Arquivo para 26 de junho de 2012

DEMÓSTENES TEM PEDIDO DE SUA CASSAÇÃO DETERMINADO PELO COMISSÃO DE ÉTICA DO SENADO

O senador Humberto Costa (PT/PE), relator do processo de quebra de decoro parlamentar  pedido pelo partido PSOL, contra o senador Demóstenes Sem Partido Torres, pediu na noite de ontem, dia 25, a sua cassação. O relator em um brilhante relatório, onde citou vários estadistas, filósofos, teatrólogos, e até Caetano, não possibilitou qualquer fenda para que a defesa de Demóstenes pudesse penetrar e armar qualquer estratégia para perturbar o relatório. Porque tratou-se de um relatório ímpar com total fundamentação política sem cair para signos pessoas.

Um relatório com elementos pedagógicos porque sintetizou as gravações da Policia Federal, onde o senador mostra sua inteira relação com o mafioso Carlos Augusto Ramos, vulgo Carlinhos Cachoeira, o que não há como nega o alto grau de envolvimento do mesmo com o contraventor, e mais sua defesa no Conselho de Ética. O senador Humberto Costa soube conduzir seu raciocínio, de pedido de cassação por quebra de decoro, de maneira convincente.

Com uma votação em aberto, os membros do Conselho de Ética do Senado proporcionaram à democracia um placar digno de uma partida de basquete: 15 a 0. Um placar que se delineava muito antes da votação nas falas dos senadores. Todos os presentes, e que falaram, foram unânimes em afirmar a importância da cassação de Demóstenes, tanto para a democracia, como para o Senado.

Quase todos lamentaram pelo fato de terem se deixado enganar pelo ex-campeão da moral parlamentar, como foi o caso do senador Mario Souto (PSDB/PA) que afirmou ter acreditado durante muito tempo no senador, e ter sido um grande admirador seu, por sua conduta ética, e seu desempenho como congressista, mas que estava decepcionado. O próprio senador paraense proporcionou aos presentes e telespectadores um hilário momento de constrangimento ao advogado de defesa de Demóstenes, ao dizer que pela primeira vez ele viu um advogado pedir a condenação de seu constituinte, ao afirmar que queria ver Demóstenes no plenário do Senado. O que levou o advogado pedir, antes da votação, direito de se explicar.

Outro que se decepcionou também com Demóstenes foi o vitalício senador Pedro Simon (PMDB/RG). Simon disse que era um admirador dele e que o considerava por sua inteligência e postura, mas que com as revelações percebeu que trata-se de uma representação. Simon chegou a afirmar que Demóstenes é um caso psiquiátrico. Um caso de dupla personalidade. No Congresso tinha uma personagem e junto aos seus era outra personagem.

Se o senador Simon fosse um estudioso da filosofia da duplicação ele iria citar o filósofo Clèment   Rosset, e dizer que Demóstenes não suportava a “crueldade do real”. O real como presente sintético, sem possibilidade de fuga, à não ser por sua inobservância. A sua negação pelo recurso da imaginação como denegação da realidade. O ferrolho que impede o sujeito temeroso de aceitar o real. No caso o senador Demóstenes. Para ele a simulação de uma existência insigne no território parlamentar, servia de condição racionalizada para transitar facilmente no submundo, onde não há exigência de uma ética realista, já que sua transgressão, em si, era a fabulação de outro mundo. Um mundo onde ele se sentia integrado e sem preocupação em denegá-lo.

Mas, de qualquer sorte, recorrer à psiquiatria em caso clínico como este, ainda é aceitável. Ainda mais de for uma psiquiatria que atue sabendo que o discurso dominante é da ordem do delírio histórico paranoico.

ENTIDADES REALALIZAM MANIFESTAÇÃO CONTRA GOLPE NO PARAGUAI QUE DESTITUIU O PRESIDENTE LUGO

A comunidade paraguaia que reside em São Paulo, mais entidades civis, organizações não governamentais, sindicatos, partidos políticos, estudantes e a sociedade civil realizaram ontem, dia 25, um ato de protesto em frente ao Consulado Geral do Paraguai. Os manifestante discursaram protestando contra a forma como se deu a deposição do presidente Fernando Lugo em que ele teve  apenas duas horas para se defender, em um processo de impeachment relâmpago jamais visto na história política. Todos os manifestantes se posicionaram contra a posse de Federico Franco, e exigiram a volta de Lugo ao poder. Um ponto que mais chamou atenção aos manifestantes foi o que se refere o fato de que o golpe foi consumado há menos de um ano da realização das eleições, e que Lugo tinha todas as chances de ser reeleito.

“O golpe se constitui na medida em que não houve o devido processo legal. A convocação de Lugo para prestar esclarecimentos já é uma condenação, e a sentença final dos parlamentares não apresenta nenhuma prova: simplesmente diz que as acusações são de conhecimento notório e não precisam ser provadas”, observou Pedro Chrabel, estudantes de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo.

Segundo Vicente Gamarra, da Comissão do Bicentenário do Paraguai, organização social que atua desde 1978, congrega imigrantes do Paraguai em São Paulo, a democracia do país passa por um momento muito difícil.

“Lugo foi eleito pelo voto popular, e alguns parlamentares passaram por cima da vontade do povo. Eles estão falando que a destituição é legal. Mas, há nove meses das eleições? Com apenas duas horas para o presidente se defender?”, interrogou Gamarra.

Para Ivan González, coordenador político da Confederação Sindical das Américas (CSA), a destituição de Lugo foi totalmente antidemocrático.

“A forma como destituíram Lugo é totalmente antidemocrática, vai contra os interesses do povo e o movimento sindical não pode aceitar. Respaldamos totalmente a luta do povo paraguaio, somos solidários ao presidente Lugo e apoiamos os trabalhadores paraguaios que estão mobilizados contra o golpe”, se posicionou Ivan.

Enquanto isso, o presidente deposto, Lugo, formou com seus auxiliares um governo paralelo com o objetivo de conduzir o processo de sua destituição e analisar as ações do no governo usurpador. Um governo que já vem sentindo as reações internacionais contrárias aos golpe. 

COMISSÃO DA VERDADE OUVE O EX-DELEGADO DO DOPS, CLÁUDIO GUERRA, AUTOR DO LIVRO “MEMÓRIAS DE UMA GUERA SUJA”

O ex-delegado do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), Cláudio Guerra, que serviu a ditadura militar que foi implantada no Brasil entre os anos de 1964 e 1985, e que confessou em seu livro “Memórias de Uma Guerra Suja” ter matado mais de 200 militantes que lutavam contra o regime de exceção que prendeu, sequestrou, torturou e matou, depôs na Comissão Nacional da Verdade onde reafirmou o que havia denunciado no livro e acrescentou novas informações.

Cláudio Guerra, reafirmou que incinerou na Usina Cambaíba, em Campos de Goytacazes, no norte do Rio de Janeiro, corpos de militantes de esquerda. Segundo o coordenador da comissão, ministro Gilson Dipp, o ex-delegado, durante a oitiva, sugeriu que a comissão entrevistasse algumas pessoas que foram indicadas por ele no livro. As denúncias sobre as incinerações dos corpos dos militantes estão sendo investigadas pelo Ministério Público e pela Polícia Federal. Levantada a questão se as investigações poderiam conturbar os trabalhos da comissão, ministro Gilson Dipp, disse que o grupo de trabalho não jurisdicional ou persecutório, e seu trabalho não é para oferecer dados ao Ministério Público.

“O Ministério Público trabalha em uma linha própria e eu não conheço nenhum detalhe. Se vai prejudicar, em um momento desses as pessoas podem ter algum temor”, disse Dipp.

O tenente-coronel reformado Paulo Malhães que deu entrevista afirmando que durante torturas os torturadores usavam jacarés e jiboias para pressionar os presos, pode ser convocado à depor. Informou o ministro Dipp.

“Em uma conversa informal, demonstrei minha opinião de que devemos ouvi-lo”, disse o ministro.

Diante das indagações se a Comissão Nacional da Verdade iria convidar a presidenta Dilma Vana Rousseff para depor, o ministro Gilson Dipp, disse que não. Segundo ele tudo que ela poderia falar sobre as sessões de tortura que sofreu quando foi presa acusada de militar em uma célula terrorista, já foi dito.

Em 2001, Dilma fez um depoimento revelando a tortura que sofreu em 1972, em Juiz de Fora, quando tinha 22 anos. Dilma militava em um grupo chamado de Comando de Libertação Nacional (Colina). O ministro disse que tudo que tem relação com a presidenta já foi apresentado pelo Conselho de Direitos Humanos de Minas Gerais (Conedh/MG).

“Minha arcada girou para outro lado, me causando problemas até hoje, problemas no osso do suporte do dente. Me deram um soco e o dente se deslocou e apodreceu”, revelou Dilma em seu depoimento. 

Lugo não reconhece novo governo e anuncia resistência

Em entrevista ao Página/12, Fernando Lugo diz que foi vítima de um golpe parlamentar e resumiu seu plano deste modo: “Resistência pacífica e não reconhecimento da presidência que se instalou depois do golpe de Estado”. Lugo pareceu mais animado do que estava na quinta, quando seu então vice, Federico Franco, o substituiu na Presidência. Ele afirmou que a sua postura pacífica de sexta teve o objetivo de evitar violência nas ruas e mortes. “No Paraguai há muita violência. Na sexta, os mercadores da morte estavam rondando”. A reportagem é de Martín Granovsky.

Martín Granovsky – Página/12

Assunção – Os seus colaboradores já encontraram um título para ele. “É o presidente dos paraguaios”, dizem, para diferenciá-lo do cargo de presidente do Paraguai que Fernando Lugo perdeu com a destituição de sexta-feira pelas mãos do Congresso. Domingo à noite, em entrevista ao Página/12, Lugo resumiu seu plano deste modo: “Resistência pacífica e não reconhecimento da presidência que se instalou depois do golpe de Estado”. Lugo parece mais animado do que estava na quinta, quando seu então vice, Federico Franco, o substituiu na Presidência. Parte de sua estratégia é interna e parte parece consistir em sua instalação internacional para fortalecer-se também entre os paraguaios.

Franco também procura agir nestes dois planos, a ponto de dizer ontem que Lugo é a única pessoa que pode evitar o conflito internacional. É uma forma de se referir aos problemas que experimenta o governo pelas crescentes medidas de castigo, começando pela já decidida suspensão do Mercosul. “Te cospem na cara e, ao mesmo tempo, te chamam de lindo”, disse Lugo ao Página/12, comentando a declaração de Franco.

Você percebe que Franco o torna responsável de qualquer represália que o Paraguai receba?

Não são castigos ao Paraguai. Estamos frente a um grande movimento de solidariedade internacional do qual participa teu país. A Argentina é um país irmão, vizinho e muito próximo, que conhecem muito bem a realidade paraguaia.

Retirou Rafael Romá, o embaixador.

Fez o que dentro de sua soberania considerou que seria útil para a liberdade e a soberania de um país que quer a democracia como o Paraguai.

E se a solidariedade se converter em problemas cotidianos, como você reagirá?

Infelizmente, muitos inocentes poderão sofrer as consequências. Eu quero o melhor para o Paraguai. Por isso, rechaçamos o regime.

Na madrugada de domingo, frente ao edifício da televisão pública, você falou de resistência pacífica. Essa será a tática?

Sim. Já começamos a resistência pacífica e não reconhecemos a presidência que se instalou depois do golpe de Estado parlamentar. E começam a surgir as manifestações de cidadãos e cidadãs. Elas crescem, são pacíficas e se expressam contra o que o parlamento decidiu naquela sexta-feira sombria. Também vamos realizar uma reunião de gabinete.

Quando?

Às seis da manhã (de segunda). Participarão dela todos os colaboradores do meu gabinete, quando estávamos no palácio de governo.

Ao se despedir dos chanceleres da Unasul, você disse que voltaria a seu trabalho político junto às bases. Foi o que relatou o chanceler Héctor Timerman ao Página/12.

E já começamos a fazer isso. Vamos unir forças com os movimentos sociais e sindicais.

Sempre dentro da ideia de não-violência?

Sim. Sempre.

Por isso, na sexta, quando o destituíram, teve uma atitude pacífica?

Sim. Nos submetemos ao julgamento político parlamentar e aceitamos o veredito para evitar derramamento de sangue. Somos contra todo tipo de violência e esse dia pressagiava violência e repressão. Hoje, já com o espírito sereno, as manifestações cidadãs são exemplares, o que ser visto nas ruas ou nas transmissões do Canal 13 do Paraguai e como o faz a televisão pública.

É uma forma de ação política que será repetida no interior do Paraguai?

Exato. E estamos serenos para essa tarefa. Esse é o motivo pelo qual a nossa atitude de sexta-feira foi ponderada por muita gente. No Paraguai há muita violência. Na sexta, os mercadores da morte estavam rondando. O julgamento era injusto, descabido e sem argumento, mas era preciso reagir como fizemos. Era a melhor coisa a fazer.

O dinamismo de sua atividade aumentará?

Estamos saindo nos comunicando com a cidadania. Hoje tivemos uma série de reuniões com líderes sociais e políticos. O rechaço crescerá. Estou seguro disso. Haverá uma consolidação do rechaço à presidência que surgiu da destituição.

Franco insiste que o Congresso só aplicou um artigo da Constituição, que fala de procedimentos e não de prazos para o julgamento político do presidente.

Sobre isso, gostaria de destacar o que disse o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos. A ferramenta do julgamento político é válida do ponto de vista jurídico e constitucional, mas os congressistas exageraram na forma.

Os congressistas poderiam dizer que votaram com maioria qualificada.

É um simples acordo de cúpulas feito pelo pelos dirigentes dos partidos tradicionais.

Em sua primeira aparição pública após ter sido destituído, você disse que havia setores políticos vinculados ao narcotráfico. A quem estava se referindo?

Há muitos parlamentares acusados de ter uma grande participação em negócios ilícitos. O narcotráfico está dentro de alguns setores da política. Há investigações que foram publicadas, denúncias…

Os próximos passos
Nosso projeto é reforçar a presença política de Fernando Lugo, disse ao Página/12, após a entrevista, um colaborador que pediu para não ser identificado. A análise otimista dos partidários de Lugo indica que Franco não conseguirá impor a ideia de que o responsável pelo eventual isolamento do Paraguai é o presidente derrubado. “Temos isso muito claro, não vemos um perigo nesse tema”, é a opinião geral. Outro ponto considerado pelos dirigentes próximos ao ex-presidente é que, como disse um deles, “virão tempos difíceis para o setor importador e também para o setor exportador”. “Os setores fáticos ficarão em má situação, cada vez pior”, disse. No Paraguai, assim como na Espanha, quando alguém fala dos “poderes fáticos”, está usando a expressão no mesmo sentido que “establishment” é usado na Argentina.

O núncio apostólico foi o primeiro representante diplomático estrangeiro a se reunir com Franco. Em outro setor da Igreja Católica, porém, o monsenhor Melanio Medina, bispo de Missiones e Ñeembucú, ironizou ontem em sua homilia o novo presidente: “Pobre Franco, em que confusão está metido, porque a estrutura parlamentar e capitalista não vai permitir que ele faça nada”. Disse ainda que a destituição foi “um golpe do Parlamento” e que Lugo foi afastado por “querer lutar a favor dos pobres”.

Medina também incursionou na análise diplomática. “No melhor dos casos, mais adiante se acerta a relação bilateral, mas se cortarão o gás e os combustíveis que o país compra da Argentina”, disse. Além disso, atribuiu o assassinato de onze camponeses e seis policiais em Curuguaty à cobiça dos proprietários de terras. Citou Blas Riquelme, dono de mais de 40 mil hectares.

A fronteira da soja se expande frequentemente no Paraguai, assim como ocorre em Santa Fé ou Santiago del Estero (na Argentina), com disparos para amedrontar ou atacar diretamente os pequenos proprietários de terra. Segundo Medina, tanto no Paraguai como na América Latina inteira há dois modelos: “O que busca a igualdade social e o capitalismo que só quer acumular fortunas e que não tem nenhuma preocupação com a situação dos pobres”.

As declarações de Lugo ao Página/12, os comentários de seus colaboradores e o testemunho do bispo Medina parecem marcar a busca, por parte de Lugo, da popularidade que teve em seu primeiro ano de governo, em 2008, e que foi perdendo, apesar das políticas sociais e do aumento do gasto em saúde.

Desde que começou a série de discursos, a maioria de militantes de base, na frente do edifício da televisão pública, a questão da saúde foi uma das mais repetidas entre os argumentos em defesa de Lugo, Neste mesmo lugar, na madrugada de domingo, o próprio Lugo apareceu e ali mesmo houve um indício da política que quer afastar Franco. Também pela madrugada apareceu uma pessoa de uns 35 anos, sorridente, que manifestou desejo de participar das sessões de microfone aberto.

Afirmou chamar-se Cristian Saguier e comunicou que era o chefe da nova direção da televisão pública. Anunciou que o governo não suprimiria o programa Microfone Aberto e que estava ali para “celebrar a discussão pública”.

Esse lugar pode ser um dos pontos de observação da política paraguaia. Por um lado, e para além do nível de audiência, mais baixo que o dos canais privados, Franco quer preservar a imagem de um Paraguai democrático, de um país que não incorreu na ruptura da ordem constitucional. Por outro, está embretado pela mesma realidade: mesmo com audiência menor, o programa é uma referência. O resto depende do que Lugo e os setores que o apoiam consigam fazer daqui até as eleições de 2013.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

Carta Maior

Há diferença fundamental entre os golpes de Honduras e Paraguai?

Nos dois casos, a derrocada de um presidente constitucional ocorreu através de processo sumário e operado pela via das instituições. Em ambas situações, esse modelo foi possível porque havia uma crise de poder nascida de uma mudança política incompleta: a conquista do governo pelos setores progressistas não se fez acompanhar por uma maioria parlamentar de esquerda e por reformas no sistema judiciário. O artigo é de Breno Altman.

Breno Altman – Opera Mundi

(*) Publicado originalmente no Opera Mundi.
A resposta a essa pergunta pode ser dada de bate-pronto: nenhuma. Ao menos no que diz respeito à sua natureza política. Nos dois casos, a derrocada de um presidente constitucional ocorreu através de processo sumário e operado pela via das instituições. Em ambas situações, esse modelo foi possível porque havia uma crise de poder nascida de uma mudança política incompleta: a conquista do governo pelos setores progressistas não se fez acompanhar por uma maioria parlamentar de esquerda e por reformas no sistema judiciário.

Essa contradição não é exclusiva de Honduras e Paraguai. O Brasil vive cenário bastante semelhante. O ápice desse conflito ocorreu em 2005, quando as forças conservadoras estiveram a poucos passos de apostarem no impedimento do presidente Lula. Faltou-lhes coragem e sobraram-lhes dúvidas sobre como reagiriam as ruas. As duas derrotas eleitorais, em 2006 e 2010, neutralizaram setores potencialmente golpistas e isolaram a direita mais açodada. Mas o pano de fundo continua o mesmo.

Mesmo países nos quais hoje a transformação política já atingiu todas as esferas do Estado, como é o caso de Venezuela e Bolívia, viveram essa contradição em outras fases. O golpe de Estado de 2002, contra Chávez, só foi possível quando a operação midiática dividiu as forças armadas e a base parlamentar governista, tirandou-lhe maioria na Assembléia Nacional. O boliviano Evo Morales, mesmo sem ter sido vitima de um golpe aberto, também viveu agruras parecidas.

A lição dessas experiências é que não há caminho possível para romper esse conflito sem um forte apelo à mobilização social e à atuação firme dos segmentos que apoiam os governos progressistas. Manobras institucionais podem abrandar os efeitos dessa contradição, da mesma forma que a criação de maiorias táticas (como, aliás, houve em um certo período no Paraguai e há no Brasil). Mas dificilmente pode ser erradicada sem que o protagonismo das organizações populares empurre a direita para uma situação de cerco.

Apenas depois de enfrentamentos desse gabarito Evo e Chavez, por exemplo, conquistaram amplas maiorias estratégicas para suas administrações. Além da mobilização exercer uma forte influência pedagógica sobre os cidadãos, geralmente acaba por empurrar as correntes reacionárias para aventuras fora do quadro constitucional. Quando fazem essa opção, em cenário de isolamento, são mais facilmente desmascaradas e demarcadas como inimigas atávicas dos processos democráticos.

Por razões distintas, nem Manuel Zelaya nem Fernando Lugo quiseram ou puderam criar as condições para uma ampla mobilização popular em defesa de seus mandatos e da ordem constitucional quando os golpistas começaram a tecer seus planos. O primeiro porque havia feito um rara passagem da oligarquia para o campo progressista, perdendo velhos amigos sem ganhar a confiança plena dos novos aliados. O segundo porque, eleito por uma coalização à esquerda, foi frustrando seus seguidores com concessões infindáveis, no afã de apaziguar as forças conservadoras. Perdeu antigos apoios e, de quebra, acabou derrubado por quem tentou cativar.

Justiça seja feita, e aqui vai a primeira diferença importante, o fazendeiro Zelaya colocou seu chapelão e não se rendeu aos golpistas, comandando um longo processo de resistência. O padre Lugo, abatido e anêmico, foi para casa sem assumir a liderança do questionamento à ordem imposta pelos parlamentares sublevados. Começou a acenar com atos de resistência quando já havia aceito sua substituição ilegítima.

Também há um traço de identidade nos interesses representados pelas coalizões oposicionistas das duas nações. No epicentro da conspiração estão grupos de latifundiários e banqueiros, associados a empresas de comunicação, que rejeitam qualquer reforma voltada para a democratização da terra ou o controle dos mecanismos rentistas.

Outra semelhança pode ser encontrada na postura dos Estados Unidos. Nos dois episódios, a Casa Branca impulsionou a mão de gato contra o voto popular. A princípio, com vários senões e cautelas. Depois, consumada a operação golpista, de forma escancarada. Aliás, já tinha feito o mesmo no putsch venezuelano e na tentativa de desestabilizar Evo. Não é preciso esforço para chegarmos à conclusão que o golpismo não pode ser tratado como peça de museu da Guerra Fria. Devidamente atualizada, essa alternativa continua presente no arsenal norte-americano contra as experiências progressistas da América Latina.

Reação branda Também de diferente, o que podemos registrar, ao compararmos Honduras e Paraguai, foi a atitude da diplomacia brasileira, que transitou do rechaço inegociável para uma posição de protesto. Os presidentes do Equador, da Argentina, da Venezuela e da Bolívia já disseram claramente que se tratou de um golpe de Estado e declararam que o novo governo não tem legitimidade. O Brasil, mesmo na nota na qual acena com sanções nos termos da cláusula democrática do Mercosul e da Unasul, não foi tão taxativo a respeito.

Há informações de bastidores dando conta que Fernando Lugo cogitou recusar a passagem do cargo e dissolver o Congresso, mas teria se deparado com a negativa brasileira de dar apoio a esse tipo de reação. Se assim ocorreu, trata-se de uma resposta distinta à adotada no golpe contra Zelaya.

As razões para essa alteração ainda não estão claras. Uma das possibilidades é o receio de assistir Chile e Colômbia, governados por conservadores, se afastarem da Unasul. Outra possibilidade é a dúvida acerca da consistência da reação prometida pelo próprio Lugo, que ademais poderia transformá-lo de vítima em agressor. Os próximos passos do Itamaraty, no entanto, poderão esclarecer melhor se estamos apenas diante de inflexões circunstanciais ou de uma nova estratégia.

Numa mirada mais abrangente, esta mudança de orientação, se verdadeira, residiria principalmente no modo de administrar as relações com Washington. Até a intentona em Assunção, poderiam ser notadas novas abordagens na política para o Oriente Médio, particularmente em relação à Síria, ao Irã e mesmo à intervenção da OTAN contra a Líbia de Kaddafi. Com Lula e Amorim, de forma corajosa, o Brasil puxava um bloco contra-hegemônico, que desafiava abertamente os desígnios da superpotência. Hoje, as vezes, parece que esse objetivo saiu da agenda.

Uma paradigma readaptado implicaria, também, num lidar distinto com as forças conservadoras quando essas se lançam em golpes institucionais. Eventualmente não por conta de um novo conceito, mas para evitar conflitos com governos fora do arco progressista e com os norte-americanos, além de prevenir exaltações internas com a mídia e as elites nacionais.

Se há mesmo uma conduta diferenciada, essa acabou por sofrer, logo na estréia, inegável derrota, ao menos provisoriamente. Os atores moderados ou conservadores podem estar mais satisfeitos com o tom adotado em relação ao golpe no Paraguai, mas o fato concreto é que os golpistas não deram ouvidos e um presidente aliado foi derrubado.

Poderia ser dito que, no caso hondurenho, o Brasil tampouco viu sua política ser vitoriosa, pois Zelaya não voltou à Presidência. Isso também é verdade. Mas o país colheu frutos positivos, como líder regional, por sua firmeza em defesa da democracia. E conseguiu ists num país localizado em região onde a hegemonia dos Estados Unidos pontifica incontrastável.

Já a pátria guarani é integrante do Mercosul e sob forte influência verde-amarela. Aqui, ao contrário de Honduras, o Brasil tem meios de colocar a faca no pescoço dos golpistas. Se não tivermos êxito nisso, outros ensaios antidemocráticos poderão ter curso, na América do Sul ou mesmo dentro das fronteiras pátrias.

Oxalá a aparente brandura brasileira seja apenas um momento. Afinal, a história não conhece golpes que tenham sido impedidos ou revertidos com punhos de renda. E salpica de exemplos sobre como a contemporização tem o dom de estimular o apetite fascista das oligarquias.

Carta Maior

Sétima arte no primeiro dia da Bienal do B


USAR O CONTROLE REMOTO É UM ATO DEMOCRÁTICO!

EXPERIMENTE CONTRA A TV GLOBO! Você sabe que um canal de televisão não é uma empresa privada. É uma concessão pública concedida pelo governo federal com tempo determinado de uso. Como meio de comunicação, em uma democracia, tem como compromisso estimular a educação, as artes e o entretenimento como seu conteúdo. O que o torna socialmente um serviço público e eticamente uma disciplina cívica. Sendo assim, é um forte instrumento de realização continua da democracia. Mas nem todo canal de televisão tem esse sentido democrático da comunicação. A TV Globo (TVG), por exemplo. Ela, além de manter um monopólio midiático no Brasil, e abocanhar a maior fatia da publicidade oficial, conspira perigosamente contra a democracia, principalmente, tentando atingir maleficamente os governos populares. Notadamente em seu JN. Isso tudo, amparada por uma grade de programação que é um verdadeiro atentado as faculdades sensorial e cognitiva dos telespectadores. Para quem duvida, basta apenas observar a sua maldição dos três Fs dominical: Futebol, Faustão e Fantástico. Um escravagismo-televisivo- depressivo que só é tratado com o controle remoto transfigurador. Se você conhece essa proposição-comunicacional desdobre-a com outros. Porque mudanças só ocorrem como potência coletiva, como disse o filósofo Spinoza.

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CAMPANHA AFINADA CONTRA O

VIRTUALIZAÇÕES DESEJANTES DA AFIN

Este é um espaço virtual (virtus=potência) criado pela Associação Filosofia Itinerante, que atua desde 2001 na cidade de Manaus-Am, e, a partir da Inteligência Coletiva das pessoas e dos dizeres de filósofos como Epicuro, Lucrécio, Spinoza, Marx, Nietzsche, Bergson, Félix Guattari, Gilles Deleuze, Clément Rosset, Michael Hardt, Antônio Negri..., agencia trabalhos filosóficos-políticos- estéticos na tentativa de uma construção prática de cidadania e da realização da potência ativa dos corpos no mundo. Agora, com este blog, lança uma alternativa de encontro para discussões sociais, éticas, educacionais e outros temas que dizem respeito à comunidade de Manaus e outros espaços por onde passa em movimento intensivo o cometa errante da AFIN.

"Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias; que é atingido pelos próprios pensamentos como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, como por uma espécie de acontecimentos e de faíscas de que só ele pode ser alvo; que é talvez, ele próprio, uma trovoada prenhe de relâmpagos novos; um homem fatal, em torno do qual sempre ribomba e rola e rebenta e se passam coisas inquietantes” (Friedrich Nietzsche).

Daí que um filósofo não é necessariamente alguém que cursou uma faculdade de filosofia. Pode até ser. Mas um filósofo é alguém que em seus percursos carrega devires alegres que aumentam a potência democrática de agir.

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