Arquivo para 20 de fevereiro de 2008

*……….::::: CHAGÃO:::::……….*

Chagão!

“Quien quiera entender como funciona el mundo
deberá entender el fútbol”.
Roberto Perfumo (ex-jogador argentino).

Θ FIFA TEM MEDO DE LUXEMBURGO? Em Luxemburgo se localiza a sede do Tribunal Europeu, a instância máxima da justiça do velho continente. Parece que Blatter teme pisar naquele país. Após a FIFA ameaçar de desfiliação o Peru, Portugal, Brasil, e tê-lo feito efetivamente com a Grécia (rapidamente refiliada) e com o Quênia (fora até hoje), Blatter, na malfadada homenagem à Di Stéfano na semana passada, ameaçou abertamente a RFEF (Federação Espanhola de Futebol) de desfiliação. Ainda se regozijou, afirmando que “a Fifa é mais poderosa que a ONU, pois tem mais membros e suas decisões são executadas sem que precisem passar por trâmites burocráticos”. Frase típica da arrogância do mercado desregulado do capitalismo apelidado neoliberal. Nem mesmo original Blatter consegue ser. A ameaça à Espanha é referente a ingerências do Estado na sucessão da federação. Pela lei nacional, deve haver eleições nas federações de esportes que não irão disputar as olimpíadas no início do ano, o que não foi feito pelo atual presidente, Ángel María Vidal. Como a federação é particular, mas recebe dinheiro público, tem que se submeter à lei, e o secretário de Estado do desporto, Jaime Lissavetski, não teme a ameaça da FIFA. Sabe que a entidade não pode nem sonhar em perder Real Madrid, Barcelona, Sevilla e outros grandes nos torneios internacionais. Sabe ainda que, em último caso, e apelando à Corte Européia, em Luxemburgo, esta certamente dará ganho de causa ao governo legitimamente eleito, e não a uma entidade que se pretende a corporação mais poderosa do mundo. E como todo capitalista, Blatter fala grosso com as pequenas federações, como Peru e Quênia, mas amarela quando encara a Fúria.

Θ ‘CHAGÃO’ PERGUNTA: Respostas do anterior: Um dos grandes craques brasileiros, e um dos primeiros a obter fama nacional e internacional (até hoje dizem que era melhor que Pelé, e fez mais gols que o Rei), Arthur Friedenreich fez o gol único da primeira conquista brasileira de uma Copa América, disputada em casa. Agora, o ‘Chagão!’ anedotiza e historiciza, perguntando: nos primórdios do campeonato brasileiro, houve uma edição com 40 clubes. Naquela ocasião, o Leão da Vila Municipal, o Nacional-AM, classificou-se pelo surreal critério de renda (dois times, independente da campanha, se classificavam para a fase seguinte pela renda dos jogos), eliminando o Guarani, de São Paulo, no Vivaldão (Manaus), mesmo perdendo por 3 a 0, com uma renda milionária para a época, mesmo com o estádio vazio e uma chuva torrencial. Em que ano este episódio ocorreu?

Θ LIBERTADORES DA AMÉRICA. Segue o enterro, e alguns times continuam surpreendendo, mas a turma dos medalhões reagiu, como o Nacional de Montevidéu. Meia Boca, empatou com os Chávez-Boys de Maracaibo. Serão eles a nova surpresa do certame? Resultados:

Grupo 1

12/02 – Caracas (VEN) 2 – 0 San Lorenzo (ARG)

13/02 – Cruzeiro (BRA) 3 – 0 Real Potosí (BOL)

21/02 – San Lorenzo 0 – 0 Cruzeiro

26/02 – Caracas – Real Potosí

04/03 – Cruzeiro – Caracas

11/03 – Real Potosí – San Lorenzo

18/03 – Caracas – Cruzeiro

25/03 – San Lorenzo – Real Potosí

01/04 – Real Potosí – Caracas

03/04 – Cruzeiro – San Lorenzo

17/04 – Real Potosí – Cruzeiro

17/04 – San Lorenzo – Caracas

Grupo 2

12/02 – Dep. Cuenca (EQU) 1 – 0 Estudiantes (ARG)

14/02 – Lanús (ARG) 3 – 1 Danubio (URU)

21/02 – Dep. Cuenca 0 – 0 Danubio

26/02 – Estudiantes – Lanús

05/03 – Danubio – Estudiantes

13/03 – Lanús – Dep. Cuenca

18/03 – Estudiantes – Danubio

20/03 – Dep. Cuenca – Lanús

27/03 – Danubio – Dep. Cuenca

02/04 – Lanús – Estudiantes

15/04 – Danubio – Lanús

15/04 – Estudiantes – Dep. Cuenca

Grupo 3

20/02 – Unión Maracaibo (VEN) 1 – 0 Boca Jrs (ARG)

21/02 – Atlas (MEX) 3 – 0 Colo Colo (CHI)

28/02 – Unión Maracaibo – Colo Colo

06/03 – Boca Jrs – Atlas

12/03 – Atlas – Unión Maracaibo

20/03 – Colo Colo – Boca Jrs

26/03 – Unión Maracaibo – Atlas

27/03 – Boca Jrs – Colo Colo

09/04 – Atlas – Boca Jrs

10/04 – Colo Colo – Unión Maracaibo

22/04 – Colo Colo – Atlas

22/04 – Boca Jrs – Unión Maracaibo

Grupo 4

13/02 – Cienciano (PER) 2 – 0 Nacional (URU)

13/02 – Cel. Bolognesi (PER) 0 – 0 Flamengo (BRA)

19/02 – Cel. Bolognesi 0 – 1 Nacional

27/02 – Flamengo – Cienciano

05/03 – Nacional – Flamengo

11/03 – Cienciano – Bolognesi

19/03 – Flamengo – Nacional

25/03 – Cel. Bolognesi – Cienciano

03/04 – Nacional – Cel. Bolognesi

09/04 – Cienciano – Flamengo

23/04 – Flamengo – Cel. Bolognesi

23/04 – Nacional – Cienciano

Grupo 5

13/02 – Universidad San Martín (PER) 2 – 0 River Plate (ARG)

21/02 – América (MEX) 2 – 1 Universidad Católica (CHI)

26/02 – U. San Martín – U. Católica

27/02 – River Plate – América

12/03 – U. Católica – River Plate

13/03 – América – U. San Martín

26/03 – River Plate – U. Católica

26/03 – U. San Martín – América

01/04 – U. Católica – U. San Martín

02/04 – América – River Plate

16/04 – U. Católica – América

16/04 – River Plate – U. San Martín

Grupo 6

14/02 – Cúcuta Deportivo (COL) 0 – 0 Santos (BRA)

19/02 – Chivas Guadalajara (MEX) 2 – 0 San José (BOL)

28/02 – Cúcuta – San José

04/03 – Santos – Chivas

11/03 – Chivas – Cúcuta

19/03 – San José – Santos

27/03 – Cúcuta – Chivas

01/04 – Santos – San José

08/04 – San José – Cúcuta

09/04 – Chivas – Santos

16/04 – San José – Chivas

16/04 – Santos – Cúcuta

Grupo 7

19/02 – Audax Italiano (CHI) 1 – 2 Sportivo Luqueño (PAR)

27/02 – Nacional Medellín (COL) – São Paulo (BRA)

05/03 – São Paulo – Audax Italiano

06/03 – Nacional Medellín – Sportivo Luqueño

18/03 – Audax Italiano – Nacional Medellín

20/03 – Sportivo Luqueño – São Paulo

02/04 – São Paulo – Sportivo Luqueño

03/04 – Nacional Medellín – Audax Italiano

10/04 – Audax Italiano – São Paulo

10/04 – Sportivo Luqueño – Nacional Medellín

23/04 – Sportivo Luqueño – Audax Italiano

23/04 – São Paulo – Nacional Medellín

Grupo 8

20/02 – Arsenal (ARG) 1 – 0 Libertad (PAR)

20/02 – LDU Quito (EQU) 0 – 0 Fluminense (BRA)

28/02 – Fluminense – Arsenal

06/03 – LDU Quito – Libertad

12/03 – Arsenal – LDU Quito

19/03 – Libertad – Fluminense

25/03 – LDU Quito – Arsenal

02/04 – Fluminense – Libertad

08/04 – Arsenal – Fluminense

08/04 – Libertad – LDU Quito

17/04 – Libertad – Arsenal

17/04 – Fluminense – LDU Quito

Θ CHAMPIONS LEAGUE! Partidas de ida nas oitavas-de-final. Nenhum resultado chega a surpreender, e em alguns casos, é possível arriscar com mais propriedade um prognóstico. Destaque para o atacante togolês Adebayor, que conseguiu perder um gol debaixo das traves, e um feito maior ainda: mostrar que o comentarista e ex-jogador Neto tinha razão. O goleiro do Milan, australiano, se divertiu à vera, como se dizia antigamente, e até tirou onda do time de garotos ansiosos do Emirates Stadium. Resultados e comentários:

Liverpool 2 – 0 Internazionale

Os Reds dificilmente perderão esta vaga, embora se defendam com menos eficiência que os italianos, que perderam (Oh, novidade!) o carniceiro Materazzi ainda no primeiro tempo. O ataque dos nerazurri é bom, mas os dois gols nos últimos sete minutos de partida vão pesar muito no resultado final.

Olympiakos 0 – 0 Chelsea

E olha que nós torcemos pelos gregos, mas não deu. O Chelsea, mesmo empatando, foi superior, e em casa deverá passar sem dificuldades pelo futebol dos filósofos.

AS Roma 2 – 1 Real Madrid

Os romanos passaram um sufoco com o burocrático mas eficiente time merengue. Robinho não jogou, mas o ponta holandês Arjen Robben fez as honras, ora pela direita, ora pela esquerda, e os comandados de Spaletti terão que suar se quiserem sair do Bernabeu com ao menos o empate.

Schalke 04 1 – 0 FC Porto

Embora o Porto tenha mais time que os alemães, os lusos costumam escorregar na hora mais necessária. O placar foi considerado surpreendente, dada a superioridade técnica do clube português. Imprevisível.

Arsenal 0 – 0 Milan

Um time ansioso, burocrático, ineficiente, sem criatividade e com um centroavante que seria substituído com vantagens por um poste: este foi o Arsenal de hoje. O Milan, todo mundo conhece, defende, defende, bola pra Seedorf ou Pirlo, que lança Kaká ou Inzaghi/Pato/Gilardino, que empurram quando possível. Dificilmente os gunners seguram a parada. Se segurarem, são fortíssimos candidatos ao título.

Celtic 2 – 3 Barcelona FC

Dois bons times, com uma diferença: Lionel Messi, la pulga imparable.

Fenerbahce 3 – 2 Sevilla

O time turco manteve sua invencibilidade em casa, apesar de ter sofrido para vencer o Sevilla. Zico, o mago cabeçudo Alex (o Riquelme brasileiro), Lugano, Deivid e companhia terão que fazer um pouco melhor que isso para garantir a vaga na Espanha.

Lyonaiss 1 – 1 Manchester United

Os Red Devils passeando em Paris e em Lyon. Tévez mostrando porque a melhor dupla de ataque do mundo é albiceleste, o que nos leva à infatigável pergunta: Por que cá não é como lá?

A ECOLALIA DA VIDA COTIDIANA

Instantâneos Ecolálicos:

O vazio do significante produz a ausência da reflexão e da suspeição sobre as informações, percepções e entendimentos que pessoas têm sobre o cotidiano. Presas ao automatismo e à velocidade das imagens-clichê, não há tempo para nada além de repetir o enunciado, sem examiná-lo. Ecolalia.

 

MÍDIA

Rede de televisão estadunidense NBC apresenta programa sobre as prévias presidenciais no partido Democrata. O apresentador diz o nome de Barack Obama, mas a foto que aparece é a de Osama Bin Laden. A direção do programa diz que foi um erro. Semanas atrás, o mesmo erro aconteceu na rede CNN.

Enquanto isso, a programação dos noticiários de todas as grandes redes dos EUA proíbem imagens dos soldados mortos no Iraque, até mesmo os caixões.

CORPO

Jogo infantil de videogame traz na sua programação cenas de pornografia. Com um código digitado no controle, o usuário entra em um menu oculto, e acessa cenas de um filme pornográfico. Mães cujos filhos assistiram às cenas consideraram o fato um caso de polícia. Uma delas, visivelmente chocada, afirmou: “agora, só me resta levar meu filho ao psicólogo”. Outra: “Quando vi meu filho olhando aquelas cenas, me senti violentada”.

Enquanto isso, a programação das tevês comerciais continua sem regulação pública, ao sabor dos ventos do mercado, e a TV Pública é atacada pelas emissoras particulares.

O CORTE/CUBA NO BLOCO RÍGIDO DO CAPITAL

As grandes mídias de Direita estão em polvorosa. Os governos dos países alinhados ao império estadunidense vibram. Apresentadores de jornais pisam e repisam a notícia: Fidel Castro anunciou que não retorna mais à presidência de Cuba. Bush, direto da África, imediatamente louvou a iniciativa, afirmando que torce por uma “transição democrática”, onde não hajam mais presos políticos e nem torturas. Referia-se à Guantánamo?

Por que, diante de um mundo onde as ditaduras pululam – coincidentemente com a conivência dos EUA -, há mais de 47 o mundo acusa e sufoca economicamente uma ilhota na América Central, sem grande projeção econômica, sem grandes riquezas, e que só tem a oferecer ao mundo capitalista sua posição geograficamente estratégica, suas praias paradisíacas e o rebolado sensual de suas mulatas?

A resposta passa por três conceitos: liberdade, democracia, subjetividade.

LIBERDADE

Estranha palavra essa, que se ouve diariamente nos noticiários, nos discursos dos líderes mundiais, nas propagandas que louvam a liberdade de escolher o melhor produto, no voto que escolhe o melhor para o país.

Fidel Castro, Sartre, Simone de Beauvoir e Che Guevara

Queixa do Ocidente com relação ao regime cubano: não há liberdade. Os cubanos não podem ir e vir, não podem deixar o país se não for por via ilegal. Não podem escolher o que comprar, e nem mesmo seus governantes. Uma afronta à liberdade, palavra mágica do país das oportunidades, que lidera um embargo econômico perverso, e que dura os mesmos 47 anos de permanência de Fidel no cargo de presidente.

Acontece que o conceito de liberdade passa menos pela possibilidade de realizar um ato do que de concebê-lo e escolher livremente uma situação. A liberdade propalada pelos americanos é a liberdade do consumo: posso escolher este ou aquele, posso levantar-me, estás preso, encarcerado, perdeste a liberdade! Nada a ver com a liberdade existencial, à qual, segundo o filosofante Sartre, estamos condenados: a liberdade de se envolver, se “jogar” numa situação e assumi-la diante de si e do mundo, não como um fardo moral, mas como uma condição de existir. Toni Negri, filosofante italiano, escreveu no cárcere: “A vida é uma prisão quando não a construímos. E quando o tempo da vida não é apreendido livremente”. Escolher-se livremente no mundo só é possível a partir de uma tomada de posição que envolva a leitura dos códigos que compõem o social. “O miserável só pode sair de sua condição quando puder conceber um mundo onde a miséria não exista” (Sartre/Marx). Mais que uma frase de efeito, a ilustração de um conceito de liberdade ontológica, indiscernível da situação humana.

É a partir desta liberdade que Bush Jr escolheu não escolher, omitir-se, não ver, e se tornar uma insuportável conseqüência. Como não pode agir (escolheu-se livremente passivo), só lhe resta reagir: bombas, tiros, seqüestros, waterboarding, Guantánamo, os aviões da tortura, Abu Ghraib, a guerra. Da mesma liberdade que Fidel, Guevara, Cienfuegos escolheram não mais suportar o cotidiano da miséria, escolheram estranhar o que não é estranho. A partir de suas liberdades, escolheram escolher, responsabilizando-se ontologicamente pelos seus atos. Por tal, eles são irredutíveis ao julgamento da moralidade. A mesma que aponta as torturas do regime cubano e omite a tortura cotidiana da exploração e miserabilidade cinco vezes centenária na América Latina. A dificuldade de Bush e seus confrades em compreender que o povo cubano não precisa de heróis, nem ser salvo, decorre do entendimento errado do que vem a ser a liberdade. Não se pode saber o que é a liberdade se nunca se permitiu senti-la.

DEMOCRACIA

Recentemente a imprensa mundial destacou a voz de um rapaz, que no parlamento cubano inquiriu o presidente do legislativo sobre as proibições impostas aos cidadãos. Não poder viajar, conviver com o câmbio negro dos dólares, não poder ler certos livros. Na ocasião, encarou afirmativamente o presidente da casa, que em algumas situações afirmou, sem receio, não ter respostas prontas para os problemas apontados pelo jovem. Era a revolta da juventude contra o socialismo e as idéias do ditador barbudo, pensou a imprensa e os governosSeja bonzinho com a América ou nós levaremos Democracia para o seu pa�s. alinhados. Dias depois, o mesmo rapaz afirmou que não pretende acabar com o socialismo, mas aprimorá-lo, desenvolvê-lo.

Dizem que na Câmara dos Lordes, na Inglaterra, qualquer pessoa do mundo pode entrar e, a hora que bem entender, discursar, falando sobre qualquer assunto que quiser, criticando ou defendendo a quem ou em que acreditar. Nunca se soube de ninguém, jovem ou não, sem cargo político ou envolvido institucionalmente que tivesse ocupado esta tribuna para criticar o poder da rainha, ou a falsificação das provas da existência de armas de destruição em massa no Iraque, forjadas pelo ex-premier, Toni Blair. No congresso estadunidense, as rígidas normas de segurança impedem que qualquer manifestante chegue mais perto do congresso do que o portão externo.

Falar sobre os problemas de um país – e que não se reduzem a ele – com a lucidez, disposição e jovialidade que o cubano fez é sinal de que ali existe uma abertura afetiva-afetante para que as pessoas falem abertamente sobre os acontecimentos. Fidel Castro diz que nunca houve uma condenação por crime político que não tenha sido aprovada em unanimidade pelo conselho geral do país. Os EUA negam, e acusam o país de ter prisioneiros políticos. Em Guantánamo, the flag of stars and stripes tremula, impávida.

Enquanto nos EUA, no Paquistão, em Israel, no Egito, na Indonésia, Colômbia, Russia e outros países aliados aos interesses do capital, os ritos do processo democrático são respeitados religiosamente (ainda que na Russia, Putin se alterne entre a presidência e o ministério, e nos EUA as família Clinton e Bush queiram completar a segunda década de alternância na White House), e a população tem cada vez menos confiança nos seus representantes e vêem com um ceticismo cada vez maior o processo político, em Cuba os jovens acreditam piamente na mudança de paradigma, sem necessariamente abraçar o capital.

SUBJETIVIDADE

Cuba não é um país isolado de um contexto mundial onde o capital é o Deus único. Portanto, sofre as conseqüências de mais de 500 anos de exploração, ora pela Europa, ora pelos EUA. Diferente do Brasil e da Argentina, por exemplo, que mesmo tendo suas riquezas saqueadas Havana Bluespor séculos, ainda mantém recursos suficientes para pleitear um lugar de destaque no cenário econômico mundial, Cuba não tem produtos a negociar. É uma economia frágil diante da voracidade do mercado, e a população sente as conseqüências.

No entanto, a subjetividade que coloca as pessoas numa condição de rigidez existencial na maior parte do mundo – e em todo o mundo ocidental – em Cuba é enfraquecida. Longe de ser o paraíso de alegria que a esquerda tão esquerda que toca na direita apregoa, mas também fora do foco de república caudilhesca que a direita quer afixar, os cubanos exprimem na sua cultura as contradições de um capitalismo que produz uma subjetividade dura e opressiva.

Fidel e os cubanos deixam passar os fluxos, são atravessados pelos corpos que produzem afetos, que aumentam a potência de agir. Dentro das condições materiais a que são submetidos – não por sua posição política, mas pelo embargo econômico de mais de quatro décadas, somados aos anos em que foi parque de diversões e quintal dos EUA – os cubanos tem de longe o melhor sistema de saúde pública das Américas (que tratou os bombeiros sobreviventes do 11 de Setembro, abandonados pelo governo Bush), um dos mais impressionantes níveis de educação do mundo e é uma potência esportiva que luta de igual pra igual (sem as mesmas condições) que EUA, Canadá, Alemanha, etc, além de índices de violência social pífios em comparação com Brasil e EUA, por exemplo.

Todas estas conquistas não apagam as duras restrições à entrada de material literário, áudio-visual e internético averso à ideologia socialista, a dificuldade de emprego e renda encontradas pelos habitantes, a falta de água potável e energia, a exploração sexual a que se submetem as gineteras nas praias particulares, freqüentadas pela nata da high society européia, a aridez do solo decorrente dos anos de monocultura da cana-de-açúcar.

Mas se Cuba não é exemplo para o mundo em termos de circulação de informação e desenvolvimento tecnológico e econômico, também não é apenas mais uma ilhota servil aos interesses do capital, sobretudo estadunidense, que impõe à população passivamente as conseqüências da miséria social produzida pelo capital. Expõe, sem receios e rodeios, para quem quiser enxergar para além das palavras de ordem de um ou outro lado, as contradições de um sistema de produção perverso e alheio à condição humana, exprimindo também o possível que o capital não suporta: um mundo onde a miséria não é necessária.

CUBA: UMA ILHA DE REALIDADE NO OCEANO DA ILUSÃO ESTADUNIDENSE

O filosofante Franz Kafka, na sua literatura menor, diz que o necessário não é obter respostas, mas encontrar as perguntas necessárias. Cuba é o ponto de interrogação que questiona constantemente ao mundo: é este o mundo que queremos? Por ser esta ferida aberta na beleza intocável e irrepreensível do mundo capitalista, por ter a ousadia de se mostrar contrária a esta ordem, por ter um povo que não perde a capacidade de criar, sorrir, inventar, dançar, produzir, mais e melhor que os operários ianques, por ter governantes que não foram seduzidos pelo canto da sereia da vaidade e do orgulho, por exprimir um outro modo de conceber a existência, mesmo exprimindo as contradições do capitalismo, com o qual tem de conviver, impedindo a burguesia estadunidense e mundial de acreditar na perfeição do seu sistema, é que a pequena ilha da América Central incomoda tanto. Nenhum desprezador de si mesmo suporta conviver com alguém que não se despreza. O doente não suporta ver que a doença não é absoluta, mas uma contingência. Sofre por isto.

Portanto, EUA e companhia continuarão sofrendo. E Fidel lutando.

Fidel Castro

“Não me despeço de vocês. Desejo apenas lutar como um soldado das idéias. Continuarei a escrever sob o título ‘Reflexões do companheiro Fidel’. Será mais uma arma do arsenal com o qual se poderá contar. Talvez ouçam minha voz. Serei cuidadoso”.

Fidel Castro, 80 anos.

O MEDIUM TELEVISIVO E A OPINIÃO PÚBLICA

MÍDIA: O NÃO-LUGAR DA POLÍTICA

A mídia, em geral, é uma instituição social. E como tal, estando relacionada à construção de opiniões, teria que está em reciprocidade com o que é público: criação de um espaço onde as opiniões são partículas constitutivas das composições que se dão pelos encontros dos acasos. E o que é público é político. Mas não político enquanto signo-clichê do poder que se limita a questões técnicas e burocráticas do Estado. Mas enquanto movimentação da res publica, para o bem coletivo. Ao contrário disto, pode-se perceber a mídia como um espaço de privações sociais: todos fechados ao alastramento das atividades das instituições transnacionais e ao mercado mundial. O que compromete suas informações, posto que estas sejam direcionadas de forma circunscrita às palavras de ordem do grande capital. Na mídia limitada cognitivamente, a política como criação do espaço público, não existe. Ela se assenta como o não-lugar da política. É daí que a mídia exerce boa parte de sua função de controle social. Suas enunciações não obedecem mais a interesses internos de instituições particulares (por mais que ainda tenha grande influência sobre elas), mas inclinam-se a um controle universal onde todos os veículos midiáticos, nativos e internacionais, realizam ecos da informação/padrão, onde as notícias são repetidas, segundo o seu maior grau de conservação da subjetividade capitalística.

O Caso da Renúncia de Fidel Castro

A renúncia do Presidente do Conselho de Estado e Comandante em Chefe de Cuba, Fidel Castro, ecoou na mídia seqüelada confirmando o seu estado de não-lugar político. A TV Globo, a Folha e a TV Bandeirantes, demonstrando seus laços com a direitaça internacional, continuaram taxando Fidel de ditador, assim como fazem com Hugo Chávez, por preservarem em seus países uma política que não obedece aos ditames da ordem imposta pelos Estados Unidos. Outros veículos midiáticos tiveram suas matérias (que praticamente não se diferenciavam muito umas das outras) focadas na quantidade de anos (49) em que Fidel esteve à frente da administração de Cuba o que caracteriza um discurso indireto com objetivo claro e na repercussão internacional da renúncia, dando ênfase às frases de Bush sobre a necessidade de uma transição democrática.

Escultura de

Oscar Niemeyer,

presenteada a Fidel Castro:

“Na defesa da soberania

(de Cuba) contra o monstro

imperialista”.

 

O que não pode ser discutido pela mídia reacionária foi a organização mundial que gira em torno dos Estados Unidos, de acordo com a lógica do capitalismo ordenado nas transnacionais e no mercado mundial. Por isso, não conseguiu perceber as contradições que estavam a noticiar, como as frases de Bush sobre democracia e liberdade. Fecharam as notícias sobre a renúncia de Fidel Castro nas limitadas referências que permite à mídia o uso da palavra ditador. Mas eles não compreendem um regime ditatorial para além da contagem numérica de anos. É difícil para a mídia o entendimento que um ditador é quem não consegue organizar um espaço onde as coisas passem do privado ao público a partir da necessidade de se garantir a existência da coletividade, sem privações. E mais difícil ainda é para a mídia golpista sair de sua condição de dependente da ordem mercadológica. Ela até perde em não fazer análises sobre as condições que se encontra Cuba, que poderiam oferecer um entendimento sobre o socialismo lá existente. Mas isto só se tornará possível quando a mídia for independente, livre, inteligente e democrática. Coisas que não são permitidas no império capitalista.

Esta coluna acredita na possibilidade da expansão da consciência pelas experiências autênticas que fazem soltar novas percepções, a criação de novos olhares sobre o mundo. Na alegria-estética de perceber o medium televisivo como uma violência à inteligência coletiva, contamos com a sua contribuição.


USAR O CONTROLE REMOTO É UM ATO DEMOCRÁTICO!

EXPERIMENTE CONTRA A TV GLOBO! Você sabe que um canal de televisão não é uma empresa privada. É uma concessão pública concedida pelo governo federal com tempo determinado de uso. Como meio de comunicação, em uma democracia, tem como compromisso estimular a educação, as artes e o entretenimento como seu conteúdo. O que o torna socialmente um serviço público e eticamente uma disciplina cívica. Sendo assim, é um forte instrumento de realização continua da democracia. Mas nem todo canal de televisão tem esse sentido democrático da comunicação. A TV Globo (TVG), por exemplo. Ela, além de manter um monopólio midiático no Brasil, e abocanhar a maior fatia da publicidade oficial, conspira perigosamente contra a democracia, principalmente, tentando atingir maleficamente os governos populares. Notadamente em seu JN. Isso tudo, amparada por uma grade de programação que é um verdadeiro atentado as faculdades sensorial e cognitiva dos telespectadores. Para quem duvida, basta apenas observar a sua maldição dos três Fs dominical: Futebol, Faustão e Fantástico. Um escravagismo-televisivo- depressivo que só é tratado com o controle remoto transfigurador. Se você conhece essa proposição-comunicacional desdobre-a com outros. Porque mudanças só ocorrem como potência coletiva, como disse o filósofo Spinoza.

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CAMPANHA AFINADA CONTRA O

VIRTUALIZAÇÕES DESEJANTES DA AFIN

Este é um espaço virtual (virtus=potência) criado pela Associação Filosofia Itinerante, que atua desde 2001 na cidade de Manaus-Am, e, a partir da Inteligência Coletiva das pessoas e dos dizeres de filósofos como Epicuro, Lucrécio, Spinoza, Marx, Nietzsche, Bergson, Félix Guattari, Gilles Deleuze, Clément Rosset, Michael Hardt, Antônio Negri..., agencia trabalhos filosóficos-políticos- estéticos na tentativa de uma construção prática de cidadania e da realização da potência ativa dos corpos no mundo. Agora, com este blog, lança uma alternativa de encontro para discussões sociais, éticas, educacionais e outros temas que dizem respeito à comunidade de Manaus e outros espaços por onde passa em movimento intensivo o cometa errante da AFIN.

"Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias; que é atingido pelos próprios pensamentos como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, como por uma espécie de acontecimentos e de faíscas de que só ele pode ser alvo; que é talvez, ele próprio, uma trovoada prenhe de relâmpagos novos; um homem fatal, em torno do qual sempre ribomba e rola e rebenta e se passam coisas inquietantes” (Friedrich Nietzsche).

Daí que um filósofo não é necessariamente alguém que cursou uma faculdade de filosofia. Pode até ser. Mas um filósofo é alguém que em seus percursos carrega devires alegres que aumentam a potência democrática de agir.

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