Arquivo para 12 de janeiro de 2017

A QUADRA MOMESCA ATIVA. ENQUANTO O BLOCO DE OLINDA FREVA O “FORA TEMER”, CAIADO, ACUSADO DE EXPLORAÇÃO DO TRABALHO ESCRAVO, QUER CPI CONTRA A IMPERATRIZ LEOPOLDINENSE.

CARNAVAL

Imperatrizleopoldinense.com.br/Reprodução

“Sempre é carnaval, sempre é carnaval, vamos embora pessoal”. Fundado no ano de 1976 com o objetivo de contestar a ditadura civil-militar, o Bloco Eu Acho É Pouco”, de Olinda, continua mantendo a verve e o ativismo. É o que confirma a comemoração dos seus carnavalescos 40 anos.

Esse ano, estimulado pela contribuição alegórica dos golpistas, ele vai desfilar com indumentária ressaltando o golpista-mor: “Fora Temer”. Além de outras enunciações políticas na indumentária como “Lutaremos pela Liberdade Sempre”, Trumpocalipse, Golpe e Regresso, Por uma Mídia Democrática”. Enunciações que já se tornaram palavras de ordem e que são ressaltadas nas cores vermelho e amarelo. Cores do ouro.

Aqui a programação do Eu Acho é Pouco.

  • 4 de fevereiro: Baile Vermelho e Amarelo – Eu Acho é Pouco.
  • 25 de fevereiro: Eu Acho É pouco.
  • 27 de fevereiro: Eu Acho é Pouquinho.
  • 28 de fevereiro: Eu Acho é Pouco.

E fora do ritmo, já que burguês além de não descender de Dionísio, mas Mamon (deus da cobiça), sua alegria é compensatória como alimento material, lucro, e não a alegria que aumenta a potência de agir, como afirma o filósofo Spinoza, o senador Caiado (DEM/GO), fundador da União Democrática (imaginem que tipo de democracia) Ruralista (UDR), cuja família é acusada de exploração do trabalho escravo, vai propor ao Senado uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar quem são os financiadores da Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense que vem com o Samba Enredo criado pela sensibilidade, inteligência, ética e engajamento dos sambistas Moises Santiago, Adriano Ganso, Jorge do Finge e Aldir Senn. Não esquecer que Caiado, apesar de caiado, é campeão do agronegócio.

O Samba Enredo toca no tema explorador realizado pelo agronegócio que envolve as terras indígenas e quilombolas. Aí a represália do senador latifundiário.

Olha a letra e o áudio aí, gente! E com a participação especial do amazonense David Assayag que foi além do Boi Bumbá.

Compositores: Moisés Santiago, Adriano Ganso, Jorge do Finge e Aldir Senna
Participação especial: David Assayag
Intérpretes: Tinga, Celino Dias, Tuninho Júnior e Tinguinha

BRILHOU… A COROA NA LUZ DO LUAR!
NOS TRONCOS A ETERNIDADE… A REZA E A MAGIA DO PAJÉ!
NA ALDEIA COM FLAUTAS E MARACÁS
KUARUP É FESTA, LOUVOR EM RITUAIS
NA FLORESTA… HARMONIA, A VIDA A BROTAR
SINFONIA DE CORES E CANTOS NO AR
O PARAÍSO FEZ AQUI O SEU LUGAR
JARDIM SAGRADO O CARAÍBA DESCOBRIU
SANGRA O CORAÇÃO DO MEU BRASIL
O BELO MONSTRO ROUBA AS TERRAS DOS SEUS FILHOS
DEVORA AS MATAS E SECA OS RIOS
TANTA RIQUEZA QUE A COBIÇA DESTRUIU

SOU O FILHO ESQUECIDO DO MUNDO
MINHA COR É VERMELHA DE DOR
O MEU CANTO É BRAVO E FORTE
MAS É HINO DE PAZ E AMOR
SOU GUERREIRO IMORTAL DERRADEIRO
DESTE CHÃO O SENHOR VERDADEIRO
SEMENTE EU SOU A PRIMEIRA
DA PURA ALMA BRASILEIRA

JAMAIS SE CURVAR, LUTAR E APRENDER
ESCUTA MENINO, RAONI ENSINOU
LIBERDADE É O NOSSO DESTINO
MEMÓRIA SAGRADA, RAZÃO DE VIVER
ANDAR ONDE NINGÚEM ANDOU
CHEGAR AONDE NINGUÉM CHEGOU
LEMBRAR A CORAGEM E O AMOR DOS IRMÃOS
E OUTROS HERÓIS GUARDIÕES
AVENTURAS DE FÉ E PAIXÃO
O SONHO DE INTEGRAR UMA NAÇÃO
KARARAÔ… KARARAÔ… O ÍNDIO LUTA PELA SUA TERRA
DA IMPERATRIZ VEM O SEU GRITO DE GUERRA!

SALVE O VERDE DO XINGU… A ESPERANÇA
A SEMENTE DO AMANHÃ… HERANÇA
O CLAMOR DA NATUREZA
A NOSSA VOZ VAI ECOAR… PRESERVAR!

 

“CINCO RAZÕES PARA DERRUBAR O MINISTRO DA JUSTIÇA”, ARTIGO DA ADVOGADA ATIVISTA GABRIELA CUNHA FERRAZ, PARA O SITE JUSTIFICANDO

Cinco razões para derrubar o Ministro da Justiça

 Artigo da engajada advogada ativista Gabriela Cunha Ferraz, para o siete Justificando.

Nos últimos dias, uma pauta conseguiu unificar os movimentos de esquerda e direita do país: A insustentabilidade do atual Ministro da Justiça, Alexandre de Moraes. Depois dos trágicos episódios testemunhados nas penitenciárias brasileiras no começo deste já tenebrosos 2017, todos os jornais e revistas do país publicaram matérias, editoriais ou colunas afirmando que o atual Ministro não pode permanecer à frente da pasta. Diante desse fato, resolvi dar a minha contribuição, pensando objetivamente nas cinco razões pelas quais o Sr. Alexandre de Moraes não está à altura do cargo que lhe foi ofertado.

1. Um Ministro Populista

O Ministro da Justiça assumiu, desde a primeira semana do seu mandato, uma postura completamente contrária ao direcionamento “low profile” do Governo Temer. Enquanto o atual Presidente se ausentava de eventos públicos como a parada de 7 setembro ou o encerramento das Olimpíadas, seu Ministro fazia questão de estampar as capas dos jornais com o único intuito de se tornar notícia, no melhor estilo ex-BBB.

Na sua primeira grande aparição polêmica, o Ministro convocou a imprensa para acompanhá-lo até a fronteira do Paraguai, onde cortou – com um facão que mal sabia manipular, alguns cinco pés de maconha. A cena é dantesca, sobretudo por essa não ser, em absoluto, a função de um Ministro. Mas, ficar sentado no seu gabinete resolvendo questões políticas emergenciais para o país não é o perfil de Alexandre que quer ganhar a capa dos jornais a qualquer preço.

Pouco tempo depois, Alexandre afirmou que o país “precisa de mais armas e menos pesquisas”, assumindo, publicamente, que não dispõe de qualquer racionalidade mais profunda sobre o tema. Mais uma vez, frases soltas e tecnicamente vazias são usadas apenas para causar frisson popular. Na sequência, e no auge da sua audácia, Alexandre publica um posicionamento interno sobre o resultado do “Dossiê Palocci” e recebe um puxão de orelha de Temer, estremecendo no cargo pela primeira vez.

Porém, conforme era de se esperar, ele não conseguiu ficar muito tempo na sombra e, recentemente, voltou a enfrentar a discrição do Presidente, ao afirmar que seria o responsável por “erradicar a maconha na América do Sul”. Sobre esse último comentário eu vou me reservar o direito de não opinar por ser mais ridículo do que a minha capacidade de argumentação.

Mas, porque Alexandre faz tudo isso? Seria por puro ego? Seria apenas mais um narcisista em busca dos seus 5 minutos de fama? Não. Alexandre tem ambições maiores e está, claramente, usando seu atual mandato como escada para fazer a maior campanha eleitoral pelo Governo de São Paulo já vista na história desse país. Com dois anos de antecedência, ele já está com todo gás populista, tentando convencer a população a confiar em alguém que levanta do seu escritório para cortar maconha com as próprias mãos. Um Alexandre trabalhador que almeja ser Governador!

2. Um Ministro que não toma decisões

Desde que assumiu o cargo, alguns episódios trágicos aconteceram no país – como já era esperado, e forçaram Alexandre a assumir uma posição. O primeiro deles foi o estupro coletivo de uma menina carioca de 16 anos, violentada por 30 homens. Diante desse fato escabroso, Alexandre reuniu sua equipe e propôs a construção de um núcleo de enfrentamento à violência contra a mulher, ignorando, completamente, o trabalho realizado durante os 13 anos de existência da Secretaria de Políticas para as Mulheres. Passados seis meses, este núcleo nunca avançou e a Secretaria especializada foi propositalmente esvaziada durante a sua gestão.

Com isso, Alexandre comprova que não consegue tomar decisões concretas e acaba por reinventar a roda quando o tema é política pública. Suas ações se resumem a propor a organização de grupos de estudo ou de especialistas, sem, contudo, se comprometer ou criar políticas capazes de garantir os direitos da população.

Essa sua característica voltou à tona com a publicação de um “novo” Plano de Segurança Pública, em resposta às tragédias (sim, não foi “acidente”) das últimas semanas. O novo plano está focado nas ações de segurança pública e, talvez, o primeiro passo seria explicar ao Ministro a diferença entre esta e a pasta do sistema carcerário. Grande parte das ações propostas já havia sido pensada anteriormente na construção do plano de redução de homicídios. Quando finalmente aborda o tema da gestão penitenciária, o Plano de Alexandre falha por não apresentar nenhuma ação capaz de enfrentar o encarceramento em massa, que é a principal causa do problema no país. Mais uma vez, ele e seus especialistas se limitam a redesenhar algumas estratégicas completamente inócuas, na maioria das vezes, controversas.

3. Um Ministro centralizador

A primeira norma que o atual Ministro da Justiça editou quando assumiu sua cadeira foi centralizar todas as ações do Ministério na sua pessoa. Alexandre resolveu que todos os gastos, as contratações, viagens e a gestão dos trabalhos em desenvolvimento deveriam passar primeiro por ele para, depois, serem concretizados. Ora, qualquer manual de gestão pública vai te ensinar que é isso é absolutamente impossível quando lidamos com uma pasta dinâmica, imensa e crucial para a manutenção da paz social de um país.

Ao propor esse excesso de centralização, Alexandre conseguiu paralisar o trabalho de todo um Ministério, atravancando decisões (já vimos que ele não gosta muito de ter que tomá-las) e criando obstáculos para continuidade das políticas existentes. Aliás, em sua própria fala, Alexandre admite não ter qualquer compromisso em dar seguimento às políticas pensadas por governos anteriores. Com isso, além de não dar continuidade ao que já existia, ele também não propõe nada novo.

4. Um Ministro sem repertório político

Se você decide ser um gestor centralizador, você deve dominar a maioria dos temas que estão sob sua responsabilidade. Mas, isso não acontece com Alexandre que além de não ser especialista nas áreas de atuação do Ministério da Justiça, também não dispõe de assessores capazes de auxiliá-lo.

Ao assumir seu posto, Alexandre convocou seus assessores e nomeou seus secretários. O grande problema é que a imensa maioria deles é formada por policiais. Os assessores locados no Gabinete do Ministro são em sua imensa maioria membros da Polícia Militar. O novo Diretor do Departamento Penitenciário Nacional (que, inclusive, nem foi chamado para sentar ao lado do Ministro da coletiva de imprensa que tratou dos temas da sua pasta) é um coronel da Polícia Militar de São Paulo. Sua nova diretora do Departamento de Estrangeiros (DEEST) também é uma policial, dessa vez, federal. O Secretário da Secretaria Nacional de Política sobre Drogas (SENAD) é Policial Militar e o Secretário da Secretaria de Segurança Pública um perito da Polícia Civil de São Paulo. A Coordenação Geral do Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional (DRCI) é Policial Federal.

E o que isso significa? Significa que o Ministro não tem repertório próprio e que seus assessores e secretários não são capacitados para trabalhar com diferentes temas porque estão limitados dentro dos conhecimentos proporcionados por um universo único. Contrário à toda ideia de diversidade, Alexandre não tem repertório para assumir o complexo e interdisciplinar posto de Ministro da Justiça.

5. Um Ministro da Justiça que não respeita leis

Por fim, a cereja do bolo: O caso do Fundo Penitenciário (FUNPEN). O Supremo Tribunal Federal, ao decidir a Ação Declaratória de Preceito Fundamental (ADPF) 347, descontigenciou um alto montante orçamentário para que o Departamento Penitenciário pudesse trabalhar políticas públicas focadas na melhoria da qualidade do sistema prisional

De acordo com um Termo de Cooperação assinado pelo próprio Ministério da Justiça sob a batuta do saudoso Eugênio Aragão, o Governo Federal precisaria de aprovação do CNJ para repassar o montante descontigenciado para os cofres dos Estados. Mas, assim como Alexandre de Moraes afirma não ter qualquer vínculo com as políticas assumidas em outros governos, ele aparentemente também não é afeito a obedecer normas e leis assinadas no passado. Sendo assim, o Ministro passou por cima do Conselho Nacional de Justiça e simplesmente transferiu 1.2 bilhão para os Estados, sem autorização do CNJ e sem prever qualquer critério para posterior prestação de contas.

No ato de transferência orçamentária, o Governo Federal repassa a integralidade do valor de uma única vez e, com isso, não obriga os Estados a aplicar essa verba na melhoria das condições carcerárias. Considerando que muitos Estados Brasileiros alegam estar “quebrados” é, no mínimo, temerário não impor critérios objetivos para liberação e utilização gradual da verba pública, além de ser um potencial grande problema a ser enfrentado junto aos órgãos de controle.

O Ministro não só retirou do Departamento Penitenciário Nacional – órgão especializado, a capacidade de criar políticas públicas uniformes e eficazes, como atropelou o CNJ e, em mais um episódio de ímpeto, esvaziou uma decisão tomada pelo próprio Supremo Tribunal Federal.

Estas cinco razões não são as únicas que demonstram a falta de capacidade técnica e política do atual Ministro da Justiça, mas indicam que é insustentável mantê-lo nesta posição. Ao testemunhar tamanhas trapalhadas, rogamos para que a campanha eleitoral em curso do ainda Ministro acabe antes do que ele imaginava.

Gabriela Cunha Ferraz é advogada, militante, mestra em Direitos Humanos pela Universidade de Estrasburgo e Realizadora do Projeto Vidas Refugiadas (www.vidasrefugiadas.com.br). 

MOVIMENTA-SE A POTÊNCIA POLÍTICA PARA DISSIPAR O GOLPE E RECONDUZIR DILMA AO PODER DE ONDE FOI VIOLENTAMENTE TIRADA

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Juristas, deputados, senadores, professores, estudantes, partidos políticos, sindicalistas, artistas, movimentos sociais, representantes da sociedade civil, entre outras entidades, participaram no Sindicato dos Professores da Rede Pública Estadual (Apeoesp), na Praça da Sé, região central de São Paulo da reunião que teve como tema principal o Movimento Pela Anulação do Impeachment (sem eufemismo: golpe) da presidenta Dilma eleita com mais de 54 milhões de votos que confirmaram a continuidade do governo popular como única meta original da democracia, e que perturbou as direitas gulosas e frustradas. Móbil subjetivo que as levaram a idealização, elaboração e execução do golpe.

No início da reunião ficou acordado que a queda do golpista-mor Temer, não devolve o Estado de Direito Democrático, visto que as direitas do Congresso Nacional indicariam como ‘tampador’ do cargo, em forma de eleição indireta, um elemento com os mesmos ideais do golpista mais rejeitado do Brasil.

O ex-ministro da Justiça da presidenta Dilma Vana Rousseff, o sub-procurador-Geral da República, Eugênio Aragão, que compôs a mesa com o presidente do Partido da Causa Operária (PCO) Rui Costa Pimenta e a enfermeira Edva Aguilar, do Partido dos trabalhadores, foi enfático em afirmar que é possível reverter o impeachment (golpe),porque já existe movimentação nacional e internacional nesse sentido. Não houve crime de responsabilidade por parte de Dilma, e o que houve foi um golpe muito bem arquitetado pelas forças reacionárias.

De acordo com Eugênio Aragão, os militantes estão conduzindo pressão sobre o Supremo Tribunal Federal (STF) e sobre a Procuradoria-Geral da República (PGR) onde os processos que questionam o impeachment (golpe) encontram-se parados. O Movimento vai recorrer às cortes internacionais através de um pedido de liminar na Corte Interamericana, na Costa Rica.

“Se não tivéssemos condições de enfrentar a Globo, Sérgio Moro, Rodrigo Janot e Gilmar Mendes, não deveríamos estar aqui, e sim em casa vendo novela. Mais do que acreditar nisso, temos que ter fé de que é possível a partir de uma consciência revolucionária. Não se trata de religião. Nossa fé é uma fé ditada, que nasce de um processo histórico, e a gente sabe que as coisas só mudam na luta. Não existe nada que é dado de graça.

Vivemos em uma sociedade escravocrata, pré-histórica em muitos aspectos. Para chegarmos à democracia que queremos, temos que restabelecer q que tínhamos. E para isso precisamos nos organizar e modular o nosso discurso. A gente tem todas as condições na proporção de força para assumir o poder que nunca assumimos. As massas que fazem a crítica ao movimento, que oxigenam o movimento, nunca ditaram a política. Apenas tiveram parte nas discussões.

Quando a democracia é derrotada, quem resiste é inimigo do golpe. Não temos de ser oposição a Michel Temer porque ele assaltou o poder e se comportou como inimigo, deve então ser tratado como inimigo.

A volta de Dilma é imperativo; é a partir daí que a gente volta a conversar, a definir o que queremos para revigorar a democracia. Não podemos vacilara agora. Num duelo, quem vacila leva o tiro”, analisou o jurista Eugênio Aragão.

Para Rui Costa o movimento tem 100% de condições de prosperar. Há diversos choques entre o governo, o Congresso e o Judiciário, em que a mídia golpista noticia que Temer tem o controle sobre o legislativo. E há até colunistas conservadores escrevendo sobre a necessidade de o governo dar marcha à ré e fazer política igual à do PT para evitar o colapso total. É a oportunidade para reverter o impeachment. E se não fosse possível esse auditório não estaria lotado à uma hora dessas, em início de janeiro. É grande a chance desse movimento formado pelas bases dos movimentos, sindicatos e partidos”, observou Rui.

Edva Aguillar se posicionou contra parte do PT que não se mostra na luta pela restituição do governo Dilma.

“Grandes partes das lideranças do PT e da esquerda não se empenham na luta pela restituição do mandato de Dilma. Por que não unir forças numa grande mobilização para anular o impeachment?”, perguntou Edva.

Já Malu Aires acredita que as pessoas estão despertando para a realidade.

“Parece que estão começando a perceber a mesma coisa: que parece não haver mais leis, ou que as leis não são nossas, e que os brasileiros não têm mais direito a nada.

Não vai haver 2018, porque a democracia acabou em 2014. Se a Dilma voltar, se esse processo xexelento for anulado, com um país desse tamanho, muito maior que o Congresso e o STF, nós vamos fazer o que deveríamos ter feito desde o começo: governar junto com ela”, analisou Malu Aires.

O movimento da potência política democrática da restituição do poder ao povo através de Dilma vai realizar vários atos para que o objetivo democrático seja concretizado.

– Criação de comitês em todo o Brasil e no exterior.

– Intensificar as manifestações contra o golpe pela recondução de Dilma ao governo usurpado pelas direitas.

– Debates e discussões com categorias variadas e trabalhadores.

– Dia 13 ( um número revolucionário, além da superstição, que diga o Lula),à noite, debate na sede da CUT, em Brasília.

No mesmo dia, sexta valente, (potência 13), às 20h, debate no Restaurante do Ano, com as vigorosas presenças de Edva Aguilar e artista, compositora e militante digital Malu Aires.

Nos dias 27 e 29 as duas militantes estarão em Amsterdam, na Holanda, participando do 1° Encontro Internacional pela Democracia e Contra o Golpe. Participarão também ativistas brasileiros que moram na Europa.

ENTREVISTA DE FERNANDO MORAES COM JULIAN ASSANGE ONDE ELE MOSTRA AS TRAMAS REALIZADAS PELOS EUA CONTRA O BRASIL, DILMA, LULA E EMPRESAS BRASILEIRAS

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Do site Nocaute de Fernando Moraes.

Foi quase um ano de espera. Desde o começo de 2016 amigos europeus e latino-americanos tentavam me ajudar a conseguir uma entrevista jornalística com o cyber ativista australiano Julian Assange, exilado desde 2012 na elegante e modesta embaixada do Equador, em Londres.

 

Cheguei a ter um contato enviesado e impessoal com Assange, ao tentar armar um encontro dele com o ex-presidente Lula, que viajaria a Londres em abril de 2013. Lula topou, Assange topou, o pessoal diplomático equatoriano na Inglaterra também apoiou a iniciativa, mas circunstâncias que não vêm ao caso acabaram por frustrar a visita de Lula.

 

Quando comecei a montar o Nocaute, no ano passado, adotei uma ideia fixa: a principal matéria do número de estreia do blog seria uma entrevista com Julian Assange. Bati em portas de intermediários em vários países até que, em meados do ano, chegou a luz verde: ele ia me receber. E a notícia boa coincidia com os últimos “zeros” (ou “demos” ou “betas”), as versões experimentais do blog, só acessíveis ao público interno.

Aí começaram a adiar a entrevista. E nós tendo que procrastinar o lançamento do Nocaute. Pelo menos na minha cabeça já estava decidido: sem Assange não tinha estreia.

A notícia ruim chegou em setembro: o mega-hacker mantinha a palavra, ia me conceder a entrevista, mas não antes do dia 8 de novembro, data das eleições presidenciais norte-americanas. Demos um cavalo-de-pau na ideia original, convidamos o ex-presidente Lula e fizemos com ele a capa do número 1 de Nocaute, lançado na noite de 29 de setembro.

Abertas as urnas e eleito Donald Trump, voltei a cobrar a entrevista, que acabou sendo marcada para a tarde de 27 de dezembro. Uma gelada e úmida tarde londrina. De calça azul marinho e agasalho de lã abotoado até o pescoço, o varapau de um metro e noventa apareceu sorridente, com a barba e os cabelos longos, mais pálido do que sugerem suas fotos.

Julian Assange é um homem de fala suave e gestos contidos, que em nada lembra o carbonário pintado por alguns veículos. Falou durante três horas sobre Trump, Hillary, Michel Temer, manifestações contra Dilma, Petrobras e, claro, espionagem. A gravação foi interrompida algumas vezes para que ele pudesse tomar um pouco de água e ciscar pedaços de um croissant trazido num saquinho de papel por sua assistente.

Ao final, fez uma única exigência: que a entrevista não fosse divulgada antes de determinada data de janeiro.

A seguir, os vídeos com a entrevista e a transcrição da fala de Assange.

PS.: Os gastos com este trabalho jornalístico – passagens, hotel etc. – foram custeados por contribuições de apoiadores do Nocaute.

Bloco 1

Fernando Morais: Há dez anos nascia o WikiLeaks, a mais poderosa e inexpugnável máquina de divulgação de segredos de estado de que se tem notícias em todos os tempos. Há quatro anos está aqui nesse pequeno prédio no centro de Londres onde funciona a embaixada do Equador, o criador dessa máquina, o australiano Julian Assange. Assange está exilado na embaixada do Equador, a poucos metros da Harrods, paraíso mundial para os turistas que vêm aqui para fazer compras. Vamos entrar aqui na embaixada para fazer uma entrevista exclusiva com Julian Assange para o Nocaute. Venha conosco!

Fernando Morais: Em primeiro lugar muito obrigado pela deferência de ter me recebido aqui. É uma honra estar aqui com você, apesar das circunstâncias.

 Você deve saber que os netos dos netos dos seus netos e os netos dos netos dos meus netos, os seus na Austrália e o meus no Brasil, vão ler nos livros de História, daqui a cem anos, o responsável pela eleição do Trump para a Presidência dos EUA foi o senhor. Não importa que isso não seja verdade: como o senhor se sente em relação a isso?

Assange: Penso que é muita ingenuidade acreditar que muda tudo tendo este ou aquele presidente no comando. Sim, o Trump foi eleito e nomeou Rex Tillerson secretário de Estado, e Rex é o CEO da Exxon. Mas, quem foram os segundos maiores frequentadores da Casa Branca nos oito anos do governo Obama? Os lobistas da Exxon.

O que a Hillary Clinton fazia quando era secretária de Estado? Uma das coisas principais era pressionar a favor dos interesses das empresas de petróleo. Acho que não podemos ser muito ingênuos a respeito.

Os Estados Unidos vão continuar cometendo todos tipos de crimes contra seu próprio povo e também no exterior. Vão cometer erros e crimes graves intencionalmente. Sempre foi assim. Porque os governos representam as facções dominantes da sociedade americana, que são as grandes empresas multinacionais.

A questão é: que tipo de símbolo é isso? O que representa esse fenômeno? Com Rex Tillerson como chefe do Departamento de Estado fica muito fácil saber o que eles querem fazer. Era mais difícil quando Hillary Clinton era secretária de Estado.

Eu critico o governo Trump, engajado em causas capitalistas, fazendo acordos escusos para amigos. Mas como se trata de uma classe de bilionários, é uma crítica fácil de se fazer.

Mas se olharmos o gabinete do Obama, veremos dezenas de bilionários. Há bilionários no gabinete do Trump como havia no do Obama.

Então não estou certo de que as coisas sejam tão diferentes, e retoricamente a situação é muito mais fácil de se entender.

Além disso, o Trump desestabilizou o que era uma consolidação crescente de poder de Obama desde os tempos de Clinton. Essa consolidação foi incomodada. Um novo grupo está emergindo no gabinete do Trump. Mas ele tem muitos inimigos, tem a maioria da imprensa americana como sua inimiga, tem a estrutura montada pelo Obama e terá que encontrar seu próprio caminho. Trump desestabilizou o estado de poder que funcionava. Trump trouxe muita gente que é bilionária, com um caráter muito forte, para seu gabinete.

Por que as pessoas se tornam bilionárias? Parte da explicação é que elas não querem mais trabalhar pra ninguém. Mas essas pessoas disseram que trabalhariam para o Trump. Essa é uma questão muito interessante.

A partir do momento que se tiver uma situação de independência dessas pessoas que formam o gabinete, com o tempo alguns serão ejetados e outros começarão uma carreira para solidificar aquela estrutura. Mas por um bom tempo, talvez um ano ou dois, haverá muitas oportunidades de mudar a percepção do que o governo americano faz, e conseguir algumas mudanças de verdade a partir disso.

Algumas áreas como a política externa, por exemplo, com certeza terão mudanças. Algumas pra melhor, outras para pior.

Sim, o governo Trump cometerá todo tipo de crimes, mas definitivamente os mesmos crimes cometidos pelo governo da Hillary Clinton. Só que agora o processo será mais visível e as críticas internas serão muito mais intensas.

Vamos imaginar que haja outra guerra por petróleo. Quem irá se opor a ela internacionalmente? Se você olhar para a estrutura da sociedade europeia, a maioria irá criticar mais facilmente o governo americano do que se a Hillary Clinton estivesse conduzindo a guerra. Se você vive num país vítima da guerra, você terá ajuda internacional mais facilmente se a administração Trump ameaçar invadir seu país.

Da mesma forma no âmbito doméstico. Trump pode ter mais oposição interna para essa guerra. O New York Times faz oposição a Trump, assim como a CNN e como quatro dos cinco grandes conglomerados de mídia dos EUA. Então, é mais fácil conseguir uma resistência doméstica contra essa política. Se fosse nos moldes antigos, essa oposição estaria fora do jogo, incluindo a CNN. Vamos ver se os cinco grupos de mídia dos EUA fazem um acordo para sair de cena, mas no momento eles estão fazendo campanha contra o Trump. Então ficará mais fácil conseguir uma resistência doméstica contra essa política.

Há um isolamento de forças nesse gabinete. Provavelmente essa força isolada vai mudar com o tempo. Provavelmente a CIA e os complexos militares vão se aproximar. A Exxon, Chevron e outras companhias com interesses no exterior vão impor suas demandas. A indústria de armas dirá: “Temos de aumentar nossas vendas de armamentos. As pessoas precisam ver nosso jatos bombardeando alguma coisa ou não os comprarão.”

Com o tempo dá pra se preocupar. Mas neste momento é muito fácil criticar dentro e fora dos EUA qualquer coisa efetivamente perigosa que a administração Trump faça. Então não é tão ruim.

Fernando Morais: Que evidências o WikiLeaks tem do envolvimento internacional na derrubada da presidente Dilma Rousseff no Brasil?

Assange: Não publicamos nada diretamente a respeito, mas muita coisa sobre as partes envolvidas, como eles agiram historicamente – incluindo o presidente Temer e outras pessoas do seu gabinete. A maioria trata de contatos com a embaixada americana. Vindo à embaixada americana, trazendo briefings e tentando fazer lobby para que ela apoie um partido ou outro.

Fernando Morais: Na sua opinião o que aconteceu no Brasil foi um processo de impeachment ou um golpe de estado no estilo Século 21?

Assange: Algo entre as duas coisas, um golpe constitucional. Um golpe político, como pode ser chamado.

Fernando: Há alguma evidência concreta do que a CIA…

 Assange: Na Austrália, meu país natal, houve um golpe que foi esquecido, que aconteceu de forma muito semelhante ao que ocorreu com Dilma e Temer no Brasil. Foi em 1975, um processo muito parecido, lá também um partido de esquerda estava no poder.

Fazia dois anos que estavam no poder e nunca tinham estado tanto tempo antes. Aí os setores de negócios e de inteligência, aliados aos governos americano e britânico, se uniram e usaram um truque constitucional para derrubar o governo e instalar a oposição.

Fernando: À luz do que o WikiLeaks tornou público, é possível identificar exatamente o que a NSA (National Security Agency) buscava ao fazer espionagem e escutas telefônicas no Brasil?

Assange: Sim, as publicações das escutas sobre o Brasil. Nós publicamos que não apenas a NSA estava espionando determinada companhia ou pessoa, mas vazamos a cadeia completa de alvos. Portanto, temos a base da atividade de coleta de dados. Se você pensa na NSA, ela não decide políticas mas faz espionagem sim. Hackeia satélites, coloca grampos em fibras óticas, etc.

Isso se dá no nível operacional, não no político. No nível político, o (DNI) Director Nacional Intelligency diz quais são prioridades gerais do que os Estados Unidos querem coletar [de informação] e aí acionam a NSA e a CIA, o National Reconnaissance Office [agência de inteligência norte-americana que projeta, constrói e opera os satélites espiões para o governo dos EUA] e coletam de volta a informação.

Nas nossas publicações você pode ver que o gabinete de um determinado ministro, a Petrobras e o presidente da República são alvo de espionagem por razões políticas ou econômicas porque essas são as razões listadas de acordo com as designações dadas.

Assange: Então a busca no Brasil é uma mistura envolvendo assuntos políticos, tentando entender a política no Brasil, que rumo gostaria que tomasse, o que gosta, o que não gosta. E compreender a economia brasileira.

Ada: Existem evidências de informantes que imprimimos a respeito de conversas do vice-presidente Temer.

Assange: É essa publicação dos grampos no Brasil, com números de telefone detalhados, as informações pedidas. Isto é a política de diretrizes dos EUA: por que eles querem essas informações e qual a necessidade delas? Isto explica, resumidamente, o porquê deles quererem essas informações. Espionando Dilma por razões políticas. O gabinete da presidente, dos ministros etc. Isto é para entender como funcionam as finanças do país. Então é uma mistura.

Por razões militares, ocasionalmente espionam o Exército brasileiro. Todos sabem que isso é o que os serviços de inteligência fazem. O que há de novo nisso é o grau de interesse político, econômico e financeiro, não apenas uma parte pequena da atividade. Na verdade, se analisarmos o orçamento da NSA, cerca de 50% de toda sua atividade é pra entender qual o rumo que um país ou gabinete presidencial está tomando politicamente e economicamente – para que os EUA possam reagir e conduzi-los a um caminho específico. Na lista das espionáveis estão as importantes companhias energéticas.

Fernando: O WikiLeaks divulga um milhão de documentos por ano. Você certamente não se lembra de tudo, mas dos documentos do WikiLeaks o que é sabido a respeito da relação do então vice-presidente Temer com os serviços de inteligência estrangeiros, particularmente norte americanos?

Assange: Nós publicamos várias mensagens sobre isso. Uma em particular é de janeiro de 2006, em que ele vai à embaixada americana. A mensagem é somente a respeito das informações fornecidas por Michel Temer, suas visões políticas e as estratégias do seu partido.

Isso mostra um grau um pouco preocupante de conforto dele com a embaixada americana. O que ele terá como retorno? Ele está claramente dando informações internas à embaixada dos EUA por alguma razão. Provavelmente para pedir algum favor aos Estados Unidos, talvez para receber informações deles em retorno.

Ele foi à embaixada americana várias vezes pra falar. A mensagem que publicamos em janeiro é só sobre essas comunicações. Frequentemente a embaixada retorna contato a respeito de alguma questão e consultam diversos informantes de partidos diferentes e juntam essa informação.

Temer enviou informações várias vezes para a embaixada americana, mas outros também o fizeram. Gente do seu gabinete e também gente de dentro do PT. Então, pessoalmente, eu acho que dada a natureza da relação do Brasil com os Estados Unidos e considerando a intenção do departamento de Estado americano em maximizar os interesses da Chevron e ExxonMobil, estão provendo aos EUA inteligência política interna sobre o que se passa politicamente no Brasil.

Com essas informações o Departamento de Estado pode fazer manobras em defesa dos interesses das grandes companhias americanas de petróleo. O que não necessariamente está alinhado com os interesses do Brasil.

Dependendo de como funciona uma sociedade, pode-se permitir que qualquer pessoa vá a uma embaixada e passe informações internas. Mas a maioria das sociedades que sobrevivem tem regras contra isso. Regras que proíbem que informações políticas delicadas sejam dadas a outro estado.

Ada: E há também há a sensação de que ele está insatisfeito com a política anti-neoliberal do PT e deseja se alinhar com o PSDB.

Assange: É o que tem acontecido agora. Se você ler o que publicamos em 2006, verá que a situação política atual está sendo construída há muito tempo. É interessante ver como o posicionamento das partes, suas visões de mundo e quem são seus aliados, não mudou tanto, como pode se ver.

Bloco 2

Fernando: Você deve saber que o Brasil descobriu enormes jazidas de petróleo do pré-sal no oceano e isso daria muito dinheiro ao Brasil mesmo o barril a 8 dólares Que interesse internacional existe nisso? Especialmente o envolvimento do Michel Temer?

Assange: Não tenho certeza. Precisamente a respeito de Michel Temer temos um material importante. Nós publicamos um número de documentos a respeito das jazidas do pré-sal na costa brasileira. Os depósitos são considerados cerca de quatro vezes maiores que as jazidas brasileiras existentes, algo extremamente significativo. É muito caro chegar lá no fundo do oceano e furar a camada de sal. Mas quando se chega, o petróleo não precisa de muito refinamento e se torna bastante lucrativo.

A respeito das condições existentes, a Petrobrás teria 30% de receita do petróleo do pré-sal.

Empresas interessadas nesse petróleo têm ido à embaixada americana para reclamar dessas condições. E alguns partidos políticos no Brasil estavam dizendo que prefeririam que a Chevron e a ExxonMobil tivessem acesso mesmo sem a exclusividade dos trinta por cento da Petrobras.

Esse é na verdade um tema muito interessante: qual é a melhor maneira para o Brasil de licenciar a exploração dos depósitos de petróleo? O que mais beneficiaria os brasileiros?

E o argumento básico é nesta linha: se um estado vai agir de maneira coerente, em competição com outros países e grandes companhias de petróleo, eles devem garantir uma receita, e o petróleo garante um fluxo forte de receita, que pode fortalecer o estado.

O outro lado da equação usa o argumento que, se uma empresa, mesmo se é propriedade do estado, tem acesso preferencial, ela ficaria ineficiente e não se sairia bem na extração petróleo, porque não haveria competição. Estes são os argumentos básicos.

Também se diz que se existe muita competição na extração de petróleo, o preço cai muito e o estado não arrecadará muito em termos de cobranças de licenças de extração.

Então se você olha as mensagens publicadas em dezembro de 2009, verá que já havia relatos disso, mas não era a parte mais interessante. Pra mim a parte mais importante é quando admitiram que o mais lucrativo para o governo seria que a Petrobras tivesse o direito aos 30%.

Então isso é uma admissão. Por que a embaixada alega que o negócio mais lucrativo pra o estado brasileiro ocorreria se a Petrobras tivesse esses 30%?

Porque a Chevron e outras grandes companhias americanas de petróleo diriam: se a Petrobras tem esses 30%, não compensa pra nós. Não vale a pena pra nós fazer a extração, nós poderíamos talvez nos envolver no financiamento.

Mas a russa Gazprom e outras companhias chinesas de petróleo, como a China Oil, poderiam ser capazes de cobrir lances nas licitações, obrigando a Chevron e a Exxon a investir mais dinheiro, porque chineses e russos conseguem operar com menos lucro.

Por que? Porque os chineses só querem o petróleo, eles não estão tão interessados no lucro. Eles podem chegar mais depressa e ficariam com as contas equilibradas. Além de aportar um volume maior de recursos ao Brasil.

Assim como outras empresas petrolíferas estatais e outros estados que têm petróleo, os chineses operam de forma a que sempre possam ganhar licitações em cima da Exxon, por exemplo, uma empresa muito grande, que tem uma receita anual de US$ 269 bilhões.

Então, no caso da Petrobras a questão que está posta é a seguinte: que tipo de estado o Brasil quer ser? Um estado forte. Ou um estado muito fraco, que tem grandes petrolíferas estrangeiras e multinacionais tomando conta dos seus recursos naturais?

Talvez você possa ver o que acontece no Brasil por outro ângulo: quais são as grandes instituições públicas brasileiras, quais as mais fortes? Acho que são o Exército e a Petrobras. E acho que em comparação, todas as outras instituições são fracas. Então creio que fragilizar a Petrobras é uma forma de fortalecer os militares como centro de gravidade da organização do estado. E isso pode ser um problema.

Duas razões justificam a elevação do pré-sal a assunto prioritário nas políticas internas: a Petrobras é considerada uma aliada do PT, porque Dilma esteve lá, colocou gente dela lá e as políticas dela beneficiaram a Petrobras. Por tudo isso, institucionalmente, a Petrobras sente que seus interesses estão melhor servidos pelo PT.

Isso faz com que outros partidos queiram reduzir o poder da Petrobras, tirando os ganhos dela. Uma maneira de trocar favores com os Estados Unidos é facilitar à Chevron e à ExxonMobil o acesso a partes desse petróleo. Nas mensagens vazadas por WikiLeaks aparece um desejo constante das petroleiras americanas de ter o mesmo acesso que a Petrobras tem.

É diferente de um estado tradicional, algo como um capitalismo de estado. Porque o que a Petrobras pratica é capitalismo de estado. Tem a estrutura de uma empresa, mas cuja organização é controlada pelo estado.

Qual a diferença entre esse tipo de controle e o controle que vem de leis e acordos? Você tem que nos dar certa porcentagem pra fazer o serviço, você não pode agir de determinado modo ou sua companhia será multada e pessoas podem ser processadas.

É isso que tem acontecido nos países em desenvolvimento desde o começo dos anos 80, talvez desde 70 em países desenvolvidos. Tem sido uma mudança de como se regulam instituições.

Mas isso só funciona quando o sistema de regulação e o de legislação são incorruptíveis. Ai não importa quem controla a instituição, já que você controla as leis. Mas só funciona se você conseguir forçar o cumprimento das leis e detectar se as leis estão sendo corrompidas. E o setor de petróleo tem tanto dinheiro que isso acaba se tornando impossível.

Fernando Morais: : Voltando ao Brasil, ao Michel Temer, na página dele do Wikileaks ele se dirige a alguém não identificado, isso foi uma conversa privada com um informante americano ? Quantas vezes isso aconteceu e o que isso sugere?

Assange: Sim, Michel Temer teve reuniões privadas na embaixada americana para passar a eles questões de inteligência política, a que não muitos tiveram acesso, e discussões das dinâmicas políticas no Brasil.

Isso não é pra dizer que ele é um espião pago pelo governo americano. Eu não sei, mas não existem evidencias que ele seja um espião pago em dinheiro. Estamos falando de algo mais, falando de construir um boa relação de forma a ter trocas de informação de parte a parte. E apoio político.

Fernando Morais : Tem um outra passagem de um discurso da Hillary Clinton para o Itaú que ela diz que gostaria de ter fronteiras livres. Isso seria algum anúncio de que ela estava a favor do impeachment ou o golpe no Brasil?

Assange: Sim, em outubro publicamos palestras secretas de Hillary Clinton pelas quais ela foi paga. As transcrições de alguns trechos revelam que o staff de campanha dela temia que se tornassem públicos. Bernie Sanders e outros achavam que esse tema deveria ser público, mas ela o manteve em segredo. E isso era o Santo Graal do jornalismo americano, ter acesso a essas coisas. Para o jornalismo americano foi como ter acesso a um tesouro. E nós publicamos.

É um material muito interessante ver a posição dela quando fala com Goldman Sachs, quando ela fala com bancos brasileiros de investimento.

O que se vê é uma liberal imperialista em relação à expansão do império americano, com fome de cimentar acordos de aproximação e implantar mudanças ardilosas como o TTP [Tratado Transpacífico] e o TTIP [Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento]. Ela propõe realinhamentos estratégicos com o objetivo de fazer duas coisas: dar às multinacionais americanas o que elas querem e parar a China, fazer com que seja mais difícil os chineses crescerem.

Então eu não sei o que as declarações dela estão refletindo. Ela falava sobre energia com bancos de investimentos do Brasil, estava defendendo livre trânsito de produtos de energia.

Bloco 3

Fernando Morais: Logo depois da chamada primavera árabe, dois movimentos de rua cresceram, um no Brasil e outro na Turquia. No Brasil, antes dos protestos de 2013, a popularidade da presidente Dilma era 80 por cento, após os protestos foi a 30 por cento. E na Turquia acabou com a tentativa de golpe militar contra o presidente Erdogan e recentemente o golpe no Brasil. Você vê relação entre os dois?

Assange: Não. Entre a Turquia e o Brasil, não. Acho que são coisas diferentes. Talvez o golpe no Brasil fosse populista na sua natureza. Se houvesse uma questão mais ampla seria relacionada ao uso de mídias sociais, que por um lado está permitindo surgir uma cultura não industrializada de forma orgânica, imprevisível e incontrolável, permitindo aos líderes políticos pular intermediários, falam direto com as massas, tal como está fazendo o Trump.

Isto é, evitam a censura e a influência da mídia organizada, controlada pelas grandes famílias. Esse efeito tem sido direcionado por organizações especializadas em espalhar centenas de milhares de “verbots” mensagens na internet, forçando uma mensagem em particular, fazendo parecer que é um fenômeno orgânico, mas é um fenômeno programado.

Vou te dar um exemplo. Em 2011 WikiLeaks publicou muitas informações do Bahrein. Era a época da primavera árabe, árabes bareinitas avançaram sobre o poder e o Twitter era muito popular. No espaço de um ano o regime do Bahrein contratou algo como dez empresas de assessoria de imprensa, a maioria ocidental. Repentinamente começaram a surgir muitas contas no Twitter e no Facebook, até paginas da Internet, publicando propaganda pró regime .

Ada: No Brasil foi um pouco diferente porque como a esquerda estava no poder, essas mensagens populistas foram de alguma maneira defendidas pela grande mídia, que é controlada por cinco famílias. O que vimos em 2013 foi muito diferente do que aconteceu historicamente no Brasil, uma emergência da direita que não favorece a própria direita e que é esquerdofóbica, que é um novo fenômeno no Brasil, é um caso diferente dos EUA de certo modo.

Assange: Populismo genuíno pode sempre se mover contra a autoridade enquanto se tenha uma mídia que o expresse. Porque a autoridade é percebida pela sua habilidade de prender pessoas, cobrar impostos e liderar, sob esse aspecto. E quando uma crítica livre se desenvolve, do tipo mais duro, subjuga a percepção de autoridade. Aborda de maneira áspera, enfatiza a percepção de autoridade. Isso aconteceu no caso da Dilma.

Não era puramente orgânico, mas tinha um componente orgânico e esse componente orgânico foi enfatizado pelos cinco grandes grupos de mídia. E provavelmente por robôs. Na verdade achei evidencias de robôs, não tenho certeza a respeito de quem os controlava, foi descoberto no final, mas houve uma pressão de robôs de mídias sociais.

Estamos só no comecinho deste fenômeno onde muita gente tem agora a capacidade de publicar. Isso muda a dinâmica de poder, porque nas nossas sociedades, muito da dinâmica de poder é baseada na censura, prevenindo assim que a maioria da população se expresse. Ou ao menos que publique algo que atinja muita gente. Isso está começando a mudar.

Você sabe quando está lidando com um robô? Você sabe quando está lidando com uma pessoa real? É um sistema que tem alguns humanos e esses humanos controlam milhares de robôs que são com quem você interage, na verdade. É a invenção dos “falsos demos”.

Por que as revoluções acontecem em praças, muito frequentemente? Por que sempre acontecem em praças? É porque na praça você pode ver como o povo reage. Você olha em volta e pode ver as pessoas. Por que se precisa de uma praça para isso? Certamente se as pessoas não estivessem na praça e a mídia estivesse cobrindo e divulgando fielmente a vontade do povo, se teria a revolução de qualquer maneira. Mas os canais de comunicação não divulgam o que a população quer, então não se tem a mesma percepção .

É a percepção do que é a vontade da maioria que define se algo é politicamente possível. Portanto quando se tem uma revolução é normalmente numa praça, como a tomada do Palácio de Inverno, porque as pessoas podem ver que elas são muitas. Porque elas não veem que são tantas quando não estão na praça? Porque o sistema de mídia está suprimindo a realidade do que as pessoas pensam, eles não conseguem perceber os “falsos demos” .

Com a possibilidade de todos falarem na internet de uma maneira ou de outra, um antídoto pra isso é criar os tais “fake demos”. É muito simples: censurar pessoas está se tornando muito difícil. O senso de coletividade fica difícil de perceber. O poder político não se preocupa mais em censurar pessoas, o que se preocupa é a sensação de ser maioria, de que se tem a vontade popular por trás de você. Para obter esse efeito criam-se “falsos demos”. É isso que, desde mais ou menos 2011, vêm fazendo estados e partidos políticos. É um novo jeito de fabricar consensos. Estamos familiarizados com a situação antiga, com os oligarcas da mídia, mas quando se tem mídias sociais se tem uma nova maneira de criar consensos, que é a criação de uma aparência de vontade democrática.

Fernando Morais: Você identificou alguma evidência da influência americana nos protestos do Brasil?

Assange: O que eu vi é que havia um grande numero de robôs online operando pra estimular esses protestos. E pensando em como são os programas americanos, vemos que essas coisas não acontecem na América Latina sem apoio americano. Financeiramente, com logística e inteligência, tanto no exato momento que acontece ou meramente juntando as partes envolvidas. Se ler nossas publicações você verá que acontece repetidamente isso e o Brasil é um país que atrai muito interesse.

Na verdade ao olhar a espionagem militar em diferentes países da América Latina, o Brasil é o país latino-americano mais espionado. Isso é muito interessante porque alguém imaginará ingenuamente que deve ser Venezuela ou Cuba que tenham mais espiões, porque historicamente foram os adversários com os quais os EUA mais se envolveram em hostilidades, e não o Brasil. Então por que o Brasil? É que o Brasil tem uma economia maior, o Brasil é simplesmente mais importante economicamente.

 

Fernando Morais: Muitos disseram que o sistema de votos do Brasil e da Venezuela foram certificados e não tem fraude, mas meu genro disse a pessoas desse meio que sim é possível fraudar, especialmente no caminho entre a urna e o sistema. Sabe algo sobre isso? E o que isso significa para a democracia na era cibernética?

Assange: Eu era um hacker adolescente e virei consultor de segurança e engenheiro cartográfico e usei essa formação pra manter WikiLeaks e nossas fontes a salvo. WikiLeaks existe dentro de uma comunidade de pessoas semelhantes. E há muito tempo eu e outras pessoas dessa comunidade afirmamos, faz mais de vinte anos que dizemos isso: urnas eletrônicas são perigosas.

Os fabricantes de urnas eletrônicas dizem que elas aumentam a precisão da contagem dos votos porque é mais difícil mexer numa máquina complexa do que numa urna normal. É verdade que é mais difícil fraudar uma urna eletrônica que uma urna normal, mas se fraudar uma urna normal, você afeta quantos votos ?

Talvez algumas centenas. Agora, quando se tem acesso ao código responsável pela eleição, ou ao computador que faz os relatórios, pode-se mudar centenas de milhares ou até milhões de votos. E pode-se fazer isso de maneira quase indetectável! Esse é o ponto principal!

Alguém dirá: ok, mas podemos auditar, checar as máquinas pra ver se estão ok, pode-se se ter uma conexão reserva. Mas a realidade é que governos gostam de cortar custos ou ficam ineficientes e com o passar do tempo não se audita tanto.

Esse é um problema filosófico interessante: nunca se sabe de verdade o que faz uma máquina que seja complexa.

Quase ninguém pode determinar se uma máquina complexa está de fato fazendo o que deveria fazer. E quando se trata de votos, da intensa busca pelo poder, com motivações muito fortes. Uma pessoa comum deveria ser capaz de entender que a máquina faz o que deveria fazer, mas uma pessoa comum nada pode entender dessa complexidade. Por isso as urnas eletrônicas são perigosas.

Fernando Morais: Durante a guerra fria o cardeal húngaro Jozsef Mindszenty viveu 15 anos na embaixada americana em Budapeste, porque ele estava sendo perseguido pelo regime pró soviético. Por quanto tempo está preparado para viver na embaixada do Equador?

Assange : Quanto tempo aguentarei ficar aqui é irrelevante. O que importa é saber quando os EUA começarão a obedecer suas próprias leis e quando derrubarão o processo contra mim e, potencialmente, contra outros membros do WikiLeaks. Relevante é saber quando o Departamento de Justiça americano vai começar a obedecer suas leis, suas próprias leis, a Constituição americana, a Primeira Emenda, suas regras internas que dizem que não se pode processar um meio de comunicação. O que importa é saber quando o Reino Unido e a Suécia obedecerão às leis – há quase um ano a ONU determinou que ambos estavam agindo ilegalmente ao me manter em prisão domiciliar nesta embaixada, me detendo por seis anos neste país sem acusação. Recentemente a ONU reafirmou essa decisão e a situação continua a mesma. Quando eles obedecerão às leis?

Assange: Eu acho irônico que acusem um veículo como WikiLeaks de ser radical e revolucionário. O que prega o WikiLeaks? Que as pessoas devem obedecer às leis, não devem ser corruptas, devem ser honestas, abertas, transparentes. De certa maneira é algo tão simples que chega a parecer cristã, até conservadora essa visão.

Nós dizemos que os Estados Unidos apenas deveriam obedecer suas próprias leis. Não é uma demanda tão grande, mas as pessoas que se opõem dizem: mesmo que a lei diga que vocês podem publicar, vocês não deveriam.

Fernando Morais: Muito obrigado e espero recebê-lo como um homem livre em um Brasil democrático.


USAR O CONTROLE REMOTO É UM ATO DEMOCRÁTICO!

EXPERIMENTE CONTRA A TV GLOBO! Você sabe que um canal de televisão não é uma empresa privada. É uma concessão pública concedida pelo governo federal com tempo determinado de uso. Como meio de comunicação, em uma democracia, tem como compromisso estimular a educação, as artes e o entretenimento como seu conteúdo. O que o torna socialmente um serviço público e eticamente uma disciplina cívica. Sendo assim, é um forte instrumento de realização continua da democracia. Mas nem todo canal de televisão tem esse sentido democrático da comunicação. A TV Globo (TVG), por exemplo. Ela, além de manter um monopólio midiático no Brasil, e abocanhar a maior fatia da publicidade oficial, conspira perigosamente contra a democracia, principalmente, tentando atingir maleficamente os governos populares. Notadamente em seu JN. Isso tudo, amparada por uma grade de programação que é um verdadeiro atentado as faculdades sensorial e cognitiva dos telespectadores. Para quem duvida, basta apenas observar a sua maldição dos três Fs dominical: Futebol, Faustão e Fantástico. Um escravagismo-televisivo- depressivo que só é tratado com o controle remoto transfigurador. Se você conhece essa proposição-comunicacional desdobre-a com outros. Porque mudanças só ocorrem como potência coletiva, como disse o filósofo Spinoza.

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CAMPANHA AFINADA CONTRA O

VIRTUALIZAÇÕES DESEJANTES DA AFIN

Este é um espaço virtual (virtus=potência) criado pela Associação Filosofia Itinerante, que atua desde 2001 na cidade de Manaus-Am, e, a partir da Inteligência Coletiva das pessoas e dos dizeres de filósofos como Epicuro, Lucrécio, Spinoza, Marx, Nietzsche, Bergson, Félix Guattari, Gilles Deleuze, Clément Rosset, Michael Hardt, Antônio Negri..., agencia trabalhos filosóficos-políticos- estéticos na tentativa de uma construção prática de cidadania e da realização da potência ativa dos corpos no mundo. Agora, com este blog, lança uma alternativa de encontro para discussões sociais, éticas, educacionais e outros temas que dizem respeito à comunidade de Manaus e outros espaços por onde passa em movimento intensivo o cometa errante da AFIN.

"Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias; que é atingido pelos próprios pensamentos como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, como por uma espécie de acontecimentos e de faíscas de que só ele pode ser alvo; que é talvez, ele próprio, uma trovoada prenhe de relâmpagos novos; um homem fatal, em torno do qual sempre ribomba e rola e rebenta e se passam coisas inquietantes” (Friedrich Nietzsche).

Daí que um filósofo não é necessariamente alguém que cursou uma faculdade de filosofia. Pode até ser. Mas um filósofo é alguém que em seus percursos carrega devires alegres que aumentam a potência democrática de agir.

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