O golpe e o Franquismo no Paraguai

Um dos pontos centrais do livro “Franquismo no Paraguai. O Golpe”, da socióloga Lorena Soler e do pesquisador italiano Rocco Carbone, é perguntar o que significa hoje a palavra “golpe”. Em uma conjuntura onde os processos políticos transformadores vivem com o fantasma da desestabilização às costas, surge a interrogação de como nomear as estratégias da direita continental. O livro compila uma série de ensaios, apresentados como “intervenções urgentes” a partir da destituição de Fernando Lugo da presidência do Paraguai no dia 22 de junho deste ano. O artigo é de Federico Vázquez.

Federico Vázquez

Resenha do livro “Franquismo no Paraguai. O golpe”, de Rocco Carbone e Lorena Soler (EDS) El 8vo. Loco Ediciones, Buenos Aires, 2012. pp.148.

“A orfandade social dessa praça era acaso a orfandade política de um presidente em retirada”, escreve – mordaz e provocadoramente – a socióloga Lorena Soler na introdução do muito recomendável Franquismo no Paraguai. O Golpe, livro onde ela, juntamente com o pesquisador italiano Rocco Carbone, compila uma série de ensaios, apresentados acertadamente como “intervenções urgentes” a partir da destituição de Fernando Lugo da presidência do Paraguai.

Um dos pontos centrais do livro é perguntar por que, paradoxalmente, leva em seu título uma caracterização determinante, mas ao mesmo tempo aberta: o que significa hoje a palavra “golpe”. Em uma conjuntura onde os processos políticos transformadores vivem com o fantasma da desestabilização às costas, surge a interrogação de como nomear as estratégias da direita continental. Até que ponto os mecanismos usados no Paraguai (ao qual se deve acrescentar Honduras e as tentativas fracassadas no Equador e na Bolívia) têm uma continuidade cristalina com o golpismo do século XX, e até onde são produto de outra época, na medida em que estes novos golpes são praticados sob formas institucionais, mas sejam de duvidosa legitimidade.

É uma questão que aparece no começo do artigo de Milda Rivarola, destacada socióloga paraguaia. “As opiniões contraditórias sobre o ocorrido em 22 de junho de 2012, dentro e fora do Paraguai, delatam o caráter confuso e obscuro desse evento. A variedade de categorizações beira o absurdo: golpe de Estado, substituição constitucional, golpe parlamentar (com ou sem colarinhos brancos), ruptura institucional, uso de atribuições legais do Congresso, julgamento expresso, mecanismo normal e legal, quebra ou ruptura democrática, etc”.

Soler ilustra isso com uma mensagem que uma amiga enviou de Buenos Aires, enquanto ela estava em Assunção, no dia da destituição de Lugo: “esconda-se na embaixada argentina, pede asilo e daí que te extraditem a teu país. Não corra perigo, Haverá fogo”. Como explicar em uma mensagem cifrada que não estávamos em 55, nem em 73 ou em 76. E, ao mesmo tempo, que Lugo era o melhor presidente possível de toda a história política do Paraguai e o que havia acontecido era um golpe de Estado. E que Franco era, por isso, um ditador. Em todo caso, as categorias utilizadas até agora já não podiam explicar a complexidade desse processo”.

Complexidade que, no caso paraguaio, tem um de seus marcos na passagem da ditadura de Stroessner aos governos democráticos, sem que houvesse mudança de partido político, conformando assim uma “transição sem alternância”, como assinala Waldo Ansaldi. Mas a raiz desse processo pode ser buscada mais atrás, e Ansaldi agrega a centralidade do conflito agrário (cabe lembrar que a faísca que acendeu o julgamento foi um enfrentamento entre camponeses sem terra e a polícia). A conta pendente da reforma agrária foi um dos temas que opuseram, desde o início, Lugo e seu vice e futuro conspirador, Federico Franco.

O texto de Rocco Carbone aponta outra questão, que se estende a todas as demais experiências continentais. “Como símbolo destes tempos, um dos lugares onde houve manifestações de apoio a Lugo foi precisamente a sede da TV Pública”. O texto marca bem um terreno fronteiriço, onde o luguismo parece ter feito as coisas na direção correta, mas demasiado tarde: o canal estatal foi um empreendimento que tinha apenas meses de vida e, ainda assim, foi um dos poucos espaços onde se percebeu certa resistência civil frente à destituição presidencial.

Uma “batalha cultural” que, no caso paraguaio, significa algo mais profundo, uma chaga subcutânea que durante a presidência de Lugo – mesmo com suas contradições – foi trazida à superfície, mediante os gestos simbólicos de um poder que, pela primeira vez, olhava em uma direção distinta da tradicional. Algo que aparece presente no trabalho de Juan Carlos Rodríguez, Os motivos do Lobo: “Fernando Lugo cometeu outro pecado grave. Ter em torno de si gente de esquerda, ou simplesmente, pobre. É verdade que seu entorno incluía também liberais, colorados, técnicos e independentes. E não havia muita gente de esquerda em postos decisivos de poder, como a Agricultura, Obras Públicas, Fazenda ou Defesa. Mas frequentava sindicatos de trabalhadores, sobretudo camponeses, quando anteriormente tinham acesso à “coroa” empresários, militares, políticos ou embaixadores. A corte desse bispo incluía convidados indesejáveis. Isso era execrável para a sociedade mais excludente do continente”.

Ricardo Aronskind, por sua vez, avalia o ocorrido no Paraguai dentro de uma disputa regional, assinalando que “assim como os governos progressistas de nossa região, apesar de serem muito diferentes e responderem a realidades nacionais muito diversas, os setores retrógados da América do Sul também compartilham uma série de valores que os caracterizam. Todos eles carecem de projetos nacionais autônomos”.

Mas a lupa tem que ser colocada sobre a singularidade de um país traumatizado por sua história desgraçada. Em um continente pacífico para os padrões internacionais, o Paraguai é uma exceção que confirma a regra. O imaginário da Guerra da Tríplice Aliança teve seu papel na conjuntura atual, apesar do século e meio de distância. Rossana Gómez sustente assim que “o golpe parlamentar não buscou só na legalidade suas fontes de legitimidade. Conforme foram surgindo as reações internacionais, ele foi buscando outros argumentos e os encontrou em velhos relatos nacionalistas”.

Finalmente, a pluma de Martín Rodríguez localiza esse relato de nação junto às perguntas sempre incômodas sobre o processo de integração regional, do qual o Paraguai segue sendo protagonista e vítima ao mesmo tempo. “O Paraguai tem em seu disco rígido a pergunta da região: para que serve a região? A história revisionista joga lenha na fogueira dessa memória porque afirma incansavelmente: “O Paraguai sofreu um genocídio, mataram seus homens, destruíram a primeira experiência de Estado de bem-estar, populismo, ferrovias, fábrica de pólvora””. E assim, a lista enlaça um passado mítico em estado de sonho eterno. Quase a história de um país inventado. O Mercosul, essa afável expressão de desejos, é uma forma de nomear – aos olhos paraguaios – uma deformidade de outras tríplices alianças da paz que perduram como conspiração burocrática contra o país condenado a ter saída para o mar. E, para essa cultura eternizada, Lugo também foi um forasteiro.

Além dos autores assinalados, o trabalho de Soler e Carbone traz contribuições de Emir Sader, Ana Inés Couchonnal Cancio, Ticio Escobar e Gerardo Halpern.

Tradução: Katarina Peixoto

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