QUE GRITO É ESTE QUE NÃO SAI DE LUGAR ALGUM E VAI PARA LUGAR NENHUM

O GRITO

O Grito dos Excluídos e Excluídas, historicamente, é um evento promovido por entidades da Igreja Católica mais próximas de causas sociais como as Pastorais, por movimentos sociais, entidades ligadas a sociedade civil e por pessoas que de um modo ou de outro sentem-se excluídas dos processos econômicos, políticos representativos, sociais, civis e culturais promovidos e organizados pelo sistema capitalista.

Com este histórico, o Grito insistiria na perseverança de um modo de ser crítico, ou seja, uma postura humana frente ao real, capaz de analisar as perversidades próprias ao sistema capitalista responsáveis não somente por excluir as pessoas dos processos mencionados acima, mas de privá-los da vida, uma vez que na sociedade capitalista, para se obter o lucro, tudo se torna uma mercadoria, inclusive ideias, comportamentos e até o próprio ser humano, pois uma das exigências da exploração capitalista é o esgotamento das energias do corpo e do espírito humano através de atividades mortas, alienadoras e sem significado, atividades que forçam a ação humana está reduzida à sobrevivência diária, tendo que fazer da luta não uma revolução do atual estado de coisas constituído, mas uma sofrida e exaustiva luta pelo pão de cada dia.

O GRITO EM MANAUS: A PRÁTICA DE UM PECADO

Mas, ao que parece e tudo indica, o Grito ao passar dos anos em Manaus, foi se desviando deste objetivo estético-ético-político. E deste modo passou a viver em pecado. E nem poderíamos dizer que sua coordenação está a cometer equívocos, pois, partindo da premissa que o grito trabalha com uma percepção de Cristo institucionalizado pela Igreja, o que pode haver é desvio do caminho certo, fazendo com que o Grito caia em erro, isto é, em pecado como dissemos. Isto dentro do maniqueísmo do cristianismo oficial.

Este desvio, digo, pecado, ocorre por um fato que vem se repetindo nos últimos Gritos. As últimas versões do evento, abandonando a critica e a vida das ruas e o calor da vida pulsante dos bairros com suas estruturas sociais decadentes e a alegria e criatividade do pobre afastado dos centros de comércio e centros simbólicos da classe alta manauara, começou a realizar suas concentrações em lugares, que no mínimo, desvirtuam o real objetivo de um grito que não reproduz o poder constituído, mas que atravessa a existência como potência de criação nas falas autênticas de todos aqueles que são responsáveis por produzirem suas próprias condições de vida.

Este desvio também veio cada vez mais acompanhado de uma necessidade irracional de aproximar o grito dos políticos profissionais, numa crença mítica e mistificada de que a democracia representativa, quando desvinculada da corrupção e de práticas nefastas como a mentira, por exemplo, pode ser a via de acesso às mudanças desejadas. Mas como poderia acontecer algo assim, se a democracia representativa é justamente uma derivação da primeira forma prática do capitalismo exposta pelo mercantilismo onde o surgimento do Estado moderno se deu justamente para a organização política-econômica da melhor acumulação de riquezas através da exploração nos seus vário0s segmentos?

Ora, a corrupção, a mentira e outras impotências no humano, são próprias do modelo representativo democrático, pois são próprios de um capitalismo que impõe a necessidade do capital ser uma relação entre dominadores e dominados. Deste modo, quem acredita que a democracia representativa é a única via de acesso para as mudanças, acredita em um capitalismo humanizado onde uma minoria toma para si a palavra da maioria e acredita falar por essa maioria.

Eis que seguindo o desvio, o pecado, o Grito, como já vinha ocorrendo antes, vai realizar a versão do evento cristão-social de 2012 em uma avenida de Manaus que carrega consigo todo o simbolismo da moral burguesa e força os excluídos a se sentirem mais excluídos ainda. Este ano a concentração será  nesta sexta-feira, dia 07 de setembro, na  Av. Constantino Neri, em frente ao parque dos bilhares, à partir das 16:00h, passando pela avenida Caco Caminha indo até a ponte da Compensa no Prosamim. Mas não foi apenas isso.

Para a definição dos detalhes ( ao que parece aqueles que importam realmente) do Grito deste ano, no dia 29 de agosto, a coordenação da Igreja reuniu líderes comunitários, representantes da Cáritas Arquidiocesana, movimentos sociais e candidatos à prefeitura de Manaus para pedir uma cidade mais digna. Mas nos perguntamos: como fazer tal pedido para candidatos que do auto da fama de cargos políticos-profissionais como o de senador, prometem uma surra na autoridade constituída maior da nação, fazendo com que nem a hierarquia estabelecida seja respeitada; ou para candidatos que estejam sendo apoiados por um político responsável pelos quase trinta anos de estagnação social, política, cultural, econômica em Manaus que contribuíram para que ela torna-se uma não-cidade.

É claro que a coordenação do grito poderá dizer fazer parte da democracia o diálogo. Mas como usar da razão, ou seja, da produção de argumentos, com pessoas que fizeram da violência seus modos de existência? E, talvez o que seja pior, como se fazer ouvir o grito dos excluídos fazendo acordos com aqueles que proporcionaram a exclusão do povo? Atitude irracional! Que motivo teria o torturado(@)/excluído(@) em fazer acordos com o seu carrasco?, para parafrasear a alegria Brecht na peça A exceção e a regra. Talvez, o motivo seja para deixar claro que a melhor forma de tratar os excluídos no capitalismo é fazendo com que eles se mantenham excluídos, mas contribuindo para a nervura do sistema através de seus votos, da reprodução de discursos constituídos, de perdões, de compaixões…

O QUE É PRÓPRIO DOS REGIMES AUTORITÁRIOS

A circulação política deve ser menosprezada nos sistemas autoritários, seja qual for a bandeira ou ideologia que eles carreguem. Deve-se estagnar o movimento. E este movimento não é apenas o livre andar, mas também o livre gritar. Um grito que não seja eco e ressonância dos aparelhos de Estado. O cuidado maior é o de perceber que o poder político, como nos indica o filósofo Paul Virilio, desenvolve-se, secundariamente, em um poder da classe dominante, fazendo com que seus discursos, seus comportamentos e suas crenças sejam tidos como modelos a serem reproduzidos, no intuito de fazer de nós os pretendentes deste modelo e que para isso teríamos que cortejar os donos do poder.

O Grito, ao contrário disso, poderia esclarecer que o estado não existe se não houver as pessoas com suas atividades diárias, com seus trabalhos, com suas existências, criativamente, inventadas todos os dias. O Estado é tão somente o produto das relações que nascem destes movimentos reais. Não basta criticar o neoliberalismo e a política tomada pela economia especulativa/fictícia, sem fazer com que os reais atores, responsáveis pela produção do que vai do local ao global, que são os pobres, os exclíd@s, a minoria no sentido que Deleuze e Guattari produzem este conceito, não como numeral, mas como práxis constituinte que se afasta dos modelos impostos pelo poder constituído, não forem percebidos como os mais importantes.

Deste modo, não há um grito, mas uma polivocidade de gritos que são produzidos de modo autêntico quando o homem faz da sua existência a luta para transforma sua vida, para sair da condição de sobrevivência a qual lhe foi imposta, sair das privações calculadas, das explorações e fetiches que lhe tiram a condição de humano. Um grito que venha do espírito, um grito que venha de um Cristo da existência (Leonardo Boff) capaz de modificar os menores maus provocados por tudo que é contra o humano no sentido que podemos tirar do alegre Marx.

Assim, o próprio tema do 18º Grito, “Queremos um Estado a serviço da Nação, que garanta direitos a toda população!”, nos parece confuso. Não teríamos que partir daqueles que são excluídos para compreender como a exclusão é ruim e triste e assim, perceber de onde ela provém, sua causa, para depois, conhecendo o problema como verdadeiro, podermos buscar alternativas e outras soluções que sejam autênticas e não cópias disfarçadas do próprio poder que oprime?

 …

 A voz do povo só pode ser a voz do povo. E passar por privações não é condição nem da filosofia nem da existência como diz a suavidade filosófica Antonio Negri. Gritaremos sempre que sentirmos a necessidade de lutar contra o autoritarismo do Estado e de qualquer outra forma de despotismo, mas nossos gritos serão irreconhecíveis, não saberão identificar seu ponto de partida, pois seremos muitos, não o saberão classificar, pois ele será uma mistura, não o poderão capturar, pois ele estará sempre migrando em movimento contínuo. E teremos uma única exigência política-ética para todos que se juntarem a nós: o grito não pode ser de dor.

Neste grito, não há a origem mas o envolvimento com a produção da existência em seus infindáveis começos, repetições e diferenças. Mas o que fazer de um grito que não sai de lugar algum e vai para lugar nenhum?   

3 Responses to “QUE GRITO É ESTE QUE NÃO SAI DE LUGAR ALGUM E VAI PARA LUGAR NENHUM”


  1. 1 Deusarino de Melo terça-feira, 11 setembro, 2012 às 11:54 am

    Gritar, por que? E prá que? Nem o grito do Ipiranga se ouve ecoar mais, imagina os demais…
    Só se ouvem, mesmo, gritos de dor e angústia, diante de um cenário grotesco arquitetado por padres, pastores e outras lideranças religiosas que sequer religiosas são. São economistas, dirigentes financeiros, ávidos de lucro fácil que não seja o assalto a mão armada. Usa-se, então, a astúcia, o assalto à mão desarmada e cérebro em plena atividade.
    Podemos conviver com isso ou já é horta de dar um fim neste estado de coisas?

  2. 2 comite sexta-feira, 2 novembro, 2012 às 2:50 pm

    seria um grande avanço…se os eleitores sacrificassem a má conduta dos policos sem compromisso com o povo,de modo especial contra todos que ainda sao excluidos:desempregados,crianças pobres,jovens sem nome,idosos cegos e surdos,mulheres mal amadas….e muitos outros!

    • 3 deusarino de melo sábado, 3 novembro, 2012 às 8:31 am

      Ora… Ora… Não venham com essa que se está com fome deve chupar o dedo…
      Que sejam iniciadas campanhas, imediatamente, por quem de direito, no sentido de fazer respeitar os direitos humanos, para os humanos e não para essas feras que cometem crimes hediondos e não podem ser interpelados pelas forças policiais ou judiciárias sem que uma passeata e carreata não sejam, de pronto enviadas para legitimarem o ilegítimo, ou seja, defender quem deve ser acusado…
      Direitos são direitos, mas por que abusar com impunidade para querm merece ser punido, penalizando ainda mais os que já sofrem de tantos modos…
      Queremos Deus, é uma frase freqüentemente dita, porém, pouco utilizada na prática.
      Tornemos verdade o que precisa ser verdade.
      Ponham de lado, como sói ocorrer mesmo, batinas, paletós, teatro no púlpito e sejamos mais atuantes em prol dos nossos semelhantes como mandou CRISTO JESUS!


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USAR O CONTROLE REMOTO É UM ATO DEMOCRÁTICO!

EXPERIMENTE CONTRA A TV GLOBO! Você sabe que um canal de televisão não é uma empresa privada. É uma concessão pública concedida pelo governo federal com tempo determinado de uso. Como meio de comunicação, em uma democracia, tem como compromisso estimular a educação, as artes e o entretenimento como seu conteúdo. O que o torna socialmente um serviço público e eticamente uma disciplina cívica. Sendo assim, é um forte instrumento de realização continua da democracia. Mas nem todo canal de televisão tem esse sentido democrático da comunicação. A TV Globo (TVG), por exemplo. Ela, além de manter um monopólio midiático no Brasil, e abocanhar a maior fatia da publicidade oficial, conspira perigosamente contra a democracia, principalmente, tentando atingir maleficamente os governos populares. Notadamente em seu JN. Isso tudo, amparada por uma grade de programação que é um verdadeiro atentado as faculdades sensorial e cognitiva dos telespectadores. Para quem duvida, basta apenas observar a sua maldição dos três Fs dominical: Futebol, Faustão e Fantástico. Um escravagismo-televisivo- depressivo que só é tratado com o controle remoto transfigurador. Se você conhece essa proposição-comunicacional desdobre-a com outros. Porque mudanças só ocorrem como potência coletiva, como disse o filósofo Spinoza.

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CAMPANHA AFINADA CONTRA O

VIRTUALIZAÇÕES DESEJANTES DA AFIN

Este é um espaço virtual (virtus=potência) criado pela Associação Filosofia Itinerante, que atua desde 2001 na cidade de Manaus-Am, e, a partir da Inteligência Coletiva das pessoas e dos dizeres de filósofos como Epicuro, Lucrécio, Spinoza, Marx, Nietzsche, Bergson, Félix Guattari, Gilles Deleuze, Clément Rosset, Michael Hardt, Antônio Negri..., agencia trabalhos filosóficos-políticos- estéticos na tentativa de uma construção prática de cidadania e da realização da potência ativa dos corpos no mundo. Agora, com este blog, lança uma alternativa de encontro para discussões sociais, éticas, educacionais e outros temas que dizem respeito à comunidade de Manaus e outros espaços por onde passa em movimento intensivo o cometa errante da AFIN.

"Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias; que é atingido pelos próprios pensamentos como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, como por uma espécie de acontecimentos e de faíscas de que só ele pode ser alvo; que é talvez, ele próprio, uma trovoada prenhe de relâmpagos novos; um homem fatal, em torno do qual sempre ribomba e rola e rebenta e se passam coisas inquietantes” (Friedrich Nietzsche).

Daí que um filósofo não é necessariamente alguém que cursou uma faculdade de filosofia. Pode até ser. Mas um filósofo é alguém que em seus percursos carrega devires alegres que aumentam a potência democrática de agir.

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