O 2º turno no Rio: a oficina de construção da frente ampla

Facebook Marcelo Freixo

Não há tempo para prostração. A disjuntiva histórica nunca foi tão clara: união do Brasil progressista ou a barbárie.

por: Saul Leblon

O PDP emerge das urnas de 2016 como a grande força vitoriosa das eleições de 2 de outubro.

O Partido da Demonização da Política, a nova legenda, na verdade nem é tão nova assim. Mas recebeu investimentos maciços nos últimos anos  para hipnotizar a maioria expressiva dos cidadãos brasileiros o seu bordão: a política é o estorvo da sociedade.

A mensagem subliminar é ainda mais importante do que o rótulo ostensivo.

O que ela nos diz é que o espaço dos que nunca tiveram espaço nem voz na sociedade deve ser higienizado, fechado e lacrado.

Vedado aos ‘populistas’, esse recinto deve ser declarado uma sala VIP exclusiva dos ‘gestores’.

A extensão da lógica privada às demais esferas públicas – contas nacionais, empresas estatais, riquezas, serviços, direitos sociais, valores e princípios, como os das diretrizes da educação pública, por exemplo— está implícita.

A força da pregação regressiva, antes escudada no martelete dos donos da mídia e dos detentores da riqueza, ganhou uma alavanca legitimadora convincente com a judicialização da vida política e partidária nos últimos anos.

Um judiciário gilmarizado e o espaço concedido a ativistas sulforosos do Ministério Público e Cia, aglutinados em torno do juiz sensação nos EUA, fizeram o resto.

O conjunto logrou convencer parcelas majoritárias da população de que o problema do Brasil é a política. Mais precisamente seu braço ‘populista’.

A ofensiva não teria tido a eficácia que teve, porém, se não contasse com um ambiente favorável.

A obra regressiva coroada nas urnas deste domingo teve a colaboração não negligenciável dos erros cometidos pelas forças progressistas, sobretudo aquela majoritária desde 2003 no topo e na base da sociedade: o PT.

O mergulho incondicional na política parlamentar explica uma parte do espaço cedido ao arranque conservador.

Não apenas isso.

A adesão  aos mecanismos convencionais de financiamento de campanha aleijou a perna esquerda do partido, que passou a negligenciar o papel do engajamento de seus eleitores e militantes, reduzidos a tela de fundo de campanhas publicitárias a cargo de rasputins marqueteiros.

Daí para a negligência com a luta das ideias, associada à omissão em quebrar o oligopólio da mídia, era um pulo ao abismo.

E ele foi dado.

A prioridade excludente de um modelo de governabilidade baseado em trocas de cargos e favores, em detrimento da organização de base e da luta social, faria o trabalho restante de descarnar e desossar a vida política da sigla e de sua militância.

Enfim, as amarras dessa engrenagem autoalimentada ajudaram a cultivar o preconceito popular, o distanciamento em relação aos ‘de cima’ e o sentimento de irrelevância face ao engajamento político.

No chão esburacado por gatos pardos o mantra da demonização do partido  cuidou de escavar abismos profundos entre ele e a sociedade.

A percepção de que ainda assim, o saldo objetivo de realizações petistas cristalizara um núcleo duro de liderança no imaginário popular, levou às investidas direcionadas à degola completa de seu aparato dirigente.  

Esse tour de force se arrasta desde o julgamento do mensalão, iniciado em agosto de 2012, a partir de uma crispação de denúncias deflagradas em 2005, na tentativa de impedir a reeleição do então presidente Lula.

O julgamento do mensalão foi o teste bem sucedido dessa estratégia.

Ele se prolongou por 300 horas, com todos os trabalhos televisionados, e multiplicados em escaladas e telejornais diuturnamente enfeixados no mesmo jogral, como se o jornalismo fosse uma extensão das togas.

E vice-versa.

O enredo da demonização da política e do PT se estendeu por 69 sessões do STF que avançaram até dezembro de 2012.

O rescaldo seria explorado até meados de 2014, na tentativa de minar a campanha pela reeleição da Presidenta Dilma.

Em  17 de março, então, essa cruzada receberia forte injeção de adrenalina.

Nesse dia irrompeu a primeira fase ostensiva da operação Lava Jato, com 81 mandados de busca e apreensão, 18 mandados de prisão preventiva, 10 mandados de prisão temporária e 19 mandados de condução coercitiva, em 17 cidades de 6 estados e no Distrito Federal.

A Lava Jato já está em sua 35ª fase e completou 654 medidas de busca e apreensão,  com as guarnições de mídia, calendário e seletividade sabidas, inclusive com o aumento substancial das equipes de investigação (03/10/2016).

Em 26 de setembro, ao final da campanha municipal deste ano,  foi decretada a prisão de Antonio Pallocci.

Na  semana anterior da campanha eleitoral, ex-ministro da Fazenda dos governos Lula e Dilma, Guido Mantega, foi detido por algumas horas gratuitamente, preso em hospital onde acompanhava a esposa, prestes a realizar uma cirurgia para tratamento de câncer.

Esse arrastão do discernimento social, capturado por uma sequência vertiginosa de ações cinematográficas de natureza judicial, policial e midiática, foi bem sucedido.

Se havia dúvida, a espiral de rejeição e nojo da política agora pode ser medida pela comparação entre o total das abstenções, votos nulos e brancos nas eleições de domingo em relação ao saldo dos últimos anos.

Em 2010, 34 milhões de brasileiros e brasileiras ficaram de fora da escolha das urnas: não votaram, anularam ou deixaram sua cédula em branco.

Em 2014 esse total já saltou para 40 milhões.

Nas eleições municipais deste ano o percentual médio de abstenção pulou de 16,4% para 17,6% , mais de 25 milhões deixaram de comparecer às urnas. E dos mais de 118 milhões de eleitores brasileiros que compareceram, o total de votos em branco e nulos chegou a 13,68%  — 23% maior na comparação com os 11,15% registrados no primeiro turno de 2012.

O quadro em centros urbanos importantes é ainda mais categórico.

Em São Paulo, a soma de abstenções, brancos e nulos (3.096.574) superou a votação obtida pela candidatura vitoriosa de Dória Jr (3.085.187).

Nada menos que 35% dos eleitores paulistanos se recusaram a participar da decisão sobre o futuro da cidade.

Quase quatro em cada dez.

Cerca de dois milhões se abstiveram (quase 22%, contra média nacional de 17,6%); um milhão e 100 mil anularam ou deixaram a cédula eletrônica em branco.

Pior que isso.

O tucano vitorioso, durante 35 dias de campanha com o maior tempo no horário eleitoral, insuflou o discurso da demonização petista e da antipolítica.

Dizendo-se um ‘gestor’, um homem da iniciativa privada, um self made man,  fez de sua candidatura uma bazuca de menosprezo às bases da democracia e da participação popular, pilares constitutivos da política.

A recusa do eleitor em participar desse ambiente infectado pela pregação conservadora marcou também um crescimento recorde de 43,4% na soma de brancos e nulos em Belo Horizonte, que atingiria 60% em Curitiba e teria um aumento brutal de quase 70% em Porto Alegre.

A vitória esmagadora do conservadorismo cobrará sua fatura em todas as esferas progressistas da sociedade, assim como as vitórias anteriores do PT abriram espaços de descongelamento social e político.

Extrair lições da borrasca é condição de sobrevivência.

Em primeiro lugar, a reavaliação estratégica –indispensável–  deve estar aberta aos ares de um mundo no qual a agenda neoliberal vitoriosa no país estrebucha de forma irremediável.

Não há porta de saída para um recuo conservador nas fileiras progressistas. Marta Suplicy é o cadáver político dessa aventura desastrada.

Um ciclo de desenvolvimento se esgotou no país; outro terá que ser construído em meio a um ambiente de estagnação secular do capitalismo internacional.

A disjuntiva histórica talvez nunca tenha sido tão clara.

Mais igualdade com maior repartição de esforços, ou a barbárie, materializada em sucessivos ajustes antissociais fracassados, num plano inclinado de conflitos graves e recessões agudas.

A repactuação do desenvolvimento, com uma agenda negociada de metas e prazos para emprego, salários, inflação, juros, déficit fiscal etc  é a alternativa à aventura delirante dos ‘gestores’ que pretendem transpor para sociedades extremadas, fundadas na contraposição estrutura de interesses, a mitologia do self made man.

O aumento psicopata da velocidade nas marginais de São Paulo, anunciado por Dória Jr, é a síntese dessa regressão à luta de todos contra todos fadada ao fracasso, a um custo elevado para a população.

Mas é pior que isso no plano nacional.

Uma esmagadora engrenagem se move para tomar de volta tudo aquilo que transgrediu os limites da democracia formal, e que o ciclo iniciado em 2003, com as limitações sabidas, transformou em um resgate social inconcluso, mas encorajador.

Vem aí um paradigma de eficiência feito de desigualdade ascendente, incompatível com a Constituição Cidadã de 1988, que será violada para devolver o Brasil ao figurino pré- redemocratização.

Quem pode liderar uma repactuação de desenvolvimento, capaz de evitar esse capotamento histórico, num quadro internacional do qual não se pode esperar uma alavanca de socorro redentor?

A tarefa que já não era só do PT, agora responsabiliza com maior clareza ainda o conjunto das forças progressistas para o desafio de  reconquistar a confiança da sociedade na ação política, o que implica subordinar o mercado às decisões da democracia.

Se antes esse debate se esgotava na circularidade da inércia, da soberba e do sectarismo, o safanão das urnas deu nitidez à atmosfera política, como acontece depois das grandes tempestades.

O relógio da história brasileira soou o sinal de alarme.

Quem é democrata, liberal sincero, nacionalista, progressista, socialista e comunista não pode fingir ou perguntar que horas são.

Passa da hora de o campo progressista superar sectarismos e prioridades corporativas para enxergar além da lógica particular de cada projeto.

O nome desse discernimento é Frente Ampla.

Não de cúpula.

Não de parlamento.

Mas à moda uruguaia.

Aquela que reúne partidos, centrais sindicais, movimentos sociais, personalidades, intelectuais, juristas, artistas, enfim, brasileiros e brasileiras de todos os matizes progressistas e democráticos.

Não é opcional.

Sem um escudo dessa densidade será quase impossível resistir ao vagalhão conservador.

E, menos ainda, devolver à sociedade a confiança na agenda progressista e a credibilidade na luta social para reordenar o destino da economia e a sorte da sociedade nessa difícil travessia difícil.

A ausência desses requisitos explica uma parte significativa do resultado eleitoral deste domingo, marcado por diferentes versões de descrença na ação política convencional, mas sobretudo nas candidaturas progressistas.

A construção de uma frente ampla que sacuda o ceticismo e afronte a espiral conservadora não é tarefa para o divã político.

É uma obra da urgência. E do desassombro.

Pode e deve ser construída nas oficinas da história, onde práticas e concepções que contribuíram para o desfecho desastroso de agora sejam revistas e modificadas.

Sem dúvida, hoje no Brasil o segundo turno da disputa à prefeitura do Rio de Janeiro é uma dessas oficinas da história.

Para ela devem convergir as melhores energias, recursos e lideranças que contribuam para levar Marcelo Freixo à vitória.

Em 1983, ainda no ambiente marcado pela ditadura e contra a vontade da poderosa rede Globo, o Rio de Janeiro elegeu Brizola governador.

A audácia carioca, conhecida por ser um mirante avançado das tendências nacionais, pode ser tocada novamente pela empolgação e o desprendimento de uma Frente Ampla que faça da eleição de Freixo um basta ao golpe e ao massacre antissocial que preconiza para o país.

Ademais de eleger Freixo,  Edmilson em Belém, João Paulo em Recife e Edvaldo  em Aracajú, bem como os demais candidatos progressistas na disputa do 2º turno, trata-se de sinalizar o credenciamento de uma agenda que tem outra proposta para o conflito redistributivo agudizado pela encruzilhada do desenvolvimento nacional.

Significa reverter a lavagem cerebral conservadora e dar ao jogo o seu verdadeiro nome.

A centralidade do conflito hoje no Brasil não é ‘eficiência privada’ ou caos, mas democracia social negociada versus arrocho conservador.

O tempo e o terreno  perdidos  nesse rally  –por conta da inércia e do sectarismo,  repita-se, têm uma chance de começar a ser recuperados já, dando à campanha do 2º turno uma identidade radicalmente oposta à formalidade dos apoios meramente publicitários.

O divisor de águas consiste em devolver ao debate eleitoral  uma dimensão crucial do desenvolvimento  esmaecida nos últimos anos: a sua determinação política.

É preciso trazer para o embate eleitoral a verdade nua e crua temida pelo conservadorismo.

O reencontro do país com um novo ciclo de investimento e distribuição de riqueza é indissociável de um avanço da democracia, que passa pela repactuação da economia com a sociedade. E da sociedade com ela mesma.

O resto é arrocho. E repressão.

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