O MEDIUM TELEVISIVO E A OPINIÃO PÚBLICA

INFORMAÇÃO E ETHOS

De onde vem a informação? Ela não tem origem ou uma raiz. Ou ainda: não é uma propriedade privada de um dono que a controla. Ela caminha à medida que faz seu caminho, atravessando os diversos canais que se constituem pelo espaço perceptivo a partir das experiências singulares e únicas, produtoras da pluralidade heterogênea. Atualização de virtuais que, sem cessar, desmancham-se a cada nova intersecção de canais. Flutuação. Queda livre que desequilibra os pólos clássicos: emissor e receptor. Variação. Encontro de diversidades. Ares, Marte e Ogum. Confronto. Batalha. Estratégia que vai tecendo os saberes no tecido social, produtor polivalente de elementos necessários à criação da opinião pública como doxa pública: materialização das composições dos corpos, criação da palavra como agente gerenciador do bem comum na cidade, salto para lá da ordem constituída que tenta frear, sem conseguir, os desejos incessantes. Alegria rejeitadora do Topos Uranos platônico. Ela é mais sofista e, sem dúvida, estoicista. Movimento. Violentamente apartada da causa primeira imóvel aristotélica. Produção espacial sensorial: objetos, coisas, ações, tudo emite, todos são receptores. Não há igualdade, posto que não haja hierarquia. Não é arborescente. Traça mapas. Onde a percepção a acha, ela não é de outro modo. É o mínimo ou o máximo de modo de ser que ela pode sustentar. Não tem ser. Não tem nada a suas costas. Não guarda segredos. Caminha no caminho que cria. Traça as linhas por onde corre na rede que constrói.

Poderíamos por um esforço de extrapolar a ordem etimológica dizer: a informação é uma in-formação, não tem forma. Ou: in-formação, são fluxos contínuos de partículas estranhas às já predominantes que são incluídas na forma, e assim, a desestrutura.

Eis o absurdo semiótico. A informação não é o que abarca uma série de signos que depois de relacionados com os seus referentes, aquilo que eles designam, tornam-se códigos, semanticamente estabelecidos, com seus sentidos bem definidos na área que irá ser requisitado. “Fora” dessa abstração vazia, não há informação. O receptor não compreende a mensagem emitida. Não faz sua interpretação, pois está sem solo significante, não tem referencial, está prestes a cair no abismo. Mas é este abismo que nos interessa. É este fora a nossa superfície, o nosso sentido. O sentido que não tem referencial, apenas é o que é enquanto é o que consegue manter no seu nível mínimo ou máximo de sua atualização.

O ethos grego também caminha por aí. Ele não surge como palavra-dicionário ou semântica com sentido restrito. Ele salta das experiências dos gregos antigos com a arte de apascentar os rebanhos (nemein) a fim de organizar, distribuir, dividir e assentar (dá morada) aos animais no pasto. Surge de uma relação direta com a terra, com a superfície, com o rasteiro. Salta da práxis de criar território que sirva de morada, habitação, onde possa haver práticas, relações entre os homens e as coisas e o meio em um espaço perceptivo. Práticas desenvolvidas em contratos que materializam uma forma de organização que mexe, desestrutura e muda a anterior. Práticas antes de regras. Regras para o bem comum. Nomos. Heráclito dizia algo como as necessidades das leis são como a necessidade da muralha. Muralha que não é apenas tijolos escalonados, mas polis: criação do espaço público, onde todos falam e todos ouvem, onde todos aparecem com os seus talentos para a criação de uma morada onde o bem comum seja necessário e as privações tenham suas forças diminuídas. Ethos não é ética (etiké) e ética não é moral. Muito menos palavras abstratas nulas, mas potencializações que se fizeram materializadas no corpus social.

Ética é o conjunto de fatores que estabelecem as práticas necessárias para a produção do bem comum. É o movimento que vai singularizando as ações dos indivíduos e as organizando dentro de um território. Isto para organizar este território. Organizar a morada em vários níveis. Atualizar os fluxos materiais e imateriais, segundo a necessidade do bem comum. Potencializar as singularidades e proporcionar processuais de singularização. Se pseudos políticos, assim como padres, pastores, professores e outros, tendem a confundir ética com moral é porque estes são conservados na tranqüilidade das prescrições ordenadas da temporalidade e espacialidade dos fóruns das subjetividades perversas como a do cristianismo (onde Cristo não é filho de Maria, mas pauliniano). Moral é o aprisionamento em regras que nascem antes da prática comunitária. Coordenadas normativas circunscritas ao íntimo de uma doutrina como a da igreja, da psicanálise, da escola, da família e do Estado. Enquanto a ética movimenta potências comunitárias para o bem comum, a moral limita-se a defender regras privadas que não alcançam o público.

Daí inferirmos que a informação caminha junto aos processuais que vão tecendo o ethos. Daí pensarmos que quando a informação é atribuída e reduzida ao seu corpo morfológico e sintático, ela tem sua força diminuída e tende a se harmonizar com o estado de coisas. Ela não cria, não produz, mas conserva, tenta se manter no estado de coisas.

É na mídia onde isto se torna notório. Nela a informação não produz uma morada onde os fluxos materiais e imateriais possam se materializar e atravessar as formas estabelecidas para perturbá-las. Nela não há disrruptura. Não há guerra. Há a harmonia tranqüila da confirmação da subjetividade capitalística que faz da palavra e da informação um signo-mercadoria, fechado em si mesmo, posto que acumula identidades.

A informação na mídia é convidada a se deitar no leito de Procusto. Ela, a informação, é adequada e sintetizada. É reduzida à moral midiática, que é a mesma do mercado capitalista. Salta daí a preocupação de percebermos até onde a informação é recolhida ao seu sentido semântico na mídia e, em especial, no telejornalismo. É desta preocupação que esta coluna continuará seu exame sobre o telejornalismo televisivo. Como a informação, enquanto despida do ethos e da ética, porém sobrecarregada de moral, encontra nas escaladas que organiza a estrutura do telejornalismo seu berço mais sereno, é nesta submídia que procuraremos agir.

Esta coluna acredita na possibilidade da expansão da consciência pelas experiências autênticas que fazem soltar novas percepções, a criação de novos olhares sobre o mundo. Na alegria-estética de perceber o medium televisivo como uma violência à inteligência coletiva, contamos com a sua contribuição.

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Este é um espaço virtual (virtus=potência) criado pela Associação Filosofia Itinerante, que atua desde 2001 na cidade de Manaus-Am, e, a partir da Inteligência Coletiva das pessoas e dos dizeres de filósofos como Epicuro, Lucrécio, Spinoza, Marx, Nietzsche, Bergson, Félix Guattari, Gilles Deleuze, Clément Rosset, Michael Hardt, Antônio Negri..., agencia trabalhos filosóficos-políticos- estéticos na tentativa de uma construção prática de cidadania e da realização da potência ativa dos corpos no mundo. Agora, com este blog, lança uma alternativa de encontro para discussões sociais, éticas, educacionais e outros temas que dizem respeito à comunidade de Manaus e outros espaços por onde passa em movimento intensivo o cometa errante da AFIN.

"Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias; que é atingido pelos próprios pensamentos como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, como por uma espécie de acontecimentos e de faíscas de que só ele pode ser alvo; que é talvez, ele próprio, uma trovoada prenhe de relâmpagos novos; um homem fatal, em torno do qual sempre ribomba e rola e rebenta e se passam coisas inquietantes” (Friedrich Nietzsche).

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