Arquivo para 16 de fevereiro de 2018

O LUCRATIVO ACORDO DE YOUSSEF COM A LAVA JATO

Facebook de Lula. 

Alberto Youssef fechou dois acordos de delação com o juiz Sérgio Moro que o tiraram duas vezes da cadeia. O primeiro acordo entre os dois foi em 2004, que tirou Youssef da prisão na época do escândalo do Banestado. Havia uma cláusula de compromisso que estabelecia que ele não podia retornar a atividades criminosas.

Depois Moro grampeou e monitorou Youssef entre 2006 e 2014, ou seja, durante 8 anos, até sua prisão pela Operação Lava Jato (ou você acredita no filme que ela começou por acaso em uma apreensão de palmito?). Por isso que em depoimento Lula disse que Moro tinha mais condição de saber dos escândalos da Petrobrás do que ele, porque o juiz tinha acesso ao monitoramento de Youssef. E durante todo esse período deixaram ele seguir com suas atividades criminosas, mesmo elas sendo violações do seu acordo.

No segundo acordo de delação homologado por Moro, agora com a Lava Jato, estava prevista uma “cláusula de desempenho” segundo a qual Youssef teria direito a 2% de tudo que fosse recuperado pela Lava Jato. Ou seja, Youssef poderia ganhar uma fortuna com a sua delação.

Em depoimento hoje Youssef, que já está solto apesar de ter confessado diversos crimes, disse que renunciou aos recursos que receberia da Lava Jato. Mas o documento onde ele teria decidido isso não foi incluído pelos procuradores da equipe de Deltan Dallagnol nos autos.

#equipe

PAPO COM ZÉ TRAJANO

NOCAUTE: DOM PEDRO CASALDÁLIGA: 90 ANOS DE VIDA, 50 ANOS DE LUTA PELOS BRASILEIROS POBRES.

Com a coragem e a energia de uma onça e a aparência física de um passarinho, o bispo resiste aos latifundiários e coronéis no interior do país. Ao final do texto, leia também o editorial do jornal ARA, da Catalunha, e um texto exclusivo de João Pedro Stedile para o aniversário de Pedro.

Cena do documentário “Pedro: Profeta da Esperança”

Pela solenidade da liturgia eclesiástica ele é Sua Eminência Reverendíssima Dom Pedro Maria Casaldáliga Pla, Bispo Emérito de São Félix do Araguaia. Para os camponeses sem-terra, lavradores e índios com quem convive nos confins do Mato Grosso, é só Pedro. Ou Pedrinho, como dizia uma criança que morava perto de sua casa.“É por causa do meu tamanho”, explicava o religioso franzino no programa Roda Viva de 1988, ao rejeitar o tratamento de “dom”.

Pedro completa noventa anos nesta sexta-feira, dia 16 de fevereiro, e cinquenta desde que trocou a cidadezinha de Balsareny, na Catalunha, onde nasceu, pela inóspita Amazônia brasileira. Com a coragem e a energia de uma onça e a aparência física de um passarinho, há meio século o bispo engajado na Teologia da Libertação resiste às ameaças de morte e luta contra o poder de latifundiários e coronéis no interior do país.

No dia em que foi sagrado bispo pelo papa Paulo VI, em 27 de agosto de 1971, o claretiano Pedro mostrou a que vinha, ao tornar pública sua primeira carta pastoral, cujo título é uma profissão de fé: “Uma igreja da Amazônia em conflito com o latifúndio e a marginalização social”.

Apesar dos riscos, nunca pensou em sair de São Félix: “Seria uma covardia, uma traição, um anti-testemunho. Imagina um bispo fugir? Isso já seria demais”, disse ele.

Por uma dessas dramáticas casualidades, seu confrade e companheiro de lutas, o padre jesuíta João Bosco Burnier, acabaria pagando com a vida a ousadia de Pedro. Em 1976 ambos foram a uma delegacia de polícia de Ribeirão Cascalheira, em Mato Grosso, após serem informados de que duas mulheres estavam sendo torturadas lá dentro. Confundido com Pedro, padre João Bosco foi assassinado por um policial.

Após a missa de sétimo dia pela alma do religioso morto, em plena ditadura militar, a população da cidade foi em procissão até a delegacia, arrombou as portas e as grades e libertou os presos. No local foi construída uma igreja.

 

 

A expulsão de Pedro foi pedida inúmeras vezes durante o regime militar. Sem exceção, uma das figuras públicas a quem mais admirava, o arcebispo de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, saía em sua defesa. Segundo Pedro, era ele “um dos mais importantes defensores de direitos humanos do mundo”.

Pedro teve sua casa revirada pelos militares em busca de “material subversivo”. No documentário Pedro: profeta da esperança, dirigido por Cireneu Kuhn, o bispo conta que, após uma ação de busca da polícia, foi até ao delegado responsável, desafiador, como de costume: “Falei para ele: ‘Vocês esqueceram do livro mais subversivo que eu tenho: Matheus, capítulo 25. Leiam’”.

Pedro viveu a Guerra Civil espanhola durante a infância na Catalunha, momento em que começou a formar suas convicções políticas: “Eu era do lado vermelho, minha família, do outro. Vi muito sangue de perto. Quando criança, escondi padres, freiras e desertores. O tio da minha mãe, com 33 anos, foi assassinado só por ser padre”.

Depois de morar nos subúrbios de Barcelona e Madri, passou três meses na Guiné Equatorial, onde descobriu o chamado “terceiro mundo”. O próximo destino foi o Mato Grosso, onde vive até hoje.

Autor de mais de 20 livros, Pedro foi um dos fundadores do Cimi, Conselho Indigenista Missionário.

Para ele, a igreja deve ser popular: “No povo, a partir do povo, voltado para as lutas e esperanças do povo”. Sua militância se estende por toda a América Latina. Ao apoiar a revolta de Chiapas, no México, em 1994, radicalizou: “Compreendemos o povo desesperado que decide pegar em armas”.

Sobre a Revolução Sandinista, na Nicarágua, disse ser “talvez a revolução mais bonita e a mais cristã de que se tem notícia na história, pelo menos da América Latina”.

São inúmeros os atos de valentia do bispo.

Em um ato de memória à Guerra de Canudos, Pedro subiu ao palanque para fazer um discurso comovente: “O que fez Antonio Conselheiro e seus companheiros, nós devemos fazer. Sem medo. Ocupar a terra. A terra é de Deus e é de todos. Em segundo lugar, se organizar, sem coronéis, sem acumuladores, sem exploradores, sem corruptos. Em terceiro lugar, morar, celebrar Canudos, esta Terra Santa, essa Jerusalém sertaneja”.

No programa Roda Viva de 88, o jornalista Sérgio Rondino, editor de política do Jornal da Tarde, foi encarregado de fazer a pergunta final ao bispo: “Fiquei meio preocupado com a sua última colocação. A propósito da imprensa, o senhor preferiria uma imprensa comprometida com as suas teses ou uma imprensa livre?”.

 

Para a surpresa do jornalista, Pedro responde imediatamente: “Você tem toda razão em distinguir. Eu preferiria uma imprensa comprometida com as minhas causas. Não com as minhas teses. A causa do índio, do lavrador, da mulher, do menor, desta América Latina, do terceiro mundo, da solidariedade”.

Rondino insiste, incrédulo: “Mas você imporia algum controle à imprensa que não segue as suas causas? É isso que está me preocupando.”

Pedro, mais uma vez sem hesitar: “Sim. Eu acho que uma imprensa que fosse contra a justiça, contra a partilha, contra a solidariedade, contra a igualdade humana, merecia o controle, sem dúvida nenhuma. Senão vamos controlar o que neste mundo? Vamos deixar solto o crime? A injustiça? A repressão? Mesmo assim, haveria muito espaço para opinião”.

 

 

 

DELATORES DA LAVA JATO INOCENTAM O EX-PRESIDENTE LULA

Foto: Filipe Araújo 

Nota à imprensa

“As testemunhas Alberto Youssef e Dalton Avancini, delatores da Lava Jato em liberdade, esclareceram em depoimento prestado hoje de manhã (16/02) que não têm conhecimento de supostas obras realizadas em um sítio em Atibaia e, ainda, que essas obras jamais foram tratadas em discussões relativas a contratos firmados pela Petrobras.

Youssef também reconheceu que nenhuma reunião relativa a supostos acertos sobre contratos da Petrobras ocorreu em Curitiba ou no Estado do Paraná.

Esses depoimentos reforçam que a escolha do juiz Sérgio Moro para julgar a ação pelo Ministério Público não tem qualquer base real.

Reforçam, ainda, que Lula jamais praticou qualquer ato em benefício de empreiteiras durante período em que ocupou o cargo de Presidente da República e tampouco recebeu qualquer vantagem indevida na forma de imóveis ou em reforma de imóveis. Lula também não é e jamais foi proprietário do sítio de Atibaia. 

Lula e seus familiares frequentaram o local como convidados da família Bittar, em razão de uma amizade de mais de 40 anos”.

CRISTIANO ZANIN MARTINS

LULA PELO BRASIL: CARAVANA LULA PELO BRASIL É ADIADA PARA 19 DE MARÇO

Foto: Ricardo Stuckert

A etapa Sul da caravana Lula Pelo Brasil será adiada para o dia 19 de março. Prevista inicialmente para o fim de fevereiro, a viagem será postergada para ajustar o roteiro ao calendário estudantil, como explica o coordenador da caravana e vice-presidente do PT, Márcio Macedo. “Lula deve visitar uma série de institutos e universidades e para isso vamos aguardar o retorno do calendário letivo”, ressaltou.

Além disso, a alteração das datas vai de encontro à agenda de outros líderes latinoamericanos, que devem participar da caravana em Porto Alegre e na cidade de Santana do Livramento – onde Lula vai se reunir com o ex-presidente uruguaio Pepe Mujica.
  
Lula pelo Brasil

Após percorrer todos os estados do Nordeste, além de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo, dessa vez Lula vai ao Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina. A caravana deve passar por pelo menos 14 cidades.  
 

DEPUTADO WADIH DAMOUS FALA SOBRE DECISÃO DE TEMER DE MANDAR O EXÉRCITO INTERVIR NO RIO

CUT: EM VEZ DE INTERVENÇÃO, ELEIÇÕES DEVERIAM SER ANTECIPADAS

DESGOVERNO

Para presidente da central, medida no Rio reflete clima de “desmando” e “confusão institucional” após queda de Dilma. “O sentimento é de nau sem rumo”, afirma. Atos de segunda-feira estão mantidos
por Vitor Nuzzi, da RBA.
 
                                   ROBERTO PARIZOTTI/CUT
Vagner Freitas

Vagner Freitas: até o carnaval mostrou insatisfação da sociedade com o que acontece no Brasil

São Paulo – Para o presidente da CUT, Vagner Freitas – que confirmou a manutenção dos protestos e paralisações contra a “reforma” da Previdência na próxima segunda-feira (19) –, a intervenção militar no Rio de Janeiro anunciada hoje reflete um clima de “desmando” no país, instaurado desde a deposição de Dilma Rousseff. “A culpa disso é o sentimento que o brasileiro tem, de desgoverno, de nau sem rumo, confusão institucional. As pessoas não confiam. Em vez de fazer intervenção, deveríamos antecipar as eleições gerais”, afirmou, receando que a presença das Forças Armadas atinja as pessoas mais pobres. “Me preocupa muito o que pode acontecer no morro.”

Para o dirigente, o presidente Michel Temer “quer um assunto, quer aparecer, influenciar a eleição”. Ele considera que a intervenção pode ser uma medida para desviar a atenção das dificuldades que o Planalto enfrenta para votar a “reforma” da Previdência. “Ele não consegue aprovar porque ganhamos a opinião pública. Não quer se mostrar derrotado, mas o governo foi derrotado. Mas não podemos arrefecer”, adverte Vagner.

A dificuldade do governo em aprovar a reforma – diante da forte rejeição popular – foi evidenciada pelo governo em pronunciamento feito no início desta tarde. O governo admitiu não ter votos ao afirmar que assim que emenda que restringe o acesso dos brasileiros estiver “pronta”. “Quando a reforma da Previdência estiver pronta para ser votada, vou cessar a intervenção”, disse Temer.  

Segundo Vagner Freitas, os protestos previstos para segunda-feira em todo o país, contra a “reforma”, estão mantidos. A intervenção, inclusive, agrava a situação, avalia o presidente da CUT. “A falta de segurança não é só responsabilidade do estado do Rio”, afirmou, citando o emenda constitucional de congelamento de gastos públicos, o que inclui a área de segurança pública. “E também por causa de um desgoverno no Brasil, um golpe que depôs uma presidenta legitimamente eleita, a condenação infame do presidente Lula. Isso tudo vai criando uma sensação de desmando.”

O sindicalista acredita que a segunda-feira deverá ser um dia em que os trabalhadores e a sociedade em geral demonstrem “sua insatisfação também em relação ao que tem acontecido no Brasil nos últimos anos, desde o desgoverno Temer”. Em grande medida, avalia, a votação não ocorreu pela pressão feita até aqui. “Boa parte desses deputados não vota pelas pressões que nós realizamos. Eles não têm votos porque fizemos o trabalho de ganhar a opinião pública”, afirmou Vagner, alertando que é preciso manter a mobilização. “Não dá para esmorecer agora. É importante a gente continuar com a guarda alta, pressionando para que a reforma não aconteça.”

Uma possível derrota de Temer e seus aliados na questão da Previdência pode ter efeito, inclusive, para acumular forças pela retomada de outros direitos, atingidos por medidas do governo. Para Vagner, isso demonstra que o governo “não pode tudo”, mesmo com uma ação “violenta e agressiva” em torno do que ele chama de “joia da coroa para quem financiou o golpe”. Pode ser também “o estopim para a gente derrotá-los em outras frentes”.

O presidente da CUT destaca ainda o “carnaval de protestos” deste ano, não apenas no Sambódromo, mas nos blocos de rua. “Fica claro o baixíssimo ibope dos golpistas e que a sociedade não tem concordância com as medidas. Ficou claro que temos condições de fazer uma disputa na sociedade, que essa direita brasileira conservadora não tem alternativa eleitoral, nenhum de seus candidatos decola”.

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PARA PARLAMENTARES, INTERVENÇÃO DECRETADA POR TEMER APROFUNDA ESTADO EXCEÇÃO

DEMOCRACIA EM RISCO

Segundo deputado, medida significa a ‘bolsonarização’ de um governo fraco para aprovar a “reforma” da Previdência. Gleisi Hoffmann diz que intervenção pode agravar repressão a movimentos sociais
por Redação RBA.
 
                                                       FERNANDO FRAZÃO/AGÊNCIA BRASIL

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Tropas nas ruas: para deputado, Temer tenta se salvar na busca de apoio a ações populistas na segurança

São Paulo – O senador Lindbergh Farias (PT-RJ) disse hoje (16) que a intervenção federal na segurançado Rio de Janeiro, decretada pelo presidente Michel Temer, representa um eufemismo para encobrir uma ocupação com motivações políticas. “O presidente partiu para o tudo ou nada, visando conservar o seu bloco no poder: o governo impopular começará a travar uma nova Guerra das Malvinas. De quebra, arrumou uma saída ‘honrosa’ para evitar a derrota na reforma da Previdência.”

Para o deputado federal Glauber Braga (Psol-RJ), a restrição de direitos atingirá as comunidades mais vulneráveis do Rio para criar uma “pseudo sensação de segurança”. “Sempre que você amplia o estado punitivo, você reduz direitos e garantias sociais”, afirma em entrevista ao site Brasil 24/7. O parlamentar também aponta a conexão direta entre o partido do governador Luiz Fernando Pezão e de Temer e o crime organizado no Rio de Janeiro e diz que a saída estrutural para o problema da segurança é o investimento em educação e na retomada econômica.

Ação de Temer aprofunda o Estado de exceção no país e significa a ‘bolsonarização’ de seu governo, na avaliação do deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP). “Uma medida desnecessária e populista. Bastava baixar um decreto de Lei e Ordem (GLO) e, a partir daí, as Forças Armadas coordenariam a segurança pública no Rio. A atitude do governo foi tomada para dialogar com o populismo na área de segurança pública, foi a ‘bolsonarização’ do governo Temer”, afirmou, em sua página no Facebook.

Teixeira avalia que o governo está desgastado e já não tem forças para levar adiante o projeto de “reforma” da Previdência, que queria ver votado na Câmara na semana que vem. “Temer tenta se salvar na busca de apoio à guerra que agora travará com tropas nas ruas e suspensão de direitos civis. Antecipa o clima de tensão que as greves contra a reforma da Previdência e a ameaça de prisão de Lula vão levar ao país”, acrescentou.

“A autorização de Temer para intervenção militar no Rio de Janeiro pode ser uma brecha para se instaurar um regime de exceção, dando margem para repressão direta, inclusive contra os movimentos sociais”, afirmou a senadora Gleisi Hoffmann (PR), presidenta nacional do PT.

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CARTA MAIOR: A NARRATIVA GOLPISTA E OS CAMINHOS PARA DERROTÁ-LAS (IV)

Em torno da legitimação da condenação de Lula e da impugnação de sua candidatura à presidência, a narrativa golpista, em seu ano decisivo, joga com vigor para garantir seu futuro

Por Eliara Santana e Juarez Guimarães 

4. Lula versus Jornal Nacional: o centro da disputa

Em torno da legitimação da condenação de Lula e da impugnação de sua candidatura à presidência, a narrativa golpista, em seu ano decisivo, joga com vigor para garantir seu futuro. Nesse sentido, a principal estratégia desenvolvida e implantada foi a formação de consenso em torno do tema/repertório corrupção (prevalecendo a ideia de que a corrupção, num momento histórico recente, destrói o Brasil). Agora, é sobretudo a criação de um inimigo comum – Lula – vinculado ao tema. Dessa forma, a narrativa golpista em crise busca encontrar um caminho para unificar novamente as forças.

A fabricação de um consenso é uma estratégia poderosa porque ela permite o exercício de poder e da dominação sem os riscos da coerção explícita e do uso de força. No caso da mídia corporativa, essa estratégia está fundamentada no pressuposto do senso comum – ainda bastante forte – de que a imprensa é independente e está comprometida em levar “a verdade” ou a realidade ao público. E apesar dos movimentos que contribuem para a consolidação de um contradiscurso de informação, essa percepção ainda é bastante ativa no público em geral. Resumindo, a ideia geral em relação à mídia é: existe uma realidade externa a nós, em algum lugar que não alcançamos, e é o relato da imprensa que trará essa realidade ao nosso alcance. Pois bem, a questão é que, como salienta Chomsky em Manufacturing consent, há um modelo de propaganda (que não é somente publicidade) que vai sustentar a produção desse consenso, e tal modelo mobiliza determinados vieses e segue padrões na escolha das notícias (o que é destaque e o que não é).

Situando essa estratégia no caso brasileiro e na narrativa golpista, produzir determinado consenso em torno de um personagem foi uma ação calculada e reiterada na cobertura do Jornal Nacional(JN) em relação a Lula, o que se intensificou em certo momento do pós-golpe. Para além das várias horas de cobertura prioritariamente negativa, a fabricação de consenso em relação à culpabilidade de Lula trabalhou a partir de dois sustentáculos: a consolidação de um tema/repertório, que, de modo recorrente, embasou o noticiário, e a construção de um inimigo comum. Sobre o repertório – corrupção – já discutimos aqui em outros artigos, e ele foi o grande tema que pautou o noticiário antes e depois do impeachment. Quanto à construção dessa ideia de um “inimigo” comum, ela foi pautada, no noticiário do JN, por alguns aspectos que compuseram um padrão na narrativa:

1. Ligar o personagem ao repertório: ao longo do noticiário, a figura de Lula foi sistematicamente sendo trazida para o centro do tema corrupção, ganhando mais proporção que outros atores, mesmo sem que houvesse, em determinados momentos, novas denúncias. Após o golpe consolidado, o repertório “crise econômica” perde espaço e importância, chegando a desaparecer do noticiário, e apenas o repertório “corrupção” se mantém.

2. Parceria Mídia-Judiciário: esse “trabalho conjunto” foi, sem dúvida, a grande sustentação para a projeção desse inimigo comum e a construção do consenso. Ganha contornos expressivos a estratégia de vazamentos cada vez mais frequentes das ações da PF com a encenação da notícia e o espaço que as fontes legitimadoras (sempre do Judiciário) ganham. O espetáculo ocupa o lugar de um noticiário equilibrado.

3. Fatos inconvenientes: ganha efetividade também uma estratégia (descrita por Chomsky) de trazer à tona fatos “inconvenientes” (como as denúncias envolvendo outros políticos alinhados ao sistema do golpe, de maneira moderada, com enquadramentos apropriados, sem uma conexão histórica (a repercussão das denúncias nunca encontra eco em outros processos e outros momentos históricos do país, como se o tema corrupção fosse algo pertencente apenas a certo período da história brasileira, ou seja, a corrupção como fenômeno é datado)

4. Silenciamento como política editorial: o não dizer em um discurso, como política do silêncio, portanto, não aleatória, diz muito sobre o projeto daquela instância que tem a voz. Assim, na parceria Mídia-Judiciário, essa política foi sistemática ao se calar sobre os desdobramentos das delações – ou seja, os holofotes eram jogados apenas sobre os aspectos que interessavam para reforçar a vinculação de Lula ao repertório corrupção – bem como sobre os indícios de violações nesse processo. Se a narrativa institui uma realidade – ao trazer um dado de real ao público – então, quando determinado acontecimento não integra aquela narrativa, ele deixa de fazer parte do contexto. Portanto, na narrativa das denúncias de corrupção no processo do golpe, violações e outros desdobramentos não estavam postos, não existindo para o público. Havia apenas o espetáculo heróico dos atos da PF. O silenciamento é, portanto, constitutivo da narrativa midiática desse período.

A encenação da notícia traz uma forte carga de dramaticidade, potencializando a transmissão de ideias e valores, reforçando o repertório e consolidando a narrativa golpista. Há somente a espetacularização no tratamento da notícia, marcada pela encenação. Impõe-se, no percurso da notícia encenada, uma visão de mundo (alicerçada por valores, crenças e interesses de grupos ou classes), conformada no repertório corrupção e na exposição dos atores que ocupam o palco (e que são, de antemão, condenados), e tal visão se consolida na narrativa (forma e conteúdo) trazida pela notícia.

A encenação do acontecimento é um elemento que marca essa fabricação. Tomando o exemplo da edição do JN do dia 24/01, dia do julgamento de Lula pelo TRF4, a dramatização imposta ao noticiário busca conquistar o público espectador e legitimar um dizer, a condenação, sem a possibilidade de questionamento. Essa dramatização e a excessiva publicização de processos jurídicos (que ganham contornos espetaculares na mídia) contribuem para que se consolide uma convergência em direção à justificação de uma condenação. As fontes que falam – com absoluta predominância para a acusação – são mostradas em discurso direto, sem interferência dos locutores, que apenas antecipam certos dizeres, reforçando algumas ideias (necessidade combater a corrupção, projeto de poder de Lula, que se corrompe para mantê-lo). O tempo que têm as vozes contrárias, da defesa de Lula, é muito menor (34 segundos ao todo) e é editado.

Os termos trazidos em destaque pelos locutores, que sempre abrem a fala das fontes, reforçam o repertório corrupção e a ligação inquestionável do investigado a ele. O acontecimento é trazido ao público num esquema de dramatização, estereotipagem, falta de perspectiva histórica, ausência de vozes dissonantes, de vozes contraditórias que tragam outros elementos para reflexão sobre aquele acontecimento e seu desfecho

Todos esses elementos buscam disseminar e consolidar um conjunto de valores e crenças de uma narrativa que potencializou a concepção de um inimigo comum, aquele que enganou o país e se locupletou (e aqui não interessa muito a dimensão dessa locupletação – pedalinhos, um sítio comum, um apartamento comum -, o importante é a ideia da corrupção, do roubo, da enganação), chefiando um esquema de corrupção nunca antes visto no país (e a não vinculação histórica na abordagem desse assunto serve para inserir o tema corrupção em momentos específicos, recentes). Pela ação sistemática da mídia, direcionada pela narrativa colocada pelo Jornal Nacional, Lula se torna, então, o inimigo que precisa ser combatido, de modo inquestionável, pelo bem do Brasil.

Cabe aqui um parênteses para destacar um aspecto muito relevante para entender como funcionou a mídia brasileira. A imprensa, de modo geral, em todo o mundo, não é, de fato, um monolito sólido, que funciona de modo coeso. No entanto, no período pré e pós-impeachment, o que observamos é uma atuação bastante coesa da imprensa brasileira – todos os grandes veículos e meios – no sentido de priorizar um único viés e não abrir espaço a outros enquadramentos, atuando como um bloco bastante unido, onde não há espaço para divergências na cobertura dos fatos. Portanto, espectadores, leitores e ouvintes tiveram e têm acesso a um mesmo tratamento dos fatos, a uma única perspectiva diante do processo que se desenrolava.

Reconstrução da narrativa golpista?

Com seu background internacional, com seu poder político e econômico, sua vantagem de potência comunicativa histórico-estrutural, sua vasta rede de intelectuais orgânicos e sua inteligência estratégica, seria um erro dar a narrativa golpista como já derrotada.Apesar de estar em clara crise e com forte redução de sua potência persuasiva, ela tem, ao mesmo tempo, uma força inercial, um ponto de mutação e uma capacidade de renovação da sua unidade frentista.

A sua força inercial: se é verdade que o sentido da narrativa golpista perdeu muito de sua potência persuasiva, ainda permanecem fortes as dimensões fundantes de seu diagnóstico – da política como o lugar da corrupção(“todos os políticos são corruptos”), de que o “Brasil está quebrado” e de que não há outro jeito senão cortar e diminuir gastos – continuam a ser ainda fortes sensos-comuns. A crítica a uma narrativa só se completa quando se estrutura uma alternativa coerente e de conjunto a ela. Senão, ela continua a funcionar como paradigma negativo, a moldar o futuro com a sua inércia presencial.

O seu ponto de mutação pode ser identificado no episódio Janot/JBS/Jornal Nacional de levar a público, em horário nobre, com picos de audiência, em princípio de maio de 2017, as denúncias de corrupção casadas, gravadas e filmadas, de Temer e Aécio Neves (veiculou-se também,na mesma reportagem, a denúncia de uma conta secreta no exterior de Lula que, de tão inconsistente, teve de ser desmentida depois, é claro, com menos alarde). 

O episódio prestou-se a muitas interpretações sobre a posição da corporação Globo no consórcio de poder golpista e na disputa de um futuro candidato presidenciável. O que é certo é que, pela primeira vez na história, um presidente do PSDB e ex-candidato à presidência da República sofreu em tal grau uma exposição negativa no Jornal Nacional. E o titular do governo golpista sofria também uma confrontação direta e explosiva da empresa Globo. 

O fato de a corporação Globo ter recentemente adquirido controle total sobre o jornal financista Valor Econômico, o movimento simultâneo de financistas célebres assinando manifesto público pelo afastamento do PSDB em relação ao governo Temer e exigindo a saída de Aécio Neves da presidência, movimentos em torno de uma eventual substituição de Temer por Rodrigo Maia e o início público de uma possível candidatura Luciano Hulk apontavam no sentido de maior autonomia de movimentos políticos da Rede Globo em relação à sua parceria histórica com o PSDB.

O que interessa aqui, no entanto, é que ali estava se firmando a possibilidade de uma relegitimação da narrativa golpista, com um certo afastamento crítico em relação ao desgastado governo Temer e em relação às desgastadas lideranças nacionais do PSDB. As denúncias comprovariam o interesse supra-partidário da Rede Globo na denúncia da corrupção, a sua posição de watch dog, a sua credibilidade e, enfim, a sua disposição em apoiar um candidato outsider do sistema político corrompido para a presidência.

De lá para cá, Temer renovou seu poder de compra em relação à sua base no Congresso Nacional, Aécio reuniu forças para resistir, apesar de todas as evidências de corrupção, o PSDB se recompôs em torno da candidatura Alckmin, o Jornal Nacional diminuiu sua crítica ao governo Temer. Claramente ainda não prosperou uma recomposição da narrativa golpista, embora essa recomposição possa ser dinamizada ainda no cenário da disputa eleitoral. É em meio a esse impasse que a narrativa golpista enfrenta agora a condenação e a tentativa de retirar Lula da disputa eleitoral de 2018.

O Jornal Nacional 

Com as lideranças políticas do golpe profundamente desgastadas, com o sistema judiciário com escasso grau de legitimação pública e cada vez mais notoriamente envolvido na polarização política do país, a narrativa golpista conta, agora, sobretudo com o Jornal Nacional para disputar a formação de opinião. A imprensa corporativa que apoiou o golpe – jornais e revistas- fala para públicos restritos e partidarizados, não tem um público de milhões. As redes virtuais, ainda formadas em certo grau de pluralismo e de disputa, têm o poder imenso de difundir, mas não de estruturar uma narrativa em crise. Mais do que nunca, a história do golpe e de seu futuro está sendo contada em capítulos diários no Jornal Nacional, que centraliza e tem potencial comunicativo para difundi-la para dezenas de milhões. É notável, nesse sentido, que a maioria dos blogs de resistência ao golpe dialoguem criticamente com os jornais e revistas mas não, de modo sistemático e qualitativo, com o mais poderoso veículo de legitimação da narrativa golpista.

Daí o poder comunicativo de Lula. A sua liderança pública, ao mesmo tempo, solda potência comunicativa (fala para dezenas de milhões), potência persuasiva (a memória recente de seus governos) e potência orgânica (a sua base social organizada e em movimento). Assim, o episódio do seu julgamento é um teste decisivo para a narrativa golpista em crise, definindo o grau de sua credibilidade futura.

A pesquisa DataFolha, divulgada logo após o julgamento do TRF-4, deve ser lida com desconfiança, mas como um indicador do equilíbrio instável da disputa em curso. A desconfiança resulta do fato de que o jornal tem uma clara definição editorial pela condenação de Lula e pela impugnação de sua candidatura, tendo já ocorridos graves episódios que revelam que não apenas a edição da pesquisa é orientada, mas a própria divulgação dos dados.

Por ela, as intenções de voto de Lula não se alteraram com a condenação, indicando possível vitória em um primeiro turno e uma grande capacidade de transferência de votos, caso sua candidatura seja impugnada (27 % dos eleitores votariam, com certeza, em um candidato por ele indicado). A sua condenação não forma uma clara maioria como antes, mas já divide a opinião dos brasileiros: 51% julgam a decisão justa, contra 44% que a reprovam. A impugnação da candidatura de Lula mostra já um quase empate: 51% a aprovam, contra 47%. E, na série temporal, as opiniões em favor de Lula continuam a crescer, em movimento inverso aos que se posicionam decididamente contra ele.

É uma clara demonstração da crise da narrativa golpista, de suas crescentes dificuldades de legitimação e da possibilidade das forças de esquerda e de oposição formarem uma opinião majoritária contra ela neste ano de 2018. Mas os caminhos desta construção precisam ser agora bem delineados no plano da potência comunicativa, da potência persuasiva e de sua potência orgânica. 

Créditos da foto:  
 
 

USAR O CONTROLE REMOTO É UM ATO DEMOCRÁTICO!

EXPERIMENTE CONTRA A TV GLOBO! Você sabe que um canal de televisão não é uma empresa privada. É uma concessão pública concedida pelo governo federal com tempo determinado de uso. Como meio de comunicação, em uma democracia, tem como compromisso estimular a educação, as artes e o entretenimento como seu conteúdo. O que o torna socialmente um serviço público e eticamente uma disciplina cívica. Sendo assim, é um forte instrumento de realização continua da democracia. Mas nem todo canal de televisão tem esse sentido democrático da comunicação. A TV Globo (TVG), por exemplo. Ela, além de manter um monopólio midiático no Brasil, e abocanhar a maior fatia da publicidade oficial, conspira perigosamente contra a democracia, principalmente, tentando atingir maleficamente os governos populares. Notadamente em seu JN. Isso tudo, amparada por uma grade de programação que é um verdadeiro atentado as faculdades sensorial e cognitiva dos telespectadores. Para quem duvida, basta apenas observar a sua maldição dos três Fs dominical: Futebol, Faustão e Fantástico. Um escravagismo-televisivo- depressivo que só é tratado com o controle remoto transfigurador. Se você conhece essa proposição-comunicacional desdobre-a com outros. Porque mudanças só ocorrem como potência coletiva, como disse o filósofo Spinoza.

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CAMPANHA AFINADA CONTRA O

VIRTUALIZAÇÕES DESEJANTES DA AFIN

Este é um espaço virtual (virtus=potência) criado pela Associação Filosofia Itinerante, que atua desde 2001 na cidade de Manaus-Am, e, a partir da Inteligência Coletiva das pessoas e dos dizeres de filósofos como Epicuro, Lucrécio, Spinoza, Marx, Nietzsche, Bergson, Félix Guattari, Gilles Deleuze, Clément Rosset, Michael Hardt, Antônio Negri..., agencia trabalhos filosóficos-políticos- estéticos na tentativa de uma construção prática de cidadania e da realização da potência ativa dos corpos no mundo. Agora, com este blog, lança uma alternativa de encontro para discussões sociais, éticas, educacionais e outros temas que dizem respeito à comunidade de Manaus e outros espaços por onde passa em movimento intensivo o cometa errante da AFIN.

"Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias; que é atingido pelos próprios pensamentos como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, como por uma espécie de acontecimentos e de faíscas de que só ele pode ser alvo; que é talvez, ele próprio, uma trovoada prenhe de relâmpagos novos; um homem fatal, em torno do qual sempre ribomba e rola e rebenta e se passam coisas inquietantes” (Friedrich Nietzsche).

Daí que um filósofo não é necessariamente alguém que cursou uma faculdade de filosofia. Pode até ser. Mas um filósofo é alguém que em seus percursos carrega devires alegres que aumentam a potência democrática de agir.

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