nova maneira que as imagens chegavam até o público transportava os olhos para outros lugares. A distância era diminuída. A imagem, frente às testemunhas oculares, fazia com que a sensação da velocidade imperasse na percepção.

Antes do advento do aparelho televisão, já havia telejornais. Etimologicamente “jornal” vem de jornada e pode ser entendido como uma espécie de conjunto de fatos que ocorreram na jornada de um período limitado, como um dia. Daí a palavra “jornalista” ter o seu sentido etimológico de analista de um dia. Como a ação dos irmãos Lumière proporcionou que fatos, notícias e informações fossem deslocadas de seus locais de origem para olhares distantes, já se realizavam, portanto, uma análise de um dia, ou de uma jornada limitada, à distância. É o que indica a junção de tele=distância com o étimo de jornalista, jornal. Se a televisão nos sugere uma tele-visão, uma percepção visual do ao longe, os noticiários de actualidad, já realizavam este deslocamento perceptivo-visual.

Os jornais-cinematográficos, inclusive, antecipavam o que se chama hoje globalização. Eles tornavam-se telescópios do mundo, fazendo com que o lugar, o local, fosse atingido por uma série de informações e tomasse ares de totalidade. Diluía a hegemonia temporal-espacial da estagnação do acontecimento isolado. Contudo, ocorria um alastramento da informação com pequeníssimos repertórios (quantidade de informação), o que aumentava a audiência do público. A informação chegava como algo novo, uma surpresa. A própria maneira que o cinematógrafo fazia com que as imagens surgissem aos olhos realizava um corte na percepção constituída, quando apresentava imagens em planos que esquartejavam o corpo humano e colocavam imagens em movimento. Diferente da globalização hodierna que, através de um acúmulo exorbitante de informações “irradiado” pelos mass media, faz da informação um código mercadológico, onde “a informação oculta a informação” (Ignacio Ramonet), posto que sejam muitas informações, truncadas, para serem consumidas.

Se os jornais-cinematográficos tinham as informações como uma surpresa ao público, os atuais telejornais televisionados, e também suas versões na internet, fazem da informação shows, espetáculos, onde o que menos interessa é a autenticidade ou a importância social da notícia do que o impacto emocional padronizado que ela irá causar no tele-espectador.

O telejornal, em seu fascínio pelo “espetáculo do evento”, desconceitualizou a informação, imergindo-a novamente, pouco a pouco, no lodaçal do patético. Insidiosamente, estabeleceu uma espécie de nova equação informacional que poderia ser formulada desta maneira: ‘Se a emoção que vocês sentem ao ver o telejornal é verdadeira, a informação é verdadeira’”. (Ignacio Ramonet)

Os telejornais televisionados apresentam outro tipo de censura, diferente daquela que esconde, oculta, próprio dos regimes ditatoriais. Este outro tipo de censura é aberto e, ao invés de ser acionada pela escassez sistematizada de informações, opera na abundância. O intuito da grande quantidade de informação nos telejornais televisionados é não informar. A informação, quando se dá de modo que sua repercussão não se limite em um primeiro que comunica um segundo, mas pela redundância é re-passada constantemente a terceiros, de um grau a outro, justapostamente, ela impõe ordens, e todos os enunciados surgidos apenas ecoam as ordens anteriores. É a constituição da informação como palavra de ordem imposta pelos telejornais televisionados: uma abertura enorme de informações que não fazem outra coisa a não ser conservar uma subjetividade midiática pautada na truncagem da informação e invenção de factóides, próprios do Globalitarismo.

É preciso falar primeiramente aos olhos”. Era o que dizia o homem da estratégia, Bonaparte. O telejornal televisionado fala aos olhos. Sempre falou. Os olhos que, quando pensavam está descansando frente à “janela para o mundo”, se entretendo, apreciando um mundo que o estacionar significa a morte, onde a informação é veloz e em grande quantidade, onde tudo é aberto, mas também, onde “nenhuma imagem é inocente” e o signo sonoro é quase que obsoleto e serve apenas para se casar com as imagens que convém, não percebiam que, neste mundo das distâncias-próximas dos visuais e dos auditivos, eles também, eram olhados, examinados, calculados, vistos (e não ouvidos em razão do transe hipnótico que se encontram e, se muito falam, dizem o que são programados para dizer). O olho dos telejornais televisionados é o olho da harmonia do estado de coisas, o olho que garante a identidade mercado-consumidor.

Olhos encantados para uma janela aberta para o mundo, olhos olhados por uma janela que vai fechando as percepções. O telejornal televisivo expressa bem a televisão, o “telescópio doméstico”. Ele é espetáculo, show, entretenimento e informações vazias. Por isto sua escalada (a organização e distribuição das noticias) é muito parecida com a organização de filmes da indústria cinematográfica hollywoodiana. Tem um começo, um meio e um fim bem definido e sempre acabam se não com a esperança de tudo vir a dar certo um dia, com o tradicional Happy End. Ainda não há os efeitos especiais milionários produzidos nestes filmes, mas já tem seus galãs e suas musas, e quanto aos efeitos especiais, estes existem sim, não milionários e postos em fleches sucessivos e acelerados, mas feitos na velha forma truncada e dissimulada. Talvez tenha sido dessa intimidade que Berlusconi tem, não só com o telejornal, mas com toda a mídia golpista e seqüelada, que ele tenha sido inspirado para proferir a frase: “Quem não gosta de televisão não gosta da América”.

Esta coluna fará uma pesquisa sobre o telejornalismo televisivo seguindo alguns aspectos que fazem parte de sua escalada como: política profissional, violência, Verdade, estética, padronização das emoções, esporte, entre outros.

Esta coluna acredita na possibilidade da expansão da consciência pelas experiências autênticas que fazem soltar novas percepções, a criação de novos olhares sobre o mundo. Na alegria-estética de perceber o medium televisivo como uma violência à inteligência coletiva, contamos com a sua contribuição.

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Este é um espaço virtual (virtus=potência) criado pela Associação Filosofia Itinerante, que atua desde 2001 na cidade de Manaus-Am, e, a partir da Inteligência Coletiva das pessoas e dos dizeres de filósofos como Epicuro, Lucrécio, Spinoza, Marx, Nietzsche, Bergson, Félix Guattari, Gilles Deleuze, Clément Rosset, Michael Hardt, Antônio Negri..., agencia trabalhos filosóficos-políticos- estéticos na tentativa de uma construção prática de cidadania e da realização da potência ativa dos corpos no mundo. Agora, com este blog, lança uma alternativa de encontro para discussões sociais, éticas, educacionais e outros temas que dizem respeito à comunidade de Manaus e outros espaços por onde passa em movimento intensivo o cometa errante da AFIN.

"Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias; que é atingido pelos próprios pensamentos como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, como por uma espécie de acontecimentos e de faíscas de que só ele pode ser alvo; que é talvez, ele próprio, uma trovoada prenhe de relâmpagos novos; um homem fatal, em torno do qual sempre ribomba e rola e rebenta e se passam coisas inquietantes” (Friedrich Nietzsche).

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