ENTREVISTA COM LULA DEPOIS DA DISPUTA COM COLLOR

 

UMA ELEIÇÃO ENTRE A ÉTICA E A POLÍTICA

O primeiro grande balanço público da campanha d PT em 1989. Esse acabou sendo o resultado da entrevista que Lula concedeu para a confecção deste livro, numa manhã quente do final de fevereiro de 90. Acordado de uma grande ressaca, como ele mesmo definiu, dois meses depois do segundo turno, o ex-candidato falou com franqueza dos erros do partido, das suas próprias dificuldades, dos momentos de emoção.

A entrevista foi concedida por Lula dia 23 de fevereiro na chamada sede II, uma casa na Vila Mariana, que funciona como segunda morada do Diretório Nacional do PT e onde Lula despacha quando está em São Paulo. Durante duas horas e meia, Lula se submeteu a uma bateria de perguntas, algumas bastante incômodas, sobre a campanha de 89.

A presença de Ricardo Kotscho e Aloizio Mercadante, os assessores mais próximos de Lula durante todo o ano, ajudou a compor o clima do balanço que acabou acontecendo naquela manhã, além do entrevistado, Kotscho e Aloizio, participaram da conversa Cícero Araújo, Breno Altman e André Singer.

André – Lula, qual avaliação você faz deste processo que quase te levou à Presidência da República?

Lula – Olha, perder uma eleição numa campanha como esta, que envolveu tanta gente, é como se a gente, dois meses depois, tivesse acordado de uma grande ressaca. Estou ainda procurando respostas, razões do porquê perdemos as eleições – eleições que, na minha opinião, estavam ganhas pelo menos até 10 ou 11 de dezembro. É verdade que nunca estivemos na frente nas pesquisas de opinião pública, mesmo nas mais otimistas, mas vínhamos num clima de crescimento que qualquer analista político de bom senso via como irreversível a nossa vitória dia 17 de dezembro.

O simbolismo da imagem muitas vezes cala mais fundo, e eu acho que o Collor trabalhou isto bem. Veja, nós é que somos os verdadeiros caçadores de marajás, e ele é que levou a fama; nós éramos a oposição de verdade ao governo Sarney, e ele que levou a fama. Esse simbolismo nós não conseguimos trabalhar.

André – Lula, em algum momento você achou que não ia dar para chegar ao segundo turno?

Lula – Nunca perdi a fé de que a gente pudesse ir para o segundo turno. Mesmo nos comícios mais fracos, sempre achei que a hora em que a militância fosse pra rua, a gente ia para o segundo turno.

André – Mesmo em julho?

Lula – Mesmo quando a gente estava com 5% nas pesquisas, eu tinha esta convicção. Eu sabia que o Brizola tinha muita força em dois estados, e nós tínhamos força espalhada por todo o país. É lógico que, naquele momento, era muito difícil passar otimismo, como 5% das intenções de voto. É como um time que está perdendo de quatro a zero e, quando termina o primeiro tempo, vem a pergunta: “dá pra virar?”

Mas estava convencido que o jogo ia virar. A gente fazia campanha no Brasil inteiro, e percebia que o clima nos outros estados era melhor que o de São Paulo.

Eu falava sempre para o comitê que era preciso atacar mais São Paulo. Havia uma confiança exagerada do nosso pessoal sobre os resultados no estado. Depois do primeiro turno, a gente chamou os prefeitos pra discutir, pra ver o que fazer no sentido dos prefeitos se jogarem de corpo e alma na campanha, tentando reverter o quadro em São Paulo.

André – Parece que essa foi uma reunião muito dura…

Lula – Não, até que não… Eu tomei a iniciativa de não culpar os prefeitos pelos resultados do primeiro turno. Se é verdade que perdemos alguns eleitores  em algumas cidades, entre quem se desencantou com nosso prefeitos, também é fato que, por causa de nossas vitórias nestas mesmas cidades, em 1988, nós ganhamos votos na Paraíba, no Rio Grande do Norte, em Pernambuco. Eu me assustei quando fui ao Nordeste e vi aqueles enormes comícios, cada vez com mais gente.

André – Em que mês você começou a perceber que a coisa estava mudando?

Lula – A partir de setembro.

Cícero – Em que lugar você sentiu que estava dando a virada?

Lula – Na visita a Teresina, no Piauí, durante a penúltima caravana ao Nordeste antes de 15 de novembro. Fizemos um comício às três horas da tarde, com a praça entupida de gente, depois saímos em passeata e, por conta da quantidade de gente que aderiu à caminhada, tivemos que fazer um novo comício. Tomamos conta da cidade e ali eu senti que começava a virada.

Cícero – Aqui em São Paulo também teve um momento em que a militância saiu da apatia, marcado talvez pelo comício de setembro na Praça da Sé.

Lula – Olha, eu nunca gostei da campanha em São Paulo. Nós não estávamos como o pique de sempre, a militância paulista não estava com a mesma garra que em outros lugares, ficamos na defensiva. Sabe por quê? Porque aqui nosso pessoal tinha que justificar o ônibus, os buracos na rua, o lixo. Já se sentia governo, estava politicamente inibido.

Breno – Você acha que as administrações municipais colocaram na defensiva a militância do PT?

Lula – Acho. Aliás, um dia desses eu tive uma conversa com a Marilena Chauí e a Luíza Erundina e elas me contaram coisas da campanha que nem eu sabia: carros nossos eram apedrejados em passeatas, atacavam manga e mamão em nosso pessoal, abriam as portas e batiam em militantes dentro dos carros.

Ricardo – Até a última semana, o PRN não existia em São Paulo. De repente, os caras saíram da toca – parecia a Marcha com Deus e a Família pela Liberdade. O que aconteceu?

Lula – Não acontece nada de repente. Na medida em que despontou a possibilidade da gente ganhar as eleições, foi desencadeado um processo de terrorismo contra o PT. Diziam que o Lula ia acabar com as igrejas não-católicas, que íamos tomar um quarto de quem tivesse dois, uma casa de quem tivesse duas, um carro de quem tivesse dois, uma televisão de quem tivesse duas. Ora, a boca pequena, com milhares de pessoas comentando, é um negócio criminoso.

André – Você acha que o PT deveria ter uma outra estratégia para negar estas acusações?

Lula – Eu acho que, muitas vezes, nós pecamos por excesso de otimismo. Certas coisas, nós discutíamos a partir da nossa cabeça, a partir da cabeça do pessoal politizado. Quando disseram que a gente ia acabar com a religiões não-católicas, nós fizemos um único programa especial sobre o tema, quando deveríamos ter realizado várias inserções.

Precisávamos ter insistido nestas questões, porque é exatamente na faixa menos politizada que essas coisas pegam, neste setor funciona a estória que, para bom entendedor, meia-palavra basta: para este segmento não se deixar levar por estes boatos, não basta meia-palavra, é preciso, quem sabe, um livro inteiro. Eu acho que a gente não conseguiu ter uma linguagem para este setor mais vulnerável da sociedade, a gente não conseguiu penetrar nesta camada do jeito que deveríamos.

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