SÓ PARA LOUCOS (MUITOS POUCOS) (ou Só para poucos e muito LOUCOS)

O tema mítico de Dionisos

Nos profundos e intrincados labirintos da psique vivem ainda os deuses pagãos. Dois mil anos de cristianismo representam apenas a superfície. Pesquisas arqueológicas e pesquisas psicológicas são trabalhos paralelos feitos em áreas diferentes. Dionisos manifesta-se em nítidas imagens sob múltiplos aspectos de sua natureza dual, jovem e velho, bissexuado, animalesco, orgiástico, frenético, o inventor do vinho, dom deste deus aos homens para ajudá-los a provar, embora fugazmente, a euforia da embriaguez e até mesmo o êxtase religioso.

Em meados dos anos 60, “O lobo da Estepe” (1927), de Hermann Hesse (1877-1962), começou a ser lido como uma espécie de “O Pequeno Príncipe” por toda uma geração influenciada primeiro pela psicanálise e em seguida pelos ecos do movimento hippie.

Hesse virou moda. Seus livros foram devorados com um espírito de culto. Se você passou a infância naqueles anos psicodélicos, deve ter tropeçado pelo menos uma vez em algum dos romances do autor (Prêmio Nobel Literatura de 1946), esquecidos na borda de uma piscina ou ao lado de uma cadeira de praia e discutidos pelos adultos como alegorias da procura espiritual do EU pelo viés do inconsciente psicanalítico (“Demian”) ou do misticismo orientalista (“Sidharta”).

É muito provável que a “literatura de mensagem” de Hesse, que tanto marcou os leitores nos anos 60/70, também esteja ironicamente na origem dos livros de Paulo Coelho, em seu aspecto massificado de “pérolas de sabedoria”.

Ironicamente, porque, ao contrário do que pode parecer, “O Lobo da Estepe” não é um romance fácil. Ainda mais num mercado que é avesso dos valores que o livro propõe, um mundo em que a idéia de auto-conhecimento foi invertida e transformada em impostura e lugar-comum, vulgarizada como estratégia de marketing e vendas.

O que chamamos cultura, o que chamamos espírito, alma, o que temos por belo, formoso e santo (sagrado/espiritual), seria simplesmente um fantasma, já morto há muito, e considerado vivo e verdadeiro só por meia dúzia de loucos como nós?”, pergunta o protagonista.

Com a distância de tempo, a atual reedição (26) de “O Lobo da Estepe” prova que, a despeito de seu lado “filosófico”, que o tornava aparentemente mais acessível nos anos 60, o romance de Hesse é, do ponto de vista literário, extremamente complexo, imaginativo e inovador para a época em que foi escrito. Um texto que oscila entre o simbolismo e o surrealismo, criando um mundo onírico que lembra os pesadelos das novelas de Schnitzler e dos contos de Hoffmann.

A misantropia, o solipsismo e a inadequação de seu protagonista ao mundo, descontadas as eventuais referências á ânsia de um “encontro com Deus”, também estão de alguma forma na origem dos personagens de Thomas Bernhard: “O Lobo da Estepe, o sem pátria e solitário odiador do mundo burgês (…) Não se devem considerar suicidas apenas aqueles que se matam (…) Essa classe de homens se caracteriza na trajetória de seu destino porque para eles o suicídio é a forma de morte mais verossímil (…) Não estou satisfeito em ser feliz. (…) A infelicidade de que necessito (…) me permitiria sofrer com ânsia e morrer com prazer (…)Anseio por uma dor que me prepare e me faça desejar a morte”, diz o narrador do romance de Hesse.

Bernhard chegou a declarar numa entrevista a TV austríaca: “Quando descrevo este gênero de situações centrífugas encaminhadas na direção do suicídio, trata-se certamente da descrição de estados em que eu próprio me encontro e em que, por outro lado, talvez me sinta bem enquanto escrevo, justamente porque não me suicidei, porque escapei disso”.

Assim também, ao final de “O Lobo da Estepe”, o protagonista entra num teatro mágico, que lhe abre, como uma droga, as portas da percepção (leiam “As Chaves das Portas da Percepção”, Aldous Huxley) para o interior do seu inconsciente e se depara com um letreiro que lembra bastante a literatura de Bernhard: “Delicioso suicídio! Você se arrebenta de rir!”

Todo o problema do personagem do livro de Hesse é um permanente mal-estar cuja fonte é a inadequação do seu espírito à sociedade, à massa, à média e à vulgarização burguesa da vida e dos valores. É por isso que ele se define como “lobo da estepe”.

Aos 48 anos, aluga um quarto mobiliado na casa de uma senhora onde passa a viver isolado do mundo. É um intelectual misantropo. Suas andanças são ao mesmo tempo um mergulho simbólico dentro de si mesmo e uma redescoberta sensorial dos prazeres físicos.

Quando sai para a rua, as coisas se sucedem como se ele estivesse sonhando ou alucinando e como se tudo dissesse respeito a si mesmo. Um mundo bem mais imaginário e simbólico do que real (o que é [o real]?).

À certa altura, recebe de um propagandista ambulante um panfleto que é a espantosa análise de sua própria personalidade. Encontra uma mulher que é, ao mesmo tempo, a lembrança de um amigo de infância e seu duplo (anima-Jung). É levado a um teatro mágico, “só para loucos”, cujo efeito é semelhante ao de uma droga de autoconhecimento. (plantas de poder – psicologia transpessoal – “Emergência Espiritual” Stan e Cristina Groff).

A duplicação de si se estende por todo o romance e culmina no jogo de espelho desse teatro mágico, em que o protagonista descobre que o eu é múltiplo. O autor se duplica em narrador e este, em elementos de sua própria narrativa. “Assim como a LOUCURA, em seu mais alto sentido, é o princípio de toda sabedoria, assim a esquizofrenia é o princípio de toda arte, de toda fantasia”. Ao que só lhe resta, como em Thomas Bernhard, “VIVER E APRENDER A RIR”.

Aviso aos navegantes/delirantes/leitores deste SKiZOeM@IL: Ler 22 (número do LOUCO no Tarô de Marselha-Leiam “Jung e o Tarô” A. Jaffete) vezes e depois responder este email escrevendo 22 (já sabem porque) linhas (mínimo) sobre os sentimentos que afloraram do seu inconsciente pessoal/coletivo (se é que vcs conseguiram se conectar a (22 MB/ps)).

Um abraço de camisa de força e um cheiro/pirado no cangote (das mulheres).

*Jorge M. Gouvêa – LOUCODIDATA EM FORMAÇÁO FAZENDO PÓS-PÓS-PÓS-PÓS-PÓS-DOUTORADO EM ARTECULTURALOUCURA

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"Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias; que é atingido pelos próprios pensamentos como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, como por uma espécie de acontecimentos e de faíscas de que só ele pode ser alvo; que é talvez, ele próprio, uma trovoada prenhe de relâmpagos novos; um homem fatal, em torno do qual sempre ribomba e rola e rebenta e se passam coisas inquietantes” (Friedrich Nietzsche).

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