Máscaras de carne e osso

O país vive dias buliçosos.

Como se não houvesse amanhã, nem ontem, Aécio cogita a necessidade de reestatizar a Petrobrás. Vai além: promete fazê-lo.

Serra ressurge das cinzas.

Por Saul Leblon do Portal Carta Maior

E reacende seu fogo ‘desenvolvimentista’ – ‘de boca’, entrecortou, um dia, Maria da Conceição Tavares, em aparte rápido, definitivo.

Aguarda-se a chegada de Alckmin. Especula-se um figurino chão de fábrica, na defesa carbonara do salário mínimo do Dieese. Ou isso, ou greve geral.

O que falta ainda? A mídia. Conhecida pela isenção com que aborda as causas da miséria brasileira, mostra-se indignada. O país ‘estacionou’ na 85ª posição do IDH mundial, proclamam manchetes sulforosas.

Cegas, ignoram que o IDH brasileiro de 2012 baseou-se em dados de 2005,no caso da educação, por exemplo. Sete anos desconsiderados.

A própria análise do PNUD relativiza a importância da variação entre um ano e outro (leia a reportagem). O braço da ONU atesta para todos os fins que o Brasil perfila entre os grandes velocistas da luta contra a pobreza e a desigualdade no século 21.

A informação é irrelevante para o jornalismo isento. Há lógica na indignação seletiva.

Os dados defasados lubrificam de alguma forma a narrativa construída meticulosamente neste início de 2013, mas que ainda carecia de uma ‘evidência’ de apelo popular.

‘O Brasil estagnou’

Ou não é isso que sugere com diuturna disciplina o jogral de vozes que nunca desafinam? São elas que ajudam os fatos com a força das ideias.

E não lhes faltam espaços, manchetes, nem publicidade federal, generosamente aspergida pela Secom.

Desse conjunto endogâmico, em que as coisas são como são, e como são, assim ficarão, estala agora um frenesi no ar.

O IDH corrobora a bandeira em fraldas da oposição para 2014: ‘o Brasil de Dilma estagnou’.

Tucanos rodopiam no divertido baile das máscaras, onde ninguém é de ninguém, o passado fica na porta e o futuro é uma jura de salão.

Cabe ao coletivo dos professores banqueiros do PSDB acertar os ponteiros do relógio com quem realmente conta: a engrenagem do dinheiro a juro.

Aqui a conversa é entre costelas do mesmo espinhaço, partes convexas que fazem rodízio articulado dos dois lados do guichê. Das gargantas ecoam a mesma linguagem. Cifrada pela mídia no ensaio de arrumação para 2014.

A saber:

a) o país vive uma pressão inflacionária difusa decorrente do excesso de demanda;

b) o excesso de demanda deriva do abusivo aumento do poder de compra dos trabalhadores, puxado pelo reajuste real de 60% do salário mínimo nos governos Lula/Dilma;

c) a renda das famílias cresce ininterruptamente há mais de 4 anos ;

d) sustenta o insustentável: a expansão da demanda interna sem aumento equivalente da oferta — atendida, em mais de 20% no caso de manufaturados, pelas importações;

e) a solução para o estresse macroeconômico, somatizado em alta de preços, passa por um tratamento de choque: alta dos juros e achatamento salarial.

f) o IDH, oportunamente, mostra que nem os pobres ganham mais com o quadro vigente. Logo, tanto faz ministrar-lhes um cristel de arrocho, desemprego e paulada no crédito.

A mídia cuida de dar ao ensaio de 2014 um sentido de urgência. O apetite da usura é caramelado com o glacê do interesse social.

Nem tudo é pastelão.

Ingredientes objetivos evocados no confronto político de uma época muitas vezes são idênticos dos dois lados da disputa.

As consequências listadas não raro compartilham alguma similitude.

O que distingue as margens do rio é menos o ingrediente do que o sentido de determinação que se atribui a cada um deles.

O conservadorismo identifica no ganho de poder aquisitivo a usina de males do país. Daí deriva a vacina conhecida pelas suas consequências.

Resistir passa por debater politicamente o que há de real no impasse econômico brasileiro hoje.

A saber:

– a inflação reflete pressões passageiros de quebra de safra de alimentos e outras que vieram para ficar; estas, decorrentes de uma mudança estrutural na economia do país;

– o setor de serviços (telefonia, saúde, educação, transportes, bancos etc.) elevou sua participação no PIB, de 63% para 68,5% nos últimos oito anos.

– a inflação dos serviços tem crescido acima de 8% ao mês (dois ou três pontos acima da média por ela puxada).

– combate-se isso com mais oferta, fiscalização, exigência de qualidade, regras de reinvestimento etc.;

– mas a expansão dos serviços na cesta ‘básica’ moderna é algo irreversível: um padrão planetário;

– nenhuma ‘abertura comercial’ do tipo ‘deixai o mercado agir por conta própria’ vai resolver isso; serviços em regra são de difícil importação;

– tampouco a alta dos juros supera o impasse; na verdade, apenas agravará o polo oposto: o enfraquecimento do setor industrial, cuja participação no PIB recuou de 19% para algo como 14% no período citado.

– juro alto e laissez-faire vão desidratar ainda mais a industrialização brasileira;

– são políticas conhecidas pelo efeito de valorizar a moeda local e incentivar importações castradoras da manufatura.

– hoje, mais de 20% da demanda brasileira por bens industrializados é importada.

– importa-se produto barato, exporta-se o emprego industrial que paga salário superior ao padrão call-center das vagas na área de serviços.

– o recuo da industrialização é real, mas vem de longe: em 1985 o setor fabril produzia 27% da riqueza agregada ao PIB brasileiro; em 1996 essa fatia caiu para cerca de 18,5%; agora oscila em torno de 14%.

– a desindustrialização pesada do ciclo tucano desenhou um retrocesso de participação no PIB da ordem de 8 pontos; impulsionada pela gororoba livre mercadista composta de privatizações, câmbio valorizado, juro alto e abertura comercial suicida.

Os governos do PT desmontaram essa lógica parcialmente. E de forma muito lenta.

Manteve-se até 2008 a dupla turbina do juro alto e câmbio valorizado.

A partir do colapso neoliberal daquele ano, o governo Lula acelerou o desmonte do mecanismo que Dilma golpeou mais fundo, com o corte nas taxas de juros.

O estrago na estrutura industrial, porém, estava feito.

Linhas de montagem foram desativadas. Empresas desterritorializaram seu fornecimento de componentes. Vagas fechadas aqui brotaram na Ásia.

Não só o Brasil.

Mas o erro generalizado dos países em desenvolvimento, com raras exceções, não mitiga o ônus da obra comum.

Síntese: o país tem a maior mina de ferro a céu aberto do mundo; montou um programa de expansão de ferrovias de 10 mil kms nos próximos anos. E importa cada centímetro de trilho que usa.

A política econômica dos últimos anos, no entanto, introduziu um redefinidor potente na equação do desenvolvimento.

Ele dificulta sobremaneira a aplicação mecânica da vacina ortodoxa de juro alto e salário baixo.

O ciclo Lula/Dilma promoveu o mercado de massa à condição de ator principal do enredo econômico brasileiro.

Muda muita coisa.

Em primeiro lugar, a centralidade do novo protagonista dificilmente é reversível nas urnas.

Tampouco ele cabe na escala da infraestrutura pesada e da logística social, originalmente previstas para 30% dos que vivem no topo da pirâmide de renda.

A organização política do novo ator persiste aquém do peso que ele exerce na ordenação do desenvolvimento.

Mas sua dimensão histórica ultrapassou o ponto em que poderia ser facilmente descartado.

Mesmo sem se traduzir em uma nova relação de forças efetivamente mobilizada, a presença condiciona e atemoriza.

Em resumo: máscaras novas, para receitas velhas, é o truque que resta ao conservadorismo para transitar nesse ambiente mutante e adverso.

Talvez sejam necessárias máscaras de carne e osso para reduzir as resistências previsíveis.

Há oferta em espécie.

O resultado do IDH de 2012 será manipulado para lubrificar o simulacro, mas não lhe confere autenticidade.

O que o PNUD mostra na verdade é que uma visita imprevista chegou para jantar.

O governo tem no problema a solução para injetar a coerência política e macroeconômica à continuidade do desenvolvimento.

A visita espera no meio na sala. Em pé.

Cabe-lhe, de fato, a cabeceira da mesa. E a prerrogativa do cardápio.

*Foto de George Gianni/PSDB

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