O 13 DE MAIO, O CAPITALISMO E AS LIVRES PRODUÇÕES

Dizem algumas línguas que a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea, há exatos 120 anos, por pressão internacional, principalmente da Inglaterra, que queria ver não os negros livres, mas os brancos trabalhando em troca do salário, para mais intensamente consumir os produtos da Era Industrial que estava em pleno vapor.

Encerrada a época em que seres humanos eram considerados inferiores pela cor da pele e tratados como mercadoria e força de trabalho necessária ao fortalecimento do capitalismo através da acumulação do capital das grandes nações mundiais, apenas o reconhecimento dos governos à barbárie que foi o estado de escravidão é realmente coisa do passado. Embora de uma outra maneira, vive-se hoje também o cerceamento das inteligências e das liberdades, independente de etnia ou pele.

Vive-se uma época onde os microfascismos não precisam de justificação para irromperem no social. No futebol e em outros esportes, o negro, embora seja maioria, é minoria. Na música, embora seja responsável direto por toda a música ocidental, pasteurizada pelos brancos, apenas os que se “domesticalizam” fazem sucesso. Nas faculdades, postos de trabalho onde a segmentação das relações de trabalho construíram a discriminação entre trabalho socialmente valorizado e desvalorizado, os negros estão sempre alijados.

O negro, como o homoerótico, a mulher e outras chamadas minorias interessam ao capitalismo mundial integrado na medida em que passam a consumir não apenas os produtos industrializados, mas a partir do momento em que entram no mercado imaterial dos signos-clichês e da serialidade da sociedade dos clones.

A homogeneização produzida pela máquina do capital atinge a todos indistintamente. Dela só se pode escapar como linha de fuga, como devir: devir-negro, devir-mulher, devir-criança, devir-louco, devir-minoria. O que não está no padrão. Que não carrega elementos materiais ou imateriais que existam a partir dos signos-clichês. Romper a semiótica laminadora, elaborar outras produções (para além do conceito de produção no capital) a partir do trabalho como dialética materialista, apropriando-se da matéria em pormenor e investigando seus elos internos. Trair a relação força-de-trabalho / meios-de-produção.

Quanto da riqueza das nações européias e americanas (ao Norte e ao Sul) é fruto não apenas das mãos, pernas e músculos dos negros africanos, mas também de suas produções culturais imateriais, como as religiões da natureza, a musicalidade cósmica, os sabores da gastronomia, a arquitetura, a dança, o futebol, a alegria? Existiria o capitalismo sem constituir-se em maquinário capturador das linhas intensivas produzidas pelos devires?

A liberdade não pode ser dada por outrem. Ela nasce da compreensão do Si no mundo como uma produção social: a partir daí, despersonalizado, pode-se enveredar em outros processuais, engendrar outras produções. Ser causa de si, como afirmou o filosofante Spinoza.

A Lei Áurea de Isabel (que dizem outras algumas línguas, comemorou aos beijos com um ex-escravo que continuou amante) deu margem para que um Brasil subserviente desde a sua fundação pelos brancos portugueses, espanhóis, ingleses, franceses e outros filhos de Deus (ele também branco) desse nas favelas, reduto de negros, amarelos, brancos de todas as frequências do espectro eletromagnético agora categorizados em outro espectro social: os pobres, o proletariado (proto, lúmpen). Ali, aquela que foi chamada de elite branca (não há elite, vertebralmente já sabemos) deu continuidade à limitação epistemológica com governos que cercearam a atuação dos movimentos sociais e dificultou a construção de linhas intensivas de comunalidades. Graças a ela, e dentro de suas hostes, ainda encontramos escravos à moda antiga. Em nível nacional, somente com o governo de Lula houve uma distensão desta subjetividade dura, e ainda que este não seja um governo contrário à semiótica do capitalismo, é possível, a partir desta distensão, atuar comunitariamente na construção de um país livre, onde todos possam viver com alegria, independente de etnia, cor, orientação erótica, time do coração, animal preferido ou crença religiosa.

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"Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias; que é atingido pelos próprios pensamentos como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, como por uma espécie de acontecimentos e de faíscas de que só ele pode ser alvo; que é talvez, ele próprio, uma trovoada prenhe de relâmpagos novos; um homem fatal, em torno do qual sempre ribomba e rola e rebenta e se passam coisas inquietantes” (Friedrich Nietzsche).

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