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A CRÍTICA (A-CRÍTICA): DE MÃOS DADAS COM QUEM, MESMO?

Manchete do jornal Acritica de hoje, que reduz a querela judicial em torno da cassação de Amazonino a uma rusga entre o candidato cassado e a juiza Maria Eunice. Na foto, o advogado de Amazonino confraternizando com os desembargadores do TRE/AM.

Manchete do jornal "Acrítica" de hoje, que reduz a querela judicial em torno da cassação de Amazonino a uma "rusga" entre o candidato cassado e a juíza Maria Eunice. Na foto, o advogado de Amazonino confraternizando com os desembargadores do TRE/AM.

A democracia, embora não se reduza ao regime político adotado, passa por ele. Para se garantir o Estado Democrático de Direito, as leis devem ser guardadas e seus legisladores devem ter como princípio o estabelecimento da igualdade de tratamento, condição e oportunidade aos cidadãos.

Sem a obediência a estas regras, o regime democrático de direito não passa de uma convenção institucional, sem valor na prática. Quando um candidato, eleito por maioria dos votantes, usa de meios considerados ilícitos pelas normais eleitorais, está afrontando a democracia: auferiu a si mesmo vantagem que os outros não tiveram, quis burlar o jogo normativo do Estado de Direito, esfacela a democracia.

Por isso, e acrescida a consistência que as evidências apontam, não se pode afirmar que o candidato cassado, Amazonino Mendes, tenha sido eleito democraticamente. O débil argumento de que a juíza não estaria respeitando a “vontade popular” esvanece mais rapidamente que fumaça em vendaval, uma vez sendo a Democracia a composição das potências de agir de seus habitantes, um ataque a ela é um ataque a cada um dos habitantes que na cidade reside. Mais: a consolidação de um Estado não-democrático é uma ameaça a outros Estados, mesmo que estes sejam democráticos. A existência de um Bush, por exemplo, é uma ameaça ao mundo, ainda que ele tenha sido eleito e reeleito democraticamente (há controvérsias).

Daí que uma concessão pública deve ter como elemento engendrante de suas ações a defesa desta democracia, em qualquer ameaça que ela venha a sofrer.

Não é o caso do jornal A Crítica (não seria A-crítica?), em outros episódios da história manoniquim, mas mais acintosamente na cobertura da cassação de Amazonino. A manchete que afirmava que Amazonino ganhara um novo round ocultava: Amazonino não ganhou nada, e a prova é a movimentação entre os desembargadores no sentido de eliminar o entrave à diplomação (do ponto de vista deles): a juíza Maria Eunice. Ledo engano, o entrave é o próprio Amazonino, que cometeu suposto crime eleitoral, e deve ser condenado, senão no amigável TRE/AM, mas certamente no âmbito federal.

A palavra Crítica, no grego, significa exame, examinar. O que, para Marx, é “apropriar-se da matéria em pormenor, analisar as diversas formas de desenvolvimento e descobrir todos seus elos internos”. Kant, por exemplo, escreveu um tratado sobre a moral, intitulado Crítica da Razão Prática. No entanto, em seu tratado não há crítica, mas tão somente afirmação da moral, à qual ele dá ares conceituais, através do imperativo categórico: agir individualmente de modo a desejar que seu ato seja uma ato moralmente válido para todos. Da mesma maneira, um meio de comunicação que não examina os acontecimentos, expondo seus elos internos, suas tramas e relações, não pode se considerar crítico. Daí o acréscimo do hífen no nome A Crítica, formando com o prefixo A a negação da criticidade: A-Crítica, acrítica, não-crítica.

A NÃO-CRÍTICA É UM ATENTADO À INTELIGÊNCIA E À DEMOCRACIA

Primeiro atentado à democracia: o jornal assumiu o papel de defensor da campanha amazonínica para chegar à cadeira de prefeito à qualquer preço. Até aí, nada de mais. Reza a moral jornalística que a um meio de comunicação é possível tomar um dos lados e defendê-lo, desde que com fatos e argumentos. O caso é que o jornal não apresenta nem um, nem outro (leia aqui para entender a diferença entre o que está acontecendo no TRE e a versão oferecida pelos jornais).

Segundo atentado à democracia: um dos elementos sociais-coletivos que as ditaduras primeiro se insurgem, procurando o controle, é a linguagem. A censura não se estabelece por capricho nos regimes ditatoriais. As palavras, quando empregadas enquanto corpos de potência ativa, têm a capacidade de expandir a consciência social. Em geral, palavras como Liberdade, Amor, Alegria, Sorriso, Vida, dentre outras, são praticamente banidas do léxico oficial dos governos e dos meios de comunicação, por seres “subversivas”. E efetivamente o são.

Na midiocracia, há uma tentativa de modificar a forma de censura: já não se evitam certas palavras, mas procura-se esvaziar nelas o seu sentido revolucionário. Assim, a Alegria é reduzida ao bem-estar produzido pelo consumo estimulado pela tevê. O amor é vendido como produto segregado pelo romantismo pasteurizado e decadente nas noveletas e séries.

Da mesma maneira, a manchete do jornal A Crítica (A-crítica) deste sábado, 13 de dezembro, é uma amostra da inteligência editorial do jornal, além de ser uma demonstração do que pensa o órgão de imprensa sobre os seus leitores: “Amazonino Revida”.

O que Amazonino revidou? A ação jurídica da juíza do Pleito? Num regime democrático, isto só é possível no plano jurídico e, ao que se sabe, pelas provas contidas no processo, é impossível ao candidato revidar e provar sua inocência. O próprio jornal já noticiou isso. Mais: o que teria feito a juíza Maria Eunice a Amazonino, para que fosse alvo de revide? Ao que consta, ela não o atacou, apenas cumpriu com ombridade seu papel institucional, dando inclusive chance à defesa, que não soube se articular, mas conta com o apoio irrestrito de integrantes do TRE/AM.

A manchete do jornal A Crítica (A-crítica) reduz um caso jurídico de proporções nacionais (pois irá, inevitavelmente, a julgamento no TSE) a uma vendeta passional. Do lado de Amazonino, tudo bem, é sabido e reconhecido que ele confunde as instâncias e acredita-se mais do que realmente é. Mas não no caso de Maria Eunice, que em momento algum de sua impecável atuação se interpôs individualmente. Eunice, como qualquer magistrado ético o faz, falou pelos autos do processo.

Não bastando a tentativa de ocultar os acontecimentos à população (complexo de ubiquidade comunicacional: acredita ser a única fonte possível de informação), a foto da capa, onde aparece o advogado de Amazonino fotografando os magistrados na despedida do promotor André Lasmar, dá a idéia de que todo o TRE está ao lado do “revide” de Amazonino. Não espere, no entanto, o leitor intempestivo, reação à altura do TRE: primeiro, porque o sugerido se apresenta como real, nos atos dos desembargadores Ari Moutinho e Graça Figueiredo, e segundo, é necessário primeiro compreender o acinte para poder “revidá-lo”.

Não há revide; sequer uma tentativa de defesa, mas uma tentativa de retirar do processo o elemento intempestivo, extemporâneo, e por isso mesmo, democrático: a juíza.

Tentativa, no mais, inútil. Institucionalmente, a juíza fez a sua parte. Da mesma forma, a tentativa acriticista de iludir os leitores. Um enunciado jamais vale por si, mas só se torna real nos seus imbricamentos com outros enunciados. Daí a impotência dos ditadores: é impossível calar a voz ativa.

TSE CONDENA PREFEITA EM SERGIPE BASEADO EM LEI QUE O TRE/AM ATROPELOU

O Tribunal Superior Eleitoral aplicou o artigo 366 do Código Eleitoral para deferir a candidatura de Glória Grazielle da Costa, prefeita reeleita de Moita Bonita (SE). Glória, no exercício de seu mandato atual, concorreu e foi aprovada em concurso público para o TRE/SE, assumindo o cargo e se licenciando, para continuar como prefeita. Na prática, significa que Glória Grazielle poderá continuar como prefeita, mas terá de ser exonerada do cargo que sequer chegou a exercer no TRE/SE.

O motivo? O Artigo 366 do Código Eleitoral, que diz que “os servidores de qualquer órgão da Justiça Eleitoral não poderão pertencer a diretório de partido político ou exercer qualquer atividade partidária, sob pena de demissão”.

Destacamos, aqui, o trecho final da notícia postada no site do TSE:

O ministro Marcelo Ribeiro, relator do caso, afirmou em seu voto que, pelo artigo 366 do Código Eleitoral, para preservar a moralidade, “não é compatível a filiação partidária com o exercício do cargo de servidor da Justiça Eleitoral”. O ministro ressaltou que o artigo também se aplica ao caso de Glória Grazielle, no que foi acompanhado pelos demais ministros”.

O QUE É BOM PARA O BRASIL NÃO É BOM PARA O AMAZONAS, AFIRMOU O TRE/AM

A decisão do TSE, pautada não apenas na moralidade, como afirma o relator do caso, ministro Marcelo Ribeiro, não fica somente na obediência à lei, mas é um recurso lógico-jurídico que procura garantir a lisura na atuação da Justiça Eleitoral. O mesmo princípio se estende a outras áreas.

Por exemplo, se uma empresa realiza um concurso, nenhum parente ou funcionário desta empresa poderá ser contemplado pela premiação. Nenhum funcionário da Loteria Federal jamais poderá sonhar com a bolada da Mega-sena enquanto não pedir exoneração do seu emprego.

No entanto, no Amazonas, o mesmo artigo 366 do Código Eleitoral foi atropelado psicopaticamente pelo TRE. Para quem não lembra ou não acompanhou, o surto psicótico do TRE foi previsto por este Bloguinho:

O corpo da Lei é o corpo do Estado. Ela constitui a organização do social e estabelece regras de co-existência, e não apenas isso, mas induz modos de existir.

No entanto, como enunciação paranóide, o corpo do Estado burguês tenta capturar, tal como o buraco negro captura todas as energias e toda a matéria na sua órbita, tudo aqui que surge como produção social e que diverge da semiótica deste Estado. Ainda que essas produções sejam contrárias ao próprio corpo. É o que está acontecendo com o Tribunal Regional Eleitoral, no caso do apresentador e explorador da miséria social, Henrique Oliveira, que foi eleito vereador ao mesmo tempo em que é funcionário público concursado do TRE, o que é proibido pelo Código Eleitoral.

A comissão interna do TRE/AM, responsável pela análise da situação de Henrique, apresentou relatório em que pede a demissão com data retroativa a 29 de setembro de 2005, quando Henrique pediu licença remunerada do trabalho para tratar de “assuntos particulares”.

A decisão abre precedente legal para que o apresentador e explorador da miséria social seja empossado como vereador, apesar da fraude cometida, já que, segundo o desembargador do Pleno do TRE/AM Ari Moutinho, ‘é independente uma coisa da outra’”. (continua aqui…)

Dias depois, o surto se comprovou, e o mesmo Presidente do TRE/AM, Ari Moutinho ‘Pai’, que havia dito que uma coisa é independente da outra, afirmou que chegara à “simples conclusão” de que o artigo 366 é anterior à Constituição de 1988, e por isso inválido, ainda que não tenha sido defenestrado do código eleitoral por meios lícitos:

Votaram a favor de Henrique o relator do processo, Francisco Maciel, Graça Figueiredo, Elci Simões e Mário Augusto Costa. Contrários a Henrique e a favor da lucidez institucional, Agliberto Machado e Joana Meirelles.

O argumento da relatoria do processo é o de que o artigo 366 do código eleitoral é anterior à constituinte de 1988, e conflitaria com a constituição federal, já que restringe o direito à participação do cidadão Henrique Oliveira no processo eleitoral.

Argumento que causou estranheza à juíza Joana Meirelles, que chamou a atenção ao fato da lei, mesmo anterior à Constituição Federal, ainda estar valendo, já que nenhuma outra lhe veio sobrepor. Atentou, portanto, para o fato pura e simples de que a lei existe e tem de ser cumprida, e se há distorções, devem ser sanadas pelo Legislativo, e não pelos juízes do pleito amazoniquim.

Já a desembargadora Graça Figueiredo alegou que a “simples” filiação partidária não implica necessariamente atividade política. Entendimento que contradiz a tese aristotélica, filósofo caro aos fundamentos do Direito, para quem todo homem “é um animal político”. Graça, com seu gracioso argumento, deixa dúvidas se realmente tem conhecimento do caso analisado, já que o julgado, Henrique Oliveira, “simplesmente” se filiou, disputou e venceu uma eleição, apesar de ser funcionário do TRE/AM e haver uma legislação proibitiva à ação dele. Para Graça, também a legislação é antiga, remonta à Ditadura Militar, e por isso não deve ser levada em conta” (continue lendo aqui…)

Cabe acrescentar que o juiz Agliberto Machado, em seu voto, usou a palavra “perplexidade” para se referir ao caso. Para ele, o TRE foi lento, e deveria ter julgado o caso antes das eleições, para evitar o vexame de cassar o candidato mais votado. Agliberto é o relator do processo de cassação de Amazonino Mendes, que deve ir ao Pleno na próxima semana.

O TRE/AM PRECISA DE UM PSICANALISTA

É certo que os enunciados da disciplina psicanalítica há muito foram ultrapassados pelo Real, e que certos preceitos já não dão conta de compreender e terapeutizar os conflitos da alcunhada pós-modernidade.

No entanto, o enunciado psicanalítico ainda pode ser usado quando os elementos de ordem neurótica são de uma intensidade primitiva, que regride aos primeiros contatos da estrutura psíquica com o chamado mundo real.

Para a psicanálise, o inconsciente é dominado pelo princípio do prazer, o qual atemporalmente e aespacialmente procura satisfação para seus impulsos primitivos. Quando em choque com o Princípio da Realidade, que impõe restrições ao caoticismo do Inconsciente, dá-se a neurose, que é uma falha, um “buraco” no real. Esta “falha” tanto pode ser débil ao ponto de não impedir o contato com o real, apenas restringindo a consciência ao conflito semântico-semiótico com determinados enunciados (religião, sexualidade, guerra, racismo, amor…) como um rompimento com o Real e a produção de enunciados desconexos em relação à chamada lógica do Real.

Assim, num surto, é possível que algúem mate outrem e creia firme e sinceramente que tinha razão, à margem da lei. Este alguém ficará sinceramente magoado se for preso, pois acredita que a sua crença e suas razões são superiores à normal social. Se não for psicopata, cederá à culpa, à vergonha (autocomiseração) e ao ressentimento, assim que o princípio do Real se estabelecer, e for ressignificado o seu ato num plano coletivo, social. Sentimento de culpa, ressaca moral, como queiram.

Da mesma maneira, um tribunal pode – como o efetivamente o fez – passar por cima de uma lei, fingindo a inexistência ou inoperância da mesma, sob os mais débeis argumentos, e acreditar fiel e sinceramente que nada lhe acontecerá, e nenhuma outra instância virá quebrar a frágil certeza que carrega da veracidade de seu ato. Mas basta que o princípio da Realidade – no caso, o TSE, que aplicou o artigo 366 ipsi literis – para demonstrar o absurdo da psicopatia institucional do tribunal eleitoral manoniquim.

Como será a ressaca moral de Ari Moutinho ‘Pai’, quando o ministro Carlos Ayres Britto tomar para leitura o caso Henrique Oliveira – o MP Eleitoral recorreu à instância federal – e ver a “fácil conclusão” a que chegou o magistrado local? Como ficará a grandiloquente Maria das Graças Figueiredo quando for lido em voz alta no Pleno do TSE que ela acredita que a filiação partidária não significa atividade política? Pior: como ficarão os magistrados do TSE quando lerem o argumento do relator Francisco Maciel, que chamou o artigo 366 de “inconstitucional”, já que o egrégio tribunal federal utilizou o mesmo para corrigir uma irregularidade no Sergipe? Pela lógica – com a qual o TRE/AM não possui familiaridade – o jurista manoniquim chamou o TSE de inconstitucional.

A tempo: a juíza do pleito, Maria Eunice do Nascimento, rejeitou as contas de campanha de Henrique Oliveira. Segundo a magistrada, o candidato apresentou recibos rasurados e as informações apresentadas ao tribunal não coincidem com o relatório apresentado pelo comitê de campanha. Mesmo que Henrique seja diplomado e assuma, deve ser enquadrado por captação ilícita de votos e uso de recursos não-contabilizados, o famoso “caixa 2”.

Como afirmou o juiz Agliberto, com outras palavras, o TRE/AM podia ter passado sem essa.

A JUÍZA COMO VERDADE EM NIETZSCHE

Princípio movente da existência: A Verdade. Sem verdade não há vida, e nem existência. A verdade da vida é sua Vontade de Potência: sua afirmação. Bio-nutrição é verdade como preservação dos organismos. A fome é verdade fundamentadora da vida. Sem fome não há nutrição, nisso não há vida. No plano biológico a verdade sempre é antecedida por uma busca desequilibrada que pretende seu equilíbrio: a satisfação. A verdade é satisfação. Harmonia de corpos.

Ontologicamente, a verdade é a fundamentação da existência. O homem só existe quando suas faculdades naturais e sociais encontram-se em atuação no mundo construindo comunalidade. A comunalidade é a equivalência de todos como Bem Comum. Viver, viver bem, viver com outros. A verdade social. Distribuição de direitos e deveres. A justiça coletiva. Designação que alcança o homem e o dispõe a produção de cidadania. A potência democrática.

A VERDADE DO CAPITALISMO

O capitalismo é um sistema, e como sistema tem seu princípio de equilíbrio: seus valores. Seus credos são: valor de uso e de troca. Sua coluna: a propriedade como mais relevante fator econômico. Mas a propriedade não se reduz a posse material dos objetos como mercadorias sensoriais monetarizadas: fetiches. A propriedade se desdobra, principalmente, em formas de relações sociais, morais e psicológicas. É assim que ela se traveste de equivalência da verdade materializada como medida de lucro, poupança, sucesso, desenvolvimento, progresso e respeitabilidade. Daí que nada fora da moral capitalista é necessário à este mundo da abundância, como afirma o filósofo Marcuse. Aí, verdade é só o que valora o principio de equilíbrio do sistema capitalista. Afirmação de uma verdade: a verdade do capital. Desta forma a verdade é um total relativismo utilitarista, nada socializante. A pragmática: a política do lucro privado.

A VERDADE DEMOCRÁTICA

É tempo de eleição. Candidatos querem ser eleitos. Para alguns não importa como. Há uma denúncia de crime eleitoral. As provas são apresentadas ao TRE. A Polícia Federal investiga e analisa os comprovantes do crime. São encontrados elementos comprometedores contra o candidato ao cargo de prefeito Amazonino Mendes (PTB), mais seus vice Carlos Sousa (PP). A juíza Maria Eunice Torres do Nascimento, uma cidadã democrata que não pensa a verdade como um processo social relativo ao bem de uma classe, examina o material jurídico, e sentencia: Cassação do registro dos dois candidatos.

A sentença da juíza Maria Eunice nos mostra Nietzsche afirmando que “lutar por uma verdade e lutar pela verdade são coisas muito diferentes”. A equivalência da verdade para ela é a democracia: seu ato serve a todos manauaras. Amazonino, com seus advogados, usando seu direito de recorrer da sentença, luta anti-nietzscheanamente por “uma verdade”: a deles. E não, nietzscheanamente, “pela verdade”: a democracia.

Então, contagiada Manaus com a verdade democrática, uma subjetividade moral se revela em aforismo de Nietzsche: “Que se pense em quão raro é o homem honesto: quão raro não será o puro amor pela verdade nas coisas mais elevadas”. Esse o amor da juíza!

i iNDA TEM FRANÇÊiS Qi DiZ Qi A GENTi NUM SEMO SERO

@ JUSTIÇA AMAZONENSE INVENTA A CONDENAÇÃO PREMIADA. No feriado da independência de 2006, o juiz amazonense Francisco de Assis Ataíde, da 4a Vara Criminal, quem sabe sonhando ser Dom Pedro I, libertou 43 presos de três unidades prisionais de Manaus, sem conhecer os detalhes de cada processo. Os presos eram em sua maioria praticantes de assaltos, assassinatos e tráfico, sendo seis deles provenientes de operações contra o tráfico de drogas perpetradas pela Polícia Federal e cujos processos tramitavam na justiça federal. A alegação de Ataíde foi a de que os beneficiados pela soltura em massa eram “pobres”. O mesmo aguardava, afastado, decisão final, recebendo, e claro, todos os proventos que recebia quando “na ativa”. Esta semana, o desembargador Domingos Chalub (que ganhou a indicação como prêmio pelos bons serviços prestados a parlamentares ameaçados de cassação, como o ex-deputado estadual Antonio Cordeiro, o Cordeirinho da Operação Albatroz), relator do processo contra o colega Francisco de Ataíde, votou a favor da aposentadoria por invalidez e a manutenção do salário de R$ 22.000,00. O voto foi acompanhado por 13 dos juízes do TJ-AM. A decisão causou revolta em colegas, como o desembargador Ari Moutinho, o mesmo que inadvertidamente prestou grande serviço à cidade de Manaus, ao denunciar compra de votos próximo à sua residência que deve levar à cassação do eleito Amazonino Mendes, a despeito da cassação ser prejudicial à carreira de seu filho, Ari Moutinho “Albatroz-Farol da Colina-Saúva” Júnior. Ari “Pai”, além de se indignar com este tipo de decisão, nas horas em que ele é o juiz, costuma psiquiatrizar a Lei em nome dos direitos políticos de colegas de instituição, além, é claro, de torcer para que o filho fique sempre afastado de encrenca com a justiça. O grande mistério deste acontecimento, revelador da qualidade e da índole moral dos agentes do judiciário manoniquim, é saber sob que aspecto Chalub considerou Ataíde como ‘inválido’. I inda tem françêis…

@ PUNHETA É BENÉFICA, AFIRMAM ESPECIALISTAS (EM CIÊNCIA). Pesquisadores australianos publicaram na revista News Scientist que a masturbação é prática eficiente na prevenção do câncer de próstata. O estudo contraria pesquisas anteriores, que sustentam a tese de que uma vida sexual abundante é um fator de risco. Para os australianos, a passagem do esperma, rico em ácido cítrico, potássio, frutose e zinco, pela próstata, cerca de cinco vezes por semana, dos 20 aos 50 anos, é benéfica, e mais benéfica que uma relação sexual, já que os riscos de infecção são quase nulos. A masturbação, que no século XIX era considerada uma doença mental, e fonte de vários malefícios para o corpo, já é comprovadamente uma prática saudável e necessária a homens e mulheres. Mais ainda, quando acompanhada da auto-erotização do corpo, auto-estima necessária ao existir. Portanto, leitores intempestivos, mãos à obra! I inda tem françêis…

@ PRESIDENTE LULA QUEBRA SEU PRÓPRIO RECORDE DE POPULARIDADE. Não se trata de uma olimpíada de popularidade para presidentes. Mas, antes, de um governo que vem se pautando na razão e em uma administração pública lúcida. Embora tenham ocorrido casos onde Lula teve que proceder como um presidente em si, abstendo-se de discussões públicas, como foi o caso dos habeas corpus concedidos por Gilmar Mendes a Daniel Dantas e ter assinado leis anti-cidadãs, como a lei de anistia, onde torturadores foram contemplados, Lula se preserva como um presidente que “nunca antes na história do Brasil” realizou tantas políticas públicas efetivas que diminuíssem a força das desigualdades sociais necessárias ao capitalismo. Daí a última pesquisa que avalia a taxa de aprovação de Lula ter atingido, em novembro, o maior patamar já registrado por um presidente brasileiro. O antigo recorde já era atribuído a Lula. E para que a discussão possa se prolongar por outros lugares, foi divulgado que “o levantamento foi publicado em uma semana em que foram feitos anúncios de demissões em grandes companhias do país, como a Vale, e em que a indústria informou que as vendas de veículos despencaram pelo segundo mês consecutivo em novembro”. É por essas razões bastante razoáveis que Giuseppe Cocco diz que “o grande fenômeno no Brasil de hoje não (me) parece ser o aumento do voto nulo ou da abstenção, mas a capacidade de Lula sobreviver a um linchamento (..)” que a mídia rancorosa e reativa ainda tenta fazer prevalecer. Neste sentido, lula participa sim de uma olimpíada, mas daquela onde os jogos são para a preservação da vida; uma olimpíada genuinamente grega. Lula é muitos. I inda tem françêis…

@ É DURANTE MOMENTOS DE CRISE EM QUE AGIR É NECESSÁRIO. Que a atual (?) crise financeira (?) seja o próprio capitalismo engolindo a sua própria cauda, parece não restar dúvidas disso. E quem bem sabe que saber é saber que se sabe não pode esperar que a angústia dos capitalistas causadas pelo desmoronamento das especulações financeiras no então auto regulado mercado, descritas pelos capitalistas, não teme, muito menos se acovarda. Por esta razão, Lula disse que não vai deixar de investir no Brasil por conta desta crise. E explicou, de improviso (criação), para uma platéia de intelectuais e artistas: “É lógico que eu acho que é correto e necessário fazer uma analise da crise, mas é preciso que tenhamos a dimensão correta do que está acontecendo no mundo, até porque o mundo também não é bobo de se deixar auto-quebrar.” Ainda: “Hoje nós somos um país com uma economia consolidada, com US$ 207 bilhões de reservas, com uma dívida pública que representa apenas 36% do PIB (Produto Interno Bruto), quando um país como a Itália (desenvolvido) tem 105% do PIB de dívida pública e outro país desenvolvido como os Estados Unidos têm uma divida pública de quase 70% do Produto Interno Bruto.” E depois: “Em época de crise, a gente não pode se acovardar. E eu posso garantir a vocês que quanto mais crise, mais investimentos vamos fazer, porque isso é que vai gerar emprego e renda. Não podemos deixar que a roda-gigante da economia deixe de girar, porque aí é que a crise pode se instalar no país.” Portanto, se o capitalismo engendra suas práticas teratogênicas, quem fica com medo são aqueles supersticiosos que acreditam em monstros. I inda tem françêis…

@EXTREMAENTE GRAVES”, SEGUNDO GILMAR MENDES, presidente do Supremo Tribunal Federal, são as acusações do juiz Fausto De Sanctis na sentença que condenou o banqueiro Daniel Dantas a 10 anos de prisão. É que na sentença Sanctis diz que o coronel da reserva Sérgio de Souza Cirillo, ex-servidor do STF, trocou, entre 4 de junho e 7 de julho, 9 ligações telefônicas com Hugo Chicaroni, o qual, juntamente a Humberto Braz, ofertou o suborno junto a delegado da Polícia Federal para favorecer Daniel Dantas. Um dia depois, na data histórica 8 de julho, a Operação Satiagraha prendia Dantas, Chicaroni e vários outros. Só que a 1º de agosto, Cirillo foi nomeado assessor de Joaquim Alonso Gonçalves, que fora, neste mesmo dia, nomeado secretário de Segurança do STF. “Tal fato revela, pois, que os acusados, para alcançar seus objetivos espúrios, dias antes de oferecer e pagar vantagem às autoridades policiais, atuavam sem medir esforços em suas tentativas de obstrução de procedimento criminal, tentando espraiar suas ações em outras instituições”, diz a sentença de Sanctis. Cirillo, juntamente com Gonçalves, foi demitido e, nessa quinta-feira, Mendes encaminhou um ofício à Procuradoria Geral da República para investigá-lo, mas dizendo ainda no mesmo “não ser a primeira vez em que, no curso desse processo, divulgam-se informações oblíquas, a sugerir comprometimento da probidade desta Corte”. Acontece que foi Mendes quem nomeou os dois ex-servidores do STF. Extremamente grave para quem? Parece que o próximo a ser condenado pelo íntegro juiz De Sanctis será o próprio presidente do STF. I inda tem françêis…

Vamos que vamos

Pois já que não há volta

É só seguir, seguir, seguir….

A “NÃO CASSAÇÃO DE AMZONINO” — UMA TESE IMPROVÁVEL

A política é estabelecida na forma de cidade. Esta é produzida a partir das várias atividades, materiais e imateriais, que seus moradores efetuam transformando as suas dimensões espaços-temporais. Deste modo a cidade passa a ser organizada em diferentes segmentos responsáveis por preservar a existência de sua estrutura física, econômica, social e afetiva. Através das ações e falas dos que vivem na cidade é criado o espaço público onde todos podem fazer valer ativamente suas opiniões a fim de fazer com que esta estrutura produzida seja desenvolvida de forma a efetivar o bem comum como principal objetivo para todos. Portanto, a cidade é uma movimentação ético-política-estética. Negar a cidade como esta potência é se negar a expor a sua fala e ação de modo ativo e participar diretamente de sua produção e se mostrar como uma “doença da cidade”.

Em Manaus, após a decisão da juíza Maria Eunice de cassar o prefeito eleito, Amazonino Mendes (PTB) e o seu vice, Carlos Souza (PP), desta movimentação pode ser extraído um sentido que se desdobra em dois outros sobre alguns fatos que surgem e fazem gerar algumas sensações.

Pessoas que se dizem não sabedoras da cassação de Amazonino e seu vice, mas que quando ficam sabendo não perdem tempo em expor a proposição de que eles (leia-se Amazonino, quase nada falam sobre seu vice), não serão cassados. Insistem que por mais que possa ser verdade o que estão dizendo deles não haverá uma condenação e eles se livrarão das acusações. Além de sustentarem suas vozes passivas em meio aos acontecimentos, agem defendendo uma tese improvável por dois motivos.

MOTIVO I: LÓGICO-JURÍDICO

Uma proposição que diga que a cassação de Amazonino Mendes, junto com o seu vice, não será confirmada constitui-se como a defesa de uma tese improvável, porque seria colocar em suspeição o sentido e entendimento lógico-jurídico do fato embasado nos códigos legais assegurados por uma constituição. Códigos esses que só foram possíveis graças a um regime democrático representativo constituído onde se encontram os representantes da cidade que projetam e aprovam leis, portanto, produção daqueles que vivem na cidade. Ainda que caiba recurso, este não se constitui como uma provável absolvição, assim como a cassação ainda não é definitiva, contudo, o que foi determinado, provisoriamente, pela juíza Maria Eunice, carrega consigo a força da lei que é construída a partir de preceitos lógicos que asseguram a decisão. Portanto, neste sentido, deriva-se desta suspeição como conseqüência o absurdo. Pois colocar em dúvida a decisão judicial de maneira alheatória é colocar a própria justiça em suspeição. Ainda aí caberia o argumento de que a justiça pode ser colocada em dúvida, sim. Fato este que não faz com que a decisão seja apagada da realidade. Cabem, sim, contra-argumentos que sejam tão bem fundamentados racional e logicamente quanto foi os que possibilitaram a cassação.

MOTIVO II: ÉTICO

O sentido do absurdo não é somente pôr em suspensão o sentido lógico-jurídico do fato. Ele é também ético por contrariar o sentimento das pessoas honestas. E honestas não somente no sentido de caráter reto, mas de pessoas que se colocam na existência de modo autêntico como responsáveis por preservar uma vida sem privações para todos e não deixar se desenvolver as condições de miserabilidade que conservam o povo sob exploração. Esta condição de miserabilidade toma força quando as pessoas não impulsionam as suas vozes e ações de modo ativo na cidade. Ao invés de produzirem suas opiniões a partir do que vem de fora de si (ou seja: fora da cidade), procurando endossar as discussões que produzem problemas, procurando as suas respostas, vivificando assim o exercício da produção da cidadania, elas preferem se esquivar ao longe deste exercício. Assim, apenas pensam com a barriga e refletem a partir de si próprios (e não da cidade). E sentem na pele aos ossos as dores dos corruptos como se fossem suas. Estas pessoas, constituem a “doença da cidade”, posto que se calam quando falam. Enquanto isso, até os advogados de Amazonino já dão bandeira…

REDUÇÃO DA VERBA EDUCACIONAL, DA PREFEITURA E DA CMM DE MANAUS

Não fosse o pedido de vistas do vereador José Ricardo (PT), o Projeto de Emenda à LOMAM nº 008/2008, da Prefeitura de Manaus, que altera o artigo 354 da Lei Orgânica do Município e reduz o orçamento para a educação municipal de 30% para 25% para o ano de 2009, já teria sido votado e provavelmente aprovado na semana passada, uma vez que, a despeito da debandada, o prefeito Serafim (PSB) ainda tem a grande maioria.

SERAFIM COM A MAIORIA DE AMAZONINO

Curiosamente essa redução, pelo que se ouve de alguns vereadores a favor já vai sendo orquestrada pelo prefeito eleito, Amazonino Mendes (PTB). Já dissemos em outra ocasião que Serafim passou o dia da votação do primeiro turno já adiantando o layout de seu blog, que inauguraria no próximo 1º de janeiro, já fora da prefeitura da cidade. Por isso Sarafa praticamente não fez campanha durante o segundo turno e quiçá tenha até ficado um tanto contente com a derrota; por isso, no dia seguinte à eleição, em seu discurso, ele já falava como ex-prefeito, enquanto elogiava Amazonino.

O VAZIO DA PREFEITURA E DA CMM

Mas o prefeito eleito tem defeito (e como tem!), e a juíza Maria Eunice Torres do Nascimento cassou Amazonino e seu vice, Carlos Souza (PP). Ora, pelo menos enquanto tramita rumo ao pleno do TRE-AM, onde se espera que Ari Moutinho e cia, sobre quem cobre suspeição, votem a favor de Amazonino, por enquanto ele está cassado. Assim, se Serafim não é mais o prefeito (e nem quer sê-lo mais pelo sonho de ser blogueiro) e passa-o de antemão a Amazonino, este estando cassado, é lógico, Manaus está sem prefeito. Se a CMM — com exceção de uns poucos, como o já citado José Ricardo — acompanha o féretro prefeitural, é também porque está vazia. E mais: para uma prefeitura e uma CMM vazias, uma educação vazia.

O FUTURÓLOGO FABRÍCIO

O edil-maneirista Fabrício Lima (PRTB), que já é uma liderança (sempre?) da bancada de Amazonino, comete uma absurda (para ele talvez melhor fosse dizer normal) incongruência, mostrando que não sabe a diferença entre “nunca menos” e “tão somente”, ao afirmar que “o artigo da Loman que estabelece os 30% contraria a Constituição Federal e a Constituição Estadual, uma vez que ambas determinam a obrigatoriedade de que Estados e Municípios apliquem nunca menos que 25% do orçamento em Educação”. E é justamente ele que exorta a não se se fazer “exercício de futurologia”, dizendo que não vai “discutir de maneira demagógica e irresponsável”. E ainda, finalmente, bate o pezinho como adolescente infantilizado e histérico (no sentido que se dá à palavra no senso comum): “Tô cheio!” Tudo para esconder o pior vício humano: querer ser o que não se é; ou seja, ético, inteligente, democrático.

E A GLÓRIA AMEAÇADA

Já Glória Carrate (PMN), que até então permanecia tartamuda, abriu a boca para denunciar a “ameaça” que alguns professores e estudantes estavam fazendo junto aos vereadores de colocar seus preciosos nomes, caso votassem a favor da redução, em outdoors pela cidade. O presidente da Casa, Leonel“Morcegão”Feitosa foi taxativo: “Quero avisar que não vou admitir esse tipo de pressão. Os vereadores têm liberdade para votar como bem quiser.” É uma pena somente ver que ele não age assim quanto á pressão que Serazonino exerce na sua intocável Casa. A fala reativa/reacionária de Carrate mostra com jargões policialescos todo o seu preconceito, passível de processo por parte do Sinteam e das entidades estudantis presentes: “Já estou acostumada com esse grupo que trabalha com meia dúzia de pessoas e que vem pra cá nos ameaçar. (…) Não vou ficar refém desse grupo. Não assino e não vou assinar.” Glória esquece que, numa democracia representativa, um pequeno grupo representa um número muito grande de pessoas, como um sindicato a uma categoria de trabalhadores, como um vereador a toda uma população. Ou a representação de Glória“Refém”Carrate faz-se apenas para meia dúzia?

DE ALGUMAS RESISTÊNCIAS EDUC-ATIVAS

Além da lista que os professores e estudantes passaram para os vereadores que se comprometiam a votar contra a redução, eles carregavam faixas e faziam suas intervenções seja na plenária, seja nas galerias da CMM. Uma palavra, um gesto, uma música. Sabe-se que as pressões sobre eles são muitas, pois são alunos que faltam aulas e, entre os professores, não há licenciamento para se trabalhar no Sinteam. Mas de suas presenças (não número, mas numeral) depende, além de alunos e professores, toda a população, já que a educação é o principal vetor de mudança social e política de uma cidade historicamente violentada como Manaus.

Entre os vereadores, José Ricardo constatou que essa redução vai custar R$ 114 milhões de corte no orçamento educacional. Em cima disso fez um parecer (publicado abaixo na íntegra) no qual lembra a situação de Manaus e do estado do Amazonas nos exames nacionais, do pré-escolar à universidade, sempre nas piores posições, e tece um estudo prático do que representará a perda dessa verba desde pagamentos de professores, merenda, fardamento, construção de novas escolas, reformas, materiais, etc. Nas suas falas, e de alguns outros, com a participação dos estudantes e professores descrita acima, têm aumentado o número dos que votarão contra a vilipendiosa redução, ainda que por temor eleitoreiro.

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PARECER CONSTATA REDUÇÃO DE 114 MILHÕES DA EDUCAÇÃO

ESTADO DO AMAZONAS

CÂMARA MUNICIPAL DE MANAUS

GABINETE DO VEREADOR JOSÉ RICARDO

Manaus, 01/12/2008.

O vereador José Ricardo (PT) apresentou parecer contrário à redução de 114 milhões de investimentos na educação, encaminhado pelo Executivo Municipal através de Emenda à LOMAN, propondo alteração no art. 354 da LOMAN, diminuindo o percentual de aplicação de receita resultante de impostos e das transferências recebidas do Estado e da União, na manutenção e desenvolvimento do ensino, de 30% para 25%, anualmente.

Segundo José Ricardo, o projeto representa uma redução de R$ 114 milhões de investimentos na educação. Depois, há de se observar que, a Prefeitura Municipal programou para 1º de abril a data base para o reajuste salarial para os profissionais da educação, este planejamento é fruto de um acordo e da votação nesta Casa do Plano de Cargos, Carreiras e Subsídios da educação. Ora, se foi alegado pelo executivo que o reajuste em 2008 não seria possível devido às receitas da Prefeitura, como fazer cumprir esta Lei em 2009, com a redução dos investimentos em educação.

Para o vereador, desde 2005, o governo federal avalia a qualidade do ensino básico (fundamental e médio) dos Estados e Municípios brasileiros por meio de um Indicador que leva em consideração o rendimento escolar (aprovação, reprovação e abandono da escola) e o desempenho do estudante em um exame chamado Prova Brasil. No primeiro ano de avaliação (2005) o ensino da capital do Estado de 1ª a 4ª série teve nota 3,6, passando para 3,7 no ano de 2007, ficando em 20º (vigésima) posição dentre as capitais brasileiras e abaixo da média nacional que foi 4,2. “Já o Ensino de 5a a 8a série passou de 2,6 (em 2005) para 2,8 (em 2007), ficando abaixo da média nacional que foi 3,8, o que levou Manaus ao 38º (trigésimo) lugar entre as cidades do Amazonas, atrás por exemplo de Careiro da Várzea (3,2), Manacapuru (3,0) São Gabriel (3,4), Parintins (3,5)”, disse o parlamentar no documento.

Segundo dados do Ministério da Educação, as notas do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica – IDEB, na maior parte das cidades do Norte estão abaixo das médias nacionais. Apenas 31 municípios dos 353 avaliados em 2005, durante a primeira avaliação geral, tiveram nota igual ou acima da média nacional, que é 3,8. Na Região Norte, as notas variam entre 3,8 e 4,8. Os outros 322 municípios alcançaram média de até 3,7. No Amazonas, Pará e Amapá, 100% dos municípios avaliados tiveram Índice Desenvolvimento da Educação Básica – IDEB – abaixo da média nacional. No Enem de 2007, o Estado do Amazonas, ficou em penúltimo lugar (26º), na frente do Estado de Alagoas; entre as capitais, a cidade de Manaus, capital do Estado, também ficou em penúltimo lugar na frente de Cuiabá

Em 2008, os alunos das escolas públicas do Amazonas não conseguiram, no 3º ano do Ensino Médio, acertar metade das questões, do Exame Nacional do Ensino Médio – ENEM. Segundo relatório do Ministério da Educação (MEC), 70 mil alunos amazonenses fizeram a prova. (Diário do Amazonas. 21.11.2008). Os alunos das escolas públicas tiraram notas vermelhas, com média 32,55, abaixo da nacional, que foi de 37,27. Os alunos das escolas particulares também receberam nota vermelha, obtiveram média de 48,02, também abaixo da nacional que foi de 56,12, em uma escala que vai de 0 até 100.

O petista lembra que o Amazonas, no ENEM de 2008, ficou com a quarta pior nota média do ensino público e com a sexta pior nota na rede privada de ensino. O Amazonas ficou no ENEM 2008 em último lugar na prova objetiva (MEC). A média da prova objetiva foi de 34,56 e da redação 58,50. A posição da relação geral por Estado, o Amazonas passou de 26º para 23º.

Comparando os dados da prova objetiva e da redação, entre 2008 e 2007, houve um decréscimo de 8,09 e um acréscimo de 4,34 pontos respectivos. O decréscimo foi registrado na prova objetiva que foi menor do que a média nacional, parte da redação o acréscimo maior que a média nacional e da região. Já no Programa Internacional de Avaliação de Alunos – PISA – de 2007, o Estado do Amazonas, ficou em penúltimo lugar, na frente do Estado de Maranhão.

Sobre evasão escolar, em 2007, dos 248 mil alunos matriculados na capital do Estado, 12,8% abandonaram a escola, o que representava 25.000 alunos. Do restante de ficam até o final 12% foram reprovados. No Estado o índice de evasão chega a 18%. Além do mais são 28 mil alunos que estudam no turno intermediário por falta de salas de aula.

José Ricardo disse que não temos dúvida de que o presente projeto de Emenda, se aprovado, caracterizará um retrocesso administrativo e legislativo na política Educacional do Município e do Estado, haja vista que o Município de Manaus concentra a quase totalidade da população do Estado do Amazonas.

Em suma, o presente Projeto é inconveniente e contrário ao interesse público do povo manauense e amazonense” finalizou o vereador.

Gabinete do Vereador José Ricardo

DANIEL DANTAS É CONDENADO A DEZ ANOS DE PRISÃO POR CORRUPÇÃO ATIVA

Foi assinado ontem (2), pelo republicano juiz Fausto De Sanctis, da 6º Vara Criminal de São Paulo, a sentença que condena a 10 anos de prisão o banqueiro (Orelhudo) Daniel Dantas (DD), dono do Opportunity, por corrupção ativa. O Orelhudo DD é acusado de tentar subornar o delegado da Polícia Federal, Vitor Hugo Rodrigues Alves Ferreira. A intenção do banqueiro condenado era de ter o seu nome fora das investigações da Operação Satiagraha da Republicana Polícia Federal (RPF).

Segundo a Agência Brasil, “Foram condenados ainda o consultor Hugo Chicaroni e o assessor de Dantas, Humberto Braz, ambos a sete anos de prisão, por terem cumprido o papel de intermediários na oferta de suborno. Eles teriam oferecido ao delegado da PF Victor Hugo Rodrigues Alves US$ 1 milhão para excluir o nome de Dantas da investigação”.

Os três condenados ainda terão que pagar multas que serão revertidas para entidades beneficentes. De acordo com a sentença terá que ser pago R$ 12 milhões por Orelhudo DD; R$ 1,5 milhão por Braz e R$ 594 mil por Chicaroni. As quantias foram determinadas segundo a soma que totalizou seis vezes o valor do suborno não aceito pelo delegado, acrescido de correção monetária.

Todos os três podem recorrer da decisão em liberdade, já que não foi expedido mandado de prisão contra os condenados.

MINISTÉRIO PÚBLICO ESTUDA A POSSIBILIDADE DE PEDIR O AUMENTO DA PENA IMPUTADA A DANTAS

Rodrigo De Grandis, procurador da República disse que, ao seu juízo, alguns aspectos técnicos da sentença merecem recursos por parte do Ministério Público Federal: “O Ministério Público Federal (MPF) ficou satisfeito, mas eu analiso alguns aspectos técnicos dessa sentença que merecerão, ao meu juízo, um recurso”, disse De Grandis.

De Grandis continuou: “Na percepção do Ministério Público, a participação do Humberto Braz foi relevante dentro do cometimento do crime e, por isso, ele mereceria uma pena superior à do Hugo Chicaroni”. Braz e Chicaroni foram sentenciados a 7 anos e 1 mês de prisão cada um. É também colocada a questão de Dantas ser condenado ao regime fechado e Braz e Chicaroni ao semi-aberto.

O Ministério Público Federal estuda a possibilidade de aumentar a pena imputada a Dantas. Para o crime de corrupção ativa a pena máxima é de reclusão de 12 anos. Assim como pode haver o aumento da multa destinada a Dantas. O Ministério Público Federal declarou ainda que vê como “adequada” a pena de reclusão de Daniel Dantas.

Agora o Ministério Público Federal tem cinco dias para oferecer recurso de apelação da sentença decretada ontem pelo juiz De Sanctis. De Grandis vê “uma perspectiva bem otimista de que a sentença seja julgada em todas as instâncias dentro de cinco ou seis anos”. Ele ainda afirmou que a condenação será mantida: “Eu tenho plena convicção de que essa condenação será mantida”. Isto em razão, segundo o procurador, de haver provas suficientes da prática do crime de corrupção ativa. “A condenação deixa muito claro que a corrupção era um instrumento utilizado normalmente dentro desse grupo econômico, que acabou se transformando um grupo criminoso”, afirmou De Grandis.

JUIZ DE SANCTIS CONTRA A COISIFICAÇÃO DO SER

Pode haver aqueles que digam que de nada adianta uma condenação onde não há prisão. Podem ainda criticarem a decisão do juiz De Sanctis, dizendo que sua ação de nada vale. Estas manifestações são próprias daqueles que não conseguem alcançar o entendimento sobre o país como produção coletiva da existência ativa. Assim como não compreendem que a justiça quando justa ultrapassa os códigos jurídicos constituídos e trabalha em prol do bem comum de todos, para que não haja a necessidade do povo ficar na dependência da caridade, deixando o seu ser ontológico para passar a ser apenas uma coisa que pode ser explorada. O importante é que ainda encontramos pessoas, como o juiz De Sanctis e a juíza Maria Eunice, que nos permitem dizer: Daniel Dantas foi condenado e Amazonino Mendes, em Manaus, foi cassado. E poder dizer é poder dizer algo que já faz parte da realidade.

O juiz De Sanctis, com as várias decisões republicanas que vem tomando, demonstra o quanto a justiça não é uma questão moral, mas uma questão de democracia que estabelece a dignidade de se preservar o que é público.

Deste modo, De Sanctis fez alguns esclarecimentos:

Sobre os que não se deixaram corromper: “Perseguiram e honraram os cargos que ocupam não se deixando seduzir por sentimento de poder que transforma o ser em coisa. Adequaram-se à boa natureza, à ordem natural das coisas.”

Sobre fazer o serviço público de modo intenso: “Não se trata de estar acima do bem ou do mal, muito menos de ‘atropelar’ a lei como propagam os acusados em seus Memoriais e em vários Habeas Corpus. As pessoas precisam entender que a condução do feito exige respeito a todos e que o magistrado deve se conduzir de forma adequada, mesmo que, para muitos, melhor seria lidar com o serviço público de maneira menos intensa”.

MINISTÉRIO DA CULTURA DISCUTE EM MANAUS PLANO DECENAL PARA A CULTURA BRASILEIRA

Nesta segunda-feira, 01, teve início o Seminário do Plano Nacional de Cultura, promovido pelo MINC nas capitais de todos os Estados brasileiros. Manaus é a penúltima cidade da caravana seminarial, que se encerra no próximo dia 05, na cidade de São Paulo.

Seminário PNC 01 por você.

Na cerimônia de abertura, o coordenador do Plano e gerente da Secretaria de Políticas Culturais, Maurício Dantas, falou sobre a iniciativa do Ministério, que procura dar corpo a uma proposta que está prevista na Constituição de 1988, mas que somente neste governo está sendo colocada em prática.

Ele ressaltou ainda a importância da participação da classe artística, dos gestores públicos e dos movimentos sociais na elaboração do Plano, que terá diretrizes produzidas pelos participantes destes seminários, que são na realidade audiências públicas, recurso que ratifica perante o poder Legislativo as deliberações que constituírem o relatório final.

Entre hino nacional cantado por levantador de toada (quem não tem Fafá nem Joelma vai de Assayag mesmo…), destaque para a participação do secretário estadual de Cultura, Robério Braga, que transformou cargo em profissão de décadas, de Amazonino a Eduardo“Maria da Penha Nele”Braga, que chamou a atenção por uma frase do seu discurso passada despercebida à maioria presente. Afirmou Robério que são problemáticas para uma gestão cultural estadual as sucessões municipais, como a que vai acontecer em janeiro, em Manaus. Frase que, após a última quinta-feira, com a cassação da candidatura do prefeito eleito, Amazonino Mendes, e de seu vice, Carlos Souza, remete a duas interpretações: uma, a de que Robério Braga não saberia sobre a cassação, improvável, dada a intimidade entre candidato cassado e seu ex-secretário, portanto ofensa mortal ao amigo; e outra, em ato falho, Robério estaria assumindo seu lado “vidente”, e antecipando publicamente a absolvição de seu ex-patrão, por parte do pleno do TRE, possibilidade já explicada, sem misticismo, aqui.

A partir das 14 horas, Maurício Dantas, em continuidade à programação, apresentou a atual versão do PNC, o qual deve ser modificado e finalizado a partir das contribuições dos participantes dos seminários presenciais e do fórum virtual, do qual podem participar tanto os que estiveram nos eventos presenciais quanto qualquer outro interessado e estudioso do assunto.

O Plano Nacional de Cultura apresenta uma proposta para a gestão da cultura como política pública de Estado (supragovernamental, portanto), com duração de dez anos, com revisão prevista. O PNC se estrutura em três dimensões (simbólica, cidadã e econômica) e cinco diretrizes. Os grupos de trabalho em cada seminário realizado deve apresentar modificações nestas diretrizes, sempre tendo como foco a diversidade e a regionalização, sem no entanto fechar-se para a dimensão nacional da cultura.

No dia de hoje (terça), iniciar-se-ão os grupos de trabalho para a elaboração/revisão das diretrizes.

Seminário PNC 02 por você.

PRIMEIRO A BARRIGA, DEPOIS A MORAL” O (DES)ENTENDIMENTO DA FINA FLOR DA CULTURA AMAZONENSE QUE PARTICIPOU DA OFICINA

A participação das lideranças artísticas no seminário cumpriram duas sentenças que confirmam a ausência da propalada diversidade na chamada “cultura” amazonense. A primeira diz respeito à presença dos eternos e sempre os mesmos representantes das chamadas belas-artes, dos mesmos grupos e indivíduos que sobrevivem das benesses mínimas dos governos manoniquins dos últimos 30 anos, e cuja arte reflete esta subalternidade. A segunda, refere-se à ausência de grupos novos, desconhecidos para este olhar oficial. Não se viu representantes, por exemplo, do hip-hop, ou grupos ligados à arte na zona Leste de Manaus. Se lá estiveram, não se manifestaram. Pelo que este bloguinho intempestivo percebeu na platéia, quase todos os que estavam presentes são os que há muitos anos estão envolvidos na realização de projetos, que conhecem todo o trâmite burocrático, que vêm há décadas participando de concursos, ainda que seus “raríssimos” talentos artísticos muitas vezes não sejam apreciados, frustrando seus pendores burocráticos da arte.

Após a explanação do coordenador do PNC, e a abertura para o debate, o assunto imediatamente deixou de ser o Plano, para focalizar-se nas questões de ordem gastrológica. Entre os participantes, houve quem farejasse o odor moral, confundindo-o com o perceptivo, causando desconforto entre os presentes com medidas de assepsia inadequadas para alérgicos e asmáticos.

Ainda, predominou a cobrança junto ao coordenador do Plano que acabou convertido em representante “do Ministério”, assim mesmo, generalizado quanto a critérios de julgamento de projetos (que cabem a comissões independentes). Confusão semiótica capturada pela impossibilidade epistemológica de abstrair das palavras o seu sentido usual, dado pela sociedade de consumo. Confusão entre regionalismo e adereços “indígenas”, impossibilidade de compreensão de que os signos são produções artísticas que carregam o novo através de perceptos e afectos, e que é possível falar de blues e ser amazônico, e o que não é possível a não ser em Manaus é ainda acreditar que a onça pintada no quadro reflete uma identidade “amazônica” imortalizada em arte.

Em que pese a serenidade, experiência e competência do coordenador do PNC, em pacientemente ouvir e considerar as falas dos profissionais da arte gastrológica, nelas transbordou, além da impossibilidade dos “falantes” em fazer seus projetos rachar as palavras e extrair delas elementos que escapem da semiótica constituída da arte de consumo e do expectador-passivo, uma arrogância que se estendeu em dois sentidos: um, em colocar em suspeição, sem ter evidências para tal, apenas com ilações, o trabalho da FUNARTE, já que a mesma não entenderia como regionalismo e se for isto ela está certa o uso dos clichês índio, mata, verde, floresta, cocar, pena, curupira, onça pintada, etc. Outra, colocar em suspeição sem ter sequer lido o trabalho os projetos vencedores, levantando a possibilidade de que o critério de regionalismo não tenha sido respeitado. Passível de processo civil, se os vencedores estivessem preocupados menos em criar do que em faturar.

No mais, ficou evidente a desorganização e a capturação dos enunciados pela semiologia do capital, que transforma a arte em produto e o artista em técnico. Estreiteza epistemológica que se mostrou em duas situações: quando os membros da AFIN usaram a palavra “transa”, no sentido de trans-ação, linha de corte na semiótica constituída, e grande parte da platéia riu, capturando (sendo capturados?) a palavra pelo sentido imóvel (clichê): confundiram transa com sexo. E em dois momentos em que o coordenador do PNC utilizou, sem o perceber, a sigla GLBT, quando se sabe que os movimentos sociais voltados à temática gay modificaram, em conferência nacional, a sigla para LGBT, para dar maior visibilidade ao movimento lésbico, e nenhum dos homoeróticos, enrustidos ou assumidos, se manifestou.

O entendimento de arte gastrológica (que se prende à hierarquização da produção e da disseminação das chamadas criações artísticas, estabelecendo o sujeito-sujeitado “artista” que só produz na mesma semiótica laminada que interessa aos governos corrompidos, e o sujeito-sujeitado “platéia”, receptor gástrico-apassivado desta “criação” artística) aparece não apenas no uso onipresente da partícula “eu”, mas também no complexo de inferioridade histórico que muitos amazonenses têm em relação aos paraenses: houve quem reclamasse um escritório do MINC na capital que é “a metrópole da região Norte”, referindo-se a Manaus, sem saber talvez que a organização do Fórum Social Mundial escolheu a outra metrópole para realizar o evento. Além do mais, o próprio seminário pode dar conta da diferença de tônus artístico-existencial dos manaquaras para os grãos-parás (veja aqui e aqui como foi a festa deles).

São estes os que irão dar a contribuição de Manaus para o Plano Nacional de Cultura. Fazendo uma anedota com as palavras de orelha de livro de Marx: “cada um de acordo com sua capacidade”. Ou, adequando o dito: “não importa se farinha pouca ou muita, meu pirão primeiro”.

Seminário PNC 03 por você.

COM QUE SORTE O MINC PROSSEGUE?

De qualquer sorte, o PNC terá de contar com a participação da “mais bela cidade da América do Sul”, uma vez que os interiores do Estado parece que não foram contemplados com presença. Se foram, nesse meio instalado, não se manifestaram. Assim, a tarefa de Maurício Dantas, nesse jogo-do-não-jogar em que a maioria tenta montar suas estratégias de captação de recursos, com muito pouco anseio de planejamento, ele terá de levar alguma proposta e, pelo que se viu, ainda bem que não precisará contar com a sorte, mais com inteligência e perspicácia, é assim que ouvimos suas palavras na conversa que tivemos ao final do primeiro dia do Plano Nacional de Cultura:

Na realidade, aqui é um estado que focaliza mais a capacidade de diversidade. Pela própria composição das pessoas que estão na plenária, você consegue enxergar que tem uma diversidade muito grande: culturas indígenas, populares, caboclos… Isso é uma coisa muito interessante. O que a gente tem de conseguir nestes dois dias de trabalho é fazer com que isso se reflita no documento escrito, que as pessoas consigam pensar para além das suas atividades, da fruição e da produção da manifestação e consigam enxergar isso como um todo, como uma peça de planejamento.

Seminário PNC 04 por você.

A JUÍZA E A CIDADE SEM VOZ ATIVA

A sentença judiciosa da Juíza Maria Eunice Torres Nascimento, cassando o candidato à prefeitura de Manaus, Amazonino Mendes (PTB) mais seu vice, Carlos Sousa (PP) representantes da direita tradicional que domina o Amazonas, embora tenha sido um atitude jurídica insigne na dolorosa história da “política” telúrica, não excitou a inteligência e os princípios éticos das instâncias tidas como mais interpretantes das enunciações sociais. Intelectuais, artistas, jornalistas, juristas, parlamentares, religiosas, professores, estudantes, e outras categoriais, se mantiveram como sempre se mantém: calados. Omissos, para não dizer, indiferentes. Salvo alguns comentários elogiosos sobre a decisão da Juíza Maria, nesse bloguinho intempestivo, o resto (nessa passividade democrático, só pode ser resto) se manteve na cena de Shakespeare: “O resto é silêncio”.

Patético silêncio destes que embora tenham por natureza um aparelho fonador, e por cultura, uma realidade social, matéria produtora de consciências, atrofiam suas pregas vocais quando elas, socialmente, são convocadas a se expressarem “em alto e em bom som”.

IRÔNICA AFONIA-SOCIAL

E são esses afônicos-sociais que em seus balbucios-individuais, exigem segurança pública. Comentam entre si que a cidade não oferece segurança a ninguém. Quanta estupidez, quanta insensatez, destas almas individuais aprisionadas. Não compreendem que a insegurança das ruas encontra-se urdida nas administrações públicas, nas determinações dos governantes. Certo que ninguém é espelho-reflexo social de ninguém para ninguém, mas produtos desse emaranhamento político/social. E nesse caso o fio de maior força é o do executivo. Quando uma cidade têm governantes limitados intelectualmente e sem comunidade (o meu desdobramento no outro), a insegurança absoluta habita a cidade – e não só a insegurança criminal – , aí surge a necessidade da voz ativa de seu povo. Principalmente da parte da população que possui mais facilidade de fazer circular seus códigos lingüísticos críticos. Os hierarquizados socialmente pelas posições que ocupam em seus territórios de atribuições profissionais.

CADÊ NOSSA RETÓRICA?

Mais qual o quê! A insensibilidade áudio-cognitiva censura seu légein, dizer, e a artrose-gestual trava seu vigor, práxis. Assim, os princípios democráticos, Aidós, “o respeito da opinião pública”, ou “sentimento de respeito humano” , e Dikê, “eu mostro”, “regra, o uso, a norma pública de conduta”, como afirma a filósofa Bárbara Cassin, são desrealizados como potências sociais fundadoras da democracia. E outra realidade-muda se manifesta: Ausência da Retórica Pública, o que une os homens e constrói a democracia. Logo, um povo sem voz. Logo, um povo sem democracia.

ACIRRANDO INVEJAS

Tivesse a decisão da Juíza Maria ocorrido em outra capital (Rio Branco/Acre, Belém/Pará, São Luiz/Maranhão), as reações publicas seriam outras: Maria seria homenageada como defensora pública com todas as honras que seu ato merece. Seria convidada para dar entrevistas em todos os meios de comunicação, convidada para fazer palestras em cursos universitários, principalmente de Direito, falar sobre sua condição de mulher na magistratura, sobre a Lei Maria da Penha, e em diversos territórios falantes. No Rio de Janeiro, a juíza Denise Frossard, porque mandou prender uns bicheiros, foi transformada em heroína, e depois foi eleita deputada federal. Alguns dirão: “Mas o Rio é o Rio!”. Isso não diz nada. Não precisamos de heroína, mas precisamos da visibilidade de alguém que cortou nas juntas, como diria o filósofo Platão, o corpo dominante de uma “política” retrógrada, anêmica, que vem desfazendo a história do Amazonas há décadas. A visibilidade de alguém que promoveu a cidade a condição de conhecedora de seu corpus jurídico/político social: um curso que não se aprende em nenhuma aula de Moral do Direito. Mudos, ainda queremos ser a Princesinha do Norte. Da nossa audição/visão, nunca vimos uma Princesinha sem voz. Nem em contos de fadas.

Certa vez, o teatrólogo alemão Brecht, disse: “Realmente a vida num país sem senso de humor é insuportável; mas muito mais insuportável ainda é a vida num país que tem necessidade de humor”. Parafraseemos Brecht: “Realmente a vida numa cidade sem voz ativa é insuportável; mas muito mais insuportável ainda é a vida numa cidade que tem necessidade de voz ativa”.

Tristes invejosas classes opinantes de Manaus que não opinam, pois não têm Retórica. Só suas indiferenças-egoistas.

ECCE NOME: JUÍZA MARIA EUNICE TORRES NASCIMENTO

Não importa a razão princípio racional que motivou a sentença. Se as provas apresentadas pela Polícia Federal são visivelmente consistentes, sem nenhuma possibilidade de refutação; se é preciso colocar a Justiça Eleitoral em seu topos, em virtude da descrença pública quando se trata de personagens amparadas pelo poder econômico, o que vigora há anos no Brasil, no caso específico, no Amazonas; o que conta mesmo é que a juíza Maria Eunice Torres Nascimento, com a cassação dos candidatos Amazonino Mendes (PTB) à prefeitura e Carlos Sousa (PP), vice, inaugurou um novo tempo de práxis jurídica no estado do Amazonas. Como diria um poeta: “Tempos outros fluem tecendo o existir”.

Contam que Maria fez um curso de filosofia, mas nenhum curso faz ser comunidade. A UFAM já distribuiu vários diplomas no curso de filosofia, entretanto, não existem filósofos no Curso de Filosofia da UFAM. O que existem são funcionários públicos atentos às suas carreiras, arautos da aposentadoria. Assim, como alguns graduados no curso são cabos-eleitorais de Amazonino. Um chegou a compará-lo com Che. Por tal, sabe-se com o filósofo Nietzsche, e posteriormente com os filósofos Deleuze e Guattari, que ser filósofo é de outra ordem: da ordem de não ser filósofo. Eis que Maria escapou do direcionamento das doutrinas e dos sistemas filosóficos do curso, em si, História da Filosofia, ou Teologia, que confundem o ser filósofo, e, então, se fez filósofa interpretando a Lei, desdobrando-a em potência democrática como jurisprudência/filosófica, o movimento que escapa da rigidez legislativa condicionada pela necessidade da ocasião. Maria sabe que, se o jus nasceu em comunhão, não pode servir para desunião. Aí seu devir filosofante. Aí o reconhecimento do filósofo Marx: “Os filósofos não brotam da terra como cogumelos. Eles são frutos da sua época, de seu povo.” E Vandré diria para Maria: “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.” Tudo que Maria fez: interpretou sua época, compreendeu os anseios de seu povo, e não esperou acontecer fez a hora.

Maria causa inveja. Seus contemporâneos de profissão devem está incomodados com sua atitude. No caso Henrique Oliveira, tiveram suas oportunidades, não a usaram. A inveja, diriam Freud, Shakespeare e o filósofo Gracian, é desejar o que é do outro como se fosse seu: “Ele me roubou o que não tenho e nunca terei.” Maria não roubou nada de ninguém, fez apenas brotar o que é de todos nós: a justiça. Não é uma heroína, é apenas uma filosofante. É fácil ser herói sem guerra. Quantos hoje não afirmam que foram perseguidos pela ditadura e nunca sequer pegaram um “chá de burro” (esfregar a parte inferior da mão, aberta, sobre o couro cabeludo do outro. Recurso muito usado pelo padre Fellinto nos meninos que freqüentavam o Oratório do Dom Bosco).

Maria, com sua posição nos leva a Cristo quando liberta almas individuais da alma coletiva tiranizada pelos sacerdotes judeus e o Império Romano. Cristo, no meio do povo, informam-lhe que sua mãe encontra-se ali. Ele responde que é filho de todas as mulheres. Maria Eunice Torres Nascimento se apresenta filha de todos os cidadãos: a democracia.

Não importa o que possa acontecer no desenrolar dos apriorísticos fatos jurídicos. O que importa é o que começou com essa Maria à priori.

TRANSPORTE COLETIVO AGONIZA E REVELA O VERDADEIRO PREFEITO DE MANAUS

A briga pelo aumento na tarifa do transporte coletivo urbano de Manaus tem, neste final de ano, diversos campos de batalha: de rodoviários até o empresário, dono da Eucatur/Transmanaus, passando pelo prefeito que ora sai, e principalmente pelo que ora entra, travestido de novo. Mas somente uma vítima: a economia da cidade e o transeunte-cidadão.

Num campo da briga de interesses, o presidente do SINETRAM e do consórcio Transmanaus, Acyr Gurgacz, que pretende impedir que os estudantes utilizem a meia-passagem nas férias, alegando que quase 50% da população usuária do TCU (transporte coletivo urbano) paga meia-passagem em Manaus, e ainda contando com a anuência do atual prefeito, Serafim, que ratificou o argumento do empresário e ainda afirmou que esta é uma questão que não diz respeito ao poder Executivo.

De outro/mesmo lado, ônibus parando pela cidade por falta de combustível, e frota reduzida em 80% nos finais de semana, já a algum tempo. Sintomas recentes de uma antiga tática: penalizar o usuário, penalizar o funcionário, conforme este Bloguinho acompanhou, quando fez uma pesquisa entre os funcionários destas empresas.

De um outro/mesmo lado, conta-se com a omissão do atual prefeito, Serafim, e com o providencial silêncio do prefeito eleito, Amazonino, que não deseja “herdar” o problema.

Ainda, o sindicato dos rodoviários, que protesta com razão, mas sem usar a mesma, planejando uma greve que atende menos aos interesses da categoria que os do empresário, já que o presidente desistiu de fazer o protesto pela via econômica (circular com catraca livre), e optou pelo tradicional enclausuramento dos veículos nas garagens, a partir do dia 1o de dezembro, prejudicando a população, jogando a “batata quente” para a prefeitura e não prejudicando em nenhum momento o empresário. Josildo Oliveira, presidente do sindicato, teria afirmado à imprensa que é pago para defender os direitos dos rodoviários, não da cidade.

UM ANO (DESTE CAPÍTULO) DA NOVELA…

Os atuais acontecimentos no TCU de Manaus envolvem uma trama que antecede a eleição municipal em um ano. O prefeito Serafim foi eleito em 2004, e uma de suas bandeiras de campanha era a resolução dos problemas do transporte, sobretudo o malfadado Expresso, não terminado pelo atual ministro e então prefeito Alfredo Nascimento, do mesmo grupo de Amazonino.

Serafim herdou um sistema de transporte inoperante, caro e sucateado, e que no entanto pagava embutida na tarifa, segundo a CPI do Transporte, presidida pelo então vereador Francisco Praciano, 0,22 centavos a mais por passagem individual paga durante oito anos. No início do mandato de Serafim, Praciano tentou emplacar uma fiscalização mais rigorosa por parte da prefeitura e da CMM, inclusive tomando para o IMTU a responsabilidade de gerir o sistema de bilhetagem eletrônica. Serafim vetou o projeto de lei.

Serafim continuou mostrando que fazia uma administração sem diferenças com seus antecessores. No episódio que ficou conhecido como “os baderneiros”, Serafim impediu, via vereadores da sua base, a instalação de uma CPI que visava investigar os acontecimentos ocorridos no centro da cidade.

Depois disso, a malfadada e ainda investigada pelo MPE licitação da concessão do transporte coletivo, que consagrou a única participante, a Transmanaus (Eucatur/Transmanaus), de Acyr Gurgacz. Gurgacz, impossibilitado de participar da licitação com a Eucatur, tratou de providenciar um novo CNPJ e um nome de fantasia, “Consórcio Transmanaus”, que juntava sob sua administração as mesmas empresas que já exploravam o TCU manoniquim. Venceu, e a prefeitura trocou seis por meia-dúzia.

Daí, o episódio do contrato verbal entre Serafim, Gurgacz e o sindicato dos rodoviários, garantindo o congelamento da tarifa por um ano em troca da concessão, “coincidentemente” um ano antes das eleições. E o já anedótico episódio dos “500 Ônibus Novos. Eu Sou Um Deles”, que até hoje não chegaram, já que efetivamente não existe transporte coletivo urbano em Manaus no plano do controle municipal e da efetividade do serviço, ainda que houvessem, numericamente, 5000 ônibus.

No meio desta história toda, ainda houve o episódio do Vírus IMTU/SINETRAM, que o leitor intempestivo acompanhou neste bloguinho.

Um ano depois, nem mais, nem menos, Gurgacz vem cobrar a fatura do contrato de gaveta com a prefeitura de Serafim, que terá de cumprir a sua parte, mesmo que não tenha conseguido nas urnas o que pretendia quando o formulou.

NO QUESITO TRANSPORTE, O “PREFEITO” SEMPRE FOI ELE: ACYR GURGACZ

O homem dos mais de 200 processos judiciais, o homem que pretende assumir mesmo assim a vaga de suplente do senador rondoniense cassado, Expedito Junior (PR-RO), o homem que foi preso na Operação Articulados (que envolveu os 500 ônibus), da PF, e é acusado de crimes ambientais, estelionato, falsidade ideológica, uso de documento falso, é processado por danos materiais e morais no Amazonas, Pará e Rondônia, já tendo sido condenado a quatro anos e três meses de prisão. Este é Acyr Gurgacz, dono da Eucatur, da Transmanaus, e personagem envolvido no TCU de Manaus desde os tempos do ex-e-agora-de-novo prefeito, Amazonino Mendes.

A Eucatur surgiu em 1964, fundada pelo pai de Acyr, Assis Gurgacz (também preso na Operação Articulados), e cresceu vertiginosamente na região Norte durante a época da ditadura. Em Manaus, a EUCATUR chegou ainda como União Cascavel, e em 1991 inaugurou sua primeira garagem, localizada na Cidade Nova. Um ano antes, Amazonino saía do governo para o senado, ficando lá até 1992, quando foi eleito prefeito da cidade.

De lá pra cá, a União Cascavel/Eucatur, passou pelas administrações de Arthur Neto (1989 a 1992), Amazonino (1993-1994), Eduardo Braga (1994-1997), Alfredo Nascimento (1998-2004), Carijó (prefeito-tampão, 2004), Serafim Corrêa (2005-2008), e muito provavelmente, Amazonino de novo.

Em todos estes mandatos, a Cascavel/Eucatur, em parceria com outros empresários de transporte coletivo, sempre geriu o sistema sem nenhum tipo de inconveniência ou pressão governamental. Fato é que tudo é gerido pelo SINETRAM, que tem atribuições de órgão público, como a emissão de carteiras estudantis, passe-estudantil (quando existia) e cadastro dos estudantes, enquanto o IMTU, que era EMTU, se reduzia a cuidar da organização (?) das vias públicas.

Evidentemente, não se trata de Acyr Gurgacz enquanto indivíduo, mas o seu envolvimento com uma subjetividade anti-democrática, aliado a pessoas que utilizam o poder público municipal/estadual no Amazonas e em grande parte do Brasil para realizar interesses escusos. É esta subjetividade de apropriação dos mecanismos governamentais por parte de pessoas sequeladas, carregadoras da frustração do existir, da dor e do ressentimento, que é necessário enfraquecer.

EMPURRA-EMPURRA DO AUMENTO: A CORDA ARREBENTA NO BOLSO DO CIDADÃO

Enquanto o prefeito Serafim faz de conta que não é com ele, e o futuro prefeito Amazonino aproveita para silenciar, mas torce e pressiona para que o aumento seja dado na administração do rival/igual, só há uma certeza para o transeunte/cidadão. Quem vai pagar a conta de toda esta novela, somos nós.

i iNDA TEM FRANÇÊiS Qi DiZ Qi A GENTi NUM SEMO SERO

@ ONU DIZ A GOVERNO BRASILEIRO QUE TORTURA É CRIME. A tortura patrocinada pelo governo ditatorial brasileiro das décadas de 1960 a 1980 deve ser classificada como “crimes contra a humanidade”, e não está sujeita a anistia. A lembrança foi feita pela ONU ao governo brasileiro, em meio às convulsões entre as instâncias sobre quem deve ser responsabilizado pelos anos de chumbo. O austríaco Manfred Nowak, especialista da entidade supranacional para análise do uso da tortura por grupos ou governos, recomendou ao governo brasileiro que trate a tortura usada pelos militares como crimes contra a humanidade. Pela orientação, portanto, ficaria vedada à AGU a defesa dos ex-diretores do DOI-CODI, Brilhante Ustra e Audir dos Santos Maciel, vencendo a parte do governo liderada pelo ministro da justiça, Tarso Genro e pelo Secretário Especial de Direitos Humanos, Paulo Vanucchi. A ministra da Casa Civil, Dilma Roussef também é a favor da abertura dos arquivos da ditadura e da responsabilização de quem usou de tortura amparado pelo governo autoritário. Do lado contrário, o ministro-inimigo, Nelson Jobim, e o ministro do STF, Gilmar “Dantas” Mendes. A pressão da ONU, que lembrou ao governo brasileiro que é o único país da América do Sul que ainda não começou a resolver seus problemas com a ditadura (citou Chile e Uruguai como casos de sucesso), também esfacela o argumento de Gilmar “Dantas” Mendes, que afirmou que pau que bate em Chico também bate em Francisco, ameaçando remanescentes de grupos de resistência ao governo militar. Para as Nações Unidas, estes grupos são juridicamente inimputáveis, desde que cometessem atos ilícitos contra a opressão e o terrorismo de Estado. Falta apenas o posicionamento oficial do governo, que como defensor da democracia, até pode açambarcar pessoas com diferentes opiniões, mas em se tratando deste assunto necessário ao fortalecimento do regime democrático em nosso país, deve ter uma opinião só, e condizente com o que prega a ONU, sob risco de condenar mais uma geração aos sintomas de uma sociedade que não expurga seus fantasmas. I inda tem françêis…

@ MTST COLOCA DANIEL “MENDES” DANTAS PARA PAGAR A CONTA. Se o STF não faz, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto mostra como é possível usar o humor para desestabilizar o ressentimento. O movimento fechou uma loja Carrefour de Taboão da Serra e em mais sete Estados brasileiros simultaneamente. O objetivo era protestar contra a alta dos alimentos, a ajuda do governo brasileiro aos bancos e contra a operação anti-Satiagraha proporcionada pelos setores pró-Orelhudo aqui e acolá, segundo uma das líderes do movimento, de reluzentes 22 anos. O protesto foi simples, segundo conta o Terra Magazine: os manifestantes encheram os carrinhos com produtos da loja, e depois tentaram pagar a compra com um “checão” emitido pelo Banco Central, no valor de 160 bilhões de Reais, e assinado por Daniel Dantas. O cheque não foi aceito pela empresa, e os manifestantes tiveram que sair sem os produtos. Ressaltando que saíram pacificamente e sem levar sequer uma uva no bolso. Ficou apenas a sensação de estranheza diante da direção do Carrefour: dispensou o que muita gente, do STF à Veja, quando tem a chance, aproveita. I inda tem françêis…

@ DE SANCTIS CONDENA, A JUSTIÇA MANDA SOLTAR – DÉJÀ VU? O juiz Fausto De Sanctis abriu mão de uma promoção para desembargador para entrar na história do Brasil como um homem que mostrou que a justiça não se reduz ao sistema jurídico, e na grande maioria das vezes, não passa por ele. Diante das provas irrefutáveis, é certo que ele irá condenar Daniel “Mendes” Dantas. O problema é a legislação brasileira e a atuação sempre alerta do STF. Caso o juiz condene Dantas a menos de quatro anos de prisão, o banqueiro sai pela porta da frente do tribunal, pois é reú primário (não tem condenações anteriores). Se o condena de 4 a 8 anos de prisão, o orelhudo cumprirá em regime semi-aberto, o qual não existe na prática no Brasil, o que “obrigaria” Dantas a cumprir prisão domiciliar na sua mansão, no Rio de Janeiro. Se pegar pena superior a 8 anos, a defesa entra com um pedido de abrandamento junto ao STF, já que o condenado é réu primário e não cabe condenação excessiva nestes casos (as informações são do Terra Magazine). Donde se depreende que a questão judicial e política brasileira não se reduz à prisão de Daniel, Mateus ou José, mas envolve uma mudança de ordem cultural, que pode até se iniciar a partir da operação Satiagraha, que tocou em personagens que estão mais próximos desta estrutura corrompida, mas que não pode depender dela para ir adiante. Como democracia, o Brasil só se realizará quando os elementos sígnicos corporais e incorporais – ou as condições materiais, diria Marx – proporcionarem este movimento na cultura. Ainda assim, De Sanctis, Protógenes, De Grandis, os trabalhadores anônimos e todos os que apóiam a causa da condenação de Daniel “Mendes” Dantas são vencedores. Mostraram que é possível outro Brasil. I inda tem françêis…

@ DESCOBERTO NOVAS RESERVAS DE ÓLEO LEVE PELA PETROBRAS. “O volume recuperável das descobertas, feitas em reservatórios do pré-sal localizados abaixo dos campos de óleo pesado de Baleia Franca, Baleia Azul e Jubarte, é estimado entre 1,5 bilhão e 2 bilhões de barris de óleo equivalente”, é o que diz em nota a Petrobras. O petróleo está na área do Parque das Baleias, ao norte da Bacia de Campos. A Agência Nacional do Petróleo recebeu o comunicado da descoberta como um fato relevante. Tal descoberta, que intensifica os estudos de aceleração da produção do pré-sal, demonstra o quanto é importante para o Brasil possuir uma estatal do porte da Petrobras. E isto não somente em momentos de crises (?) caracterizadas pela ganância de países e de um mercado financeiro auto-regulado que coloca a especulação à frente da produção. A descoberta também evidência que a independência econômica e social de um país pode ser alcançada sem a mórbida necessidade de se tornar um refém das especulações financeiras, mas, ao contrário, a partir do desenvolvimento de suas próprias potências. I inda tem françêis…

@ AINDA EXISTE HEGEMONIA? O filósofo Jean Baudrillard diz que “Para compreender o jogo da globalização e do antagonismo mundial, é preciso fazer uma distinção entre dominação e hegemonia”. Para ele a dominação é uma “relação dual, pessoal, conflituosa” (senhor-escravo) já superada pela realidade integral. Esta, dissipadora da relação dominante e dominado, e processada em redes, no virtual e nas trocas integrais. Então quando a noticia vaticinada pelo National Inteligence Council (NIC), organismo consultivo do próprio governo ianque, de que a hegemonia dos EUA nos planos econômicos, político e militar estão com os dias contados, em nada faz sentido. A hegemonia, atual da globalização, liquida todo e qualquer tipo de simbolismo. Não há mais um país, uma potência, um sistema dominante, mas apenas o simulacro. Marx já elucidava esta questão quando não priorizou nenhuma superpotência mundial para realizar seus estudos sobre o capitalismo, mas, antes, investigou a virtualização deste sistema que faz com que o capital seja o signo maior da existência, o qual é dissipado por ele próprio. E Baudrillard afirma que esta atual hegemonia não é mais a do capital. Portanto, por mais que o NIC venha colocar o fim da hegemonia norte americana com o prazo de duas décadas e nomeie a Rússia, a China, a Índia e, ainda, o Brasil, como favoritos, para ocupar o lugar dos EUA, nada disso pode ser efetivo. Já que tudo é simulacro, principalmente o poder. I inda tem françêis…

@ 1.337 PÓLOS DE CURSOS DE GRADUAÇÃO À DISTÂNCIA SÃO FECHADOS PELO MEC. Os cursos foram fechados porque não eram registrados no MEC, apresentavam ofertas desqualificados onde não existiam laboratórios, bibliotecas e coordenadores. Segundo a Agência Brasil (onde maiores informações podem ser encontradas), “os pólos pertencem a três das quatro instituições que foram supervisionadas pelo ministério: Universidade Estadual do Tocantins (Unitins), Centro Universitário Leonardo da Vinci (Uniasselvi), de Santa Catarina, e a Faculdade Educacional da Lapa (Fael), do Paraná. O ministério também encontrou irregularidades na Universidade do Oeste do Paraná (Unopar), mas não será necessário fechar pólos ou cortar vagas”. Este é um sinal relevante do trabalho de fiscalização que o governo federal vem realizando em prol da educação. Contudo, enquanto as instituições de ensino continuarem a tratar a educação como mercadoria de troca, conservando os saberes constituídos como um vazio para a existência, de nada adiantará o uso de teletecnologias para a expansão do conhecimento. Pois persistirá o fato da conservação de uma educação que em nada instrui e mantém as pessoas à distância da educação enquanto produção de novos modos de existência. I inda tem françêis…

@ GOVERNADOR DA PARAÍBA, CÁSSIO CUNHA LIMA (PSDB), E SEU VICE, JOSÉ LACERDA NETO (DEM) FORAM CASSADOS quinta-feira à noite pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A cassação, que havia sido decretada em julho de 2007 pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE-PB), foi sustentada por unanimidade no TSE. Durante a campanha eleitoral de 1996, o governador tucano aproveitava um programa assistencialista da Fundação Ação Comunitária (FAC), instituição ligada ao governo do estado, para veicular mensagens pessoais, fazendo com que o benefício passasse como um presente do governador. Cunha Lima ainda pode recorrer junto ao Supremo Tribunal Federal (STF), onde, como diz o companheiro Carlinhos Medeiros, “é possível contar com uma ajudinha do ministro Gilmar Mendes”, mas assim que for publicada a decisão, assumirá o segundo colocado nas últimas eleições, o senador José Maranhão (PMDB). Talvez assim diminua a presença de propostas mirabolantes de campanha para tempos eleitoreiros. No Amazonas, já teve até governador que distribuiu peixe na semana santa com uma imagem sua, sorrindo, como um santo, dentro de um coração. O prefeito de Manaus eleito na última eleição, Amazonino Mendes (PTB), por exemplo, teve de tirar duas propagandas do ar: de que ia criar o Bolsa Família Municipal e de que diminuiria o IPTU em 20%. Se o TSE… I inda tem françêis…

Vamos que vamos

Que não iremos embora amanhã

Se embora não formos hoje…

TEATRO NEGRO DO BRASIL — UMA EXPERIÊNCIA SÓCIO-RACIAL

Entrevista* do Bloguinho Intempestivo com o economista, poeta, escritor, ensaísta, dramaturgo, teatrólogo e ator-negro Abdias do Nascimento no Quilombolas Bar A Linha Poiética da Negritude, na encruzilhada das alegrias ao som de cantos, pontos, atabaques, cana macia e braba, e um apimentante sarapatel de bode e um porco morto de paixão.

Bloguinho Intempestivo (Alegria dionisíaca, contentamento, subjetividade festeira nos 120 anos da abolição, e Dia Nacional da Consciência Negra) Abdias, nosso “nego”, que negócio é este de tu entrares no movimento teatral sem ter sequer um indicador e depois se transformar uma dais maiores personagens do teatro brasileiro? Quais os entrelaçamentos ontológicos te apanhavam no momento da entrada?

ABDIAS DO NASCIMENTO (Só sorriso, e muito charme)Várias interrogações suscitaram ao meu espírito a tragédia daquele negro infeliz que o gênio de Eugene O’Neill transformou em O Imperador Jones. Isso acontecia no Teatro Municipal de Lima, capital do Peru, e ao impacto da própria peça juntava-se outro fato chocante: o papel do herói representado por um ator branco tingido de preto. Aquela época, 1941, eu nada sabia de teatro.

BIO que te levou a assistir à peça em Lima?

ANMomentos antes de me dirigir ao espetáculo, acabara de pronunciar, economista que era, uma conferência no Seminário de Economia da Universidade Mayor de San Marcos. Não possuía a qualificação técnica para julgar a qualidade interpretativa de Hugo Deviéri, porém, algo denunciava a carência daquela força passional requerida pelo texto e que unicamente o artista da raça negra poderia infundir à vivência cênica do protagonista. Por que um branco brochado de negro? Pela inexistência de um interprete dessa raça?

BI (Cortando)E no Brasil…

AN (Continuando, apanhando a deixa)Entretanto lembrava que em meu país, onde mais de vinte milhões de negros somavam a quase metade de sua população de cerca de 60 milhões de habitantes, na época, jamais assistira um espetáculo cujo papel principal tivesse sido representado por um artista da minha cor. Não seria, então o Brasil, uma verdadeira democracia racial? Minhas indagações avançavam mais longe: na minha Pátria, tão orgulhosa de haver resolvido exemplarmente a convivência entre pretos e brancos, deveria ser normal a presença do negro em cena, não só em papéis secundários e grotescos, conforme acontecia, mas encarnando qualquer personagem Hamlet ou Antígona desde que possuísse o talento requerido.

BINão acontecia.

AN Ocorreria de fato o inverso: até mesmo um O Imperador Jones, se levado aos palcos brasileiros, teria necessariamente o desempenho de um ator que pintaria de negro sua pele branca, a exemplo do que sucedia desde sempre com as encenações de Otelo.

BIAté nas peças nativas?

ANMesmo em peças nativas tipo Demônio Familiar (1857), de José de Alencar, ou Iaiá Boneca (1939), de Ernani Fornari em papéis destinados especificamente a atores negros se teve como normas a exclusão do negro autêntico em favor do negro caricatural.

BI (Esfregando as mãos)Então, fostes à luta?

ANEsta não poderia outra que a decisão de fazer alguma coisa para erradicar o absurdo que significava para o negro e os prejuízos de ordem cultural para o meu país. Ao fim do espetáculo tinha chegado a uma determinação: no meu regresso ao Brasil, criaria um organismo teatral aberto ao protagonista do negro, onde ele ascendesse da condição adjetiva e folclórica para a de sujeito e herói das histórias que representasse. Antes que uma reivindicação ou um protesto compreendi a mudança pretendida na minha contribuição ao Humanismo que respeita todos os homens e as diversas culturas com suas respectivas essencialidades.

BIImbricações políticas/sociais/raciais, forças, embates, novos desejos foram se entrelaçando?
ANAntes do ano de 1944, quando concretizei, no Rio de Janeiro, a fundação do Teatro Experimental do Negro – T.E.N. àquelas preocupações iniciais outras se juntaram, e na reflexão e na crítica o projeto primitivo se tornou mais profundo e complexo. Perguntava-me: “O que poderia haver, para além da barreira ornamental da cor, justificando a ausência do negro na cena brasileira? Seria válida a hipótese de sua incapacidade para representar papéis sérios, de responsabilidade artística? Talvez fosse só considerado capaz de fazer o moleque pitoresco ou personagem folclórico? Existiriam implicação mais profundas, uma diferença básica de concepção artística e expressão teatral? Por ventura condicionamentos exclusivistas e conflitantes de uma estética branca e de uma estética negra?”

BI (Sorrindo)E aí, qual foi?

AN (Gargalhando)Impunha-se assim um recuo histórico para a decifração das condições que tínhamos pela frente, e quem sabe o encontro da luz que iluminaria o roteiro que o Teatro Negro do Brasil haveria de percorrer. De saída convém reiterar o óbvio: uma colônia-Brasil é modelado segundo os padrões originários da metrópole Portugal. O Brasil de 1500 é isto: simples cenário ao exercício da cobiça predatória de Portugal. Mero apêndice do império português feitoria agrícola e os colonizadores, menos que povoar, tinham como tarefa iminente arrancar do território recém-descobertos o máximo de produtos tropicais, ouro e esmeraldas, para abastecer os mercados europeus.

BIAí a introdução do negro como escravo, o índio tá fora: não se adapta ao trabalho forçado.

AN (Mais gargalhada)Não foi em vão que os portugueses foram os primeiros europeus a pisar o solo africano abaixo do Saara… Um dos pretextos do imperialismo era a dilatação da fé e a conversão dos gentios. A fim de salvar a alma dos indígenas e, em contrapartida, ajudar a manutenção do regime escravocrata africano, para cá vieram os padres jesuítas. Coube a eles, precisamente ao padre José de Anchieta, as primeiras iniciativas de teatro no Brasil.

BIDizem que ele é o criador do teatro brasileiro.

AN (Pausa. Gargalhada)Anchieta escreveu vários autos sacramentais de forma européia, representados pelos indígenas conversos; a primeira dessas representações aconteceu entre 1567 e 1570 com o Auto Pregação Universal.

BIOs portugueses chegam com uma semiótica-despótica, certo? O que saltava daí em relação à dominação sobre o negro?

ANIsto: os costumes e uma pretensa ciência antropológica dogmatizavam a inferioridade da raça negra. Não se esgotavam, contudo, no âmbito político ou da economia, as ambições espúrias daquela racionalização imperialista. Ela transbordou-se para o campo da ética, da estética e da religião. (…) Uma verdadeira cosmovisão da brancura pressionou e degradou os valores da metafísica negra, da moral negra, da beleza negra.

BIEntão o negro no Brasil foi vítima de um estupro?

ANVítima de duplo estupro: espiritual e sexual; à violação de sua cultura original correspondeu a violação da mulher negra, mais que prostituída, transformada em uso do colonizador branco.

BIO que se constituiu como força de embate como luta pela liberdade.

ANO escravo, de todas as formas possíveis perseguia a recaptura de sua liberdade e dignidade, criando os quilombos e procurando manter vivos seus costumes e crenças. Ao tempo dos autos jesuítas do século XVI, também os escravos, por ocasião do Natal até Reis, promoviam a representação de seus autos profanos: a Congada ou Congo, as Taieiras, o Quicumbre, os Quilombos, e o Bumba-meu-boi, cuja fonte é discutida, mas que possui indiscutível adaptação dos escravos, com a introdução de personagens como Mateus e Bastião, negros gozados, germe dos futuros negrinhos pitorescos. Estes, aceitos durante a escravidão, chegaram até nossos dias como os únicos interpretes negros tolerados na cena brasileira.

BIPara se dar ao jogo cênico, o negro devia ter um passado africano teatral?

ANUm teatro não-escrito da tradição africana dos Griot oral, anônimo, folclórico; ainda, contemporaneamente, a vitalidade dessas manifestações coletivas pode ser testemunhada em várias regiões: os dos escravos Caetano Lopes dos Santos e Maria Joaquina Rei e Rainha da Congada, apresentada com enorme êxito em 1811 no Rio de Janeiro. Outro que deixou rastro foi o ex-escravo e ator Vitoriano com sua interpretação, em 1790, de Tamerlão na Pérsia, ocorrida em Cuiabá.

BI O negro na cena não tem nada de direito reconhecido?

ANRecordemos àquela altura da história considerava-se a atividade teatral como uma profissão desprezível, a mais vergonhosa de todas… abaixo das infames e criminosas. Parece um novo degrau sócio-étnico: o mulato. Sua condição é ambivalente: filho de escravo, escravo é; porém, filho bastardo do Senhor, goza de certas concessões e regalias. O mulato personificava a um tempo a convergência e a repulsa entre a Casa Grande e a Senzala. Destinavam ao mulato marginal algumas das funções de confiança do português entre as quais as de feitor e de capitão-de-mato, tarefas ingratas e antipáticas. Mais tarde deram-lhe outra atribuição a de ator teatral.

BI (Cara de surpresa-intrigante)Abdias, meu nego do Nascimento, quer dizer que o mulato Talma do teatro colonial do Senhor?

AN (Gargalhando como o ator francês Talma)Por que, então, não franqueá-lo a esses inquietos mulatos, desde que lhes cobrisse o rosto com “uma camada de branco e vermelho”? Diversos visitantes estrangeiros do Brasil-colonial assistiram peças desempenhadas por gente de cor: Bougainville (1767), Von Martius e Von Spix (1818), Saint Hilaire (1819) e outros.

BIQuer dizer que os mulatos mandavam ver na cena?

ANNão só atuavam em cena como assumiam outras responsabilidades a exemplo do “mulato e corcunda” Padre Ventura, que construiu a Casa da Ópera, no Rio de Janeiro, em 1767. Entre 1753 e1771, no arrabalde da Palha, em Diamantina (MG), uma negra famosa, Chica da Silva, manteve um teatro particular onde se assistia o repertório clássico da época.

BIE o Teatro Negro emerge destes enunciados?

ANUm teatro negro do Brasil teria de partir do conhecimento prévio desta realidade histórica, na qual exerceria sua influência e cumpriria sua missão revolucionária. Engajado a esses propósitos foi que surgiu o T.E.N. que fundamentalmente propunha-se a resgatar, no Brasil, os valores da cultura negro-africana degradados e negados pela violência da cultura branca-européia; propunha-se a valorização social do negro através da educação, da cultura e da arte.

BIComeçou o embate!

ANTeríamos que agir urgentemente em duas frentes: promover, de um lado, a denúncia dos equívocos e da alienação dos estudos sobre o afro-brasileiro, e fazer com que o próprio negro tomasse consciência da situação objetiva em que se achava inserido. (…) Após a abolição da escravatura, segundo o professor Florestan Fernandes, manteve-se inalterada uma situação de raça típica da ordem social desaparecida.

BIPráxis!

ANA um só tempo o T.E.N. alfabetizava seus primeiros elementos recrutados entre operários, empregadas domésticas, favelados sem profissão definida, modestos funcionários públicos e oferecia-lhes uma nova atitude, um critério próprio que o habilitava também a ver, enxergar o espaço que ocupava, inclusive o grupo afro-brasileiro, no contexto nacional.

BIPráxis II!

AN Inauguramos a fase prática, oposta ao sentido acadêmico e descritivo referido. Não interessa ao T.E.N. aumentar o número de monografias e outros escritos, nem deduzir teorias, mas a transformação qualitativa da interação social branca e negra. Verificamos que nenhuma outra situação jamais apreciaria tanto quanto a nossa do distanciamento de Bertolt Brecht. Uma teia sedimentada pela tradição entre observador e a realidade, deformando-a. Urgia destruí-la.

BIE havia algum texto pronto para essa realidade política?

ANNem ao menos um único texto que refletisse nossa dramática situação existencial, pois, como diria mais tarde Roger Bastie, o T.E.N. não era a catarsis que se exprime e se realiza no riso, já que “o problema é infinitamente mais trágico: o do esmagamento da cultura negra pela cultura branca”. Sem possibilidade de opção, O Imperador Jones se impôs como solução natural. (…) Escrevemos a Eugene O’Neill uma carta aflita de socorro. (…) De seu leito de enfermo, em São Francisco, a 6 de dezembro de 1944, O’Neill nos responde: “O senhor tem permissão para encenar o Imperador Jones isento de qualquer direito autoral, e desejo ao senhor todo o sucesso que espera com o Teatro Experimental do Negro. Conheço perfeitamente as condições que o senhor descreve sobre o teatro brasileiro. (…)” Encontramos em Aguinaldo de Oliveira Camargo a força capaz de dimensionar a complexidade psicológica de Brutus Jones.

BIDepois do sucesso foi a vez da dramaturgia brasileira?

AN Em 1947, afinal, o encontro do primeiro texto brasileiro escrito especialmente para o T.E.N. O Filho Pródigo, de Lúcio Cardoso.

BIAinda agora aquele Pai de Santo estava cantando Aruanda, vocês encenaram uma peça com este nome, não foi? Como está para ter uma pausa nesse papo negritude, fala sobre ela, principalmente para nossos blogueiros da umbanda, candomblé, quibanda, macumba, e outros ritos afro.

AN (Faz alguns movimentos afro com os braços abertos, vai até ao chão e manda ver)Especialmente criado para o T.E.N. por Joaquim Ribeiro: Aruanda. Rosa Mulata, culturalmente assimilada, não acredita nos orixás. Seu marido Quelé, filho-de-santo, ao voltar certa noite do terreiro, canta um ponto de candomblé. A cantiga invoca Gangazuma, que vem de Aruanda, baixa sobre o corpo de Quelé, e é através do próprio marido que o deus possui Rosa Mulata e a torna uma adúltera. Tornam-se amantes. Cavalo ou aparelho inconsciente, Quelé ignora o que faz quando está atuado. O marido, porém, sente falta dos ardores da esposa que arrefecem. Rosa se afasta dele agora nos momentos habituais do amor. O ciúme leva Quelé ao desespero. Rosa mulata não sai de casa e ninguém visita seu pobre lar. Ela o trai com quem? Espreita a mulher até surpreendê-la em confidências com sua mãe. Agora sabe tudo. Como vingar se o rival é um orixá, um espírito? (…) A morte não seria castigo, e sim prêmio. Morta, Rosa iria mais depressa para os braços do amante nos reinos encantados de Aruanda. O deus não gosta de mulher feia, o recurso é desfigurá-la; destruindo sua beleza mataria automaticamente o amor de Gangazuma.

BI (Eufórico)Caralho, meu! Que trama arrepiante! Aí tem Dionísio, Abdias, meu nego do Nascimento. É Grécia! Depois com tema negritude vieram Anjo Negro, do Nelson Rodrigues, Pedro Mico, de Antônio Callado, Filho de Santo, de José de Morais Pinho, O Processo do Cristo Negro, de Ariano Suassuna, entre tantas. Agora, para uma pausa, meu nego. Para ficar bem assimilado: o que é filosófica, política e eticamente o Teatro Experimental do Negro?

AN (Gargalhando com os braços levantados e as mãos fechadas, como um operário de um cinema de Kosta Gavras em frente a uma fábrica)O Teatro Experimental do Negro é um processo. A Negritude é um processo. Projetou-se a aventura teatral afro-brasileira na forma de uma antecipação, uma queima de etapas na marcha da História. Enquanto o negro não desperta completamente do torpor em que o envolveram . Na aurora do seu destino, o Teatro Negro do Brasil ainda não disse tudo ao que veio.

BI (Abraçados) Valeu, Zumbi!

Observações negreirasEsta entrevista foi composta por este Bloguinho Intempestivo do texto escrito pelo próprio Abdias do Nascimento, publicado em julho de 1968, na Revista Civilização Brasileira, com seu Caderno Especial Número 2. Tendo como diretor o não mais ilustre e talentoso poeta Moacyr Félix, secretariado pelo dramaturgo, e posteriormente, telenovelesco, Dias Gomes. A Revista Civilização Brasileira agregava também homens engajados, como Ênio Da Silveira, Antônio Callado, Antônio Cândido, entre outros, e que dor nos causa ter que incluir aí — o ex-poeta Tiago de Mello, quando ainda talvez nem sonhasse em ser agora, patético direitista cabo eleitoral da direita da direita, do PTB, ex-governador Amazonino Mendes. Que estória para quem tentou no passado-comunista fazer(?) história. Mas temo que narrar os fatos.

As perguntas são fictícias (por quê não reais?), mas as respostas de Abdias são verdadeiras, extraídas de seu próprio texto. Ponha fé. Aliás, estamos tratando da História do Brasil. Use-a para sua monografia. Bom proveito!

CAMARADA ERON CONFUNDE ALIMENTO CULTURAL COM ARTE

A tesoura orçamentária do Governo do Estado recaiu sobre a Secretaria de Produção Rural, capitaneada pelo comunista Eronildo Bezerra. De 78 milhões em 2008, vai sofrer uma redução para 73 milhões em 2009. Em compensação, a Secretaria Estadual de Cultura, do boicocanestlelizado Robério Braga, terá um acréscimo de 08 milhões.

A notícia irritou o comunista Eronildo, que disparou: “Não tenho nada contra a cultura, mas ninguém se alimenta de cultura. As pessoas comem peixe, arroz, feijão. Isso sim. Não comem cultura. Mas se o governador entende diferente… paciência!

CULTURA, KULTUR, CÓLERE…

Agri-cultura (cultivo da terra), fruti-cultura (cultivo de frutas), horti-cultura (cultivo de hortaliças), pisci-cultura (cultivo de peixes)… A palavra ‘cultura’ vem do grego, e significa “revolver, amanhar, cultivar a terra”. Conceito que jamais deveria ser estranho a um engenheiro agrônomo, principalmente se ele almeja revolver, revolucionar a cultura agrícola do nosso Estado.

Mas o ‘camarada’ Eronildo, o comunista-mor do Amazonas, companheiro de lutas do ex-comunista Omar Aziz, numa terra onde até o direitista Amazonino Mendes se arvora a ser, em sua história, comunista, não entendeu, e embarcou na palavra ‘cultura’ tal como ela é compreendida na semiótica capitalística.

Nela, a cultura é uma espécie de armadilha. Isto porque ela envolve o enquadramento de atividades semióticas, segregando, isolando, classificando, rotulando e valorando estas atividades em função de um regime de signos dominante. Assim observadas, as atividades humanas perdem o seu aspecto “produtivo”, e são consideradas apenas a partir do seu elemento valorativo, de identidade e de intercambialidade. Este conceito de cultura é extremamente reacionário, mas é o conceito com o qual trabalha, mesmo sem o perceber, o camarada Eronildo e o governo do Estado.

Ao considerar que as atividades do governo do qual faz parte e que são coordenadas pelo colega Robério, vulgo Roberito, fazem parte do que ele entende por cultura, ele abrange apenas o aspecto reacionário das produções, o que é alcançavel intelectivamente pelos membros do governo, camaradas incluídos. O festival de teatro, o festival de cinema, o boi cocanestlelizado, são atividades promovidas pela SEC e que não fogem à semiotização do capital: grau zero de produção, simulacro do Real. Arte reacionária que interessa muito mais a governos que enxergam nestes eventos a possibilidade de lucros, seja na corrupção mais evidente (uma verba “realocada” aqui e acolá), seja na menos evidente, mas não menos danosa, que é o ‘enchiclezamento’ da arte, fazendo com que os artistas mais prósperos sejam justamente aqueles que rezam sob a cartilha dos patrões, ou mecenas, embora os atuais mecenas diferenciem-se daqueles pelo absoluto gosto deteriorado e decadente. De Shakespeare (a sua corruptela capturada como glamour do tiatro de consumo) a Zezinhos, Arlindos, Assayagues e por aí vai.

Mas Eronildo, que não conseguiu sequer decompor a palavra comum-ismo, nem derivar daí os conceitos de comum-unidade e de comunalidade, não pode alcançar, é verdade, o conceito de cultura, ainda que esteja envolvido por ele. Sim, até mesmo o erro de Eronildo no uso da palavra ‘cultura’ faz parte de uma cultura: a humorística.

AI DO CAMARADA ERONILDO SE O POVO NÃO SE ALIMENTASSE DE CULTURA…

Se o Humano não produzisse cultura, não como capturação decadente pela semiótica capitalística, mas como produção devir-povo, engendramento do novo, composição dos corpos na materialidade da substância, não haveria sequer agronomia, ou mesmo o comunismo. Longe de ser capturado pelos governos imobilizados, como o do qual Eron faz parte, as produções humanas escapam da classificação cultural dominante, e constituem novas formas de existir e de sentir. O que qualquer comunista, como Jesus Cristo, o Palestino, sacou bem, quando afirmou que “nem só de pão vive o homem…”. Vive de suas produções autônomas, e não da ensignação paranóide que os governos tirânicos disseminam como sendo cultura e arte.

A PREOCUPAÇÃO COM POSSÍVEIS DEMISSÕES NO PIM

Em notícia na Agência Brasil, Sidney Malaquias, secretário de Comunicação e Imprensa do Sindicato dos Metalúrgicos em Manaus, disse que o Sindicato está preocupado com possíveis demissões no Pólo Industrial de Manaus. Malaquias falou que o Sindicato já procurou o governador do estado, Eduardo Braga, para apresentar propostas e pedir apoio.

Segundo Malaquias, “há riscos de demissões e por isso já estamos com uma proposta. Queremos sair na frente e mostrar para os empresários que podemos não só ajudar os trabalhadores, mas também a eles. Nesse período, o trabalhador poderá fazer algum curso de qualificação profissional e receber o seguro-desemprego”.

Malaquias completou dizendo que “ainda não sabemos quanto tempo essa crise vai durar e nem quanto tempo os efeitos dela poderão permanecer entre as indústrias brasileiras. Os trabalhadores têm se mostrado preocupados com as possibilidades de demissões. Estamos pedindo às empresas que tenham cautela antes de mandar qualquer pessoa embora. A empresa terá que ter cuidado e garantir que os selecionados tenham mais de seis meses de trabalho para poder receber o seguro-desemprego”.

Em contrapartida, Wilson Périco, presidente das Indústrias dos Aparelhos Elétricos, Eletrônicos e Similares de Manaus (ramo que junto com o de duas rodas são os que mais oferecem empregos), declarou que no momento nenhuma empresa do PIM está sendo afetada pela crise, embora seja necessário manter estado de alerta para qualquer acontecimento negativo. “Por enquanto, nenhuma empresa do PIM foi afetada pela crise mundial. Mas também não dá para dizer que isso não possa acontecer. Poderá haver uma readequação da produção, mas isso vai depender da situação e também de cada segmento e linha de produção. Se prestarmos atenção na movimentação do mercado, já vamos perceber melhorias no cenário econômico”, disse Périco.

BREVE ANÁLISE SOBRE O OCORRIDO

Seja em momento de crise ou não os empregos no PIM sempre estiveram ameaçados. Por mais que seja válida a preocupação agora declarada com a atual situação, não passa pelas falas pronunciadas, uma análise relativa ao fato do Amazonas nunca ter investido em sua própria economia de forma que a fortalecesse e criasse pólos de empregos seguros para o povo.

Os governantes que por aqui passaram sempre mantiveram o PIM como um meio de chantagear a população durante períodos eleitorais. O que eles não falam, mas está claro para a população, é que todo o lucro das empresas multinacionais do PIM não ficam por aqui, mas vão para as suas matrizes em seus países de origem ou investidos em outros lugares do mercado.

Os governantes do Amazonas nunca apresentaram projetos lúcidos, que saíssem do vazio do marketing, que explorassem, de forma racional, economicamente as potencialidades do Amazonas. Pelo contrário, sempre se mantiveram firmes em condutas que enfraquecem a economia do estado. Foi o caso da venda do BEA pelo Amazonino Mendes e os constantes empréstimos com o BID realizados durante o governo de Eduardo Braga. Ambos os atos em nada contribuíram ou vem contribuindo para uma transformação ontológica da cidade.

Uma ilustração do desentendimento econômico que os governantes apresentam foi o recém eleito prefeito Amazonino ter declarado que não esperemos que todas as suas promessas de campanha venham a ser realizadas, já que irá assumir uma prefeitura em plena crise mundial. Talvez ele tenha tentado colocar Manaus como uma cidade inserida na globalização e, assim, mostrar a sua importância, ou esteja afirmando, embora o Brasil esteja com a sua economia segura em plena crise em razão de produzir, distribuir e comercializar dentro e para a sua própria população, não se tornando mais dependente direto do sistema financeiro internacional, que, assim como seus iguais, vai fazer uma administração moderna baseada na dependência completa do capital estrangeiro, endividando o município de Manaus, a exemplo da dívida evolutiva do estado.

Tanto a produção, a distribuição, a troca e o consumo que constituem os alicerces de uma economia não estão reduzidos somente à lógica do mercado e à circulação e transformação do capital. Antes disso há uma subjetividade que determina como será organizada esta economia. E é aí onde a realidade começa a ser produzida e transformada pela consciência determinante desta subjetividade. Marx, já no século XIX, previu que o limite do capitalismo seria o próprio capital. A atual crise financeira confirma a sua sacada intemporal. Em Manaus, pelas tantas que anda a subjetividade da cidade, parece que terá o seu limite em…

DÉJÀ VU “MANAUS, MEU CIÚME”: SE HOUVER AMANHÃ

Em 1994, a direita mais reacionária da história ajuricabana dominava (continua) o maior estado do Brasil. O atual governador do Amazonas, Eduardo Braga, era prefeito de Manaus, e alegorizava sua gestão com o clichê “Manaus, Meu Ciúme”, enquanto Amazonino Mendes, hoje, eleito prefeito, governava o estado. Eduardo, empolgado, crente de uma missão familiar para governar o Amazonas, acreditava e aceitava as determinações do já escolado Amazonino, a “lenda”, que um dia, sem saber de Marx, e que ele nunca tergiversou com a direita, e se querendo intelectual, imaginava ser comunista. Eis que os dois “heróis”, desmaquiavelizados, resolveram formar uma frente, versão latina americana bufa, além de Molière. Concatenaram, juntos, com sábios outros, uma operação paródica administrativa, pretendendo fazer acreditar à população que a capital e o resto do estado trabalhavam unidos para a soberba telúrica e as invejas circunvizinhas.

Como soe acontecer em empreendimentos tão imaginativos e intelectivos, os dois “heróicos” governantes batizaram a paródica administrativa de “Ação Conjunta”. Sabe-se, não tinha nada de imaginativo: estados outros já haviam recorrido ao mesmo chavão demagógico. Hoje, novembro de 2008, Amazonino está eleito prefeito de Manaus. Entretanto, corre um processo por crime eleitoral nessas eleições. Uns esperam o resultado da sentença, desesperados de dor, enquanto outros, desesperados de alegria. Em campanha, Amazonino já havia declarado em reeditar a “Ação Conjunta”. Semana que passou, Eduardo afirmou que também. Se houver amanhã, para Amazonino, haverá também para Eduardo, mas Manaus encontra-se 12 anos à frente.

NOS BALANÇOS DO ROCK CABOCÃO

Na década de 80, entrando em 90, e chegando até nesta não modernidade atual (Manaus nunca moderna), remanescentes do GRUTA – Grupo Universitário de Teatro do Amazonas, da década de 70, criaram um vetor comunicacional com a cidade, principalmente com os bairros mais pobres, chamado de Rock Cabocão. Esse Rock apanha, examina e mostra os percalços sem calços da cidade de Manaus, impostos como dor por seus governantes. Foi então, que na época da risível “Ação Conjunta”, eles compuseram “A Mais Linda Cidade da América do Sul”, ou, “Para Não Dizer Que Não Tenho Ciúmes”. Então, este bloguinho, em ação conjuntamente com os space-blogueiros, envia a letra.

A Mais Linda Cidade da América do Sul

Olha eu chegando

Na mais linda cidade da América do Sul

Modelo do progresso

Que o concreto in-verso

Cortou a rima leve do horizonte azul.

.

Manaus, Meu Ciúme”

Eu sinto o teu perfume

No vôo do urubu

Na periferia

Do povo a alergia

De quem deixou a tribo pra viver mais nu.

Ô,Ô,Ô, mais que azar

Vim aqui pra me ferrar.

.

Já foste Paris

Mas o sucesso quis

Te ver Fortaleza.

Desinfestaste o chulé

Do jaraqui teu piché

Terror de tua beleza

.

Jóia da floresta

Todo dia é festa

Soberana do norte

Da nação bananeira

Fizeste maneira

A independência na morte.

.

Oh, “Terceiro Ciclo”

Com a minha Olympus clico

Tua progressão

No bloco do distrito

Dos gringos um agito

Que vão à Ponta Negra

Fazer a revolução.

Ô,Ô,Ô, Manô!

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GLOSSÁRIO PARA QUEM NÃO SABE MANAUS

Já foste Paris – Manaus carrega uma maldição: nunca ser. No fim do século XIX, e começo do XX, a queriam Paris, depois Guanabara; com Arthur Neto prefeito, Curitiba; com Amazonino, Fortaleza…

Desinfestaste o piche – Piché, odor aversivo para alguns.

Jaraqui – Peixe de escama da água doce. Socialmente considerado comida de pobre, mas intelectualmente, um bom prato para fazer gênero, glamour. No tempo da ditadura era o bicho comê-lo bem frito com farinha, pimenta murupi e cachaça. Serviu até para eleger parlamentar e executivo reacionário.

Todo dia é festa – Com os governos retrógrados, como de Amazonino, foi institucionalizada a festa do boi (nada de Bumba-Meu-Boi do Maranhão), para vender a mercadoria “Manaus é uma festa”. E os guetos se proliferando.

Terceiro Ciclo – Projeto de Amazonino com fabulação para o desenvolvimento do interior: como era fábula, não deu em nada. Hoje, Eduardo Braga ostenta sua versão: Zona Franca Verde, mas nunca amadurece.

Olympus – Todos conhecem: máquina fotográfica muito vendida em Manaus no começo da Zona Franca, o que era o luxo ter uma.

Bloco do Distrito – As vantagens financeiras das empresas estrangeiras que só lucravam e se davam (continuam) bem na ‘cite’ muito bem promovidas pelos calunistas sociais, aqueles que atribuem virtudes a quem não as têm. Uma suave calúnia.

Ponta Negra – Praia, antes do Zé povão, hoje transformada em espaço “nobre” imobiliário concretizada (de concreto: cimento) pelo “novo rico” da consciência antiga: inebriamento.

ELEIÇÕES EM MANAUS TAMBÉM PASSAM PELO TRANSTORNO MENTAL

Chegam a este Bloguinho através de fontes intempestivas informações que dão conta da ausência de profissionais ligados à área da saúde mental no DISA – Sul. Quem vai a este local em busca de informações ou orientações quanto à cobertura médica na saúde mental tem que se contentar com o fato de que não há nenhum profissional respondendo pela área atualmente.

Segundo as fontes afinadas, os profissionais que ali atuavam teriam se desligado da SEMSA, alegando receber pressões por parte de superiores para apoiar a candidatura de Serafim. Como estava todos “fechados” com Amazonino, preferiram sair, alegando que “em breve retornariam”.

O resultado final do cabo de guerra eleitoral é que a zona sul de Manaus não dispõe de nenhum tipo de coordenação na área de saúde mental até o final do ano. A ação dos profissionais, se realmente houve, demonstra o grau de entendimento que eles carregam sobe o que vem a ser uma política pública de saúde mental.

Se é verdade que os profissionais de saúde mental no Amazonas estão fazendo a “reforma psiquiátrica”, como afirmam lideranças do Estado e do Município, estão anos-luz distantes de compreender que a desinstitucionalização passa por pressões políticas e não se reduz em acabar com a internação ou com a marginalização do doente mental. A atitude de abandonar um trabalho – se é que aconteceu, e se é que existia este trabalho – nesta área por pressões políticas – também se estas existiram – apenas evidencia que o entendimento sobre a saúde e a doença mental por parte destes profissionais ainda não saiu do século XIX, onde o paradigma médico-clínico era dominante.

Ignoram eles que a mesma subjetividade perversa e antidemocrática que permite a existência de pressões corporativas a um candidato, ou mesmo a própria candidatura de um Amazonino Mendes, um Paulo Maluf, um Berlusconi, um Bush, é a mesma que produz as moléstias mentais, e que o trabalho de combate epidêmico neste aspecto não pode se dissociar de um embate político, de uma transformação no sentido de busca de mais autonomia e consolidação dos direitos políticos desta população. Nada que passe pelo “eu voltei, voltei para ficar” da prepotência e ressentimento de funcionários que perderam as benesses quatro anos atrás e que agora se insinuam para retornar à gostosa prefeitura. E la nave vá…

CONSTANTES, VARIÁVEIS E VARIAÇÕES DO PLEITO GERAL MUNICIPAL 2008

Uma eleição, se tomada como seleção a partir da razão, é a apresentação de como o homem se escolhe enquanto singularidade no mundo e, assim, também o modo como se aproxima ou não dos outros homens para compor ou não compor uma potência democrática, atuante na preservação da cidade em seus aspectos materiais e imateriais. Caso contrário, apenas acrescentar-se-á na lista dos espetáculos virtuais (Baudrillard), servindo à dissipação desintegradora de todas as realidades dessa cidade.

No caso da eleição para prefeitos e vereadores, ela será fundamental para formar as redes cartográficas de flexibilização das linhas dos governos instituídos para uma maior proximidade com a população. É a partir da prefeitura que grande parte dos projetos do Governo Federal vão ser organizados e oferecidos e é através dela e da câmara de vereadores que as principais políticas públicas vão ser implementadas (se o forem). O governo Lula que o diga! O principal fator de lentidão e ineficiência de alguns projetos federais está em más gestões municipais e estaduais.

A atualização com os resultados das urnas não é resultante apenas do período eleitoral, mas de diversas linhas que se entrecruzam para fazer-se visível no dia da eleição. Infelizmente, ainda se vê por todos os cantos muitas linhas subordinadas a pontos anuladores da inteligência coletiva, como compra de voto, BOCA DE URNA, chantagem religiosa, financeira, emocional, inúmeras empatias morais que anulam o uso racional do voto. Assim como nas pesquisas, há candidatos e eleitores que se mantém numa constante, sem qualquer possibilidade de alteração de seus modos de pensar a cidade, outros ficam nas variáveis, impregnados de palavras de ordem e ressonâncias recorrentes. De poucos, muito poucos, pode-se dizer que entram numa variação no modo de perceber, sentir e agir na cidade, produzindo uma alteração dos seus modos de existência, para uma cidade onde as pessoas não passem por perseguições e violentações de todas as ordens, que possam ir além da mera subvivência horizontal e possam entrar na ordem da participação e da criação. De modo que, quando se analisam os resultados das eleições, leva-se em conta estes pontos molares e as resistências políticas que deixam passar um vento por trás da cabine do eleitor.

DONDE NÃO TEVE PRA DEPOIS

Das quinze capitais onde a eleição para prefeito já foi decidida no primeiro turno, seis dos eleitos são do Partido dos Trabalhadores – PT, o que é de fundamental importância para os planos do governo Lula, de realizar os projetos sociais, e até para garantir uma base eleitoral para as eleições ao governo do estado e para Dilma Roussef em 2010. Soma-se a isso, uma capital ganha pelo PC do B e duas pelo PSB, e ainda duas pela eminência parda da política brasileira, o PMDB, que faz parte da base do governo. Já a direita a-posicionista se apequena cada vez mais, entre os dois principais partidos, o PSDB conseguiu apenas duas reeleições e o DEM-PFL nenhuma, tornando-se definitivamente um partido nanico em vias de extinção.

  • Fortaleza (CE) ……………… LUIZIANNE LINS (PT)

  • Recife (PE) …………………. JOÃO DA COSTA (PT)*

  • Vitória (ES) …………………. JOÃO COSER (PT)

  • Palmas (TO) …………………. RAUL FILHO (PT)

  • Porto Velho (RO) …………… ROBERTO SOBRINHO (PT)

  • Rio Branco (AC) …………….. RAIMUNDO ANGELIM (PT)

  • João Pessoa (PB) ……………. RICARDO COUTINHO (PSB)

  • Boa Vista (RR) ………………. IRADILSON SAMPAIO (PSB)

  • Curitiba (PR) ………………… BETO RICHA (PSDB)

  • Teresina (PI) ………………… SILVIO MENDES (PSDB)

  • Campo Grande (MS) ………… NELSINHO TRAD (PMDB)

  • Goiânia (GO) ………………… IRIS RESENDE (PMDB)

  • Aracaju (SE) …………………. EDVALDO NOGUEIRA (PC do B)

  • Maceió (AL) …………………. CÍCERO ALMEIDA (PP)

  • Natal (RN) ……………………. MICARLA DE SOUSA (PV)*

*João da Costa e Micarla de Sousa foram os únicos prefeituráveis que não estavam concorrendo a reeleição.

DONDE SÓ VAI NO SEGUNDO

Já das onze capitais que vão para segundo turno, algumas quebraram todos os tabuleiros das pesquisas que por lá passaram encomendados. Entre elas, com certeza as atenções estarão mais voltadas para a disputa entre Marta, que virá com toda a força do apoio de Lula, e Kassab, do nanico DEM-PFL, em São Paulo, que terminaram praticamente empatados o primeiro turno. Se Kassab perder, é o estrebuchar do DEM-PFL; se Marta levar, é a linha de políticas públicas mais voltadas para a melhoria de condições de vida da população, como vem ocorrendo na linha de atuação do governo federal e dos estados e municípios governados pelo PT. Nas outras capitais, mesmo alguns tendo uma diferença bem grande entre primeiro e segundo colocado, um segundo turno, pelo que se conhece, é uma outra eleição.

  • São Paulo (SP)

GILBERTO KASSAB (DEM-PFL) <<>> MARTA SUPLICY (PT)

  • Porto Alegre (RS)

JOSÉ FOGAÇA (PMDB) <<>> MARIA DO ROSÁRIO (PT)

  • São Luís (MA)

JOÃO CASTELO (PSDB) <<>> FLÁVIO DINO (PC do B)

  • Salvador (BA)

JOÃO HENRIQUE (PMDB) <<>> VALTER PINHEIRO (PT)

  • Macapá (AP)

CAMILO CAPIBERIBE (PMDB) <<>> ROBERTO GÓES (PDT)

  • Florianópolis (SC)

DÁRIO BERGUER (PMDB) <<>> ESPERIDIÃO AMIN (PP)

  • Manaus (AM)

AMAZONINO MENDES (PTB) <<>> SERAFIM CORRÊA (PSB)

  • Cuiabá (MT)

WILSON SANTOS (PSDB) <<>> MENDONÇA PRADO (DEM)

  • Rio de janeiro (RJ)

EDUARDO PAES (PMDB) <<>> FERNANDO GABEIRA (PV)

  • Belo Horizonte (MG)

MÁRCIO LACERDA (PSB) <<>> LEONARDO QUINTÃO (PMDB)

  • Belém (PA)

DUCIOMAR COSTA (PTB) <<>>JOSÉ PRIANTE (PMDB)

CANDIDATOS DISTRIBUEM CALENDÁRIOS E SÃO DENUNCIADOS AO TRE EM MANAUS

Um leitor intempestivo deste bloguinho nos informou que denunciou ao TRE (nº para denúncias aqui) a distribuição de brindes, como calendários, pelos candidatos Fausto Souza e Paulinho Tavares, todos da coligação Manaus, Um Futuro Melhor, que tem Amazonino Mendes como prefeiturável.

A distribuição se deu hoje (17) durante uma carreata no bairro de Santa Luzia, zona Sul da cidade, donde o candidato a prefeito, Amazonino Mendes, anunciado como presença garantida, se fez ausente para alegria de muitos e tristeza de poucos na comunidade.

O DEUS DE SOCORRO SAMPAIO

De uma ponta a outra, no bairro Novo Aleixo, zona Leste, outro leitor intempestivo, ao acordar pela manhã, depara-se com um calendário da vereadora Socorro Sampaio, que também faz parte da coligação Manaus, Um Futuro Melhor, e que já foi processada por este crime eleitoral, contendo, além do número da candidata, os dizeres: “Irmã de verdade” e “O meu Deus é o Deus do impossível”. Dois dizeres que demonstram o entendimento de política da vereadora-candidata: nada de res-publica, nada de coletividade. Para ela, como para a maioria dos candidatos, política é uma relação familial e carregada do misticismo, que coloca Deus a seu serviço para resolver os problemas paternalmente, e não por meio de políticas públicas. Nas entrelinhas, uma verdade: a causa “impossível” não será solucionada com a eleição deste tipo de candidato. É possível?

A prática de distribuição de brindes, como calendários e chaveiros, por exemplo, é proibida pela legislação eleitoral vigente. Ela se constitui como uma prática anti-eleitoral, além do fato do descumprimento de uma lei, em razão de tratar o voto como uma mercadoria ínfima, que pode ser negociada por um simples chaveiro ou um simples calendário. O que nos leva a deduzir que candidatos que se prestam a estas práticas contra o modo soberano de participação na vida política de uma cidade em uma democracia representativa, ou seja, o voto, não respeitam o direito de escolha individual e coletivo do povo, bem como não se importam com o trabalho de conscientização democrático que vem sendo realizado pelas instituições e associações jurídicas no país nestas eleições.

Tudo isso nos leva a uma questão: de que maneira um candidato como Amazonino Mendes pode se dizer cumpridor da justiça e ter sua campanha empenhada na volta do trabalho para a cidade, se não respeita nem a legislação eleitoral, muito menos o trabalho democrático em prol do voto consciente?

Deixamos aqui alguns números onde denúncias como essas e outras podem ser feitas:

Ministério Público: 0800-920500

TRE-AM – Telefones: 0800-920500 e (92)3611-3470

TRE-AM – On-line: http://www.tre-am.gov.br/denuncia-online.php

ATENÇÃO: Apresse-se na denúncia, pois, segundo o TSE, conforme o Código Eleitoral, “a partir do dia 20 de setembro (sábado), quando faltarem 15 dias para as eleições municipais deste ano, nenhum candidato a prefeito, vice-prefeito ou a vereador pode ser detido nem preso, salvo em caso de flagrante delito”.

PAI GILMAR TY YEMONJÁ: 21 ANOS, A MAIORIDADE DO BABALORIXÁ

Pai Gilmar 21 Anos Convite por você.

Clique nas fotos para ampliá-las.

Nesse momento que publicamos esse convite e a entrevista que fizemos com Pai Gilmar, ele se encontra recolhido no roncó, o quarto de santo, cumprindo suas obrigações e preparando-se para a festa do próximo sábado. É uma longa história, e é essa história, a trajetória desse conhecido babalorixá de Manaus, respeitado em todo o Brasil, que trazemos aqui, em suas sapientíssimas palavras, entremeadas com imagens que formam uma linha candomblezística contínua em todos esses anos.

Festa de Iemanjá (2006)

Festa de Iemanjá (2006)

Eu sou cearense, nasci no interior de Fortaleza chamado Jaguaruana, mas saí do Ceará eu tinha 2 anos de idade e fui morar no Rio de Janeiro com minha tia madrinha. Fiquei lá até os 13 pra fazer 14 anos e vim pra Manaus. Por coincidência, na mesma época, eu comecei a ter problemas com espírito, com os cabocos, com as entidades. E na rua onde a minha mãe morava, no Lírio do Vale, tinha um batuque, chamavam de batuque, não chamavam de terreiro de Candomblé, terreiro de Umbanda, era batuque. E tinha um batuque e eu, por curiosidade, fui bisbilhotar, fui pra ver e lá acabei me manifestando e no término da noite, da sessão, não recordo direito a que horas, e o dono da casa, que era o seu Flexeiro, na cabeça de dona Maria Dofona, dona da casa, me convidou pra fazer parte da corrente. Uma vez eu ia, outra não queria ir; era toda quinta-feira, começava às 7 da noite e terminava às 10. Às vezes eu ia, às vezes eu não ia, eu estudava à noite, às vezes tinha dia de prova e não dava pra sair mais cedo, não dava pra ir, e assim fui levando. A minha vida de santo, é muito melindrosa, é muito complexa, porque eu, mesmo morando fora de casa, não no seio familiar da minha mãe, morando com a minha madrinha no Rio de Janeiro, ela era umbandista, frequentante assídua. E eu vim me manifestar com o caboco com 7 anos de idade . No dia do meu aniversário o meu caboco me deu com a cara no bolo na hora de apagar as velas. Eu baixei a cabeça e já não era mais eu. Aí, no outro dia, febre, febre, febre. E a minha tinha tia madrinha me levou pra rezar, tinha muita rezadeira nessa época, pra eu ser rezado no terreiro porque eu também muito pouco ia porque era criança, mesmo adolescente, ela não me levava porque era a noite. Mas me levou pra rezar. E a dona da casa de nome Francisca, chamava de vó Chica, se atuou com a dona Mariana e a dona Mariana disse que ia afastar durante 7 anos, e calha que é o tempo que eu cheguei em Manaus, de 13 pra 14. E depois quando eu tava de 14 pra 15, adolescente, o caboco me pegou. E aí já ficou, começou a a desenvolver e eu tava recebendo esse caboco, esse marinheiro. Enterei 39 anos de idade, 39 menos 14, 25. 25 anos tá enterando o seu marinheiro, aliás, ano que vem tá enterando 25 anos.

Obrigação de 1 ano de Pai Gilmar de Iemanjá. Com seu padrinho de oroncó, Mauro de Oxóssi, filho da finada Ianitinha, e finado Pai Pequeno Wilson Falcão Real (Tata Mutalembê)

Obrigação de 1 ano de Pai Gilmar, de Iemanjá. Com seu padrinho de oroncó, Mauro de Oxóssi, filho da finada Ianitinha, e finado Pai Pequeno Wilson Falcão Real (Tata Mutalembê)

Eu me iniciei no culto nas mãos do pai Ribamar, dia 27 de agosto de 1987. Mas antes de eu ir pro Seringal fazer santo eu era abiã, iniciante, que é a primeira pessoa que entra na casa, sem ser yaô, sem ser formado, sem ser feito, na casa da Maria Dofona, que era filha de santo, na época, do meu finado Pai Pequeno, Mutalembê do Oxóssi, também ela era de Oxóssi. Hoje em dia ela filha de santo do Olegário. Ela tomou, tirou mão de vume com ele e fez as obrigações com ele e isso, isso no bairro do Lírio do Vale, começo de 80, 82, por aí. E, no final de 85, eu fui pro Seringal, até então era só seu Ribamar, conhecido, amigo, colega, pai de santo antigo da cidade, e meu encantado, meu

Obrigação de 3 anos de Iemanjá

Obrigação de 3 anos de Iemanjá

caboco, seu Marinheiro foi e me levou pra casa dele e entregou minha cabeça a ele e disse que a partir daquela data quem ia tomar conta de mim, da minha vida espiritual seria ele. E ele me acolheu na casa dele, passei dois anos oborizado, fiz o bori pra Iemanjá e em agosto de 87 fiz o santo com mais três pessoas, meu dofono, que é Oxóssi, que é o Frank, que mora no Rio de Janeiro, o Irã de Obaluaê, que mora em Manaus, no bairro do Lírio do Vale, e eu raspei Iemanjá. Entramos dia 02 de agosto, por coincidência, dia do meu aniversário, e o nome de Iemanjá com Oxóssi e Obaluaê do meu dofono, do meu dofonitinho e eu foram no dia 27 de agosto do mesmo ano. Eu passei os três meses com meu quelê no pescoço, e, no término do meu quelê, Iemanjá já começou a me experimentar, creio eu. Porque eu muito novo de santo, com mais ou menos quatro ou cinco meses de santo, já tinha passado o preceito do quelê e eu fui tirar o primeiro barco sem saber bem o que era. Tinha sido muito bem ensinado, meu pai criador, Dudureji, o Sílvio, do Tempo, que é meu amigo particular, que é pai de santo da ekédi, minha nora, mulher do Ogã da minha casa, de Iemanjá. E fui muito bem criado, aprendi muitas coisas muito rápido com ele e assim eu fui começando a criar os barcos do meu pai de santo, ou seja, o yaôs, depois de mim que entraram. Criei mais ou menos uns 18 barcos, pra não aumentar nem diminuir, mais ou menos nessa faixa. Criei muito yaô, cuidei de muito Ogã, de muita ekédi com o meu pai de santo, aprendi muita coisa com ele, tanto a teoria como prática, principalmente. Tomei minha obrigação de um ano, na mesma época, em agosto de 88, meu Pai Pequeno ainda era vivo, sem perder tempo, sozinho, meus outros irmãos de santo de barco não tomaram comigo, eu tomei só. Então aí eu comecei a me distanciar, a andar a minha vida espiritual só. Fui recolhido com

Pai Ribamar entregando o decá, 7 anos

Pai Ribamar entregando o decá, 7 anos

mais dois, mas depois de um ano tomei a minha vida espiritual sozinho, porque aí logo depois tomei a minha obrigação de 3 anos, infelizmente já sem a presença do meu Pai Pequeno, que ele havia falecido. Eu tomei em agosto de 90 e ele faleceu no dia 1º de abril de 90. E tomei minha obrigação de 7 anos em 94, dentro do Seringal, com o meu ainda atual pai de santo, que ainda é meu pai de santo. E abri casa no ano seguinte, em 95, aqui no bairro do Jorge Teixeira. Antes desse. Tomei minha obrigação de 14 anos. Abri casa e alguns anos depois tomei a minha obrigação de 14 anos, que ficava aqui mesmo no bairro Jorge Teixeira, no conjunto Artur Virgílio, na rua 3, casa 242. Após o término da minha obrigação, não era casa própria, era casa parcelada da construtora. E eu tive que entregar casa, mesmo porque lá não tinha quintal, não tinha espaço de terra, e eu queria um espaço maior de terra, tava no final do quintal e então a gente mudou pra cá. E por coincidência vou tomar minha obrigação de 21 anos numa casa nova. Estamos de reforma na casa, ajeitando a casa justamente pra isso, pra obrigação da festa de Iemanjá e pra minha obrigação de 21 aos de santo.

Pai Gilmar recebendo o decá

Pai Gilmar recebendo o decá

E minha história é basicamente essa: tomei minha obrigação de 1, com meu pai de santo, minha obrigação de 3 com meu atual pai de santo, a obrigação de 7 anos com o pai de santo, minha obrigação de 14 anos com meu pai de santo, vou tomar minha obrigação de 21 com meu atual pai de santo. Não deixará de ser meu pai de santo, que ainda é vivo, principalmente depois que morrer, porque a minha obrigação é a última, de 21 anos, fecha o meu ciclo espiritual como o filho dele, mas filho dele eu não vou deixar de ser, porque ele está vivo e pretendo que ele fique muitos anos, mas mesmo com a morte dele eu não dou mais a minha cabeça a pai de santo nenhum, porque não é mais necessário. Porque a obrigação de 21 anos é a alforria total de qualquer sacerdote. Meu pai de santo estará comigo depois da minha obrigação de 21 ano enquanto vida ele tiver ou eu, mas ele vindo a falecer primeiro do que eu, eu continuo sendo filho de santo dele porque não dou a minha cabeça a mais ninguém, não é mais necessário. Não que eu não queira, mas não é mais necessário. Só tive um pai de santo, minha feitura, minha obrigação de 1, 3, 7, 14 e 21 foram todas

Decá, Oxóssi tirando o tabuleiro de frutas

Decá, Oxóssi tirando o tabuleiro de frutas

com o meu mesmo pai de santo, tudo com seu Ribamar de Xangô. Tudo. Não mudei de casa, não mudei de axé, muito pelo contrário, eu só fiz crescer. Porque eu não tinha casa, eu era uma pessoa que vivia na casa dos outros, agora tenho minha casa particular, tenho meu barracão particular, a minha casa é cheia de gente, cheia de amigos, cheia de filhos de santo, meu pai de santo me visita sempre que pode, mora perto de mim, gosto muito dele, gosto de todos os meus irmãos de santo. Tenho uma família grande, meu avô de santo é de Salvador, vive na cidade, tenho muitos tios de santo que vivem na cidade dele. Eu tenho uma família enorme de santo. Pela minha família de santo eu acho que já é a quarta ou a quinta geração. Eu tenho avô, meu avô já tem bisneto, já tem tataraneto, porque que eu já tenho filho, já tenho neto, daqui a pouco eu já tenho bisneto. Então ele já vai ter tataraneto e nós já estamos na quarta ou na quita geração nessa trajetória de 21 anos.

Decá, levado por Pai Ribamar

Decá, levado por Pai Ribamar

Babalaô mesmo só se torna quem tem 50 anos ou pessoas formadas no oráculo de Ifá, que aí já é um outro ritual, um outro segmento religioso de dentro do Candomblé, que são os sacerdotes de Ifá ou chamados Babalaôs ou pessoas que já atingem a maioridade de 50 anos. Muita gente no Brasil já se considera babalaô quando faz as suas obrigações de 21 anos.

Decá, Oxumaré

Decá, Oxumaré

Eu sempre falo que a religião, seja ela qual for, puxando principalmente pro lado da minha, todas elas são maravilhosas, todas levam a um caminho só, a Deus e, principalmente, ao crescimento, seja ele pessoal, financeiro, amoroso e principalmente espiritual, no ciclo de amizades, no ciclo familiar

Formatura de uma das saidas do Decá

Formatura de uma das saídas do Decá

e etc. Mas eu já tive muitas decepções, não com a religião, mas com o povo que freqüenta a religião. Não por estar completando 21 anos de santo, não por me considerar mais velho, não é isso, tem gente na cidade mais velhas. No meu tempo de yaô a gente ficava de preceito, a gente tinha medo de virar no santo no meio da rua, a gente tinha medo ou vergonha das pessoas verem a gente de colar, que é as contas do Orixá, de bocã no pescoço que também não deixa de ser um colar, as senzalas são os búzios enfeitados na palha da costa, todo de branco ou com cabeça amarrada, os homens e as mulheres com boné na cabeça, obrigatoriamente branco. Então eu tinha medo de andar no meio da rua, das pessoas me reconhecerem, me puxar ou então bater na minha cabeça e eu acabar me manifestando por Iemanjá. O Orixá acabava me pegando, porque eu estava muito novo de preceito. Hoje em dia a gente vê muitos yaô na rua, de roupa vermelha, de calça jeans, de cabeça descoberta, sem conta no pescoço, quer dizer, muitas decepções com as pessoas que freqüentam a religião, não com a religião, muito pelo contrário, eu só tive prosperidade, eu só fiz crescer dentro do santo. Cresci espiritualmente, cresci financeiramente, cresci de amizade, porque, desde quando

Decá, Iemanjá

Decá, Iemanjá

eu vim do Rio de Janeiro pra Manaus, eu não saí de Manaus. Vim sair de Manaus depois de feito. Conheci São Paulo através do Santo, conheci novamente o Rio de Janeiro, porque quando eu saí era muito criança. Conheci já Brasília, Belém, Boa Vista, Acre, o Rio Grande do Sul, tudo por causa do santo. Por quê? Por outras pessoas me convidarem a ir nas suas casas, filho de santo dá obrigação fora, irmão de santo dá obrigação fora e me convidaram pra ir ajudar, quer dizer, só tive de prosperar. Fui agraciado com o título sacerdotal dentro da casa das minas da Fé em Deus , em São Luís do Maranhão, quer dizer, se não fosse a religião, se não fosse eu ser sacerdote, eu não tinha sido agraciado em uma outra casa de culto com um título muito nobre. Em yorubá se fala “Vodunó Adarusô”, que quer dizer em português “Grão Sacerdote da Casa de Kevê Osô”, porque Kevê Osô é uma família que também tem Xangô, como se fosse pra nós, só que pra eles são Badé, e quem me raspou foi Xangô, meu pai de santo é de Xangô. Então eu faço festa todos os anos a Itó e Vereketi, um vodum novo de dentro da casa de Jeju. aqui em Manaus ninguém louva esse Orixá, esse vodum já há muitos anos. E a cerca de 18 anos, dona Herondina, na minha cabeça, resgatou essa festa dentro do Seringal, que era uma festa muito grande que tinha lá. E eu fui agraciado por ser a única pessoa na cidade que ainda cultua Mina, mesmo sendo Ketu, mas que faz todo o ritual de Mina pra festejar Tó e Verekêti e a procissão de São Benedito, porque é o santo que Tó e Verekêti venera, no sincretismo religioso, e faz todo o ritual desde o começo, do sábado de aleluia, passando pelas nove noites de novena, até culminar com a carreata do santo, com a procissão e com o toque em homenagem a Verekêti, e todo o ritual é Mina, desde o imbarabô, passando pelo mokororó, que é uma comida de Itó e de Isá, comida pra Oxalá, que é distribuída no meio do barracão, até o toque em homenagem à família da Turquia, que a dona Herondina é filha de um rei da Turquia, é uma princesa e comanda o tambor.

Dona Herondina

Dona Herondina

Há muito tempo pra cá que eu sou envolvido nas questões político-religiosas. É, há alguns anos atrás, a cerca de uns 4 anos atrás eu me envolvi mais ainda. Nós temos um grupo seleto de amigos que luta fervorosamente já nesses 4, 5 anos e nós montamos um conselho que é o Carma (Conselho Amazonenses de Religiões de Matrizes Africanas), onde fazem parte as federações existentes, com seus representantes: o Pai Ribamar, que é o Coordenador da Fenecabi em Manaus, Pai Lair de Oxum, que é o presidente da Abucabam, onde eu faço parte como tesoureiro, o Pai Miguel de Vondoreji, que se encontra atualmente no Maranhão, pelo jubileu de ouro da casa da Fé em Deus, a mãe Nonata de Oxum, a mãe Emília de Itó e de Isá, que é a mãe Emília da Cidade Nova, o Pai Jean de Xangô. Nós somos seis ou sete, não me recordo de todas as pessoas. Isso é como se fosse uma comissão, um conselho, não tem uma nomenclatura certa. Cada um fala um tipo, mas o nome mesmo é Carma. EU sou secretário de promoções e eventos da Fenecabi, que é a coordenadoria que tem aqui em Manaus, que é da Federação Nacional de Cultos Afro, que tem a sede em salvador, no Pelourinho.

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O principal objetivo do CARMA é divulgar a religião. Nós estamos lutando junto com o governo, que foi uma grande luta, um grande reconhecimento com o atual presidente, com o Lula, da Lei 11.645, que obriga o estudo da cultura e costumes afro-descendentes no Brasil, na grade curricular.

Inauguração do antigo barracão

Inauguração do antigo barracão

Também estou sentado na cadeira do Conselho Permanente de Educação do Estado, empossado desde setembro de 2006. Faço parte, por freqüentar o FOPAAM (Fórum Permanente Afro-descendente do Amazonas), e o nosso objetivo é exatamente esse: divulgar a religião, que as pessoas se unam entre as religiões, porque é crime, No Brasil é crime discriminação religiosa, porque querer saber sobre a religião do seu próximo é uma coisa, querer denegrir a imagem da religião é outra coisa completamente diferente. É contra isso que a gente vem lutando, contra a discriminação religiosa, contra abuso contra as mulheres, abuso contra os negros, contra os afro-descendentes, contra os índios, os homossexuais, as pessoas com Aids. É por isso que a nossa religião dizem que tem muito homossexual, tanto masculino como feminino, mas a religião do Candomblé, a religião do culto aos Orixás ele não não vê sexo, ele não tem sexo, não tem cor, não tem raça. O Orixá é um ser divinatório da natureza, não é Deus. São divindades endeusadas; ou seja, elas são entidades supremas, não igualado a Deus, criador do universo, mas criados sim por ele, como patrono, como dono, como responsável, como curador de um certo domínio da natureza existente no mundo.

No Decá de um irmão de santo, em Boa Vista

No Decá de um irmão de santo, em Boa Vista

Ah, não. Pai de Santo não tem uma vida fácil. Muito pelo contrário. Primeiro que eu, pra mim já é uma coisa particular minha. Eu não tenho o costume e dormir cedo, eu só durmo meia-noite, 1h da manhã, tendo o que fazer ou não tendo. Quando a gente tem o que fazer tá procurando fazer, quando eu não tenho eu vou ler um livro, ligar pra um amigo, vai pra internet teclar com alguém ou procurar outros conhecimentos. Eu acordo muito cedo, principalmente quando tem alguma coisa envolvida com o Orixá, com a religião, com o santo. Porque tem muitas coisas que são feitas de madrugada, tem muitas coisas que são feitas pelo raiar do dia, tem muitas coisas que são feitas somente à noite, então tem que esperar dar 6h, 7h da noite pra começar a fazer e, principalmente, tem pessoas que vêm nos procurar pela manhã, pela tarde, pela noite. Algumas pessoas só podem vir no final de semana, no sábado ou no domingo. Algumas pessoas só podem vir pela parte da manhã cedo, antes de ir pro trabalho, porque só sai do trabalho 9h ou 10h da noite. Entendeu? Não é uma vida fácil não. Pras pessoas que fazem tudo certo, tudo correto, com humildade, com amor e com respeito ao santo são pessoas que prosperam. Eu falo por mim, são pessoas que prosperam e têm o que eu tenho. Eu tenho casa, comida e roupa lavada. Mas eu faço por onde. Eu não fico sentado na minha cadeira de balanço fumando cigarro.

Oferenda nas águas pra Iemanjá

Oferenda nas águas pra Iemanjá

Sou cozinheiro formado pelo Senac, já trabalhei muito em escritório. No meu último emprego, entrei como auxiliar de escritório e saí como gerente de RH da empresa e foi o tempo que eu mudei pra cá e a gente começou a fazer a construção de um barracão novo e começa uma coisa aqui,

Oxumaré, no Rio de Janeiro, quando foi ser padrinho de uma filha

Oxumaré, no Rio de Janeiro, quando foi ser padrinho de uma filha (2008)

aumenta uma coisa pra lá e foi ficando, ficando. O santo realmente me sustenta. Dona Maria Padilha trabalha e me sustenta, seu Marinheiro trabalha, me sustenta, Iemanjá me dá equilíbrio emocional de vida e me dá tudo o que eu quero. Não que eu fique esperando o santo bater na minha porta e me entregar. A gente trabalha justamente pra atender as pessoas que vêm procurar e achar pra poder ter a retribuição, seja ela financeira ou não, mas eu não vivo exclusivamente do santo. As pessoas que vivem exclusivamente do santo elas acordam de manhã sedo, despacham porta, segunda-feira fazem reza à Obaluaê, dá um agrado a Exu, terça-feira agrada Ogum, quarta-feira Xangô, quinta-feira Oxóssi, sexta-feira Oxalá, Sabado as iabás, domingo aos ibejis, os cabocos, pretos velhos e pombagiras. Eu não tenho o costume de fazer isso. Na minha casa eu faço sete tabuleiros durante o ano. Por coincidência ontem foi o último dos sete, já arrumando a casa pra obrigação e depois da obrigação virá o Olubajé, que será dia 26, sete dias depois da minha festa de 21 anos de axé, de consagração a Iemanjá, mas tem pessoas que fazem isso mesmo. Eu conheço muitas pessoas, elas vivem pro santo e vivem do santo, porque elas trabalham sete dias por semana, se acordando 5h, 6h da manhã, porque tem coisas pra fazer na porta de casa, cedo, sem ter muito barulho de cachorro, de trânsito, de carro, de gente conversando. Se acordam cedo e dormem tarde. Eles vivem junto com o santo, vivem pro santo e dependem do santo.

Maria Padilha das Almas

Maria Padilha das Almas

Olha, eu já formado no santo fui pra formatura de uma tia minha. E o Pai Lídio, ele é meu avô, eu chamo ele de pai, mas é meu avô. O pai de santo do meu pai de santo, mas eu chamo ele de pai. Não tenho costume de chamar ele de vô, só chamo ele de pai. As pessoas me vêem chamando ele de pai

Festa pra Iemanjá (2006)

Festa pra Iemanjá (2006)

e pensam que os meus tios são meus irmãos, então eles acabam se confundindo e me chamando de irmão. E eu fui pra formatura dela de mãe de santo, a Laíde de Xangô, no bairro da redenção. E pra mim foi uma surpresa, inclusive eu acho que pros demais que estavam presentes, que ele disse a ela que a partir daquele dia ele iria embora pra Salvador porque ele não mora em Manaus, roda o Brasil inteiro, ele não para mesmo. E que se ela precisasse dele, que ela mandasse uma carta ou ligasse, ou que se ela fosse fazer alguma coisa e se sentisse sozinha, que ela me chamasse, porque eu era irmão de santo dela. E não, eu sou sobrinho dela, mas mais velho do que ela, porque eu já era formado e ela ainda tava se formando, que eu era irmão de santo dela e muito capaz e competente pra ajudá-la a fazer as coisas. E foi isso que aconteceu, alguns meses depois, não me recordo, ela recolheu um barco, que como chamamos

Festa pra Oxumaré (julho/2007)

Festa pra Oxumaré (agosto/2007)

os yaôs que vão ser iniciados no culto na religião. E ela recolheu um barco e esse barco recolheram três pessoas, um menino de Obaluaê, que hoje em dia está dentro da minha casa, não está mais com ela, está comigo, sempre se deu comigo, que é o João, que, inclusive, já tomou a obrigação de sete anos, ele não é formado porque eu não dei baixa a ele, ou seja, não dei o decá, porque ele mesmo não quis, por ser uma pessoa muito ocupada, mora na estrada. E Obaluaê achou que eu não deveria dar, então ele se tornou um ebami, um filho mais velho, que significa em Iorubá; o Bosquinho, o pai Bosquinho de Oxum, que também era do barco, foi eu que raspei ele; e uma moça que eu não me recordo o nome dela agora, que raspou Oxóssi, não se é Conceição ou Socorro, salvo me engano, que eu não me recordo o nome certo. Eram as pessoas que tinham no barco e tirando, começando a iniciação, ou seja, os 21 dias de recolhimento, a primeira semana dos sete dias de Ebó, tirando primeiro o Ebó deles, eu cheguei no final da tarde na casa dela e os materiais já estavam todos prontos pra esfriar pra gente poder começar a fazer os trabalhos, ou seja, começar a fazer os Ebós do yaô propriamente dito, dos novatos, logo mais à noite. E ela estava manifestada com a dona Mariana. Lá vem de novo a dona Mariana na história, a dona Mariana é uma entidade, não por me perseguir pro mal, mas sempre está próxima, junto a mim, mesmo sem eu incorporar com ela, sempre ela está metida em alguma coisa pra me ajudar ou pra me mostrar . E tinha um senhora por nome Lourdes, que hoje é minha filha de santo, tá oborizada de Xangô, mora

Festa pra Oxumaré (agosto/2007)

Festa pra Oxumaré (agosto/2007)

em São Luís do Maranhão, é mãe carnal de duas filhas de santo que freqüentam a minha casa, uma de Xangô também, minha filha que tem obrigação de 3 anos e essa que eu vou comentar agora, que é a Lourdes que é essa que eu tô citando. Estava lá com a dona Mariana, e a dona Mariana estava esperando eu chegar e dizer pra mim que eu fizesse o favor de jogar pra senhora que estava ali presente, que até então eu não sabia quem era, e hoje em dia é minha filha de santo, que é a Lourdes, dona Lourdes, uma senhora mais velha do que eu. E eu jogando pra ela, mas o problema não era com ela, era com a filha que estava com um problema no seio. Ela tinha um tumor maligno no seio e o médico no Cecom iria cortar o seio dela e Iansã disse a mim que era ela, não a causadora da enfermidade, mas que ela tinha a solução, mas que a menina ou a mãe teria que ser iniciada no Candomblé, ou seja, o pagamento da troca de energia seria alguma pessoa da família adentrar à religião, ou seja, seria esse o sacrifício. E ela me perguntou se eu garantisse que se a filha dela tirasse um ebó, tomasse um bori, se ela ficava boa, e eu garanti. Porque Iansã tava dizendo pra eu falar isso. E eu garanti, e ela voltou pra casa, falou ao marido, que hoje em dia já é falecido. O marido foi no hospital, tirou a filha, levou pra mim na mesma noite e eu dei ebó na menina, e enquanto eu tava passando ebó no corpo dela o tumor estourou. Não era maligno, os médicos tinham se enganado. Ou, se era maligno, Iansã colocou pra fora porque estourou o tumor, ela se lavou toda de sangue. Inclusive eu fiquei muito nervoso, porque eu era mais novo. Ela tomou já a obrigação de 14 anos, eu tinha acabado de me formar. E ela dormiu pro santo. No amanhecer do dia, o pai veio a saber através da esposa, que o tumor da filha dele tinha sido estourado, estava interno, não aparecia nada. Mas eu não sei como aquilo estourou. Eu acredito muito nos espíritos, de trabalhar com eles, Iansã colocou pra fora, e ele veio a saber, e o próprio pai dela veio a obrigá-la a raspar a cabeça, porque a própria menina não queria saber disso de jeito nenhum, mas ela, obrigada pelos pais, principalmente pelo pai carnal, ficou. Ele comprou todo o material, ela foi raspada. Iansã dela é lindíssima, ela virou com o santo na noite de dá nome ao santo, o santo pegou ela, veio pra sala, se paramentou toda, dançou, e hoje em dia ela tá aí viva e pra contar a história. Eu não me esqueço nunca e tem muitas coisas, muita passagem, muito testemunho, mas essa eu não esqueço de nenhum detalhe. Eu troco uma palavra aumento alguma coisa, mas não invento nada. Era exatamente isso: ela tinha um tumor no seio e hoje em dia ela não tem nada, se tem dor de cabeça e febre eu nem sei, porque ela não me conta. Ela já tomou obrigação de 14 anos, já fez 14 anos de santo. Eu lembro que eu citei pra vocês, nas previsões dos búzios, na passagem de ano, que um político muito influente iria morrer, pra mim seria ou Gilberto Mestrinho ou Jefferson Péres ou Arthur Virgílio ou Amazonino Mendes, se eu me recordo bem. Pra mim foi um choque quando eu soube que o homem tinha morrido.

Olubajé de Obaluaê (agosto/2007)

Olubajé de Obaluaê (agosto/2007)

Eu digo que é pra as pessoas da religião se preservarem, que tenham mais respeito consigo próprios, que tenham mais repeito com o Orixá, que tenham mais respeito com a casa onde se foram iniciados, que tenham mais respeito com o sacerdote ou com a sacerdotisa que o iniciou. Mesmo que hoje em dia não estejam mais na casa, que tenham mudado de casa, já tenham mudado de mão e até de religião, mesmo que seja uma outra religião do segmento do Candomblé, que seja Ketu, Jeju, Nagô, Angola, mas que se preserve principalmente a humildade da espiritualidade, porque todos os orixás são humildes, todos eles. Orixá se veste de adorno de brilhantes, de diamantes, de ouro, de latão, de palha. Então se o orixá se veste de palha, de latão, de chitão, por que que nós só queremos nos vestir de Richelieu; ou seja, por que só nós que somos orgulhosos? Então que se preserve a religião. Atualmente a gente vê muita coisa, ouve muita coisa, fala muita coisa por ouvir bobagem e acaba interpretando errado e falando também errado. Mas o crescimento é exatamente esse, conforme a idade. As pessoas falam que os mais velhos não sabem fazer nada. Elas sabem. Elas podem até não ter mais forças pra fazer, mas elas têm a sabedoria. Então pergunte das pessoas mais velhas, pergunte das pessoas que tenham mais experiência. Às vezes tem umas pessoas mais novas, mas elas tem mais experiência por viver, entre aspas, 24 horas dentro do terreiro. Eu tenho filho de santo que já é sacerdote formado, com 7 anos, 8 anos, 9 anos, 10 anos. Eu tenho filho de santo que já tem 14 anos, como essa menina, a Lourdes. E eu tenho filho de santo que tem 1 ou 2 anos que sabe mais coisa do que ela. Por que? Ela é casada, mãe de família, ela trabalha fora, então ela não vive 24 horas dentro do terreiro, ela não vive todo final de semana no terreiro, ela não vem todo final de mês no terreiro. Ela vem uma vez ou outra quando tem realmente obrigações dentro da casa, que ela tem que se fazer presente. Mas tem pessoas mais jovens do que ela, que não é casado, é solteiro, são desempregados, que ainda é jovem, somente estuda, outros que nem estudam, quer dizer, tem mais tempo hábil pra fazer as coisas, pra aprender, porque além de ter a teoria, você tem que ter a prática, porque não adianta você saber que ebô é uma comida de Oxalá, que é feita de milho branco e que é cozido. Mas é cozido como? Na água com sal, na água com açúcar, somente com água, que horas que tem que cozinhar, se pode cozinhar no sol quente, arreia onde, se é na tigela de louça, se pode colocar num alguidá, se faz isso, se faz aquilo? Quais são as qualidades que faz? O que faz pra Oxalá além do ebô? Quer dizer, as pessoas que freqüentam, não todo dia, mas principalmente que freqüentam todo dia, elas aprendem mais rápido, porque além dela pegar a teoria ela principalmente pega a prática.

Festa pra Oxóssi (julho/2008)

Festa pra Oxóssi (julho/2008)

Que Iemanjá abençoe a nós todos. Eu já tô às vésperas de me recolher, eu já me recolho sábado e hoje é quarta-feira, então falta aí três dias, eu tô muito apreensivo, muito emocionado, mesmo porque não se faz 21 anos de santo todo dia, só se faz uma vez na vida, e que Olorum, Obatalá, Orumilá, Odudua, que Xangô Airá, que foi o santo que me raspou, patrono da cabeça do meu pai de santo, nos cubra de força, nos cubra de felicidade, nos cubra de energia e, principalmente, que nós tenhamos todos os dias o que comer na nossa mesa e saúde.

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USAR O CONTROLE REMOTO É UM ATO DEMOCRÁTICO!

EXPERIMENTE CONTRA A TV GLOBO! Você sabe que um canal de televisão não é uma empresa privada. É uma concessão pública concedida pelo governo federal com tempo determinado de uso. Como meio de comunicação, em uma democracia, tem como compromisso estimular a educação, as artes e o entretenimento como seu conteúdo. O que o torna socialmente um serviço público e eticamente uma disciplina cívica. Sendo assim, é um forte instrumento de realização continua da democracia. Mas nem todo canal de televisão tem esse sentido democrático da comunicação. A TV Globo (TVG), por exemplo. Ela, além de manter um monopólio midiático no Brasil, e abocanhar a maior fatia da publicidade oficial, conspira perigosamente contra a democracia, principalmente, tentando atingir maleficamente os governos populares. Notadamente em seu JN. Isso tudo, amparada por uma grade de programação que é um verdadeiro atentado as faculdades sensorial e cognitiva dos telespectadores. Para quem duvida, basta apenas observar a sua maldição dos três Fs dominical: Futebol, Faustão e Fantástico. Um escravagismo-televisivo- depressivo que só é tratado com o controle remoto transfigurador. Se você conhece essa proposição-comunicacional desdobre-a com outros. Porque mudanças só ocorrem como potência coletiva, como disse o filósofo Spinoza.

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CAMPANHA AFINADA CONTRA O

VIRTUALIZAÇÕES DESEJANTES DA AFIN

Este é um espaço virtual (virtus=potência) criado pela Associação Filosofia Itinerante, que atua desde 2001 na cidade de Manaus-Am, e, a partir da Inteligência Coletiva das pessoas e dos dizeres de filósofos como Epicuro, Lucrécio, Spinoza, Marx, Nietzsche, Bergson, Félix Guattari, Gilles Deleuze, Clément Rosset, Michael Hardt, Antônio Negri..., agencia trabalhos filosóficos-políticos- estéticos na tentativa de uma construção prática de cidadania e da realização da potência ativa dos corpos no mundo. Agora, com este blog, lança uma alternativa de encontro para discussões sociais, éticas, educacionais e outros temas que dizem respeito à comunidade de Manaus e outros espaços por onde passa em movimento intensivo o cometa errante da AFIN.

"Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias; que é atingido pelos próprios pensamentos como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, como por uma espécie de acontecimentos e de faíscas de que só ele pode ser alvo; que é talvez, ele próprio, uma trovoada prenhe de relâmpagos novos; um homem fatal, em torno do qual sempre ribomba e rola e rebenta e se passam coisas inquietantes” (Friedrich Nietzsche).

Daí que um filósofo não é necessariamente alguém que cursou uma faculdade de filosofia. Pode até ser. Mas um filósofo é alguém que em seus percursos carrega devires alegres que aumentam a potência democrática de agir.

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A Confluência das Torcidas!
CHURRASQUINHO DO LUÍS TUCUNARÉ (Japurá, entre a Silva Ramos e a Comendador Clementino).

Só o Peixe Sabe se é Novo e do Rio que Saiu. Confira esta voz na...
BARRACA DO LEGUELÉ (na Feira móvel da Prefeitura)

Preocupado com o desempenho, a memória e a inteligência? Tu és? Toma o guaraná que não é lenda. O natural de Maués!
LIGA PRA MADALENA!!! (0 XX 92 3542-1482)

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