Marilena Chauí: ‘Liberdade é afastar as paixões tristes’

reprodução

Para Espinosa a liberdade exige que se saia desse ‘imaginário passional (passivo), sem abandonar a vida afetiva’: eis a chave para a potência de existir.

Tatiana Carlotti

Há trinta anos, o Núcleo de Estudos e Pesquisas da Funarte promovia um curso livre intitulado “Os Sentidos da Paixão”. O sucesso foi tamanho que o curso se transformou em um ciclo de várias conferências, gerando 800 ensaios, sob a coordenação do filósofo Adauto Novaes.

A boa nova é que as conferências foram retomadas neste 2016. Promovido pelo SESC, o ciclo Entre dois mundos: 30 anos de experiências do pensamento revisita os temas abordados anteriormente, com encontros em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador e Brasília. Confira aqui a programação.

Adauto Novaes justifica a retomada pela “mutação – transformações radicais – que se verifica em todas as áreas da atividade humana. É preciso pensar este novo mundo”. Para tal, grandes pensadores foram chamados como a filósofa Marilena Chauí. Na última semana, ela estreou o ciclo “Os Sentidos da Paixão”, debatendo a questão da liberdade.  

Com a didática que lhe é peculiar, Marilena abordou o tema, tão precioso neste momento, a partir das ideias de Espinosa (1632-1677), cujas teorias são trabalhadas por ela na premiada obra A Nervura do Real (Cia. das Letras, 2016), que acaba de ganhar seu segundo volume.

Sobre o pensador, Marilena afirma: “Espinosa foi um filósofo de uma coragem fora do comum. Ele enfrentou a religião, o saber, os poderes estabelecidos em nome da liberdade”. Um enfrentamento que ela destrinchou para a plateia do SESC em São Paulo, mostrando a atualidade as inovações propostas por Espinosa em relação à tradição filosófica de seu tempo.

Ética, liberdade e conhecimento dependem dos afetos

São várias as inovações trazidas por Espinosa, por exemplo, sua oposição à ideia ainda vigente de que a vida afetiva é um obstáculo ao exercício do conhecimento. Como explica Marilena, ele defende que “a ética, a liberdade e o conhecimento só são possíveis graças aos afetos e não contra eles”.

Desafiando seus pares, Espinosa recusou a concepção antropomórfica de deus, concebido como um “super-homem transcendente, monarca, juiz, legislador do mundo e dos homens”; inserindo a visão de deus enquanto “substância infinita” que “existe em si e por si mesmo” e sem a qual “nada existe e nem pode ser conhecimento”.

Frente a esse princípio, ele se opôs à tradicional separação entre alma e corpo. Como os seres são expressões dessa substância infinita (deus), “a natureza física e a natureza psíquica se dão simultaneamente e não podem ser separadas, porque se tratam de campos de realidade que exprimem sempre a mesma substância”.

Neste sentido, detalha a professora Chauí, “ideia e corpo são um só”, “exprimem a mesma coisa de maneiras diferentes” e produzem “regiões diferenciadas da realidade” (psíquica e física). Disso advém a premissa: “o corpo humano é mais forte e mais potente quanto mais ricas e complexas forem suas relações com outros corpos”.

O contrário também é válido: “o corpo humano é mais pobre e mais fraco quanto mais isolado se mantiver em relação a outros corpos. A inter-corporeidade [relação entre os corpos] é a condição da nossa força vital”, ensina Marilena.

Isso posto, ela aponta que, segundo Espinosa, “quanto mais se mergulha no corpo, mais capacidade cognitiva a mente tem. E quanto mais apto o corpo, mais apta a mente estará para perceber as coisas”, daí o equívoco dos que defendem que o “conhecimento verdadeiro tem como pré-condição que a mente se afaste do corpo e opere no campo puramente intelectual”.

“Alegria aumenta a força para existir e agir”

Além desse conceito de “substância infinita”, Espinosa também trabalhava com ideia de conatus, a “potência de preservação da vida” que age em cada um de nós. Dividindo os afetos humanos em paixões e ações, ele demonstrou a existência de afetos capazes de aumentar essa potência de agir e existir e afetos que a diminuem.

Segundo Espinosa, essa força “opera passivamente quando somos causas de eventos produzidos sobre nós”, como as paixões; e opera ativamente “quando nós somos a causa dos efeitos produzidos em nós ou fora de nós, como as ações”.

“Paixão e ação caminham juntas e em simultaneidade, da mesma forma que o corpo e a mente são ativos e passivos juntos, por inteiro, sem relação hierárquica”, explica Marilena. Desta forma, segundo Espinosa, “uma ideia jamais vence uma paixão. A paixão só pode ser vencida por outra paixão mais forte do que ela”.

Espinosa também estabeleceu três afetos primários, dos quais nascem todos os demais: a alegria, a tristeza e o desejo. Como detalha Marilena, “a alegria não é uma emoção qualquer. É uma força metafísica e ontológica capaz de aumentar a força para existir e agir (conatus)”. A tristeza, pelo contrário, atua na “diminuição dessa força de existir e agir”.

Os desejos, por sua vez, são aquilo que nos “determina a existir e a agir de alguma maneira”.  Em suma: “ser livre é optar pelos desejos alegres”, frisa Marilena.

Dessa ideia, Espinosa extrai sua concepção de bem e de mal: “bom é tudo o que aumenta a força do nosso conatus. Mal é tudo aquilo que a diminui”. Em outras palavras, explica Marilena, “bom é o que nos alegra e mal o que nos enfraquece”.

Somente paixões alegres podem vencer paixões tristes

Espinosa afirmava que “somente paixões alegres podem vencer paixões tristes”. O conhecimento, por exemplo, era concebido por ele como uma paixão alegre: “a mente se alegra quando têm consciência de que conhece verdadeiramente alguma coisa”.

Isso possibilita, complementa Marilena, “a autonomia de se pensar cada vez mais a partir de si mesmo para viver, podendo se relacionar com todos os demais corpos, mas sem depender ou se submeter a eles, em uma relação de igualdade”.

O fato é que somente vivendo as paixões e as ações, os seres humanos podem caminhar em direção à liberdade. “Não temos de nos livrar da vida afetiva, mas passar da paixão (determinações externas) para a ação (determinação interna)”. Ou seja, passar daquilo a que somos externamente submetidos àquilo que somos internamente dispostos e autônomos”, explica Marilena.

Espinosa, porém, destacava a complexidade dos afetos humanos, na medida em que paixões e desejos tristes tendem a se combinar com paixões e desejos alegres, havendo na vida humana “um entrecruzamento dos afetos”. Marilena cita, por exemplo, os casos de amor e ódio, como os verificados em triângulos amorosos nos quais, teoricamente, as pessoas deveriam amar aqueles que fazem bem aos seus amados, mas que por ciúmes passam, também, a odiá-los.

Para Espinosa a liberdade exige que se saia desse “imaginário passional (passivo), sem abandonar a vida afetiva”. Eis a chave para a ética, a potência de existir e a auto conservação. Marilena destaca que o conceito de virtude do filósofo: “a virtude do corpo é afetar outros corpos de inúmeras maneiras simultâneas; a virtude da mente é afetar outras ideias de inúmeras maneiras, também simultâneas. Tudo isso passa pelo afeto”.

Liberdade começa com a interpretação dos afetos

Se ser livre é afastar as paixões tristes, a passagem da tristeza para a alegria é “um ato de interpretação da mente sobre o que se passa dentro de nós”. Neste sentido, o verdadeiro conhecimento também precisa ser um afeto, porque só assim ele poderá refrear um outro afeto. Em outras palavras, só uma paixão pode combater outra paixão.

“É essa dimensão afetiva do conhecimento que nos permite influir no tônus afetivo”, aponta Marilena, destacando a originalidade do pensamento de Espinosa. Para ele, o desejo que nasce da alegria é mais forte (intensidade) do que aquele que nasce da tristeza, já que a alegria aumenta a potência de agir e de existir.

“As paixões de alegria podem se transformar em ações, ao contrário das paixões de tristeza. A vida afetiva é livre só a partir do desejo livre e alegre. Onde houver tristeza não existe ação, muito menos liberdade”, explica Marilena.

E complementa: “a liberdade começa, portanto, quando a mente se volta à interpretação dos afetos. Um afeto está tanto mais no nosso poder quanto mais ele é por nós conhecido”.

Ser livre na concepção de Espinosa não se trata de escolher entre várias alternativas possíveis, conforme nosso livre arbítrio. Ser livre é agir de acordo com a nossa realidade interior. É a capacidade de sermos a nossa potência interna, autônoma:

“A liberdade não se encontra no exterior, mas na relação do ser consigo, do que é, do que faz, do que pode. Liberdade é a necessidade interna da sua maneira de existir, ser e agir”, ensina Marilena.

“O ser humano é livre na exata medida em que tem potência para a agir. É neste sentido que liberdade é o máximo de força. Não se trata de escolha, mas autodeterminação do agente em conformidade com a sua essência. Uma livre necessidade de existir no mundo”, complementa.

Fortalecer as instituições democráticas

Na esfera política, Espinosa ensina que independente das virtudes ou vícios dos governantes e administradores, o que garante a existência da liberdade é a qualidade das institucionais de uma sociedade. “São as instituições que determinam a maneira como o governante e o administrador devem e podem agir”, explica Marilena.

“Eles não podem agir contrariamente ao que as instituições determinam. Uma política livre é determinada pela qualidade inviolável de suas instituições”, complementa, indicando o “Tratado Político” de Espinosa, obra em que ele analisa como fortalecer essas instituições.

Em sua concepção, a democracia é a “mais natural das formas políticas, porque nela se realiza o desejo de governar e não apenas o desejo de ser governado, visando a manutenção da igualdade e da liberdade do ser humano”.

A partir dessa premissa, Marilena ponderou:  

“Para onde vamos, pelo lado da construção de líderes ou do fortalecimento de instituições? A aposta de Espinosa é nas instituições. A minha também”.

Aos que desejam saber mais sobre Espinosa, além dos dois volumes de A Nervura do Real, (Cia. das Letras, 2016), a professora Marilena Chauí também publicou Desejo, Paixão e Ação na Ética de Espinosa(Cia das Letras, 2011) e Política em Espinosa (Cia das Letras, 2003).

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"Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias; que é atingido pelos próprios pensamentos como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, como por uma espécie de acontecimentos e de faíscas de que só ele pode ser alvo; que é talvez, ele próprio, uma trovoada prenhe de relâmpagos novos; um homem fatal, em torno do qual sempre ribomba e rola e rebenta e se passam coisas inquietantes” (Friedrich Nietzsche).

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