O MEDIUM TELEVISIVO E A OPINIÃO PÚBLICA

REDE GLOBO: MORTUÁRIO TELEVISIVO

Saber é saber que se sabe. Ma a Globo disso não sabe. Pois quando tem noticiado as mortes e os problemas de saúde pública relacionados à epidemia de dengue no Rio de Janeiro, acerta sem saber do acerto. Ao noticiar a epidemia de dengue no Rio de Janeiro, o Jornal Nacional, sem querer acertar, mas acertando, vem demonstrando que o Governo Federal, através do Ministério da Saúde e do Ministro José Gomes Temporão (PMDB), tem realizado uma intensiva campanha de combate contra o vetor da dengue, o mosquito aedes aegipt e de conscientização comunitária, investindo maciçamente em distribuição de verbas para as cidades do país, principalmente para aquelas que apresentam mais necessidade.

Querendo em algumas reportagens atribuir o problema da epidemia a uma suposta ineficácia no trabalho de prevenção do Governo Federal, a Globo denuncia (não querendo denunciar) seu parceiro César Maia (DEM, conhecido antes como PFL), prefeito do Rio de Janeiro, de não fazer os devidos investimentos necessários para o controle da epidemia. Recebeu a verba Federal e não trabalhou em prol da população, fazendo com que a dengue no Rio tomasse as proporções que tomou. Tanto que o médico clínico e infectologista da Fiocruz, Antonio Sérgio da Fonseca, disse que em tese, era de se esperar que não houvesse nenhum caso de morte“. Pois está sendo realizado o trabalho de prevenção por parte do Governo Federal. E especialistas da Fiocruz ainda consolidaram as criticas do Ministro Temporão, que indicam “o modelo de assistência médica do Rio como um dos principais fatores para o número de mortes por dengue acima do esperado”.

O que agrava a epidemia no Rio é a volta de um tipo de vírus (do tipo 2), ausente desde os anos 90, para o qual as crianças que nasceram desde então não estão imunizadas. Daí, somando a desestruturação do modelo de assistência médica do Rio com a imunidade das crianças e o fato que nelas o vírus tem uma maior força, haver um fortalecimento da epidemia. Junto com a Globo, a sequelada Folha de São Paulo consolida mais ainda a desrazão da mídia que acerta sem saber que está acertando. Foi o caso de uma comparação, apoiada na moral de classe burguesa, feita na ânsia desmesurada de limitar o Governo Lula em problemas isolados, que um blog atrelado à limitada Folha disse que houve mais casos de dengue no Governo de Lula do que no de FHC. Falso problema, já que as epidemias de maior visibilidade acontecem em Estados onde a direitaça manteve cargos no Executivo. A Globo bem que forçou, mas não conseguiu sair de seu acerto involuntário. Noticiou ontem imagens e histórias de vítimas da epidemia de dengue no Rio (crianças e adolescentes). Após fazer da tevê uma vitrine obituária, logo em seguida, mostrou uma reportagem demonstrando que nos Estados Unidos houve uma política de prevenção melhor do que a daqui, em uma epidemia semelhante. Ora, é bem o hábito da mídia ver somente o que lhe convém. Como ela pode fazer uma comparação entre um sistema de saúde inexistente, como é o dos Estados unidos, como bem mostra Michael Moore em seu “Sicko” (no Brasil, “SOS Saúde”), com o do Brasil, que tem melhorado (mesmo com as más administrações públicas da direitaça e da esquerda tão esquerda que se confunde com a direita)? A Globo, como a Folha, como as outras mídias “somos iguais não mudamos jamais”, disto tudo sabem. E bem apresentam estas noticias ao povo, mesmo sem saber que estão noticiando. Mas, ora! Temos que admitir. Mesmo sem saber que está prestando um serviço público à população, a Globo faz. Como dizem alguns: “Quando o errado está dando certo, é melhor não mexer”.

MORTUÁRIO TELEVISIVO

São várias as formas de comportamentos que aparecem quando o assunto é morte. Alguns batem três vezes na madeira e impõem a expulsão e proibição da agourenta palavra. Outros ficam a olhar para cima na angústia de ter a cabeça sobrevoada por uma rasga mortalha. Ouve-se, daqueles que usam a morte para afirmar uma existência passiva, de que nada adianta fazer algo neste mundo, já que o futuro é ela. Há até enunciados fatalistas que sentenciam: “só existe uma certeza neste mundo: a morte”. E por aí vão as mistificações e mitificações sobre a morte. Ela é desviada de um movimento político/econômico/social como acontecimento na produção da práxis humana e colocada como um elemento distante de nossa realidade e posta nas relações supersticiosas do homem com o sobrenatural. E daí surge uma morte que é difundida como fixador do ressentimento e da exploração dos sentimentos alheios. Assim como a morte do Cristo de Paulo de Tarso é usada para gerar a culpa nos cristãos, a Globo usa a morte para reforçar as tristezas no médio televisivo. Então se explora os sentimentos padronizados e faz da morte apenas mais um elemento dentro da lógica do mercado a ser informada dentro de uma cadeia de significantes que impõem palavras de ordem. É desta forma que a apresentadora do Jornal Nacional, com a sua voz cavernosa (mais pela subjetividade fonética adquirida da superstição apoiada no capitalismo que ela carrega do que pelo timbre de voz), enuncia as mortes atribuídas a epidemia de dengue no estado do Rio de janeiro, agindo de acordo com a morta capacidade epistemológica da Globo que revela os seus estreitos laços de parceria com a direitaça. A Globo faz destas mortes espetáculos mediáticos, assim como fez com as mortes que ocorreram nos acidentes da GOL em 2006 e da TAM em 2007, explorando a angustia dos parentes das vítimas. Para a Globo a morte é apenas um signo constituído na superstição que deve ser usado segundo interesses midiáticos. E caso elas venham a constituir um excedente, então ela passa a categoria de signo-mercadoria e pode ser negociada como um valor de troca, uma vez que ela pode ser trocada pela audiência das percepções constituídas. Então o que aconteceria caso a morte deixasse de existir? E se junto com a morte as dores do mundo se desvanecessem ao vento? Não houvesse mais tristezas a serem noticiadas? O que seria da Globo e de toda a mídia com insuficiência cognitiva? “Sem a morte, não há ressurreição e sem ressurreição não há igreja”, diz Saramago no seu “As Intermitências da Morte”. Isto, adaptado a mídia, seria: “sem tristezas, sem mortes, sem dores, o que seria de nós?”

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"Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias; que é atingido pelos próprios pensamentos como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, como por uma espécie de acontecimentos e de faíscas de que só ele pode ser alvo; que é talvez, ele próprio, uma trovoada prenhe de relâmpagos novos; um homem fatal, em torno do qual sempre ribomba e rola e rebenta e se passam coisas inquietantes” (Friedrich Nietzsche).

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