O futuro das relações entre China e América Latina

Em entrevista à Carta Maior, Sun Hongbo, professor do Instituto de Estudos Latinoamericanos da Academia Chinesa de Ciências Sociais, fala sobre o presente e o futuro das relações entre China e América Latina. “A atual crise econômica mundial criou oportunidades estratégicas para que China e América Latina reforcem suas relações. Tanto na China como na América Latina está ocorrendo uma notável expansão da classe média que implica que o consumo doméstico terá um papel muito mais importante”, diz Hongbo.

Marcelo Justo

Londres – A China muda de dirigentes neste mês de novembro em um momento crítico da economia mundial. Enquanto os países industrializados enfrentam anos de incerteza e própria economia chinesa está desaquecendo, sua relação com a América Latina parece andar de vento em popa. Entre 2001 e 2011, o comércio cresceu cerca de 30% ao ano, rondando os 24 bilhões de dólares no ano passado. Em junho, durante sua visita a América Latina, o primeiro-ministro chinês Wen Jiabao propôs duplicar os intercâmbios e deu o pontapé inicial para um tratado de livre comércio com o Mercosul. Neste concerto, o Brasil ocupa um lugar, tanto por seu potencial econômico como por seu peso diplomático. Mas nem tudo são flores. Segundo os críticos, as relações com a China mostram traços do velho modelo colonialista baseado na exportação de matérias primas e importação de produtos com valor agregado. A Carta Maior conversou sobre o tema com o professor do Instituto de Estudos Latinoamericanos da Academia Chinesa de Ciências Sociais, Sun Hongbo.

CM: Em sua recente visita a quatro países da América Latina, o premier Wen Jiabao indicou que quer duplicar o comércio com a América Latina em cinco anos. Isso se dá em um momento no qual os principais sócios comerciais da China – Estados Unidos, União Europeia e Japão – têm sérios problemas que, muito provavelmente, exigirão anos para serem resolvidos. Pode-se dizer que essa é uma das razões pelas quais a China aumentou seu interesse na América Latina?

Sun Hongbo: A atual crise econômica mundial criou oportunidades estratégicas para que China e América Latina reforcem suas relações. Se comparamos a relação atual com a que havia antes da crise de 2008, é óbvio que os laços com a região se intensificaram. Mas a China sempre adotou uma perspectiva estratégica de longo prazo em sua relação com a América Latina. Esse interesse ficou claramente explicitado no discurso do premier Wen Jiabao na Cepal em junho quando anunciou o estabelecimento do fundo de cooperação China-América Latina com mais de US$ 15 bilhões. Em nível comercial, o volume do intercâmbio China-América Latina registrou no ano passado um aumento de quase 100% em relação a 2009.

O investimento direto e os empréstimos da China à região aumentaram de maneira extraordinária. No final de 2011, os investimentos chegaram ao redor de US$ 54 bilhões. A isso, somam-se os empréstimos comerciais do Banco de Exportação e Importação chinês e do Banco de Desenvolvimento que firmou linhas de crédito com 12 países latino-americanos para mais de 60 projetos de desenvolvimento e infraestrutura.

CM: Neste concerto, o Brasil ocupa um lugar muito especial.

Sun Hongbo: O Brasil é o principal sócio comercial na região e um destino privilegiado dos investimentos chineses. Isso se nota desde o próprio Brasil: a China ultrapassou os Estados Unidos como primeiro sócio comercial. Está em curso uma extraordinária cooperação nas áreas de mineração, petróleo, agricultura, indústria automotriz, alta tecnologia, ciência espacial, infraestrutura, educação, etc. Além disso, em nível diplomático, a partir de uma perspectiva multilateral, a aliança China- Brasil vem tendo um forte impacto mundial.

CM: Apesar desta importância estratégica do Brasil e da América Latina, o certo é que os Estados Unidos, a União Europeia e o Japão representam duas terças partes do consumo mundial. Nem Brasil, nem América Latina podem competir com isso.

Sun Hongbo: Não resta dúvida que o consumo dos Estados Unidos, da União Europeia e do Japão é muito importante, mas ao mesmo tempo há um deslocamento do centro de gravidade das economias industrializadas para as emergentes. Esta transição vai demorar um tempo. Tanto na China como na América Latina está ocorrendo uma notável expansão da classe média que implica que o consumo doméstico terá um papel muito mais importante. A isso, deve se acrescentar que tanto a China como a América Latina tem certas vantagens para avançar na direção de produtos de maior valor agregado, apesar da dependência da América Latina em relação aos seus produtos primários.

CM: Precisamente, Venezuela, Brasil, Argentina e Equador são os grandes destinatários de empréstimos chineses. As prioridades chinesas parecem claras: energia e alimentos. No Brasil e no resto da América Latina existe preocupação de que a influência chinesa reforce uma primarização econômica. É possível ter uma relação bilateral mais equilibrada?

Sun Hongbo: As relações entre China e América Latina são, ao mesmo tempo, complementares e de competição. A preocupação que você menciona surge de concentrar-se mais na competição do que na complementariedade. A China não quer ter um superávit comercial com a América Latina, mas sim uma relação equilibrada e sustentável. Em termos de recursos naturais como o cobre, petróleo, carne e soja, a China vai continuar sendo um grande importador da América Latina. O problema não é ter recursos naturais, mas sim o que fazer com eles. Em toda a indústria, incluída a dos produtos primários, pode haver um alto desenvolvimento tecnológico. Um desafio para os países latino-americanos é a plena exploração desse potencial.

Tomemos o caso do lítico como exemplo. Argentina, Chile e Bolívia exportam lítio como matéria prima enquanto que Japão, Coreia do Sul e Estados Unidos o utilizam em todo seu valor agregado para a indústria das baterias. Certamente que há setores como o têxtil, brinquedos, calçados e autopeças em que há competição. Mas creio que China e América Latina podem potencializar as cadeias de valor agregado global reforçando o investimento direto no interior de uma indústria.

CM: Em que áreas o Brasil poderia aproveitar melhor suas exportações para a China, na sua avaliação?

Sun Hongbo: O Brasil tem uma vantagem tecnológica em relação a outros países da América Latina. No marco atual, o Brasil pode exportar mais artigos agrícolas processados com alto valor agregado para a China. E tem o etanol e a exploração petrolífera. Creio que com o fortalecimento da cooperação científica, técnica e agrícola pode melhorar seu nível de competitividade na indústria manufatureira.

CM: A China e o Mercosul vão iniciar estudos preliminares para um tratado de livre comércio. Quais são as dificuldades e as vantagens que pode ter uma associação deste tipo?

Sun Hongbo: O Mercosul é uma plataforma estratégica para a China em sua relação com a América do Sul. A declaração conjunta da China e do Mercosul propôs seis iniciativas que não incluíam o tema do tratado do livre comércio. Ele foi abordado na vídeo-conferência que o premier Wen Jiabao teve com os líderes do Mercosul em junho. Creio que ainda é prematuro falar de tratado de livre comércio. É preciso que os membros do Mercosul tenham uma maior coordenação e consenso sobre o tema. O setor industrial do Mercosul provavelmente se opõe a essa agenda. Há um longo caminho a percorrer.

CM: Pode-se dizer que o crescente interesse que a China mostrou durante o giro do primeiro ministro Wen Jiabao, em junho, é uma política de estado? Pode haver mudanças com a eleição desta nova cúpula do Partido Comunista?

Sun Hongbo: O discurso do premier Wen Jiabao na Cepal em junho é a formulação da política de estado chinesa sobre a América Latina. Não haverá mudanças nesta política. A América Latina tem que formular agora sua própria política em relação a China.

Tradução: Katarina Peixoto

1 Response to “O futuro das relações entre China e América Latina”


  1. 1 DEUSARINO DE MELO terça-feira, 13 novembro, 2012 às 8:50 am

    Cabe, aos dirigentes dos países latino-americanos, com especialidade o Brasil, aproveitar a oportunidade que surge de ampliar negócios com a China.
    Vale salientar que os primórdios estão arquivados no TIBET, terra desconhecida para a maioria das pessoas. Alí estão acumuladas vibrações e poderes inigualáveis…
    Vale a pena, pesquisar, estudar, praticar, consoante os moldes originais.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s




USAR O CONTROLE REMOTO É UM ATO DEMOCRÁTICO!

EXPERIMENTE CONTRA A TV GLOBO! Você sabe que um canal de televisão não é uma empresa privada. É uma concessão pública concedida pelo governo federal com tempo determinado de uso. Como meio de comunicação, em uma democracia, tem como compromisso estimular a educação, as artes e o entretenimento como seu conteúdo. O que o torna socialmente um serviço público e eticamente uma disciplina cívica. Sendo assim, é um forte instrumento de realização continua da democracia. Mas nem todo canal de televisão tem esse sentido democrático da comunicação. A TV Globo (TVG), por exemplo. Ela, além de manter um monopólio midiático no Brasil, e abocanhar a maior fatia da publicidade oficial, conspira perigosamente contra a democracia, principalmente, tentando atingir maleficamente os governos populares. Notadamente em seu JN. Isso tudo, amparada por uma grade de programação que é um verdadeiro atentado as faculdades sensorial e cognitiva dos telespectadores. Para quem duvida, basta apenas observar a sua maldição dos três Fs dominical: Futebol, Faustão e Fantástico. Um escravagismo-televisivo- depressivo que só é tratado com o controle remoto transfigurador. Se você conhece essa proposição-comunicacional desdobre-a com outros. Porque mudanças só ocorrem como potência coletiva, como disse o filósofo Spinoza.

Acesse esquizofia.wordpress.com

esquizofia.wordpress.com

CAMPANHA AFINADA CONTRA O

VIRTUALIZAÇÕES DESEJANTES DA AFIN

Este é um espaço virtual (virtus=potência) criado pela Associação Filosofia Itinerante, que atua desde 2001 na cidade de Manaus-Am, e, a partir da Inteligência Coletiva das pessoas e dos dizeres de filósofos como Epicuro, Lucrécio, Spinoza, Marx, Nietzsche, Bergson, Félix Guattari, Gilles Deleuze, Clément Rosset, Michael Hardt, Antônio Negri..., agencia trabalhos filosóficos-políticos- estéticos na tentativa de uma construção prática de cidadania e da realização da potência ativa dos corpos no mundo. Agora, com este blog, lança uma alternativa de encontro para discussões sociais, éticas, educacionais e outros temas que dizem respeito à comunidade de Manaus e outros espaços por onde passa em movimento intensivo o cometa errante da AFIN.

"Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias; que é atingido pelos próprios pensamentos como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, como por uma espécie de acontecimentos e de faíscas de que só ele pode ser alvo; que é talvez, ele próprio, uma trovoada prenhe de relâmpagos novos; um homem fatal, em torno do qual sempre ribomba e rola e rebenta e se passam coisas inquietantes” (Friedrich Nietzsche).

Daí que um filósofo não é necessariamente alguém que cursou uma faculdade de filosofia. Pode até ser. Mas um filósofo é alguém que em seus percursos carrega devires alegres que aumentam a potência democrática de agir.

_________________________________

BLOG PÚBLICO

Propaganda Gratuita

Você que quer comprar entre outros produtos terçado, prego, enxada, faca, sandália, correia, pé de cabra ou bola de caititu vá na CASA UYRAPURU, onde os preços são um chuchu. Rua Barão de São Domingos, nº30, Centro, Tel 3658-6169

Pão Quente e Outras Guloseimas no caminho do Tancredo.
PANIFICADORA SERPAN (Rua José Romão, 139 - Tancredo Neves - Fone: 92-8159-5830)

Fique Frio! Sabor e Refrescância!
DEGUST GULA (Avenida Bispo Pedro Massa, Cidade Nova, núcleo 5, na Rua ao lado do DB CIdade Nova.Todos os dias).

O Almoço em Família.
BAR DA NAZA OU CASA DA VAL (Comendador Clementino, próximo à Japurá, de Segunda a Sábado).

Num Passo de Mágica: transforme seu sapato velho em um lindo sapato novo!
SAPATEIRO CÂNDIDO (Calçada da Comendador Clementino, próximo ao Grupo Escolar Ribeiro da Cunha).

A Confluência das Torcidas!
CHURRASQUINHO DO LUÍS TUCUNARÉ (Japurá, entre a Silva Ramos e a Comendador Clementino).

Só o Peixe Sabe se é Novo e do Rio que Saiu. Confira esta voz na...
BARRACA DO LEGUELÉ (na Feira móvel da Prefeitura)

Preocupado com o desempenho, a memória e a inteligência? Tu és? Toma o guaraná que não é lenda. O natural de Maués!
LIGA PRA MADALENA!!! (0 XX 92 3542-1482)

Decepcionado com seus desenganos? Ponha fé nos seus planos! Fale com:
PAI GEOVANO DE OXAGUIÃ (Rua Belforroxo, S/N - Jorge Teixeira IV) (3682-5727 / 9154-5877).

Quem tem fé naõ é um qualquer! Consultas::
PAI JOEL DE OGUM (9155-3632 ou paijoeldeogum@yahoo.com.br).

Belém tá no teu plano? Então liga pro Germano!
GERMANO MAGHELA - TAXISTA - ÁGUIA RADIOTAXI - (91-8151-1464 ou 0800 280 1999).

E você que gostaria de divulgar aqui seu evento, comércio, terreiro, time de futebol, procurar namorado(a), receita de comida, telefone de contato, animal encontrado, convites diversos, marocagens, contacte: afinsophiaitin@yahoo.com.br

Outras Comunalidades

   

Categorias

Arquivos

Blog Stats

  • 4.242.988 hits

Páginas

novembro 2012
D S T Q Q S S
 123
45678910
11121314151617
18192021222324
252627282930  

Arquivos


%d blogueiros gostam disto: