O RETROCESSO GLOBAL FRANCÊS: DE VICHY A SARKOSY

“Do ponto de vista do racismo, não existe exterior, não existem as pessoas de fora. Só existem pessoas que deveriam ser como nós, e cujo crime é não o serem.”
Deleuze e Guattari

foto: AP

Em 1966, Marcel Duchamp dizia que “os americanos são obstinados em querer derrubar a hegemonia de Paris”. Evidentemente estava se referindo no que diz respeito à arte, já que o dadaísta dizia nada compreender de política e economia. Mas é evidente que, assim como ele a percebia no seu campo de atuação, tal disputa estava ocorrendo também em todos os outros planos e com todas as outras nações. Sobre a poeira dos museus de Nova York pairava a real politik francesa de De Gaulle em protagonizar a Europa, enquanto os Estados Unidos ficava naquela simulação maniqueísta da Guerra Fria.

Isso vinha desde o último ano da Segunda Guerra. Enquanto os americanos tiveram que mostrar sua força num massacre tão cruel quanto o Holocausto – Hiroshima e Nagasaki -, De Gaulle fez-se líder respeitado na Europa a partir de um oportuno discurso de rádio contra os nazistas na queda da França, ainda no início da Guerra:

Nada está perdido porque esta guerra é uma guerra mundial. No universo livre, forças imensas ainda não entraram em ação. Um dia estas forças esmagarão o inimigo. É preciso que a França, neste dia, esteja presente na vitória. Então ela reencontrará sua liberdade e sua grandeza.”

É para esse momento que o enunciado proferido pela comissária europeia de Justiça, Viviane Reding, contra as deportações dos ciganos (“roms”) operadas por Sarkosy nos remete. O momento em que a França é invadida e os nazistas fixam sua sede na cidade de Vichy, a sudeste de Paris, onde o marechal Pétain, apoiado pela alta hierarquia da Igreja Católica, pela direita francesa e pelas Forças Armadas, num colaboracionismo total, com a falácia de que a França continue governada por franceses, substitui “os valores de 1789 – Liberdade, Igualdade, Fraternidade – pela trindade conservadora Família, Trabalho e Pátria”.

Além de antidemocrático e anticomunista, sustentado pela Ação Francesa (Action Française), liderada por Charles Maurras, o Regime de Vichy também foi racista e xenófobo, chegando a entregar cerca de 80 mil judeus para serem levados para os campos de concentração nazista. Reding foi direta e contundente, no ponto em que salta e se atualiza o enunciado:

“Deixem-me ser clara. A discriminação com base em raça ou origem étnica não tem lugar na Europa. É incompatível com os valores com que a União Europeia foi fundada. As autoridades nacionais que discriminam grupos étnicos na aplicação da lei europeia violam também a Carta dos Direitos Fundamentais, que todos os Estados-membros, incluindo a França, assinaram. A lei se aplica a todos os Estados-membros, pequenos ou grandes. (…) Esta é uma situação que eu pensava a Europa não ter de testemunhar novamente depois da Segunda Guerra Mundial.”

É ainda na honra da moral familiar que o o secretário de Estado francês de Assuntos Europeus, Pierre Lellouche, derrapa. “Como filho de alguém que lutou pela liberdade francesa, não posso permitir à senhora Reding que diga que a França atual se parece com a França de Vichy, ninguém pode falar de Segunda Guerra”, disse ele a um canal de TV.

Sarkosy também atacou com sua costumeira estupidez e covardia, sugerindo junto a deputados de seu partido que Reding receba os ciganos em Luxemburgo, que é o país da comissária.

Na Segunda Guerra, a França reencontrou sua grandeza, pelo menos no que diz respeito à inveja que os neoliberais americanos tinham do eurocentrista De Gaulle. Com a vitória dos aliados na frente ocidental, o general desfila como se fora Joana D’Arc ou Napoleão para uma multidão embevecida. E, no pós-guerra, enquanto ele tem o poder de vetar a entrada da Grã-Bretanha na Comunidade Europeia, os americanos no seu “parque de diversões” são surpreendidos com os mísseis que Fidel trocara por açúcar com a União Soviética. Mas ficou nisso. Do ponto de vista capitalístico, a França não conseguiu integrar a Europa, enquanto os Estados Unidos havia conseguido não somente em fronteiras físico-geográfico, mas numa universalização subjetiva (biopoder), aparecer, com o fim da Guerra Fria, como o centro Globalitário, para escrever o termo empregado por Milton Santos.

Então as nações europeias resolveram finalmente perceber a nova ordem global e implementar o mais rápido possível a União Europeia para conter o assédio americano. Para quem acompanhou um pouco essas negociações, são visíveis certos momentos em que a França tenta impor-se como uma líder do novo bloco. Mas para que isso acontecesse, só havia um jeito: por-se acima das cláusulas da sua Constituição, tal qual o modelo americano. Jean-Marie Le Pen é por demais grotesco para um francês, pelo menos no que diz repeito ao olhar sul-americano. A pessoa certa: Sarkosy. Sarko tem aquela boca reta, fina e larga e aquele olhar de peixe morto como acreditamos terem todos os franceses.

No nosso caso, seria apenas preconceito devido a nossa ingenuidade e provincianismo; no caso dele, reportando-se à epígrafe de Deleuze e Guattari, é totalitarismo. Sarko quer ser mais francês do que os franceses justamente por não ser francês. É filho de um húngaro e uma judia sefardita. (Sabe o que significa ser um judeu sefardita? É justamente o judeu mais nômade que existe nos últimos séculos, perseguidos na Península Ibérica há muitas décadas antes do nazismo.) Se as regras que Sarko está colocando em prática estivessem em vigor na década de 70, seu pai e sua mãe teriam sido expulsos da França.

E não são somente os ciganos que estão em risco. Quem acompanha as notícias que chegam da França à mídia brasileira – já houve dias melhores! – viu que há alguns meses atrás Sarko tentou implantar uma lei que restringia diretamente o uso da internet, mas que, felizmente, não passou.

Mas a lei que foi aprovada ontem pela manhã vem para mexer com os trabalhadores de toda a França. Na Assembleia dos Deputados foi aprovado o projeto que aumenta a idade para a aposentadoria de no mínimo 60 para 62 anos de idade. E, ainda mais, a idade para a chamada aposentadoria plena passou de 65 para 67 anos. Foram milhões de trabalhadores em greve na França. A foto no topo dá uma demonstração da manifestação em frente à Câmara Baixa.

Quando Sarkosy foi eleito e, principalmente, quando ele conseguiu a maioria no parlamento francês, dizíamos que nem todos os franceses eram gostosos como o bispo Sardinha. Num mundo global como o que vivemos hoje, podemos dizer que as últimas notícias que chegam – hoje, instantaneamente – da França são péssimas e interessam a todos os trabalhadores de todo o globo. É preciso mobilizar em escala global. O que aconteceu na Câmara dos Deputados é um retrocesso terrível, principalmente porque eram direitos já adquiridos e consolidados. Ainda mais que a principal luta agora na comunidade europeia – ao menos era o que esperávamos na Sul-América – era a de uma renda mínima para todos os cidadãos europeus, independente da idade, da raça, sexo ou qualquer outra forma de discriminação do passado.

Para nós, que somente com Lula conseguimos um afrouxamento do domínio norte-americano, esperávamos avanços na União Europeia para tentarmos envolver o Mercosul. Mais uma vez, como a luta é global, os retrocessos que estão encaminhados na União Europeia precisam sofrer a resistência dos trabalhadores de todo o mundo. O enunciado mais conhecido de Marx e Engels nunca foi tão necessário: “Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos!”

Quem logo apareceu, aproveitando midiaticamente o evento, foi o grotesco bufão Silvio Berlusconi. Se os retrocessos de Sarkosy predominam, não é perigoso apenas para os trabalhadores da França nem tão somente para os da União Europeia.

É uma luta global que requer duas frentes fundamentais. Uma que age diretamente nas instituições. É preciso pressionar para que os atuais membros que coordenam por assim dizer a União Europeia, como a comissária Reding, não recapitulem da sua posição contrária a Sarkosy. A outra, mais fundamental, uma resposta global dos trabalhadores.

Nesse texto, anteriormente, justamente, na saída de De Gaulle, saltamos o maior evento revolucionário que conhecemos da França. Maio de 68. Talvez mais do que para a França, Maio de 68 representa, ao menos para a América Latina, um movimento em todo o significado do termo, envolvendo uma infinidade de questões por pessoas e grupos concordantes ou divergentes, mas apoiados em ideias comuns.

Quando vimos Toni Negri e Michael Hardt falando de Seatle 1999, acreditamos que, por algum fio invisível, estava ligado ao Maio de 68.

Como diriam os filósofos da Multidão, “uma greve política global de uma semana impediria qualquer guerra”. Se isso não ocorrer, é provável que a bandeira da UE se torne apenas um falso ready-made que, pior, não terá Duchamp para debochar de tão falsa seriedade…

Imagem: UE Nazi / by Afinsophia®

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