Arquivo para 5 de dezembro de 2010

A LUCIDEZ DOS NOIADOS: NUNCA MAIS TROPA DE ELITE

“O fruto da árvore envenenada
da injustiça jamais amadurece favoravelmente.”
(Contos do Vampiro)

Nunca assistimos Tropa de Elite qualquer que seja. Quanto custa uma entrada nas salas shopipocola de Manaus? Uma vez um vereador, para uma demonstração concreta da pirataria em Manô, afirmou que o dvd Tropa de Elite estava sendo vendido a 5 reais. Contestamos que 1 que fosse seria um absurdo, quanto mais 5 mangos, que dão para duas amargosas ou uma cambada de bodó ou o que o valha. Para que iríamos assistir um diretor como José Padilha, que disse que a democracia é falha e, como comprovação disso, afirmou que “Hitler foi eleito na Alemanha”? Um tal diretor não sabe o que é política, não sabe o que é existência, quanto mais revelar fatias da Vida como “novas formas de percepção” (perceptos, Deleuze e Guattari), que é em que consiste o cinema-arte. Kinema!

No entanto, o marketing pesado feito no filme nos fez ver trechos dele em trallers em outras fitas… numa janela aberta em uma casa em que era exibido… numa discussão com algum intelectualoide sobre alguma cena… no tatibitate de crianças violentadas pelo perverso refrão: Tropa de Elite/ Osso duro de roer/ Pega um pega geral/ Também vai pegar você… Nós, não, mano! Tropa de Elite funciona como uma onisciência de uma operação dessas de programas policialescos onde os câmeras correm por detrás da coronha dos fuzis nas favelas, invadindo miseráveis barracos, que revelam o crime maior de séculos de desigualdade e injustiça. Como já havia ocorrido com Cidade de Deus, nada de cinema. “Um clipe chocante de elogio à força bruta”, nas palavras do crítico de cinema Jacques Mandelbaum, do Le Monde Diplomatique.

Como tudo é possível para o inexistente cinema brasileiro, Padilha resolveu fazer Tropa de Elite 2, que teve até instrutor da Swat. “O diretor José Padilha quer o máximo de realismo possível. O objetivo é transformar os atores em policiais, com técnica perfeita”, disse na época da filmagem o competente instrutor. O que se conseguiu com isso foi a consolidação do que já havia no primeiro: dar vazão a um realismo ingênuo e alienado do Real e uma ausência total e estúpida de entendimento de estética cinematográfica.

Como disse Paulo Henrique Amorim na nossa Conversa Afiada, “o Padilha gosta mesmo é de insuflar os temores da classe média – para justificar o pau! Cacete! São duas horas de barulheira, no ar refrigerado, com pipoca e Coca-Cola – e autoritarismo sem queimar as mãos. No fim, vai todo mundo para casa, de barriga cheia, feliz da vida. De alma lavada”. O ativo blogueiro chega a conclusões interessantes que você pode conferir clicando aqui.

Foi Lula quem entrou no Complexo do Alemão

Segundo consta à boca grande e miúda no Rio de Janeiro, o governador reeleito Sérgio Cabral tinha um pacto com os traficantes para que houvesse “paz” até as eleições. Passadas as eleições, estes recomeçaram suas atividades criminosas e aquele fez que ia fazer uma operação com a Polícia Militar. Tudo acertado. Mas de repente não mais que de repente, como não diria aquele boa vida humilhador de garçons, uma mega operação comandada pelas Forças Armadas tomou de conta da operação.

Fato interessante: não ocorreu aquela conhecida glorificação que a mídia fazia – a quem interessa Tropa de Elite e o seu capitão Nascimento? – de certos policiais, elevando-os à categoria de heróis urbanos. Quem deu a ordem? Como foi organizada tão rapidamente a tomada do Complexo do Alemão do domínio dos traficantes?

O primeiro e um dos poucos jornalistas a perceber a totalidade da operação foi Helio Fernandes, do alto de sua Tribuna da Imprensa: “A vitória foi do Lula”. Segundo o eterno resistente repórter, “o presidente nem tomou conhecimento de Nelson Jobim”, ministro da Defesa. “Os 4 generais que apareceram fardados e não para atividades burocráticas, só falaram durante 5 minutos e desapareceram”. O que disseram foi apenas: “Estamos autorizados pessoalmente pelo presidente da República. Ele recomendou que não usemos armas, a não ser numa emergência.” Alguém é contra? Nas palavras de Helio, Cabralzinho. Lula apenas telefonou: “Já decidi tudo com os comandantes militares. Você faz o que achar conveniente, mas a Operação já está montada e será executada”.

A serenidade e convicção de Lula advém na verdade de anos de preparação. Para lutar contra o crime organizado não é tão difícil, sendo necessárias duas preparações prévias. Primeiro devem ser interrompidas as ligações do chamado poder paralelo com o poder constituído. Álvaro Lins e Fernandinho Beira-Mar são um só nessa trama. Segundo, ao mesmo tempo vão se constituindo serviços públicos indispensáveis para as mínimas condições de estabelecimento da cidadania. O Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), criado por Dilma Rousseff no governo Lula entra aí, entre outros projetos, como o Minha Casa, Minha Vida e as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Feito isso, três dias são suficientes para um comandante maior das Forças Armadas como Lula, ao menos para tirar extensas áreas controladas por traficantes.

Está certo que os traficantes fugiram e pouquíssimos foram presos, mas a principal questão por enquanto no Complexo do Alemão é quanto aos desmandos da Operação. Isso não deve ser negligenciado, pois haviam lá também alguns soldados do Bope que acreditaram no Tropa de Elite do Padilha era verdadeiro.

Nunca mais a paranoia da Tropa de Elite

Diante de todas essas questões, nós, deste bloguinho, que existimos na periferia de Manaus, ficamos observando os acontecimentos do Rio com os de cá, suas semelhanças e diferenças de graus. De como vários traficantes conhecidos e respeitados foram presos aqui depois que foram desbaratadas as tramas do clã dos Souza, principalmente depois que a Polícia Federal passou a atuar diretamente nessa questão. Mas o que nos levou a escrever esse texto mesmo foi uma questão que é colocada mais como exterioridade do que na observação de seus elos internos, que são as possibilidades que se abrem depois que o controle do tráfico foi minado, inclusive para aqueles que eram dependentes e escravizados por ele, como ocorre com alguns drogados.

Ocorre que também comemos na periferia de Manaus, e havia todos os ingredientes da receita de nosso almoço, menos sal. Fomos à mercearia aumentar em uma linha a “poupança pendurada” que chamam de f-i-a-d-o (“cinco letras que choram”). Lá encontramos um rapaz que vai a completar as duas dezenas de anos e que é chamado pelo sugestivo apelido de Noiado.

Como já colocamos naqueles textos sobre o Barato da Onu, nos quais discutimos formas alternativas de discutir publicamente a questão das drogas sem injetar outras drogas menos visíveis, mas nem por isso menos letais para a existência, Deleuze diz que “é verdade que o papel das pessoas, nesse momento, é de tentar salvar os garotos, o quanto se pode. E salvá-los não significa fazer com que sigam o caminho certo, mas impedi-los de virar trapo”.

Há uns dois anos que conhecemos Noiado, que sempre nos sorria com aquele sorriso tolo de alguns drogados enquanto balançava de forma engraçada enquanto andava seu comprido cabelo em rabo-de-cavalo de um lado para o outro. Há uns quatro meses ele apareceu na sede da Afin, onde funciona a biblioteca comunitária Bibliosofia e pediu um livro emprestado. Escolheu, talvez pelo título, Contos do Vampiro, um anônimo indiano provavelmente do séc. III. Hoje encontramos Noiado na mercearia e ele foi logo sorrindo e dizendo alegremente: “Tô lendo ainda o livro”, apontando aquele do qual já nem mais nos lembrava o empréstimo. “E aí?” “No começo eu lia umas três páginas e voltava, mas agora tá indo melhor… Fala de uma outra região, mas às vezes é como se fosse aqui mesmo… Olha esse ‘pedaço’…” Leu o trecho que serve de epígrafe a esse texto. Fez outros comentários. Também fizemos os nossos.

Enquanto pegávamos o sal e batíamos um papo ali com um vizinho sobre a qualidade da farinha, uma brincadeira com um ‘pequeno’, acompanhamos Noiado e seu fascínio – geralmente por zombaria, mas fascínio. Como uma turminha assistia Tropa de Elite 2 (pirata, vereador!) e fizemos nossos comentários, Noiado secundou: “Eu também não gosto não. Não tem nada de realidade”. Brincamos com ele: “Porra, se o Padilha, o cara que fez esse filme, ouvisse essa, ele se matava.”

Para finalizar, na passagem dele um conhecido perguntou onde tava o “feijão”, que é a gíria da hora. “Não tô mais nessa não, maluco”, explicou ele. “Por que, Noiado, entrou pra igreja?”, insistiu o outro. “Porque não quero mais. Não quero mais. Parei”, finalizou e seguiu.

Noiado e tantos outros garotos, não só nas periferias, seja no Rio seja em Manaus, faziam parte do lucro líquido de traficantes, de políticos e policiais corruptos, mas também de outros que parecem não estar envolvidos, mas se dão bem neste estado de coisas, como José Padilha. Noiado resiste a todos eles.

Ao contrário, Lula só entrou no Complexo do Alemão com as Forças Armadas porque era necessário, mas não gostaria. Para Lula, não há glória nisso. Ele gostará de entrar para abraçar e se emocionar com o povo do qual faz parte, como fez em tantos lugares desse país e outros países.

Talvez a notícia mais banal, mas uma das mais importantes, da liberação do Complexo do Alemão seja aquela que deu Padilha na sexta-feira: que não fará um Tropa de Elite 3. Como fazer, se Lula e o garoto que atende pelo preconceituoso apelido de Noiado já tiraram qualquer possibilidade de que isso continue servindo até mesmo para enganar a classe média ignara.

Se há vitória – e no nosso entender esto está muito longe ainda, mas houve uma demonstração de possibilidades -, ela só pode vir com a melhoria dos serviços públicos e com o respeito aos direitos humanos, para que nenhuma Tropa de Elite entre nem mesmo como um dvd pirateado quanto mais como um chutão em nossa porta a dentro.

Quando retornamos para casa, levávamos o sal que usaríamos em quantidade módica, mas levávamos também aquele outro que faz Toni Negri e Michael Hardt dizerem que “o pobre é o sal da terra”, esse que precisamos utilizar de forma desmedida. Quando encontrarmos o garoto novamente, perguntaremos seu nome, não como identidade resumitiva, mas como singularidade que resiste há quase duas décadas de violentação e estigmatizações que garantem a base piramidal que sustenta políticos e policiais corruptos, traficantes, os Padilha e o falso moralismo da indiferente classe média.


USAR O CONTROLE REMOTO É UM ATO DEMOCRÁTICO!

EXPERIMENTE CONTRA A TV GLOBO! Você sabe que um canal de televisão não é uma empresa privada. É uma concessão pública concedida pelo governo federal com tempo determinado de uso. Como meio de comunicação, em uma democracia, tem como compromisso estimular a educação, as artes e o entretenimento como seu conteúdo. O que o torna socialmente um serviço público e eticamente uma disciplina cívica. Sendo assim, é um forte instrumento de realização continua da democracia. Mas nem todo canal de televisão tem esse sentido democrático da comunicação. A TV Globo (TVG), por exemplo. Ela, além de manter um monopólio midiático no Brasil, e abocanhar a maior fatia da publicidade oficial, conspira perigosamente contra a democracia, principalmente, tentando atingir maleficamente os governos populares. Notadamente em seu JN. Isso tudo, amparada por uma grade de programação que é um verdadeiro atentado as faculdades sensorial e cognitiva dos telespectadores. Para quem duvida, basta apenas observar a sua maldição dos três Fs dominical: Futebol, Faustão e Fantástico. Um escravagismo-televisivo- depressivo que só é tratado com o controle remoto transfigurador. Se você conhece essa proposição-comunicacional desdobre-a com outros. Porque mudanças só ocorrem como potência coletiva, como disse o filósofo Spinoza.

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CAMPANHA AFINADA CONTRA O

VIRTUALIZAÇÕES DESEJANTES DA AFIN

Este é um espaço virtual (virtus=potência) criado pela Associação Filosofia Itinerante, que atua desde 2001 na cidade de Manaus-Am, e, a partir da Inteligência Coletiva das pessoas e dos dizeres de filósofos como Epicuro, Lucrécio, Spinoza, Marx, Nietzsche, Bergson, Félix Guattari, Gilles Deleuze, Clément Rosset, Michael Hardt, Antônio Negri..., agencia trabalhos filosóficos-políticos- estéticos na tentativa de uma construção prática de cidadania e da realização da potência ativa dos corpos no mundo. Agora, com este blog, lança uma alternativa de encontro para discussões sociais, éticas, educacionais e outros temas que dizem respeito à comunidade de Manaus e outros espaços por onde passa em movimento intensivo o cometa errante da AFIN.

"Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias; que é atingido pelos próprios pensamentos como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, como por uma espécie de acontecimentos e de faíscas de que só ele pode ser alvo; que é talvez, ele próprio, uma trovoada prenhe de relâmpagos novos; um homem fatal, em torno do qual sempre ribomba e rola e rebenta e se passam coisas inquietantes” (Friedrich Nietzsche).

Daí que um filósofo não é necessariamente alguém que cursou uma faculdade de filosofia. Pode até ser. Mas um filósofo é alguém que em seus percursos carrega devires alegres que aumentam a potência democrática de agir.

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