A FILÓSOFA MARILENA CHAUÍ MOSTRA A MAIOR CONTRADIÇÃO DE MARINA: “SE DIZ APOLÍTICA E SE CANDIDATA AO POSTO POLÍTICO MAIS ALTO DA REPÚBLICA”

Leia a entrevista da filósofa Marilena Chauí concedida a Rede Brasil Atual.

Filósofa e professora da USP vê contradições e paradoxos, tanto no aspecto apolítico quanto na questão religiosa, e diz que Marina Silva simboliza despolitização da segunda parte dos atos de junho

A filosofa Marilena Chauí considera problemática a candidatura de Marina Silva (PSB) à presidência da República com base nas incoerências, contradições e paradoxos da ex-senadora. Em entrevista àRádio Brasil Atual nesta segunda-feira (8), a professora da USP levanta uma série de questionamentos a Marina, a começar pelo paradoxo de uma pessoa que se diz apolítica se candidatar ao posto político mais alto da República.

“Me parece incoerente se dizer apolítico e depois buscar esse posto político. Por que, por exemplo, não organizar um grande movimento social, religioso, de justiça, já que seriam movimentos que poderiam, sem problemas, dizerem-se apolíticos? É verdade que, no caso de um movimento religioso, a coisa se complicaria porque basta vermos o que acabou de acontecer com a proposta da candidata a respeito da adoção de crianças pelos casais gay e o fato de ela ter sido chamada à ordem pelo pastor de sua congregação religiosa e voltar atrás. Eu penso que há contradições, paradoxos, tanto no aspecto apolítico quanto nessa presença de alguns comandos religiosos”, comenta Marilena.

A professora da USP lembra que Marina se diz apolítica, mas tentou organizar um partido político, e nem sequer isso ela conseguiu. “Na estrutura política brasileira atual, com todos os problemas que estão colocados, nenhum poder Executivo governa, tanto no nível federal, estadual e municipal, sem que o seu partido negocie, no Legislativo, as políticas. Na medida em que ela não tem um partido, e que ela se diz apolítica, quem vai fazer a política e quem vai negociar?”, questiona.

A professora levanta dúvidas ainda sobre as influências econômicas da candidata do PSB. “Marina tem em sua assessoria econômica nomes como André Lara Resende e Eduardo Giannetti, com o neoliberalismo elevado ao seu grau máximo. Nós sabemos que do lado dos bancos há o interesse na autonomia do Banco Central para que os juros subam até o céu e, portanto, desativem as condições da produção econômica. Com essa assessoria econômica, como ela pode propor desenvolvimento sustentável? Essa política é antidesenvolvimentista.”

Uma outra questão que intriga Marilena é sobre a ligação de Marina com o agronegócio. Inicialmente a ex-senadora rejeitava qualquer aproximação, mas hoje tem em seu vice, Beto Albuquerque (PSB-RS), uma figura ligada aos grandes produtores rurais, e recentemente teve reunião com representantes do setor sucroalcooleiro do interior paulista.

“Como pode haver desenvolvimento sustentável ligado ao agronegócio? Em segundo lugar, como fica a relação com o MST e a reforma agrária e com os índios?” Para Marilena Chauí, mesmo que ela apresente a ideia do desenvolvimento sustentável, da reforma agrária e da boa vontade na relação social, o vínculo com o agronegócio torna isso impossível. “Ela teria que nos explicar, portanto, como ela compatibilizaria assessoria neoliberal, bancária, financeira, do agronegócio e desenvolvimento e manutenção de direitos sociais.”

Marilena questiona também se uma plataforma econômica neoliberal vai dar conta das questões políticas e sociais, já que a ideia de Estado mínimo transforma os direitos sociais em serviços a serem comprados no mercado, como educação, saúde, habitação e cultura.

“Essa privatização dos direitos, que é antidemocrática, é o pilar da posição neoliberal. Com essa assessoria econômica, financeira, neoliberal, agronegócio, como ficam os direitos sociais e, sobretudo, os programas sociais? Se nós partirmos em direção à privatização dos direitos e à ideia de uma possível privatização da Petrobras, eu me pergunto se todos os recursos que o governo Dilma Rousseff coloca, a partir do pré-sal, nos direitos sociais vai acontecer. Se você privatiza os direitos e se você privatiza o pré-sal, você não realiza os programas sociais existentes e, pouco a pouco, você desativa e retorna o país à condição de desigualdade e de exclusão excessiva”, diz.

Para a filósofa, as manifestações de junho do ano passado foram canalizadas para a candidatura de Marina Silva. “Havia essa dimensão mágica, que é a ideia de que, se você quer, acontece. Essa dimensão coloca a ação política como uma coisa imediata, não deixa saldo organizativo, não prossegue, não tem uma história, não tem nada. Por isso que terminou ali, por causa dessa dimensão mágica da movimentação. Você tinha os jovens trabalhadores precarizados, a meninada de classe média rica, o pessoal da periferia… você tinha de tudo. Era muito heterogêneo.”

Na parte final dos protestos, quando houve a comemoração da redução da tarifa de ônibus em São Paulo, Marilena diz ter ficado impressionada com as agressões físicas que os jovens manifestantes receberam, não só da Polícia Militar, mas também de outros participantes. Em especial houve agressões a militantes de movimentos sociais e partidos.

“Eles foram espancados, ensanguentados. Esses manifestantes que espancavam os outros, alguns deles estavam enrolados na bandeira do Brasil e diziam ‘não tenho partido político, meu partido é meu país’. Essa é uma afirmação do Mussolini e do Hitler. É uma afirmação do fascismo e do nazismo de que há um partido único e ele é o país.”

Marilena pensa que a candidatura de Marina corresponde a essa impressão que teve do risco de parte das manifestações se encaminhar para o conservadorismo e para a direita. “Eu fiquei muito preocupada porque isso pode ir em direção ao conservadorismo. Em vez de ir no sentido de uma atitude progressista e libertária, pode ir em um conservadorismo à direita terrível.”

“As manifestações gestaram um ideário que desembocou, finalmente, na candidatura da Marina Silva. Eu sei que todo mundo estava feliz e comemorando as manifestações, teve gente que falou que era como 1968, na Europa e nos Estados Unidos, teve gente que falou que era como a Primavera Árabe. Aí, quando disseram que era como a Primavera Árabe eu pensei ‘pronto, estamos perdidos’, porque o que aconteceu no Egito é que os generais vieram e produziram uma ditadura”, diz a filósofa.

 

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