Arquivo para 3 de agosto de 2012

PEDIDO DE DESMEMBRAMENTO DO PROCESSO DO “MENSALÃO” É NEGADO PELO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL

Por 9 votos contra 2 os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) negaram o pedido de desmembramento do processo do “mensalão” feito por advogados de alguns réus que conduziria a maioria dos réus à julgamento em primeira instância. O foi o ex-advogado do mafioso Carlinhos Cachoeira, e ex-ministro da Justiça do governo Lula que defende o ex-diretor do Banco Rural José Roberto Salgado, Márcio Thomaz Bastos, quem levou o tema para ser apreciado no tribunal.  

Márcio Thomaz Bastos questionou o fato da maioria dos réus ser julgada pelo STF, quando os deputados João Paulo Cunha (PT/SP), Valdemar Costa Neto (PR/SP) e Pedro Henry (PP/MT) é que têm essa prerrogativa de serem julgado pelo STF. Segundo Marcio Bastos, a Constituição e a legislação internacional que é seguida pelo Brasil permitem que os réus comuns tenham direito de serem julgados pelo menos duas vezes, por duas instâncias diferentes. Todavia a Corte já é a última instância de apelação.

Apesar dos advogados do publicitário Marcos Valério e do ex-presidente do Partido dos Trabalhadores, José Genoino, seguirem a mesma linha de argumento do advogado Márcio Thomaz Bastos, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, disse que o STF já havia analisado o assunto várias vezes, negando sempre a divisão da ação penal.

Mas o tema não foi facilmente resolvido. O ministro Ricardo Lewandowski, revisor do processo, se posicionou a favor do desmembramento afirmando que era um fato inédito trazido pelos advogados. O ministro Joaquim Barbosa, relator do processo não gostou nada da posição do comparsa e reagiu indignado.

“Não vejo razão, me parece até irresponsável voltar a discutir essa questão. Me causa espécie vossa excelência se pronunciar pelo desmembramento oito meses depois de começarmos a preparar os votos. É uma deslealdade do revisor”, observou Joaquim Barbosa.

Diante do tom do ministro Joaquim Barbosa, o ministro Lewandowski se disse “perplexo, estupefato e horrorizado”, e que não esperava essa atitude de Barbosa.

“Vamos manter o debate a nível civilizado. Vossa excelência se atenha aos fatos e não à minha pessoa”, replicou Lewandowski.

Posteriormente, através de sua assessoria, o ministro Joaquim Barbosa , por meio de uma nota respondeu ao ministro seu colega Lewandowski.

“Não fiz ataques pessoais. Apenas externei minha perplexidade com o comportamento do revisor, que após manifestar-se três vezes contra o desmembramento, mudou subitamente de posição, justamento na hora do julgamento, surpreendendo a todos, quase criando um impasse que desmoralizaria o tribunal. Note-se: a questão seria abordada por mim, relator, antes do voto de mérito, como preliminar. O fato é que perdemos um dia de trabalho, segundo cronograma pré-fixado”, diz trecho da nota.

A ministra Rosa Weber foi do mesmo parecer do ministro Joaquim Barbosa, afirmando que o STF não poderia voltar uma questão que já havia sido discutida no passado.

“Não se pode, no mesmo processo, voltar à atrás, a marcha é para frente”, disse a ministra Rosa Weber.

Já o ministro Marco Aurélio de Mello também votou pelo desmembramento defendendo a tese de que o direito do réu tem que sempre colocado em primeiro lugar. Os outros ministros Gilmar Mendes, Cezar Peluzo, Dias Toffoli, Carmen Lúcia, Celso de Mello e Ayres Brito seguiram o voto do relator Joaquim Barbosa.   

SINDICATOS CONFIRMAM CONTINUAÇÃO DA GREVE DOS PROFESSORES DAS UNIVERSIDADES FEDERAIS

Os sindicatos que representam os professores das universidades federais, depois da posição intransigente do governo federal ao por fim as negociações afirmando que havia chegado ao seu limite nas negociações, resolveu reafirmar o que já havia decidido antes de ontem: Os professores das universidades federais vão continuar com a paralisação.

Para Marinalva Oliveira, a presidenta da Associação Nacional dos Docentes das Instituições do Ensino Superior (Andes) o objetivo do movimento é continuar fortalecendo a greve, continuar “insistindo nas negociações”.

“Nós acreditamos que ninguém vai voltar a trabalhar. Quem interrompeu o processo de negociação foi o governo e não nós. Foi uma decisão unilateral. A partir daí nós manifestamos a decisão de fortalecer a greve. A decisão de toda a categoria é continuar o processo de negociação.

O governo quando veio com a proposta dele em nada considerou a proposta colocada pela Andes-SN. Nós trabalhamos com reestruturação de carreira. Queremos o mesmo percentual de aumento entre os níveos (5%), progressão de carreira segundo critérios de titulação, por exemplo, de serviço e desempenho que sejam definidos em cada instituição e não como o governo propõe, definido posteriormente. É como se você estivesse assinando um cheque em branco para tua progressão”, analisou a presidenta da Andes, Marinalva Oliveira.

Agora, a nova determinação, segundo a Andes, é procurar marcar audiência com o ministro da Educação, Aluizio Mercadante, e a ministra do Planejamento, Miriam Belchior, para abrir nova frente de negociações. 

CONCLUSÃO DAS INVESTIGAÇÕES DA CPMI DE CACHOEIRA OCORRERÁ DENTRO DO PRAZO

O deputado Paulo Teixeira (PT/SP), vice-presidente da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito que investiga a quadrilha do mafioso Carlos Augusto Ramos, vulgo Carlinhos Cachoeira, e suas relações com agentes públicos e empresários em um esquema de corrupção que amealhou milhões de dinheiro público, afirmou que a CPMI vai terminar no prazo certo. Não será necessário.

De acordo com o deputado, o térmico das investigações pode coincidir com o pleito eleitoral. No momento a preocupação da CPMI é começar as conclusões começando pelo fluxo econômico da quadrilha de Cachoeira que movimentou vasta soma de dinheiro através de empresas fantasmas. As conclusões também estão focadas na quantidade de recursos que o grupo criminoso conseguiu, quanto ainda há de recursos e quais os bens envolvidos. Tudo para que a Justiça possa ser acionada e recuperá-lo.

O deputado Teixeira não mostrou preocupação com os habeas-corpus que os envolvidos no esquema mafioso vêm conseguindo para se manterem calados. Ele disse que existem outros meios de investigá-los, como por exemplo, as quebras de sigilos, documentos e escutas telefônicas.

“O presidente Vital Rego e o relator Odair Cunha querem concluir os trabalhos no fim de outubro, que coincide com as eleições. Portanto, não dá para esperar. Além disso, a CPMI deve continuar com suas reuniões ordinárias terças e quartas-feiras.

Temos outros meios de provas como, como quebras de sigilo, documentos e escutas feitas durante o inquérito. Assim, a CPMI já tem muita coisas que estará no relatório do relator Odair Cunha”, observou o deputado.

“Meu avô deixou arsenal valioso para luta contra capitalismo”, diz neto de Trotsky

Em entrevista à Carta Maior, Esteban Volkov, neto do revolucionário russo León Trotsky, fala sobre as memórias que conserva do avô no ano em que se completam 75 anos da chegada de Trotsky ao México. Volkov, que testemunhou o assassinato do avô por um agente stalisnista, defende a atualidade do pensamento e da prática de Trotsky no momento em que o marxismo adquire a cada dia mais vigência. A reportagem é de Eduardo Febbro.

Eduardo Febbro – Cidade do México

Cidade do México – Esteban Volkov atravessou um século sem perder nada do que deixou para trás nem do novo no qual vive como se fosse um contemporâneo recém-chegado a este mundo de tecnologia e mentiras globalizadas. Esteban Volkov falava em francês com seu avô León Trotsky, cuja chegada ao México está completando 75 anos. O revolucionário russo havia fugido dos algozes de Stalin para se instalar neste país. Trotsky e sua mulher trouxeram Esteban Volkov de Paris. A história de Volkov criança é uma tragédia que a imensa alegria com que hoje se expressa não permite sequer adivinhar. Esteban Volkov não só é neto de Trotsky, mas também a única testemunha ainda com vida do assassinato de Trotsky por um agente de Stalin, o espanhol Ramón Mercader.

O pai de Volkov foi deportado para a Sibéria em 1928 e desapareceu em um Gulag quando foi enviado para lá em 1935. Sua mãe escapou da URSS com ele e se reuniu com os Trotsky na ilha turca de Princípios. A vida não lhe deu descanso e ela se suicidou em Berlim em 1933. Esteban Volkov ficou só na capital alemã até que foi enviado a um internato de Viena e depois a Paris.

Trotsky e sua esposa estavam exilados no México e conseguiram trazê-lo com eles. Houve um primeiro atentado contra Trotsky do qual toda a família saiu ilesa. Mas chegou um infiltrado, Ramón Mercader. No dia 20 de agosto de 1940, quando Esteban Volkov voltou do colégio, encontrou Trotsky com o crânio quebrado a marteladas. Volkov conta que Trotsky pediu que afastassem seu neto da cena.

Esteban Volkov cresceu no México. Não faz política. Estudou engenharia química, mas sempre manteve viva a memória de León Trotsky através de um Museu, que é a casa onde viveu com seus avós, Trotsky e sua mulher. Hoje tem 86 anos e uma memória que não falha nunca. Em entrevista à Carta Maior, o neto do revolucionário russo evoca aqueles anos, o legado de Trotsky, sua obra, e os estragos do mundo atual.

– 75 anos depois da chegada de Trotsky ao México e quando transcorreram 72 anos de seu assassinato, o que a figura e o legado de León Trotsky podem representar hoje.

– Na medida em que o marxismo está adquirindo cada dia mais vigência, apesar de todas as vezes que o enterraram, sempre surge com mais vida. Um dos mensageiros e portadores e guias marxistas mais atuais é, indiscutivelmente, o grande revolucionário León Trotsky. Foi um personagem chave em um dos acontecimentos mais importantes da história contemporânea, que foi a Revolução Russa. Trotsky teve um papel vital nela. Mas o que é mais meritório nele, em todas as etapas nas quais interviu, é o fato de que transcreveu com minúcia toda aquela experiência histórica e política. Trotsky deixou um legado muito valioso, um arsenal ideológico revolucionário de grande atualidade e extremamente fértil e útil para todas as lutas revolucionárias atuais e futuras.

Não resta dúvida de que o capitalismo está demonstrando que é um sistema totalmente obsoleto e injusto e que não cumpre em nada as necessidades do gênero humano. Ao contrário, o capitalismo está destruindo o planeta, está criando mais miséria, mais sofrimento. A necessidade de uma mudança é vital. Tenho certeza de que a maior parte da humanidade tomará consciência desta situação e lutará por outro mundo. É aí onde todo o arsenal ideológico de Trotsky é extremamente valioso. Hoje os meios de comunicação intoxicam as massas e acabam criando isso que Marcuse chamava de uma mentalidade unidimensional. Mas os processos de tomada de consciência são como relâmpagos.

– Muitos historiadores consideram que esse arsenal ainda está inexplorado.

– Acontece que é muito vasto: não há uma área, não há um país que Trotsky não tenha considerado em suas análises. Qualquer documento que alguém leia de Trotsky é muito útil e instrutivo e com um grande acerto em suas análises. Por agora não há outra coisa melhor que o socialismo. O marxismo foi o único que fez um diagnóstico acertado do que é o capitalismo. Trotsky fez a mesma análise no que se refere ao que realmente era o burocratismo stalinista. Ninguém melhor que ele! Essa foi sua grande contribuição: ter analisado o bonapartismo stalinista.

Lamentavelmente o trotskismo não escapou do rumo que conhecem todos os partidos políticos. Mas o prognóstico de Trotsky quando dizia “estou seguro da quarta internacional” está aberto, ainda não se cumpriu. Seus seguidores deveriam fazer que isso se tornasse realidade. Não tem que se fechar em uma redoma de cristal. Os partidos devem levar a cabo um trabalho ativo e revolucionário. Não tem que se fechar em um café para discutir e sentir-se grandes teóricos da humanidade.

– O México que Trotsky conheceu quando chegou há 75 anos era um país revolucionário. O de hoje é muito diferente.

– Sim, ele chegou ao México quando ainda persistia o espírito e as ondas da
Revolução. Ainda havia um clima revolucionário. Depois veio um processo de industrialização sob um regime capitalista e o México se afastou dos fundamentos da Revolução mexicana.

– Curiosamente, você protegeu o legado de Trotsky, mas, entretanto, não incorreu no campo da política.

– Não, claro, eu sou químico. Meus comentários são os do observador científico, não do político. Mas eu vivi em carne própria todo o capítulo que foi a contrarrevolução stalinista. Todo esse clima de assassinatos, de terror, de monstruosas falsificações históricas. Vivi esse clima na própria carne, junto com milhões de seres humanos. Mas eu tenho o privilegio de estar vivo e poder testemunhar. Sabemos que a memória histórica é um dos patrimônios mais importantes do gênero humano. Para poder construir o futuro faz falta essa memória histórica. Um dos grandes crimes de Stalin, além de massacrar milhões de seres humanos, falsificar a história e arrancar páginas e alterar seu conteúdo, foi justamente isto: mutilar e falsificar a história.

– Você acredita que os crimes do stalinismo estão mal conservados pela memória em relação aos que Hitler cometeu?

– Indiscutivelmente Hitler foi um grande, grande criminoso, mas nessa competição eu acho que Stalin ganha por muito. Hitler era um assassino frio dentro de sua lógica racista e absurda. Mas Stalin agregou a isso uma dose de crueldade e de sadismo que ninguém superou até agora. Não lhe bastava matar. Eu sou um sobrevivente com sorte.

– Você conservou viva a lembrança de Trotsky, por meio do Museu que está em Coyoacán, um pouco para resgatar essa memória?

– Eu continuei morando nessa casa muitos anos com minha avó. Seu desejo sempre foi conservar esse lugar histórico. E não foi sem luta e sem esforço. Os stalinistas do México tentaram em muitas ocasiões aniquilar esse lugar. Até quiseram fazer um jardim de infância! Mas não conseguiram. Eu nunca me interessei pela política, mas por osmose estava a par de todas as dinâmicas das lutas. Mas Trotsky sempre me protegeu da política. Nos tempos do meu avô, ele dizia a seus secretários e guarda-costas que não falassem de política comigo. Ele tentava me afastar da política. Mas eu vivi uma vida normal, muito próxima dessa atmosfera de adrenalina que se vivia na casa de Trotsky. Era um estado de excitação muito agradável.

– Entretanto, você foi testemunha do primeiro atentado e do segundo, o que custou a vida a Trotsky.

– Sim, no primeiro atentado, quando metralharam a casa, eu estava ali. Salvamos-nos todos milagrosamente. Um dos stalinistas esvaziou seu revolver sobre a cama onde eu estava escondido. Mas me encolhi e me salvei.

– Que pensa hoje de movimentos como o dos indignados ou o movimento estudantil mexicano YoSoy132?

– É um início, o começo de uma consciência para assumir uma atitude de luta política. Acrescenta muito.

– Neste aniversário da chegada de Trotsky ao México, o que você recupera dele como mensagem, como compromisso além de sua obra?

– Eu acho que o principal é o aspecto ético, moral, onde o agir deve estar coordenado com o pensar. O pensamento e a ação devem ser uma coisa só. A verdade deve estar acima de tudo. O exemplo é sua vida. Foi um guia, para mim e para minha família. Para minhas filhas, por exemplo, que não são marxistas nem revolucionárias, elas tem muito inculcado esse principio ético de absoluto respeito à verdade e à justiça.

Tradução: LIbório Junior

Fotos: Eduardo Febbro

“Houve extermínio sistemático de aldeias indígenas na ditadura”

Perseguido pela ditadura, José Humberto Costa do Nascimento, o Tiuré Potiguara, abandonou seu trabalho na Funai, viveu escondido na floresta amazônica e, após conseguir deixar o Brasil, foi reconhecido como refugiado pelo governo do Canadá. Agora, de volta ao país, ele aguarda a Comissão de Anistia julgar seu pedido de reconhecimento como vítima do regime e quer a ajudar a Comissão Nacional da Verdade a resgatar a história do que classifica como “genocídio indígena praticado pela ditadura”.

Najla Passos

Brasília – Em entrevista exclusiva à Carta Maior, Tiuré descreve o que testemunhou das atrocidades cometidas pela ditadura contra os índios, critica a participação dos irmãos Vilas Boas no processo, cobra autonomia para as nações indígenas e reivindica que o país dê o passo histórico necessário para o reconhecimento dos povos originários que, segundo ele, embora não conste nos registros oficiais, são tão vítimas dos militares quando estudantes, operários, militantes e camponeses.

“Pode parecer irônico falar isso, mas a repressão, as torturas, as atrocidades cometidas no meio urbano parecem maior, parecem que doeram mais do que as que foram cometidas contra os índios. Hoje se fala em 400 desparecidos nas cidades, mas nós podemos falar em cinco mil desaparecidos indígenas, porque houve extermínio sistemático de aldeias. Era uma política de estado”, afirma.

Qual a sua etnia, a sua região de origem?
Eu sou da etnia potiguara, do litoral da Paraíba. Antes, nós ocupávamos um território que ia da Paraíba ao Maranhão. Hoje em dia, estamos reduzidos somente ao norte do estado, na costa.

E como foi seu envolvimento com a ditadura militar?

Na década de 1970, eu era funcionário da Funai e, lá dentro, eu pude ver a política oficial da ditadura com relação aos índios. Impossibilitado de conviver com aquilo, abandonei o órgão e, convidado pelo líder de uma aldeia parkatejê, fui embora para a Amazônia, ajudá-los a se organizar para combater os militares. A aldeia ficava no sul do Pará, numa região já marcada pelo combate à Guerrilha do Araguaia. Era uma região de forte presença dos militares.

E a ditadura tinha, de fato, essa política de dizimar aldeias, cometer abusos e violações de direitos humanos contra os indígenas?

Isso hoje tá comprovado. Havia um coronel chamado Amauri, chefe da Funai em Belém, que usava de todos os métodos para exploração, por exemplo, do ouro e da castanha do Pará, obrigando os índios a trabalharem em sistema de escravidão. Ele usava a repressão, a violência, atirava… o grupo parkatejê já era considerado exterminado. De 1964 até 1975, a etnia perdeu mais de mil pessoas. Um processo de dizimação mesmo, porque já estava em andamento a tática da ditadura de ocupação da Amazônia, com os grandes projetos, como a transamazônica. E todo esse projeto eu vi dentro da Funai, quando ainda trabalhava lá. E era um projeto já ditado pelos americanos. Eu tive acesso a diversos documentos. Eu não sabia ler em inglês, mas compreendida os relatórios do adido militar americano no Brasil. Então, já existia um entendimento para desocupação desta área para exploração dos grandes projetos, como Carajás, Tucuruí, as grandes linhas de transmissões, a ferrovia, Serra Pelada… e os índios atrapalhavam, porque estavam em cima dessa região.

E você participou ativamente da resistência indígena?
Sim, e em consequência disso, tive que ficar dois anos escondido na mata, porque o Exercito estava atrás de mim, a Polícia Federal tinha ordem para me prender. Como eu não pertencia à aldeia, eles achavam que era eu que estava acirrando os índios. Fui considerado subversivo, agitador, não podia sair. Eles iam até de helicóptero atrás de mim. A perseguição fui muito grande, não só para mim, mas para outras lideranças também. E houve mortes, sequestros, torturas que, por ocorrerem na floresta, por não se darem no ambiente urbano, era muito mais impune, muito mais abafada. Tanto é que até hoje se procuram os guerrilheiros do Araguaia.

Na floresta, os militares usaram de todas as atrocidades possíveis, porque acharam que iam ficar totalmente cobertos, que não haveria testemunhas e que esta história nunca viria à tona, como está acontecendo hoje. E obrigavam os índios, por exemplo, a ajudá-los a eliminar os guerrilheiros. Colocavam os índios na frente, como bate-paus, para identificar os acampamentos. Como foi o caso dos suruís.

E esses índios ainda estão vivos, podem ajudar a recontar a história, a localizar ossadas?

Eu mesmo passei por um cemitério de guerrilheiros quando estava na companhia dos suruís. Nós estávamos fazendo um levantamento da área suruí para saber se havia possibilidade de extrair castanha. Já havíamos feito isso com os parkatejês, que são vizinhos, e eles também queriam uma fonte de renda própria, para não ter mais que depender da Funai. E eu fui designado para ir ajudá-los. A gente andava muito pela mata e, em uma dessas caminhadas, o grupo que estava comigo falou: “Tiuré, aqui estão enterrados os camará”. Camará são os brancos que estavam na área, os guerrilheiros do Araguaia. Devem ter alguns desses índios vivos até hoje. Eles eram mais velhos do que eu. E se eu estou com 63 anos, então devem ter 70 ou 80 anos. E no lugar dava pra ver realmente que não tinha mata, que existiam algumas covas rasas, bem na beira de um rio. É claro que, depois, os índios viram também militares voltarem lá para as tais “operações limpeza”, a retirada dos ossos. Mas os militares não eram assim tão minuciosos. Ainda podem haver alguns vestígios da presença de guerrilheiros por lá. Neste cemitério específico, eu soube que haviam sido enterrados três guerrilheiros.

Como os suruís lidavam com a violência praticada pelos militares?
Isso acabava com eles. Os suruís tiveram muitas índias estupradas. Se você for hoje na aldeia, ainda há filhos de militares do Exército, de soldados e mesmo dos de patentes altas. Os militares fizeram campos de aviação na área. Os índios não podiam sair da aldeia. Toda a liberdade que eles tinham foi reduzida. E aqueles que não participavam das ações militares eram reprimidos e até mortos. Uns tinham que fugir dali. Então, os suruís foram vítimas, foram amordaçados dentro de seu próprio território, e obrigados a caçar os guerrilheiros, com quem eles já haviam estabelecido contato e relação de amizade. Porque, entre os guerrilheiros tinham dentistas, médicos que mantinham relações amistosas com eles. Iam na aldeia, trocavam milho, enfim, tinham um bom relacionamento antes da repressão chegar na floresta. Eles conheciam mesmo os guerrilheiros, e tinham conhecimento da região como a palma da mão. E, numa das ações, eles localizaram um acampamento, foram na frente, e o Exército chegou atrás, pegou os guerrilheiros totalmente desprevenidos, sem condições de reação. Os militares executaram todos eles e ainda obrigaram os índios a participar do ritual de corte de cabeças. Quando eu cheguei na aldeia, uns dois anos depois, esse ritual ainda afetava muito os suruís. Achavam que foi uma prática tão bárbara contra outro ser humano que não conseguiam superar.

Você já pediu reparação ao estado brasileiro pelos crimes cometidos contra você?

Eu já dei entrada no pedido de anistia política. Não pelo dinheiro, mas por acreditar que meu reconhecimento como anistiado vai abrir uma porta para que outros índios, como os suruís, também consigam. Eu também já me coloquei à disposição para voltar a área, recuperar a confiança dos suruís e pedir que eles ajudem os brancos a localizar os corpos dos camarás, para que as respectivas famílias possam fazer os devidos rituais para os seus mortos. Para que possam vencer essa etapa da sua história. Estou aguardando o retorno das autoridades, mas até agora nada.

Você acha que existe algum tipo de resistência em incluir os índios como vítimas da ditadura? Como se os índios fossem os excluídos dos excluídos?

A sociedade brasileira vem de uma herança colonizadora que já soma 500 anos de exclusão indígena. Até hoje nós não temos nossa história contada por nós mesmos. Há sempre uma história oficial que se sobrepõe. Então, esse reencontro da sociedade branca com a sociedade indígena, a tal reconciliação de que tanto se fala hoje, passa por esse reconhecimento do outro, pela aceitação dos primeiros habitantes desta terra, da sua cultura, da sua herança cultural para o povo brasileiro. Infelizmente, ainda não temos esse respeito. A resistência à aceitação dos índios como vítimas da ditadura é muito grande. Pode parecer irônico falar isso, mas a repressão, as torturas, as atrocidades cometidas no meio urbano parecem maior, parecem que doeram mais do que as que foram cometidas contra os índios. Hoje se fala em 400 desparecidos nas cidades, mas nós podemos falar em cinco mil desaparecidos indígenas, porque houve extermínio sistemático de aldeias. Era política de estado. Então, nós estamos tentando levantar essa documentação para comprovar isso. Tem muita coisa que foi publicada no exterior, e também estamos buscando os documentos existentes no Brasil. E, principalmente, os relatos de pessoas que ainda estão vivas. Que estão velhos, mas estão vivos.

É a oportunidade do estado brasileiro dar um passo a frente no reconhecimento do outro, do índios brasileiro que foi afetado não só pela ditadura, mas é até hoje. É a questão da terra, do desenvolvimento impulsionado de cima para baixo. Seja a soja, o minério, a exploração dos recursos hídricos dos territórios indígenas. No Canadá, eu participei do movimento indígena canadense e é muito diferente daqui.

Você viveu no Canadá, quando?
Eu fui em 1985 porque, quando se fala em abertura política, estamos falando de uma questão teórica, porque a ditadura continuava, principalmente no meio do mato, no interior. Dura até hoje. O coronelismo ainda está lá. O poder político, os currais eleitorais, estão lá. Os assassinatos das lideranças indígenas e das lideranças rurais, as queimas de arquivo, a impunidade, tudo isso continua. E se eu saí do país em 1985, é porque já não existia mais nenhuma possibilidade para mim. Se eu não saísse, eu não estaria hoje aqui contando essa história. Foi a possibilidade de consciência, porque muitos outros índios não tiveram condições de sair. No Canadá, pedi reconhecimento como refugiado político. Foi um processo longo, que levou cinco anos de investigações. O governo canadense até veio ao Brasil investigar minha história. E eu consegui provar tudo o que dizia. Considero o meu reconhecimento como refugiado como uma condenação do Brasil. A primeira condenação por violações aos direitos de um índio. O assunto teve grande repercussão na imprensa internacional.

E como é no Canadá?
É claro que o Canadá não é um paraíso para os índios, mas eles estão bem mais avançados nessas questões de direitos humanos. Eles já participam dos royalties, por exemplo, das companhias que exploram petróleo, que utilizam os recursos hídricos, através de hidrelétricas. Eles participam dos lucros das empresas e os gerem de forma mais autônoma.

Então, você discorda dessa política brasileira de tutela dos índios?
Claramente. Hoje se fala muito em autossuficiência, se fala em autossustentabilidade, mas não se dar autonomia financeira para os índios. O que se tem hoje são migalhas, reparações financeiras que só resolvem o problema temporário. Essas indenizações não significam nada. Nós queremos é participar dos lucros dessas empresas. Nós queremos ter a nossa universidade. Eu estudei numa universidade indígena canadense financiada com os recursos dos indígenas, com professores indígenas. Nós queremos universidades nas nossas áreas, queremos hospitais para atendimento 24 horas nos nossos territórios. Nós temos um problema grave em educação e saúde que não se resolve com indenizações pontuais. Na minha área potiguara, ainda há uma usina funcionando que foi instalada pela ditadura. A maior reserva de titânio do Brasil tá lá na nossa área. E uma mineradora explora. E tem uma aldeia há 4 Km dessa exploração em que as pessoas estão morrendo à míngua. É uma situação insustentável. Tem que haver uma mudança. Temos que discutir a participação nos lucros dessas empresas.

Assim como os estados estão brigando pelos royalties, nós também, os primeiros povos, queremos royalties, porque estamos sendo explorados em nosso território. Na época da ditadura, o Exército entrou na nossa área [Potiguara] e garantiu terras para grandes latifundiários e grandes companhias internacionais. Nós perdemos um terço do nosso território durante a ditadura. Eles deram até um atestado de óbito para nosso povo, dizendo que não existiam mais potiguaras na área. E com esta certidão negativa, conseguiram financiamento do Banco Mundial. A Funai é responsável por tudo que aconteceu com o povo indígena.

Na sua experiência na Funai, você deve ter convivido com os irmãos Villas Boas. Qual foi o papel deles neste contexto todo?
Eu tenho uma crítica muito grande aos Villas Boas. Eles são considerados os humanistas, não sei nem como ainda não foram laureados pelo Nobel, porque conseguiram uma publicidade incrível. Mas eles participaram desse processo de aprisionamento das nações indígenas, como se quisessem criar um zoológico. O Xingu é isso. Na época da ditadura, os interesses de deslocar as aldeias para desenvolvimento da economia levou os militares a usar os Villas Boas para criar aquele Parque do Xingu, que não é nada mais do que você colocar diferentes aldeias, muitas delas que viviam em guerra culturais seculares, todas juntas. Línguas diferentes, culturas diferentes, tudo no mesmo território. E os Villas Boas participaram disso e acabaram criando um cenário de propaganda do regime.

O Xingu virou o cartão postal da política indigenista. Aquela coisa mais supérflua, mais teatral, para os militares promoverem festas e lotarem aviões de gente par aos verem sendo fotografados com os índios. Para mim, os Villas Boas foram complacentes com a ditadura. Olha, eu entrei na Funai com a visão de que a política dos militares para os índios era aquela do Marechal Rondon: “morrer se for preciso, mas matar nunca”. Mas, na verdade, a cartilha deles era o contrário, era a cartilha americana: “índio bom é índio morto”. Então, temos que desmistificar essas histórias impostas pelo regime e contar a nossa história. É isso o que esperamos da Comissão Nacional da Verdade, da Comissão da Anistia.

Hoje, você milita em alguma organização indígena?
Não. Eu estou ligado a minha aldeia, uma aldeia pequena. Não sou de partido nenhum, não pertenço a nenhuma ONG. A minha intenção é criar uma resistência indígena nacional. É com este intuito que voltei ao Brasil. O movimento indígena, na minha época, tentava se organizar. Hoje, há muitas lideranças cooptadas, com cargos no governo, na Funai, com acordos desvantajosos com a iniciativa privada. Por isso, minha intenção é ajudar na conscientização pra gente fazer um levante revolucionário, para retomarmos nossas terras.


USAR O CONTROLE REMOTO É UM ATO DEMOCRÁTICO!

EXPERIMENTE CONTRA A TV GLOBO! Você sabe que um canal de televisão não é uma empresa privada. É uma concessão pública concedida pelo governo federal com tempo determinado de uso. Como meio de comunicação, em uma democracia, tem como compromisso estimular a educação, as artes e o entretenimento como seu conteúdo. O que o torna socialmente um serviço público e eticamente uma disciplina cívica. Sendo assim, é um forte instrumento de realização continua da democracia. Mas nem todo canal de televisão tem esse sentido democrático da comunicação. A TV Globo (TVG), por exemplo. Ela, além de manter um monopólio midiático no Brasil, e abocanhar a maior fatia da publicidade oficial, conspira perigosamente contra a democracia, principalmente, tentando atingir maleficamente os governos populares. Notadamente em seu JN. Isso tudo, amparada por uma grade de programação que é um verdadeiro atentado as faculdades sensorial e cognitiva dos telespectadores. Para quem duvida, basta apenas observar a sua maldição dos três Fs dominical: Futebol, Faustão e Fantástico. Um escravagismo-televisivo- depressivo que só é tratado com o controle remoto transfigurador. Se você conhece essa proposição-comunicacional desdobre-a com outros. Porque mudanças só ocorrem como potência coletiva, como disse o filósofo Spinoza.

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CAMPANHA AFINADA CONTRA O

VIRTUALIZAÇÕES DESEJANTES DA AFIN

Este é um espaço virtual (virtus=potência) criado pela Associação Filosofia Itinerante, que atua desde 2001 na cidade de Manaus-Am, e, a partir da Inteligência Coletiva das pessoas e dos dizeres de filósofos como Epicuro, Lucrécio, Spinoza, Marx, Nietzsche, Bergson, Félix Guattari, Gilles Deleuze, Clément Rosset, Michael Hardt, Antônio Negri..., agencia trabalhos filosóficos-políticos- estéticos na tentativa de uma construção prática de cidadania e da realização da potência ativa dos corpos no mundo. Agora, com este blog, lança uma alternativa de encontro para discussões sociais, éticas, educacionais e outros temas que dizem respeito à comunidade de Manaus e outros espaços por onde passa em movimento intensivo o cometa errante da AFIN.

"Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias; que é atingido pelos próprios pensamentos como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, como por uma espécie de acontecimentos e de faíscas de que só ele pode ser alvo; que é talvez, ele próprio, uma trovoada prenhe de relâmpagos novos; um homem fatal, em torno do qual sempre ribomba e rola e rebenta e se passam coisas inquietantes” (Friedrich Nietzsche).

Daí que um filósofo não é necessariamente alguém que cursou uma faculdade de filosofia. Pode até ser. Mas um filósofo é alguém que em seus percursos carrega devires alegres que aumentam a potência democrática de agir.

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SAPATEIRO CÂNDIDO (Calçada da Comendador Clementino, próximo ao Grupo Escolar Ribeiro da Cunha).

A Confluência das Torcidas!
CHURRASQUINHO DO LUÍS TUCUNARÉ (Japurá, entre a Silva Ramos e a Comendador Clementino).

Só o Peixe Sabe se é Novo e do Rio que Saiu. Confira esta voz na...
BARRACA DO LEGUELÉ (na Feira móvel da Prefeitura)

Preocupado com o desempenho, a memória e a inteligência? Tu és? Toma o guaraná que não é lenda. O natural de Maués!
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