Archive for the 'Capoeira' Category

A “NOITE NEGRA” SE MOSTROU NEGRITUDE NO PÓRTICO DAS ARTES DA AFIN COMO CINEMA, PALESTRA, MÚSICA, POESIA, CAPOEIRA E, PRINCIPALMENTE, CRIANÇA

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A intenção era atualizar o virtual ou realizar o possível. E aconteceu. Artistas, capoeiristas e crianças como composto-estético produziram outras formas de sentir, ver, ouvir e pensar no Pórtico das Artes da Associação Filosofia Itinerante (Afin) no Bairro Nova Cidade, em Manaus.DSC01804 DSC01809 DSC01825 DSC01832 DSC01834

Foi uma Noite Negra que se mostrou singularmente Negritude: a consciência livre do negro sobre si mesmo fora da brancura opressiva do sistema capitalista. Seu engajamento história em viver por si mesmo, sem modelo macho, homem, branco e europeu, como mostram os filósofos Deleuze e Guattari.

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A Negritude do eu-mesmo como liberdade do negro, negando a história branca que o oprimiu, como diz o filósofo da liberdade, Jean Paul Sartre. A estrutura ontológica do negro como resultantes da reflexão que fez sobre a a-história imposta pela voracidade branca. O negro deixando de ser objeto de dominação do olhar do branco para se tornar sujeito de seu próprio olhar sobre o branco. Mostrar o branco como objeto do olhar do outro. Sendo o olhar do negro sua potência criadora livre. Sua Negritude.

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Já na quinta-feira, membros da Afin estiveram na Escola Francisco Guedes de Queiroz, no Bairro Tancredo Neves, mais um bairro pobre da pobre Manaus. Lá, realizaram, junto com os estudantes, professores e pedagogos, a conferência, O Entendimento da Filosofia Política sobre o Conceito de Negritude. Foi uma festa filosófica-política, já que trata-se de poiesis e práxis. Os corpos que produzem transformação.

DSC01909 DSC01914 DSC01915 DSC01916DSC01922 DSC01924 DSC01925Como a vivência não pode ser traduzida em palavras, visto que viver é atuar em consistência e existência em presença, como dizem os filósofos existencialistas, oferecemos aos acessantes deste blog algumas imagens, movimentos e sons, criados nos acontecimentos Negritude. 

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CONVITE PARA CURSO, BATIZADO E ENCONTRO CULTURAL DA CAPOEIRA NAGÔ

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GRANDE FESTA AFRO NO BATIZADO E TROCA DE CORDAS DA ASSOCIAÇÃO DE CAPOEIRA SENZALA NEGRA

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No último dia 23, a Associação de Capoeira Senzala Negra realizou na sede do Sest-Senat o seu 16º evento de Batizado, Troca de Cordas e formatura. O grupo que já tem uma longa tradição na capoeira de Manaus recebeu diversos convidados de outros grupos como o Grupo Raizes do Mestre Espiga e Mestre Tiquinho, a Associação de Capoeira Terreiro da Amazônia do Mestre Ronaldo, o Grupo Manaus Capoeira do Mestre Xangô e a participação especial do convidado Mestre Armando Babalú do Grupo Ginga Bahia de São Paulo.

O evento começou com as boas vindas dada pela Formada Abelha e enseguida foi lido os versos do cordel que conta a história do Senzala Negra e trazia a cada rima nomes importantes para a capoeira no Amazonas, que continua em sua produção.

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Com um auditório repleto de espectadores a noite foi aberta com uma grande roda de aquecimento onde jogavam na roda entre si os capoeiristas da mesma categoria. E percebeu-se na roda uma grande energia e respeito em um jogo onde não importava qual grupo estivesse na roda.

No vídeo abaixo vemos alguns mestres e contra-mestres jogando.

Após a roda foi a vez de começar o evento de graduação e formatura que começou com a corda de iniciante ou de incentivo, que no grupo Senzala Negra é a corda cinza, e trazendo pela primeira vez a roda a jovem Jaciá que tem apenas alguns meses na arte da capoeira.

Abaixo vemos ela jogando com o mestre Babalú.

A equipe deste bloguinho conversou com o mestre Babalú do Grupo Ginga Bahia, localizado em São Paulo no bairro no bairro de Jaçana, que contou sobre a experiência de estar em Manaus pela primeira vez e o contato com a moçada do Senzala Negra que esteve em São Paulo e criou uma grande amizade.

DSC00847É uma grande satisfação estar aqui nesta cidade pela primeira vez, muito acolhedora, já estou me sentindo em casa. Estes meninos estiveram em São Paulo na véspera de um grande evento que estava realizando lá, um Encontro Nacional de Capoeira e eles me foram apresentados por um colega meu lá de São Paulo, o Fininho da Marimbondo Sinhá e nós fizemos uma grande amizade. Daí eles voltaram a segunda vez para São Paulo e fizeram o convite para quando tivesse o próximo evento em Manaus ter minha presença e eu fiz questão de vir.Eu estou gostando muito, o pessoal é muito receptivo, muito bacana não só o do Grupo Senzala Negra como os grupos em geral que conheci aqui em Manaus. Hoje tem muitos mestres aqui de grupos diferenciados mas dentro da roda há uma harmonia muito bacana, com muito respeito.

A festa seguiu com a troca de cordas  na ordem das graduções. Quanto mais graduado ia ficando o capoeirista com mais mestres, contra-mestres e professores ele tinha que lutar. Dentro de cada graduação havia vários formandos o que mostra que a capoeira amazonense continua forte e numerosa.

Percebeu-se durante o jogo com os graduandos algumas brincadeiras nas rodas que muitas vezes chegavam ao contato físico e incitavam certas formas de violência que não são comuns na capoeira. Como existe muito respeito entre os grupos e todos levaram as hostilidades através da camaradagem a festa pode seguir tranquila e de forma a não ofuscar a importância desta noite para a cena manauara.

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Vemos nas fotos acimas dois jovens recebendo a corda verde depois de terem entrado na roda. Como a cada corda trocada o nível técnico aumentava o público presesente prestigiava aplaudindo  e incentivando cada novo graduando.

Nosso bloguinho também conversou com o Mestre Ronaldo que falou da participação de eventos como este no enriquecimento da arte da capoeira, que já faz parte da história do povo amazonense.

IMG_2064“Esta é mais uma confraternização da capoeira pois hoje se reune todos os camaradas. E em Manaus geralmente o pessoal faz o batizado no final de ano. O Senzala tem uma tradição diferente que é muito boa, de começar o ano já formando a garotada. E esta grande congregação de quem tá pegando a corda é um crescimento muito grande pra Capoeira aqui no Amazonas. Muita gente diz que a capoeira é só pro negro escravo. Não. Nosso povo índio também praticou a capoeira e por isto não se deixou escravizar pela capoeiragem que vem no meio da mata.Hoje até em São Paulo tem esta discussão sobre a manifestação da capoeira que não vem só dos negros. A capoeira nasceu no Brasil com filhos de negros africanos e hoje você vê o crescimento da capoeira. Manaus com mais de 80 grupos de capoeira reunido e isto é muito bom pro intelecto desta garotada aqui hoje que poderia estar no mundo vadiando ou fazendo outras coisas erradas mas a capoeira tem esta transformação. Mestre Ronaldo

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Acima vemos os capoeiristas que receberam sua corda amarela.

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Vemos que houveram diversos graduandos e o Senzala inclusive produziu novos graduados e estagiários. O tempo passava e a festa continuava animada. O berimbau, o atabaque e o pandeiro davam o ritmo cada vez mais forte e junto com os cantos levavam as performances a um elevado nível técnico.

Após a entrega de cordas mais uma vez foi feito uma grande roda e o jogo continuou cada vez “botando mais dendê” e temperando a noite com esta festa afro.

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A festa seguiu até o fim da noite, e que encontro importante para a disseminação da capoeira como luta, esporte e dança entre jovens de Manaus.

Ano que vem o Senzala apresentará um novo evento para graduação e troca de cordas para quem faz da capoeira o seu compromisso e diversão.

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Por que Senzala Negra
É a minha camisa
Não tiro, não troco
Não vendo e nem dou

CONVITE PARA AÇÕES DA CAPOEIRA SENZALA NEGRA

16º Evento Da Senzala Negra

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Quinta Feira – Dia 21/03/13 Ás 19:30 H – Realizaremos Uma Roda De Boas Vindas Na Bola Do Produtor Para Recepcionar Nossos Convidados Para Este 16º Evento Da A.C.S.N

Sexta feira – Dia 22/03 Ás 19:00 Hrs – Ocorrerá A Abertura Do Evento Com Roda E Participação Do M. Armando Babalú – (Ginga Bahia)São Paulo.

Local. Arar Do Mutirão – Zona Leste.

Sabado – Dia 23/03 Ás 18:00 Hrs – Ocorrerá Batizado E Troca De Graduação E Formatura De Capoeira

Local Sest-Senat Av: Autaz Mirim Prox. A Bola Do Produtor Cidade De Deus.

PRODUÇÕES AFRO NO CURSO E BATIZADO DO GRUPO CAPOEIRA NAGÔ EM MANAUS

A cultura brasileira tem centenas de expressões provenientes da presença negra em nosso país. Isto sem contar a beleza infinita das manifestações engendradas aqui pelo nosso povo mestiço. Uma desta prática criada pelos negros com base em sua expressividade, dança e força de sua tradição foi a capoeira, uma produção afro de nossa cultura.

Com o passar do tempo a capoeira negra virou brasileira, mas continou com a força dos negros. O negodito Itamar Assumpção em seu último disco Pretobrás cantou sobre o desapego alguns negros pela nossa própria cultura e tradição, devido as presentes formas de preconceitos. Diz negodito:

“Negro jogando pernada, negro jogando rasteira
Todo mundo condenava uma simples brincadeira
E o negro deixou de lado acreditou na besteira
Hoje só tem gente branca na escola de capoeira”

Porém a produção da capoeira pelos negros e brancos é uma expressão afrobrasileira em nossa cultura, e não pode ser deixada de lado por todo o nosso povo. O importante é a produção e presença negra em nossas vidas. E assim como o samba teve sua expressividade com Noel Rosa e Almirante, dois grandes sambistas de pele clara, nossa capoeira continua forte na vitalidade do Brasil Mestiço.

PRODUÇÕES AFRO NO CURSO E BATIZADO DO GRUPO CAPOEIRA NAGÔ

Um dos grupos da expressão da capoeira em Manaus é o grupo Nagô, nome proveniente de uma denominação dada ao iorubano, como a todo negro da Costa dos Escravos que falava ou entendia o ioruba. Vindo em grande número para o Brasil como escravos, os nagôs tiveram influência social e religiosa entre o povo mestiço, conservando, apesar dos processos de aculturação, seus mitos e tradições sacras. Os Nagôs é o grupo negro mais conhecido em seu complexo social vivo (conforme Dicionário de Folclore de Câmara Cascudo).

E nesta alegria de nossa cultura, o grupo Capoeira Nagô produziu um curso e batizado de capoeira aqui em Manaus, mostrando que se depender da cultura popular não faltará opções em todas as quebradas de nossa não-cidade.

E com um evento único, bem diferente das apresentações dos grupos de capoeira, os Nagôs fizeram, além do batismo e rodas onde se jogou capoeira,diversas apresentações tipicas da cultura afro, como Maculelê, Puxada de rede e até o Frevo que vale ressaltar que além de ser uma dança tipica de Pernambuco (Estado natal do Professor Pulga) tambem tem raizes africanas e um dos maiores divulgadores dessa arte foi um Amazonense, Sr. Frascisco do Nascimento Filho. “O Nascimento do Passo”.

E com a alegria a festa foi produzida e fortalecndo nossa cultura o grupo Nagô continua com seu envolvimento e criação de vários forma de vermos e sentirmos nossa nação afrobrasileira.

CURSO DE CAPOEIRA NAGÔ EM MANAUS

2º BATIZADO DO GRUPO DE CAPOEIRA RAÍZES

Eu vou fugir
Eu vou capitão do mato

Minhas mãos tão calejadas
Minha alma está cansada
Já não aguento esse lugar
O Quilombo dos Palmares
Ajude a me curar

Eu vou fugir
Eu vou capitão do mato

Sem mim não tinha riqueza
Conheci fome e tristeza
E o chicote a me espancar
Vou prá perto de Zumbi
Ele está a me esperar

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Em seu segundo ano de atividade retomada, o Grupo de Capoeira Raízes, sob o comando do famoso mestre Espiga, reuniu-se no Ginásio Zezão, na zona Leste de Manaus, no sábado passado (4), para seu 2º Batizado e Troca de Cordas.

Formado por diversos núcleos, havia capoeiristas do grupo Manaus e outros municípios, além de mestres e outras graduações de vários outros grupos, como: Ginga de Ouro, Legião Brasileira, Senzala Negra, Guerreiros na Selva, Marabaiana, Capoeira Brasil, Capoeira Nagô, entre outros.

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Para entrar na comunhão com o Grupo Raízes, antes de formar a roda para a capoeira foi formada a roda para uma apresentação de hip-hop de uma garotada que faz um trabalho fundamental de integração e inclusão educacional durante a semana também no ginásio.
E a moçada da capoeira também curte o hip-hop e também acompanhou na roda a batida que também é uma manifestação de origem negra.
Os b-bys e b-girls fizeram no final fizeram demonstrações individuais de uma batalha de b-boys, da qual participaram muitos capoeiristas.
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Depois do hip-hop, a roda só fez aumentar e entrou imediatamente o belo som do berimbau, animando o tradicional jogo da benguela e da regional, envolvendo crianças e pessoas de todas as idades, sem distinção de qualquer espécie. Cada um recebia uma corda nova, que havia se desenvolvido, jogava com os demais.

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Que navio é esse
que chegou agora
é o navio negreiro
com os escravos de Angola
acorrentados no porão do navio
muitos morreram de banzo e de frio

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Enquanto a roda se desenvolvia, conversamos pelo responsável por esse maravilhoso trabalho, o lendário Mestre Espiga, que passou seus entendimentos da capoeira, como faz toda a semana no Zezão.
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“Este é o batizado geral unificado do grupo, no qual vêm pessoas não só daqui de Manaus, mas também de outros municípios, como Parintins, Barreirinha, Boa Vista do Ramos. Então a gente centraliza aqui no Zezão em Manaus, e vem muitos convidados, muitos amigos, mestres, que vem prestar o seu apoio e também observar um trabalho que tem resgatado jovens, que tem mostrado um outro lado da vida, um trabalho que diz não à violência. Esse ano nós tivemos muitas surpresas, o grupo cresceu mais, o nível cresceu mais, em quantidade e qualidade.
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A capoeira foi criada no tempo da escravidão como luta de libertação. Hoje a capoeira continua sendo uma luta de libertação, mas não como era antigamente. Libertação de quê? Dos vícios, da marginalidade, a capoeira é um elemento de resgate. A capoeira tem essa força maravilhosa de unir as pessoas. Inclusive hoje a capoeira ajuda a difundir nossa própria língua no exterior. Uma das condições no exterior é que o aluno só é graduado se ele falar português, a conhecer a cultura brasileira. Então a capoeira cria uma integração entre as nações.”

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Sou Raízes livres de coração
Sou Raízes livres com malícia e tradição
Yá-Yá me deu de presente uma guia
Pra me livrar de mau olhado e magia

SENZALA NEGRA REALIZOU O 4º JOGOS DE CAPOEIRA MESTRE VERMELHO

“Vento que balança a cana no canavial
Na capela da fazenda
Sinhazinha se confessa
Coberta num manto de renda
Ajoelhada no altar

Vento que balança a cana no canavial
Na varanda da fazenda
Coronel deitado na rede
O negro no canavial
Morria de fome e de sede

Vento que balança a cana no canavial
Quando eu lembro do passado
Dá uma dor no coração
Corda que amarrava o negro
Hoje é graduação

Vento que balança a cana no canavial
Quando eu lembro do passado
Oh!, me dá um desespero
Lembro da minha família
Que sofria no seu cativeiro”

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A Associação de Capoeira Senzala Negra, realizou na tarde ensolarada do sábado passado, na quadra da Escola Estadual Vasco Vasquez, no Jorge Teixeira IV, zona Leste de Manaus, o 4º Jogos de Capoeira Mestre Vermelho, do qual trazemos aqui algumas imagens de mais de uma dezena de grupos que compareceram, em diversas categorias. Todos estavam muito alegres e havia para os ganhadores, além das parabenizações, várias medalhas e troféus.
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O evento começou com uma demonstração de tae kwon do realizado pelos alunos da Associação Pinheiro, localizada no bairro do João Paulo, também na zona Leste de Manaus. Conversamos com Reginaldo, que trabalha na Associação Pinheiro e que é presidente da Federação Amazonense de Tae kwon do:

O tae kwon do é um estilo de vida. A filosofia dele é para a vida. Não é simplesmente um ato de chutar, ele traz princípios para a vida, e isso é o mais importante. A luta do tae kwon do é na verdade para construir um mundo mais pacífico. As artes marciais nunca foram feitas apenas como forma de defesa, mas também como manutenção da saúde, e isso ainda continua sendo feita. Isso liga todas as artes marciais. Pode ser a coreana, a japonesa, a capoeira, que a gente considera brasileira. A arte marcial sempre fez parte da vida do homem. Hoje muitos mestres buscam união de diferentes tipos de lutas. Hoje tem o MMA, que são lutas mistas, com o principal objetivo de mostrar que a gente pode viver em harmonia.

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A preparação tem de ser por uma vida melhor e não lutar para fazer algo errado ou mal, mas lutar sim pela vida. Tenho um amigo que diz que nós não devemos nunca lutar e perder a vida, mas lutar e ganhar a vida. A gente hoje luta mais para manter a saúde, para melhorar a qualidade de vida. Tem alunos que buscam também como esporte. Há vários benefícios. Eu sempre fiz trabalho na área acadêmica voltados pra luta. Meu trabalho de graduação na faculdade foi “Tae kwon do como alternativa pedagógica para alternativa escolar”. Depois eu fiz pós-graduação em gerontologia social, e meu trabalho foi “Benefícios da prática de artes marciais na qualidade de vida do idoso”. Assim eu acabei fazendo um trabalho da criança ao adulto e do adulto ao idoso.”

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Numa comunhão de diferentes culturas, houve ainda mais uma demonstração de alunos da Associação Pinheiro, dessa vez da luta tailandesa Muay Thai.


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E então a Formada Abelha, coordenadora do Senzala Negra, uma lutadora que há décadas realiza esse trabalho de luta e que é ao mesmo tempo educacional e social. Ela começou falando sobre o Dia da Consciência Negra.

“Sendo hoje dia 20 de novembro, nós comemoramos o Dia da Consciência Negra, um dia onde todas as nossas lutas, um dia em que todas as nossas resistências são representadas. É uma data muito bonita, mas é também o dia da morte de Zumbi. Toda coisa bonita tem que ter também alguém sacrificado para que no futuro as coisas possam mudar. Zumbi morreu no dia 20 de novembro de 1695, e por isso nós estamos aqui falando sobre o Dia da Consciência Negra. Isso mostra que a nossa luta é uma luta de resistência. Nós temos que resistir, persistir, desistir jamais, porque somos negros e somos brasileiros.”

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E como a turma da avaliação já estava a postos, o professor Formiga, presidente do Senzala Negra, já passava as instruções, os juízes, entre eles Mestre Espiga, já estavam colocados e Zumbi já estava no centro da roda, era hora de soar o berimbau para movimentá-la.

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Formada Abelha também nos falou que ainda existem muitos preconceitos contra a capoeira, apesar de ela ser mesmo utilizada como um patrimônio nacional. Preconceito que se torna duplo quando se estende às religiões de amtriz africana.

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Existe muito preconceito ainda. Não são todas as portas que são abertas, porque começa que as pessoas acham, por ter o atabaque, elas chegam a confundir e acham que a capoeira está envolvida com o Candomblé, como se a capoeira fosse um segmento de religião. Muitas vezes as pessoas chegam a dizer ostensivamente: ‘Isto é coisa de preto.’ Às vezes nós vamos instalar um projeto de capoeira numa escola, aí o diretor diz: ‘Eu não quero, a capoeira é um negócio muito violento.’ Ou então arranja uma desculpa. Depois ele diz: ‘Eu não quero esse negócio aqui não. Tem umas músicas que parece que estão fazendo é macumba.’ Nós temos músicas de capoeira que foram feitas por mestres que são do candomblecistas, são da Umbanda, isso é uma coisa independente, assim como a capoeira recebe, e tem músicas também, que pega o católico, o evangélico, o espírita, budista, kardecista. Então ele acha que aquele mestre segue, mas não é isso. Só o preconceito que ainda maior, porque é também religioso. Mesmo a capoeira tendo se espalhado por todas as partes do mundo, ainda há preconceito no Brasil. Dizer que o nosso país não tem preconceito, não tem racismo é tapar o sol com a peneira. O brasileiro, infelizmente, ainda é racista, ainda é preconceituoso. Nós temos que aprender a aceitar as diferenças. Você tem a sua religião, eu tenho a minha, mas eu tenho que respeitá-lo. Não é necessário, para que eu tenha que respeitá-lo, você aderir à minha religião ou eu aderir à sua. Se um mestre fez músicas louvando Iemanjá, por exemplo, nós temos que cantar, senão nós vamos estar discriminando o mestre que a fez. Eu acho que a gente ainda vai levar um tempinho, mas creio que a gente vai conseguir acabar com isso. Tem que acabar. As pessoas têm que ver que a capoeira é um monte de coisa. A capoeira é uma arte marcial, mas é também dança, esporte, e um exemplo maravilhoso para a vida e que vem diretamente de nossas raízes, de nossa cultura negra.”

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“Me ajuda, por favor, eu tô passando mal
Eu tô de capoeira e febre de berimbau

Só não me dê remédio, que eu não quero melhorar
Eu tô de capoeira e febre de berimbau”

LANÇAMENTO DO CD “LEGIÃO BRASILEIRA DE CAPOEIRA”

Zumbi, Zumbi, Zumbi dos Palmares

Valente, guerreiro de Coragem

Vou jogando capoeira

Eu só quero é vadiar

Sou Legião Brasileira

De Zumbi eu vou lembrar”

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Clique nas imagens para vê-las de perto.

Este foi o evento do lançamento do CD do Grupo Legião Brasileira de Capoeira, o primeiro lançado pela filial do grupo em Manaus, sob a coordenação de Mestre Cristiano.

Enquanto entremeamos trechos das músicas do CD, pra começar, Berimbal e professor Duende fizeram soar os berimbaus e o jogo foi bonito e animado na grande roda que se formava no Colégio Brasileiro Pedro Silvestre, no Centro de Manaus.

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Relampiou, deixa relampiar

Toca berimbau que a roda vai começar…”

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Compareceram ao evento inúmeros grupos, com vários mestres, que foram honrados nas suas presenças por Mestre Cristiano, contando suas histórias, recebendo presentes e jogando bonito com crianças e adultos, homens e mulheres, todos sem distinção que estivessem na roda…

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A gente sempre se lembra

De Chaguinha e Mestre Valdemar

Mas não posso esquecer

Ô, de Mestre Gisgante

E do valente Besouro Mangangá”

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Então Mestre Cristiano chamou a moçada do CD para o atabaque, pandeiro e berimbau, e passaram a tocar as músicas que o compõem, animando mais ainda a roda.

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O CD traz o filho de Mestre Cristiano, Berimbau (à esquerda, na foto acima), que, na sua juventude já faz parte da história da capoeira em Manaus pelas composições e capacidade de tocar o berimbau e animar uma roda de capoeira.

À direita, professor Duende, que faz um bonito trabalho pelo Legiaão Brasileira na Hungria, e que se emocionou ao ser surpreendido com a entrega da faixa de contra-mestre feita por Mestre Cristiano, com a permissão e os zelos de Mestre Zebrinha.

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Mestre Deuza e Mestre  Cristiano entregando a corda de Contra-Mestre para Duende.

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Vou jogando capoeira

Não sei onde vou parar

Jesus Cristo me proteja

Eu quero é vadiar”

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E assim prosseguiu a manifestação da força e alegria da cultura afro-brasileira desenvolvida com vigor e autenticidade pelo Grupo Legião Brasileira de Capoeira, com seus movimentos precisos e cadenciados à sonoridade do berimbau que convida a jogar, derrubando a barreira histórica dos preconceitos e da opressão e liberando toda a potência e beleza do corpus-negro no mundo…

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Você me falou pra eu deixar ela

Ela não me deixou

A capoeira é minha vida

Ela é o meu amor”

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Clique abaixo para baixar faixas bônus:

03. Dendê pra mandingar (Prof Duende)

11. Zumbi valente guerreiro (Berimbal)

Ouça! Ligue (92)8188-3137 (Mestre Cristiano)

Preço: R$ 15,00 (2 x R$ 25,00)

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Oi, tem axé, tem dendê

Oi, tem tem tem axé

Ô, nego que tá ocupando a roda

Não deixa a roda parar

Tem mandinga nesse jogo

E o negro vai balançar”

2º OPEN MANAUS DE CAPOEIRA REGIONAL

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Este é o segundo ano que o Grupo Marabaiana de Capoeira realiza, aos cuidados de Mestre Ferreirinha, presidente do grupo em Manaus, nesta cidade um torneio de capoeira regional.

Enquanto era aguardado o início do torneio, crianças e adultos de diversos grupos jogavam livremente como aquecimento e pelo gosto de jogar a capoeira em movimentos livres e potentes do corpo e da alma.

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E o torneio, que contou com a participação de diversos grupos, foi bastante disputado, como demonstra a fala do professor Wigson, do Grupo Gunga Brasil de Capoeira:

É a segunda vez que eu participo e o grupo está aqui pela primeira vez. A garotada treinou bastante, principalmente nos últimos dois meses, especialmente para esse torneio, e também incentivando a prática do esporte e sempre levando em conta a filosofia do grupo. Não tem violência banal. A violência que tem é dentro do jogo da capoeira. Queda vai ter, chute à altura do rosto vai ter, tesoura, mas dentro da capoeira, com respeito ao oponente, e não por raiva. É um trabalho com consciência, porque você vê que é um trabalho que a gente faz com muitas crianças, tentando auxiliar para que elas cresçam fortalecidas, não caindo tão facilmente em vícios e armadilhas que não são saudáveis para a vida delas.”

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Enquanto entremeamos algumas imagens do movimentado torneio, Mestre Ferreirinha nos fala um pouco da história do Marabaiana, de suas atividades na cidade de Manaus, assim como sobre o objetivo do 2º Open Manaus de Capoeira Regional:

O Grupo Marabaiana de Capoeira filiado à Confederão Brasileira e à Federação Amazonense de Capoeira. Funcionamos no Brasil em quatro estados: no Pará, no Ceará, Maranhão e Bahia. O grupo foi criado pelo Mestre Jair, da Bahia, e a central do grupo fica em Fortaleza. Foi trazido aqui pra Manaus pelo Mestre Coló, que é o nosso Grão-Mestre aqui em Manaus.

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Aqui em Manaus, o Marabaina tem núcleos em quatro bairros: um no Zumbi, no Mutirão, Colônia Antônio Aleixo, e agora nós abrimos um núcleo novo no Puraquequara. O Marabaiana já foi um dos maiores grupos de capoeira daqui de Manaus, já teve 700 alunos; houve uma diminuição nas atividades durante um tempo, hoje estamos com cerca de 200 alunos, e a tendência é crescer junto com a capoeira aqui na cidade.


O objetivo do campeonato é mostrar, tirar essa visão que o povo tem, que é muitas vezes passada de que a capoeira é uma dança. O Marabaiana não ensina capoeira dessa forma, como se fosse uma dança. O Marabaiana ensina uma arte de lutar, e é isso que o evento quer demonstrar para o público. O evento foi muito bom. O que falta é apoio e patrocínio, pois tudo tem que sair do bolso do capoeira.

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Após o término do torneio, com distribuições de medalhas por desempenho individual e troféus para as participações dos grupos, onde todos comemoraram com alegria, não podia faltar uma bela roda aberta livre no final.

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1º BATIZADO DO GRUPO RAÍZES DE CAPOEIRA

Sou Raízes livres de coração

Sou Raízes livres com malícia e tradição

Sou Raízes livres de coração

Sou Raízes livres com malícia e tradição

Yá-Yá me deu de presente uma guia

Pra me livrar de mau olhado e magia

É forte, é forte, é forte

Ele é forte como um touro

Ele é forte, valente e guerreiro

Besouro, cordão de ouro

O choro da minha viola tocou no meu peito

Nem eu mesmo sei direito a saudade que me dá

O amor é uma palavra que vem e que vai

Deixou marcas no meu peito

Acabou sendo o capataz

Se meu berimbau falasse ele ia lhes mostrar

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Clique nas imagens para vê-las de perto.

No domingo passado pela manhã, capoeiristas de diversos grupos acordaram cedo e todos foram ao Ginásio Poliesportivo Zezão, na zona Leste de Manaus, porque lá foi realizado o 1º Batizado e Troca de Cordas de Grupo Raízes, que, neste retorno às suas atividades em Manaus e outros municípios do Amazonas, sobre a responsabilidade e empenho do famoso Mestre Espiga, organizou seu primeiro evento grande evento público.

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Enquanto a roda ficava cada vez mais movimentada com capoeiristas de diversas categorias que chegavam à roda pra receber sua nova corda, conversamos com Mestre Tiquinho (de amarelo, foto abaixo), que coordena o grupo Raízes e há mais de duas décadas acompanha Mestre Espiga.

O Grupo Raízes existe desde 1989. Nós demos uma parada, estávamos em outros grupos, e agora reativamos ele de novo. Eu comecei capoeira com 12 anos. Tô com 34 anos e até agora tô aqui no Grupo Raízes, com o Mestre Espiga. Mais de 20 anos de capoeira com ele. Foi meu mestre desde criança e é o mestre dos meus filhos agora também. Esse é o primeiro evento agora na volta do Raízes. Seria bom que as autoridades vissem o lado dos capoeiristas. A capoeira cumpre um papel social, educacional junto às crianças. É cultura. Eu já fui a várias partes do mundo com a capoeira. A capoeira pra mim é tudo, é meu trabalho e é meu lazer.

E a roda cresce no som inconfundível do berimbau. Enquanto isso, continuamos nossa conversa, agora com o professor Formiga, presidente da Associação de Capoeira Senzala Negra, companheiro de Mestre Espiga de tantas e tantas rodas.

O grupo Raízes está de parabéns pelo evento, a gente tem agradecer e dar uma força, porque eles deram também uma força muito grande lá pra gente agora ano dia 22 de novembro que se passou. Mestre Espiga e Mestre Tiquinho, assim como outros, deram uma força muito grande pra gente sendo árbitros dos jogos. É isso aí, capoeira é dessa forma, a gente tem que um sempre que puder ajudar o outro. Agradecer primeiramente a Deus, e agradecer eles, do grupo Raízes, por realizar mais essa vitória aí na vida deles, de ter vencido mais essa batalha. Com essa volta, eles retornam ao lugar de onde nunca deveriam ter saído de suas Raízes, como diz o nome do grupo.

Capoeira Raízes 09 por você.

Capoeira Raízes 15 por você.

Capoeira Raízes 12 por você.

Após a entrega de cordas, várias rodas foram abertas. O contra-mestre Pantera, do Legião Brasileira, que tem filiais em todo o Brasil, reconhecido internacionalmente e tendo trabalhos inclusive até em países da Europa disse da alegria do grupo por essa confraternização com o Raízes:

Eu sou do grupo Legião Brasileira, que tem sede em Fortaleza. Domingo passado foi o nosso 3º Encontro, Batizado e Troca de Corda aqui em Manaus, realizado pelo Mestre Tigre. O Mestre Zebrinha veio desenvolver um trabalho aqui em Manaus, onde hoje está funcionando uma das filiais do grupo. Nós estamos não só no Brasil, mas também em alguns países da Europa e no Brasil de forma geral. Nós viemos participar do 1º Batizado do Grupo Raízes, aqui do Mestre Espiga, que voltou às atividades. Parabéns! Muito axé, felicidade e saúde pra todos os companheiros do Raízes!

Graduado Pulga, um pernambucano-manauara, capoeirista, fala do desenvolvimento tanto em seu estado natal, como aqui em Manaus. E isso lhe permite ver as necessidades e o apoio que a capoeira precisa para se desenvolver. Como era seu aniversário, todos queriam jogar especialmente com ele.

Eu sou do Grupo de Capoeira Nagô. Sou do estado de Pernambuco, estou aqui em Manaus há pouco tempo. A capoeira aqui é muito boa, está crescendo a cada dia mais, pro lado bom da capoeira. Em Pernambuco a capoeira é mais evoluída, mas porque lá também a capoeira é direto, em todos os lugares, em colégio, campo, quadra, em tudo que é espaço tem capoeira. Ali onde jiu-jitsu, tem natação, tem vôlei, futebol, também tem capoeira. Onde tem gente, onde tem esporte, lazer, tem capoeira. Aqui em Manaus ainda são em poucos cantos, mas está crescendo muito, e isso é bom. Tá começando ter uma divulgação maior agora, e vamos fazer um trabalho muito bonito aqui com certeza. Eu agora tô morando aqui e vejo que os capoeiristas daqui são muito amigos, muito camaradas, não tem rivalidade, as rodas são muito bonitas, muito agradáveis.

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Capoeira Raízes 26 por você.

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O companheiro Ring Boxe, engajado em trabalhar o boxe com a garotada ali no Zezão, no seu senso comunitário das modalidades, estava ali para prestigiar a capoeira do amigo Mestre Espiga.

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Nós temos aqui uma reunião familiar, porque o Mestre Espiga eu conheço já há muito tempo, e ele está sempre aqui assistindo, prestigiando as lutas de boxe todo sábado. E eu tô vindo aqui pra prestigiar a capoeira dele. Afinal de contas, box e capoeira é tudo irmão. É tudo família, um trabalha com as pernas, outro trabalha com os braços, mas o encontro é só confraternização e muita alegria. Ele está de parabéns só em fazer um evento como esse de hoje, reunindo tanta gente, é necessária muita envergadura, muita coragem, senão não faz não. Ele é como eu, é um batalhador, é um guerreiro, e nós temos de bater palmas, porque não tem apoio nenhum. Onde é que tem um apoio que você vê? Não existe. Então é necessário que se faça um planejamento par ao próximo ano de como incentivar as federações e os grupos de capoeira, porque se o Estado e a Prefeitura apoiam o esporte amador, sem dúvida nenhuma nós conseguiremos fazer um trabalho melhor ainda, incentivando a prática do esporte, da luta. Enquanto isso a gente vai trabalhando no peito e na raça…

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E as rodas continuaram, porque daqui a pouco, à tarde, haveria o 2º Open de Capoeira (que amanhã estará aqui). Então conversamos com Mestre Espiga, que nos contou um pouco sobre sua história e sobre a história do Raízes:

Eu comecei capoeira há muito tempos atrás. Eu tenho 27 anos de capoeira. Eu venho de uma linhagem de lutadores. Meu pai foi lutador de vale-tudo. A capoeira eu conheci a capoeira em 1979, quando assisti um filme que tinha o Camisa, a Leopoldina, um filme chamado “Cordão de Ouro”. Nessa época eu vendia picolé, e eu vi um pessoal jogando capoeira num bairro da Pça 14; eu fui lá e comecei a treinar capoeira com aquele pessoal. De lá pra cá nunca mais parei no trabalho da capoeira. Naquela época eu entrei num grupo chamado “Bantos de Angola”, do Mestre Chaguinha. Lá eu treinei 17 anos, lá onde hoje é conhecido como Quilombo. Mestre Chaguinha é meu mestre.

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E eu também tenho meu grupo hoje, que o grupo Raízes, que é apoiado pelo grupo dele, o Quilombo. E vamos levando um trabalho. Eu já viajei três países levando a capoeira – Colômbia, Peru e Venezuela -, dando seminário sobre capoeira. E hoje a gente faz um intercâmbio com Macapá, com Laranjal do Jari, com Monte Dourado. Assim como nos eventos de capoeira, os campeonatos, batizados, nós frequentamos e tentamos auxiliar.


A gente fundou o Grupo Raízes no dia 13 de maio de 1989. Depois a gente saiu do grupo, abandonou por algumas razões, e começamos a imigrar para outros grupos. E agora a gente resolveu voltar, reformular de novo o grupo. Esse exemplo de hoje aqui é justamente pra mostrar pra todos os capoeiristas que o Grupo Raízes, que um grupo tradicional amazonense de capoeira – nós temos também filiais em Parintins e em Barreirinha, está de volta na sociedade capoeirista.

Capoeira Raízes 36 por você.

A capoeira é um evento. Antes as pessoas às vezes não se entendiam. Elas procuravam brigar a capoeira; hoje é como você viu aí, as pessoas estão se entendendo, os grupos estão participando, estão somando, estão com uma nova filosofia. Filosofia de festa, de vir pra contribuir, engrandecer o trabalho que o grupo está desenvolvendo. Então, não só nós estamos de parabéns, mas todos estão de parabéns, por fazermos esse grande evento.


Vento que balança a cana no canavial

Quando eu lembro do passado

Dá uma dor no coração

Corda que amarrava o negro

Hoje é graduação”

Capoeira Raízes 29 por você.

14º BATIZADO DA CAPOEIRA “SENZALA NEGRA”

Vou lhe contar uma história

Preste muita atenção

A saudade quando bate

Faz doer no coração

A desigualdade

Foi assim que nos trataram

Com falta de união

Há quatro anos

Esse grupo então parou

Sua simples atividade

Oi, ela que ensinava com amor

.

Ai que saudade

Só aumentava assim

Chorou Formiga

Foi com a dor no coração

Levantou Senzala Negra

Com Abelha e o Selvagem

Podem falar ou até mesmo criticar

A Associação Senzala Negra

Ressurgiu foi pra ficar

.

Somos o povo Senzala Negra

Eu vim aqui foi pra jogar

Eu só quero a igualdade

E o direito de amar

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Clique nas imagens para vê-las de perto.

Este maravilhoso batizado foi precedido, na manhã, pelo 3º Jogos de Capoeira Mestre Vermelho, realizado pela Associação de Capoeira Senzala Negra, no IV Jorge Teixeira, zona Leste de Manaus, do qual trazemos aqui algumas imagens da entrega para os ganhadores de mais de uma dezena de grupos que compareceram, em diversas categorias. Todos estavam muito alegres e os ganhadores receberam as parabenizações, medalhas e troféus. Aplausos!

Capoeira Senzala Negra 04 por você.

Capoeira Senzala Negra 09 por você.

Aí soou pra valer o berimbau para o hino do Senzala Negra, e deu-se início o maravilhoso batizado, com a entrega das novíssimas cordas para os que avançaram no entendimento da capoeira de corpo e alma em mais um ano de movimentos livres e mente ativa em todas as etapas na vida dos participantes do Senzala Negra.

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Capoeira Senzala Negra 17 por você.

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Enquanto as trocas de corda iam se dando naturalmente, conversamos com o presidente da Associação de Capoeira Senzala Negra, que era o monitor do grupo, que logo depois receberia a corda de professor das mãos do professor Marcelo. Então, o professor Formiga fala de seu trabalho no Senzala Negra, que começou aí quando ele ainda era criança:

“Eu iniciei no Senzala, faz quinze anos que eu pratico capoeira. Comecei como aluno, hoje eu sou o presidente da associação. Há dez anos que eu estou à frente desse trabalho, junto com minha mãe, a formada Abelha. Hoje me surpreenderam com essa corda de professor, que eu não esperava. Nem sei se mereço, mas mestre é mestre, e se eles reconhecem, eu agradeço. Agora é trabalhar, no meu caso particular, pra chegar a contra-mestre e merecer chegar. No todo, eu estou muito feliz pelo Senzala, com todo mundo reunido, com esse campeonato, esse batizado, é na verdade uma grande festa, realizada não só pelo Senzala, mas por todo os vários grupos que você vê aqui.”

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Capoeira Senzala Negra 16 por você.

E como o Senzala Negra é, na verdade, uma associação que faz diversos trabalhos, logo veio uma demonstração das danças que o grupo apresenta e desenvolve em escolas públicas de Manaus. A primeira foi um belíssimo Cangaço.

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Capoeira Senzala Negra 25 por você.

O exímio tocador de berimbau e seu desconcertantes volteios, famoso Mestre Espiga, ao som de uma angolinha no fundo, fala sobre o estágio da capoeira no Amazonas, sobre a importância do grupo Senzala e faz sua avaliação sobre os jogos e o batizado deste ano:

“A capoeira tem crescido muito em nosso estado, e tem crescido de uma forma bem legal, educada, com a capoeira ajudando as pessoas a se compreenderem mais. Como a capoeira cresceu muito no Brasil, e daqui para o mundo todo, é preciso valorizar a prata da casa. Hoje nós temos um ritmo de capoeira, que uma capoeira bem movimentada, como é a Benguela. Que bom que nos eventos está recheado de professores, de mestres. Os eventos não tão tendo intriga, desafeto, desrespeito. Como se pode ver desse evento hoje do Senzala, foi maravilhoso. A capoeira ganha com isso e está de parabéns.

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Capoeira Senzala Negra 21 por você.

O Senzala tem uma importância muito grande. Quem fundou o Senzala foi o saudoso Mestre Vermelho. Depois que o Mestre Vermelho faleceu, essa rapaziada deu continuidade ao trabalho com muito amor e responsabilidade. O Senzala é um grupo de capoeira antigo na cidade, e ele vem desenvolvendo um trabalho social na cidade, principalmente na Zona Leste, que é muito bonito. Não só capoeira, mas também danças típicas, danças afro, trabalhando isso nas escolas, nas comunidades. E hoje ele realizou aqui um campeonato e um batizado.”

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Capoeira Senzala Negra 29 por você.

Seguiu-se, então, outra demonstração de dança típica, que as meninas do Senzala desempenharam com muita graça.

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A bela Jaqueline Tanajura, que participa das danças, e é agora também estagiária no grupo, fala da presença da mulher na capoeira e da importância dessa arte em sua vida, para seu corpo e sua mente se manterem belos e em equilíbrio com a natureza:

“Nós estamos muito contentes por ter trocado de corda. Isso acontece uma vez por ano. A gente fica assim eufórico, porque a gente batalhou por ela. E agora ainda mais, pra mostrar pra todo mundo que a gente tem capacidade, não só por ter conseguido uma corda, mas também por ser mulher. Eu pratico capoeira há mais ou menos 13 anos. No meio da capoeira não, mas na sociedade ainda existem pessoas que tem preconceito. Tem pais que às vezes não deixa a filha entrar, dizendo que é coisa pra homem. A capoeira é pra todos. Nos ajuda a conhecer melhor nosso corpo e dos outros e mantê-lo sudável, assim como a mente. Então, a gente tá ainda com o coração palpitante. Eu saí de graduada (corda verde e azul) pra estagiária (corda azul e amarela). E a gente vai continuar jogando, pra que daqui a quatro anos a gente possa se formar e sempre continuar com esse trabalho…”

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Capoeira Senzala Negra 30 por você.

O agora contra-mestre Marcelo (à esquerda, na foto abaixo) falou também, emocionado, da corda que recebeu e do trabalho seu com os alunos no Senzala, assim como da participação dos amigos dos outros grupos que auxiliaram:

Capoeira Senzala Negra 42 por você.

Eu era professor (corda amarela e branca) e passei a ser contra-mestre (corda azul e branca). Eu sempre tive responsabilidade dentro da capoeira. Quando uma pessoa é promovida assim, subindo no estágio da capoeira, é sinal que ela tem muito ainda a dar pela capoeira, para a capoeira, tem muito a dar para os seus alunos. Uma corda, eu sempre digo, é um degrau a mais. É sinal que eu estou aprendendo a cada dia mais, e tenho que aprender, assim como todos os meus amigos que estão aqui compreendem que essa é a vida da capoeira. A vida é um aprendizado. O evento de hoje foi maravilhoso, principalmente porque todos ajudaram, tanto crianças quanto adultos, não só a formada Abelha, professor Marcelo, monitor Formiga, professor Selvagem, sendo do Senzala ou dos outros grupos, todos se empenharam para que esse evento acontecesse, para que ele fosse mais além.”

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Professor Formiga e Mestre Espiga

Professor Selvagem

Então conversamos com o capoeirista Zumbi, que falou do seu apelido na capoeira. Como não poderíamos perder a oportunidade, marcamos para posteriormente fazermos uma entrevista com o próprio Zumbi sobre as lutas da negritude na atualidade da capoeira. Fica aqui o início de conversa:

“Meu nome é Ricardo Luiz Teodoro. Hoje sou chamado de Zumbi, que é um apelido da capoeira. O apelido veio quando eu, vindo de São Paulo, comecei capoeira em Belém do Pará, tinha um mestre, muito famoso, da Regional, lá em Belém, que se chamava Zumbi. Então, no dia do meu primeiro batizado, meu professor olhou e disse: “Rapaz, você parece muito com o Zumbi. Mestre Zumbi, daqui de Belém; então seu apelido, a partir de hoje, vai ser Zumbi”. Daí, então, eu venho carregando esse apelido há 15 anos. Faço parte hoje do grupo Abadá Capoeira, do Mestre Camisa. Pra mim, é uma honra está participando desse evento do professor Formiga, que é meu amigo há muito tempo. São nove anos que eu moro em Manaus, são nove anos que eu conheço ele, por isso é uma satisfação ver ele receber uma corda de professor. E também pelo Marcelo, que recebeu de contra-mestre, de ver aqui o Mestre Espiga, que foi meu mestre também.”

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Capoeira Senzala Negra 38 por você.

Então houve a última das demonstrações de dança da maravilhosa tarde daquele domingo de sol e todo o vigor dos movimentos da capoeira e das autênticas manifestações culturais do nosso povo, que ocorrem nos bairros de uma cidade há décadas abandonada pelos governos.

Capoeira Senzala Negra 45 por você.

Finalmente, conversamos com essa mulher, uma guerreira que é uma das maiores responsáveis por comprometimento social, comunitário, filosófico do Senzala Negra. As sábias palavras da formada Abelha:

Esse evento de hoje foi o nosso 14º batizado. Pelo dia da Consciência Negra, nós tivemos a ideia de fazer esse evento, pra que agente somasse e desse continuação ao que a gente vem fazendo ao longo desses anos. Hoje também, pela manhã, houve o 3º Jogos de Capoeira Mestre Vermelho. Mestre Vermelho não está mais vivo, mas deve tá assistindo lá em cima. Mas não é homenagem póstuma; o primeiro que a gente fez ele ainda estava vivo. Foi ele que inspirou e ele viu e gostou. Agora que ele se foi, continuamos com ele, por ele, pela sua luta, pelo amor que ele tinha pela capoeira e por todos nós.

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Hoje nós tivemos uma surpresa imensa, quando nós tivemos a formatura de um mestrando, que era nosso professor, que ele foi professor do meu filho, e o meu filho se tornou dele não apenas um aluno, mas se tornou um discípulo. E, ao mesmo tempo que eu vejo esse professor dele recebendo uma corda de mestrando, e passando a corda de professor para o meu filho, que até então era monitor, é uma emoção que me deixa sem palavras. Porque o monitor Formiga, quando ingressou na capoeira tinha 8 anos de idade. Hoje ele tá com 24 anos, e ele nunca parou. Não é uma coisa pessoal, é um projeto que nós temos de vida.

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E o projeto se tornou uma filosofia: que é passar a capoeira aiante. Lembrar de nossos ancestrais, de nossos antepassados, e saber que somos representantes de uma luta de resistência, carregando uma ânsia de liberdade, que até hoje nós temos. Não é bonito de a gente falar, mas temos de dizer: dizer que no Brasil não tem preconceito, não tem racismo, é ser demagogo. Somos tão preconceituosos que não temo coragem de admitir que o somos. Por aí se vê.

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É muito bom ver todo mundo reunido. Vê pessoas que a gente não via desde 2001, e rever hoje a pessoa com toda aquela alegria, aquela amizade, é muito bom. Capoeira pra gente é carinho, é amizade, é união, é tudo que você possa imaginar de bom, felicidade, de paz. Eu já falei algumas vezes que ia parar, mas a cada ano ocorre um fato novo que me motiva mais. E eu não sei o que vai ser de mim, eu já tô com 53 anos de idade, 18 anos à frente desse grupo e estou muito feliz. Tem hora que a gente não se segura e vai brincar, vai servir de criança, de palhaço, seja o que for… Você que está lá!

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Eu costumo dizer que não se joga capoeira só com os pés. Pra você jogar uma boa capoeira, você tem que ter uma boa cabeça. O Pastinha usou a frase pra definir a capoeira: “Capoeira é tudo aquilo que a boca come, que o corpo dá”. Ele quis dizer com isso que o capoeirista vive capoeira, come capoeira, o corpo dele é capoeira, tudo pra ele é capoeira. É uma coisa maravilhosa, é tudo de bom. É mente sã num corpo sadio. Capoeira é capoeira e não tem outra coisa pra definir.

Capoeira Senzala Negra 55 por você.

Capoeira Senzala Negra 57 por você.

CAPOEIRA BANTOS NO DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA

Nós vivemos aqui nessa terra

Lutando para sobreviver

No lugar onde poucos têm muito

E muitos têm pouco comer

Olhando isso fico triste

E me pergunto qual é a solução

Eu tô feliz porque tenho a capoeira

Como uma forma de expressão

Tenho um canarinho cantador

Berimbau afiando e um cavalo chotão

E uma morena faceira

Que me deu o seu amor

E um menino chorão.

Ai, meu Deus, quando eu partir

Desse mundo enganador

Ao meu filho eu deixarei

Uma coisa de valor

Não é dinheiro, não é ouro nem é prata

É meu berimbau maneiro

Que meu amor me deu

Não é dinheiro, não é ouro nem é prata

É meu berimbau maneiro

Que eu ganhei do meu avô

Meu berimbau toca Iuna e Benguela

Toca paz e toca guerra

Toca até juras de amor.

Não é dinheiro, não é ouro nem é prata

É meu berimbau maneiro

Que eu ganhei do meu avô

Capoeira Bantos 01 por você.

Clique nas fotos para vê-las de perto.

Ontem, no dia em que se comemorava o Dia da Consciência Negra por todo o Brasil, com a afirmação de todas as inumeráveis manifestações das culturas afro-descendentes, no Novo Aleixo, zona Leste de Manaus, o grupo de capoeira Bantos, sob o comando do monitor Luciano, se reunião numa comunhão para conversar, jogar e pensar sobre a capoeira, que, dentro dessas manifestações afro, é hoje uma das mais reconhecidas pelo mundo afora.

Capoeira Bantos 02 por você.

Mas deixemos que Luciano fale sobre sua trajetória, sobre seu trabalho atual, sobre os entendimentos da capoeira e da consciência negra:

O objetivo dessa atividade de hoje é conversar um pouco sobre o Dia da Consciência Negra, porque a capoeira que nós jogamos foi criada pelos negros que vinham como escravo, foi criada dentro da senzala. Durante muito tempo a capoeira foi malvista, porque vinha dos negros, por causa do preconceito, que ainda existe um pouco. O grupo Bantos em Manaus está com seis anos aqui dentro de Manaus, vindo do Amapá. Começou com o professor Jari, que hoje está pra lá pra Macapá, jogando sua capoeira por lá. Mas ele fez sua parte aqui e vem aqui pelo menos uma vez ao ano vê como estão as coisas. E a gente continua aqui levando esse trabalho, que é importante pra gente e pra comunidade, pra todos que veem a beleza da capoeira e a sua importância cultural.

Capoeira Bantos 03 por você.

Eu aprendi capoeira com o mestre Espiga, quando eu tinha doze anos de idade; hoje eu tenho trinta, então faz dezoito anos que eu jogo a capoeira todos os dias. Temos esse trabalho aqui com a Igreja Francisco Xavier e também lá na Igreja Católica Nossa Senhora de Aparecida, temos uns alunos lá também. O nosso trabalho não se restringe só à capoeira, a gente faz um acompanhamento escolar, fazemos reunião com os pais também pra conversar sobre as relações deles com os filhos.

Capoeira Bantos 04 por você.

Além de ser um dia especial dos negros, que lembra a luta que eles tiveram, que é a luta que continua, a nossa luta, e também brincar um pouco com essas crianças, tentar fazer com que elas cresçam bem dentro da capoeira, e não só na capoeira, mas na vida pessoal delas como um todo. A capoeira tem um papel de diversão, mais vai além porque compreende toda a vida da pessoa e é a única luta brasileira autêntica. A criança não perde só o medo de cair, mas se movimenta livremente e aprende a tomar decisão livremente.

Capoeira Bantos 05 por você.
Capoeira Bantos 06 por você.

Marcley, um jovem de 17 anos, que tem uma deficiência física, fala sobre sua experiência de 4 anos com a capoeira, de como ela o auxilia física e mentalmente:

Eu busquei a capoeira por curiosidade. Eu tenho dezessete anos e faz uma base de uns quatro anos que eu pratico a capoeira. Eu comecei antes com o professor Jari, que viajou lá pra Macapá, que é a terra dele. Foi o professor Jari que me convidou, aí quando eu entrei não quis mais sair. Agora a gente tá aqui com o Luciano, porque ficou na responsabilidade dele. Eu aprendi muita coisa com a capoeira, a ter mais paciência, a ver melhor as coisas, ajudou muito com relação aos meus pais também. A minha deficiência física não atrapalha em nada a capoeira. A capoeira é que me ajuda a coordenar melhor os movimentos e, principalmente, a mente.

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Conversamos também com Dona Jovem e com a mãe de Thalisson, uma das crianças que participa do projeto, e elas afirmaram estar contentes com com os resultados alcançados com a capoeira.

Meu nome é Jovelina, mas eu sou conhecida como Jovem, todo mundo aqui só me conhecem como jovem. O meu neto é o Thalisson, ele começou assim que abriu aqui esse trabalho. A capoeira tá servindo pra ele, ele tá se espertando mais, tá se desembaraçando. Eu nunca tinha vindo não, aí eu disse: ‘Eu vou olhar hoje’. É legal, é muito bom. Lá em casa, quando ele não tá na aula, ele só que tá de perna pra cima, brincando.

Capoeira Bantos 15 por você.

A capoeira fez o Thalisson melhorar bastante, tanto na escola como em casa. Ele tá mais cuidadoso com as coisas dele, ele tá observando o crescimento do próprio corpo dele. Com a capoeira ele vê melhor as coisas, vê que não precisa ele se meter com outras coisas na rua, ele procura o que é útil pra ele. Se ele vai pra rua é pra brincar a capoeira dele com os colegas, aqui. (Mãe de Thalisson)

Capoeira Bantos 08 por você.
Capoeira Bantos 09 por você.

Ao final, conversamos com Edmar e Adeíze, dois dos coordenadores do trabalho, que falaram sobre o Dia da Consciência Negra, sobre os projetos realizados e sobre a fundamental inserção da capoeira, fazendo uma avaliação sobre o evento:

Isso aqui é uma CEB’s, faz parte da Área Missionária São Francisco Xavier, onde nós temos um projeto com crianças, um projeto do Moccocci, no qual nós trabalhamos com crianças carentes de rua. Nós abrimos esse espaço para a capoeira porque nós achamos de bem trazer o jovem para participar uma arte autêntica do nosso povo. Pra isso, contamos com a colaboração do Luciano, e estamos felizes não só por ver o bonito trabalho que ele realiza, mas também por ver pais aqui acompanhando os seus filhos, apreciando esse trabalho. Que bom que a gente tá aqui lembrando da escravidão, e comemorando que ela não existe mais, mas que é importante lutar pelos direitos dos negros, das pessoas pobres. Que bom que a gente tá podendo fazer isso nesta comunidade com a capoeira, com todas essas crianças.

Capoeira Bantos 11 por você.

Eu sou uma das coordenadoras da comunidade, e tenho também motivos pessoais para gostar desse trabalho. É que os meus dois filhos sofrem um de asma e o outro de arritmia cardíaca, vieram pra capoeira e melhoraram totalmente do problema da asma. Além da saúde deles, antes era um gasto horrível com remédios, e baixou totalmente. No geral, o trabalho aqui vai muito bem. A gente tem um projeto que trabalha com crianças, totalmente voluntário. Temos um grupo de 40 crianças de rua, de 7 a 17 anos; dessas, 10 participam da capoeira. A capoeira chegou em boa hora.

Capoeira Bantos 12 por você.

    – Grupo Bantos de Capoeira –

    Área Missionária São Francisco Xavier

    Rua Wilton Vieiralves

    Contatos: 8843-6721 (Luciano)

    9111-5696 (Adeíze)

BATIZADO NA CAPOEIRA “OXALÁ DO AMAZONAS”

AMAZONAS

Auê, auê, auê, ô

Lelê, lelê, lelê, lelê, ô

Capoeira, cultura regional

Tem moleque tocando berimbau

O pandeiro, o atabaque e o agogô

Capoeira é da nossa cor

Berimbau é da nossa cor

Amazonas é da nossa cor

O pandeiro é da nossa cor

O atabaque é da nossa cor

Capoeira que se joga com amor

Auê, auê, auê, ô

Lelê, lelê, lelê, lelê, ô

Capoeira Oxalá 01 por você.

Clique nas imagens para vê-las mais de perto.

Este foi um batizado de capoeira do grupo Oxalá do Amazonas, que ocorreu na tarde do sábado, dia 25, no pátio da Escola Arthur Soares Amorim, onde o grupo se reúne há mais de um ano.

Capoeira Oxalá 30 por você.

Capoeira Oxalá 05 por você.

Enquanto você acompanha em clics os vigorosos volteios dos movimentos da roda de capoeira, conversamos com Maik, que convidou este bloguinho e que é também um dos responsáveis pelo grupo, enquanto Mestre Miag está em viagem, compartilhando sua capoeira pelo interior do Amazonas.

Hoje foi o batizado de capoeira do grupo Oxalá do Amazonas. O pessoal que está iniciando agora e o pessoal que já está a algum tempo aí com a gente. Alguns estão pegando o cordel cinza, que é o cordel de iniciante; outros pegam verde, que o cordel daquele pessoal que já tem um tempo dentro da capoeira. O mestre Miag, no momento está em Parintins, mas ele deu a ordem pra que a gente fizesse o batizado e assim fosse graduado todo mundo.

Capoeira Oxalá 07 por você.


Capoeira Oxalá 06 por você.

Houve também a presença de participantes do grupo Bantos, que foram prestigiar o batizado. Luciano (com o pandeiro na foto abaixo) deixou sua mensagem de confraternização ao grupo Oxalá:

Capoeira Oxalá 24 por você.

A gente foi convidado para esse batizado do grupo Oxalá, pelo Felipe, para a gente foi uma honra. A gente veio aqui pra somar, pra ajudar, porque a gente tem de se ajudar. Às vezes você encontra um erro de um companheiro, tem de falar, assim como ele tem que falar dos nossos, porque assim vamos melhorando, nos aperfeiçoando na capoeira, assim como na vida. Agradecemos, então, o convite a esse belo batizado.

Capoeira Oxalá 02 por você.

Capoeira Oxalá 09 por você.

Capoeira Oxalá 10 por você.

Alguns pais e familiares também compareceram para envolver-se com as atividades que seus filhos participam na capoeira, e fizeram observações do papel pedagógico da capoeira no crescimento integral de seus filhos, como o casal Jane e Sidcley, dos quais pegamos estas falas:

Eu creio que essas atividades diversas, elas ajudam no desenvolvimento individual, assim como na escola mesmo. Pra ele participar da capoeira, por exemplo, ele precisa ter uma boa nota no colégio. Se ele não tiver um bom desempenho, ele não participa de atividade extra. Então, pra nós, o que a gente tem ganho com isso é também um pouco mais de esforço dele na escola. (Jane)

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Monitor George, distribuindo faixa.

Capoeira Oxalá 11 por você.

Eu acho que é importante, em primeiro lugar, para que os jovens não estejam abandonados, fazendo algo de errado. Aqui eles ficam mais disciplinados por eles mesmos, aprendem alguma coisa. Eles aprendem a dar valor ao corpo deles. Eles aprendem muito fazendo esse esporte, que mexe com o corpo e também com o emocional dessa garotada. (Sidcley)

Capoeira Oxalá 17 por você.

Capoeira Oxalá 15 por você.

Capoeira Oxalá 12 por você.

Ao final da roda, depois do mata-broca, conversamos com o monitor Felipe, que dava os toques na roda, que cantou a música símbolo do grupo, que colocamos no topo desse texto, e que nos relatou um pouco da história desse novo grupo, criado por Mestre Miag, e que caminha para seu segundo ano de vívida atividade, auxiliando na difusão da capoeira e na vivência autônoma e autêntica dessa garotada que procura na capoeira uma alternativa à artificialidade da sociedade de consumo:

Agradecemos ao pessoal do grupo Bantos, porque ser capoeira é a gente ser irmão, é união, é paz, é amor, é alegria e é diversão também. É irmandade.

Capoeira Oxalá 19 por você.

Capoeira Oxalá 20 por você.

O grupo Oxalá do Amazonas é novo, foi fundado no dia 1º de janeiro do ano de 2008. Tá caminhando pra dois anos. Então, como nosso grupo é novo, estamos crescendo ainda na quantidade de alunos. Mas isso não importa, porque não trabalhamos em prol da quantidade de alunos, mas sim da qualidade. Pois assim mais o grupo cresce, evolui.

Capoeira Oxalá 21 por você.


Capoeira Oxalá 16 por você.

A gente fala aqui na roda que todo capoeira deve ter paciência, tolerância, humildade, caridade, amor, união, paz. O que significa que eles vão levar isso não só aqui, mas na casa deles, na comunidade.

Capoeira Oxalá 28 por você.

Capoeira Oxalá 22 por você.

Para finalizar, as crianças, juntamente com Ângelo e sua companheira, do Bantos, ainda deram uma demonstração da ginga da capoeira no samba no pé, enquanto o berimbau e o pandeiro enchiam os ouvidos com o ritmo contagiante da capoeira Oxalá do Amazonas…

Capoeira Oxalá 26 por você.

A POTÊNCIA ATIVA DE MESTRE RAY, DE BELÉM: DO CARNAVAL À CAPOEIRA, NA COMUNALIDADE-MUNDO

Durante as itinerâncias pela cidade de Belém, na cobertura do Fórum Social Mundial, a equipe afinada aproveitou também para dar uma volta pela cidade. No roteiro do acaso, vários encontros, outros tantos ficaram para outros acasos em outras itinerâncias. Em um desses encontros, através do companheiro Germano, taxista da praça belenense e grande conhecedor da cultura paraense, conhecemos o Mestre Ray, ou Mestre Mundico.

Sorridente, faceiro, contador de histórias, sempre com uma brincadeira, Mestre Ray, aglutina duas das potências culturais do povo paraense: o carnaval e a capoeira.

Como brincante do carnaval, ele carrega os elementos lúdicos da música, do molejo, do gingado, do saber comunitário. Conhecido e querido por toda a cidade de Belém, é requisitado nos blocos da cidade tanto como mestre de bateria, quanto como maestro, instrumentista, carnavalesco, animador, agenciador ativo de perceptos e afectos carnavalizantes, dionisíacos.

Na capoeira, ele é corpo-afecção da Capoeira Regional, modalidade desenvolvida a partir da mescla da capoeira de Angola com outras artes, incluindo a misteriosa luta de cabeçadas da ilha de Marajó, onde Mestre Ray aprendeu. Mas não pergunte a ele do que se trata: aula de luta de cabeçada, só na prática. “Querem aprender?”, brinca. Embora venha depois de mestres essenciais à capoeira paraense, como o Mestre Bimba, Mundico, como é conhecido entre os capoeiras, é considerado um dos fundadores da capoeira em Belém.

No dia em que a equipe conheceu Mestre Ray, ele nos levou até um bairro da alcunhada periferia de Belém, onde ia entregar peças de embarcação que ele, como metalúrgico, fabrica. É seu ganha-pão. Curioso ofício para quem, além de ter a mesma profissão que o presidente Lula, é ainda carnavalesco, capoeirista, maestro, artesão, músico, teatrólogo, ativista social. Mas não para Mestre Ray, que sabe que o saber e a disposição para estar no mundo como protagonista do existir não estão sob o julgo do capital. Reconhecimento, apenas o dos amigos, que não são poucos, e uma medalha, conferida pela câmara municipal de Belém.

Depois de acompanhar este bloguinho em um fim de tarde no Ver-o-Peso, Mestre Ray nos convidou para estar com ele na manhã do domingo que se aproximava, quando contaria um pouco da sua história, de seus caminhos, da sua capoeira, do seu carnaval. Enredada na história de um homem, ao puxar o fio do novelo, desvela-se a história de uma cidade que não se apequena diante das dificuldades, e de um povo que não aceita abrir mão de construir o seu próprio modo de ser.

Deixaremos que o próprio Mestre Ray nos leve na sua conversa. Com voz macia, fala mansa, mas determinada, um tom constante de humor, no gingado, ele vai nos levando, como numa dança, em plena roda de capoeira, às vezes brincando, às vezes dando um golpe, sem machucar, lá onde a linguagem deixa de ser palavra de ordem para se transformar em con-versão, palavra em ato, na coletividade. É com ele.

Os afinados vão entrando na casa de Mestre Ray. O espaço abrange a casa dele e mais duas, dos filhos. Cachorros, gatos, galinhas, tartagura, beija-flor, tudo solto, sem gaiolas, sem poleiro, sem grades. Árvores, uma oficina ao fundo. Mestre Ray está ouvindo um CD de carimbó, e consertando um bumbo. Chapéu de palha e um sorriso no rosto (que não podem faltar), ele não espera pelas tradicionais perguntas, vai logo emendando o papo, enquanto os afinados, atordoados, correm pra ligar o gravador. Enquanto fala, o CD ao fundo compondo a festa paraense do carimbó de raiz.

Domingo passado, que veio um historiador da universidade aqui procurando fotos, mas a maioria das fotos que estão ali estão deterioradas, e ele levou algumas. E esse negócio das fotos, o pessoal me pede, aí eu dou, tá aqui a foto. Levam, mas não trazem. Uma vez veio um rapaz que estava fazendo um livro, mas é discípulo nosso de capoeira, aí não trouxe. Disse que ia escanear, melhorar as fotos, mas acabou não me entregando. Mas eu tenho algumas fotos aqui, tem umas grudadas ali no papelão, fizemos uma festa aqui em casa, a festa de aniversário da Senzala. Mas eu não ligo muito para as fotos, vem o pessoal aí e pede, deixa eu levar as fotos, e levaram um monte de fotos do papelão, e é história, fotos históricas, umas da década de 70, outras da década de 80, e ainda ficou umas ali que são muito velhinhas. Daqui a pouco eu mostro para vocês, lá”.

Geralmente aos domingos, tem gente aqui. Quase todo domingo tem gente aqui, quando não vem para aprender capoeira, vem pessoal para pesquisar, outros vêm, por me me acham assim, como seu eu fosse um pai deles, um psicólogo, vêm pedir conselhos. A gente se dispõe, e o pessoal já sabe até o horário, que é das 09:30 às 10:30, é o horário que eu abro espaço para ensinar capoeira, dar um conselho, alguma coisa. Aí a partir de dez e meia em diante eu já me dedico à família. E ultimamente, esta época agora, eu estou mais dedicado ao carnaval. Os rapazes pediram para eu dar um jeito nestes instrumentos que estavam furados, e além de eu trocar as peles deles eu já vou enfeitar eles de várias cores. Eu tenho um grande amor por instrumentos. Não posso ver um instrumento velho, quebrado, por aí, que eu compro e trago pra cá. Tanto é que ainda tem um monte deles aí para ajeitar, porque esta agremiação, este bloco carnavalesco, não tem instrumento”.

Afinpress – É aqui então que nasceu a capoeira de Belém…

Aqui é que é a área dos capoeiristas. De vez em quando vem um, vem muita gente de fora, de outras cidades. No ano passado veio um rapaz lá de Cametá. Veio ele, um grupinho dele, que ele montou para lá. Chama-se Paulinho Cametá. E trouxe os meninos para me conhecer. Eles chegaram aqui, bateram fotos, pediram para eu falar alguma coisa sobre capoeira para eles, eu dei uma minipalestra, e foram embora daqui muito contentes”.

Geralmente quando vem crianças aqui, eu tenho uma mania de, além de cumprimentar, pegar na cabeça deles para benzer. Então eu acho que isso já passou para os outros grupos, descendentes da Senzala, que quando vem algum aqui falar comigo, ele já baixa a cabeça que é para eu abençoar ele. Não que a gente seja algum ser supremo para abençoar, mas a gente diz “Deus te abençoe”, “Deus ilumine teus caminhos”, e quem sabe Ele não esteja lá em cima escutando e abençoando as crianças. Tem um rapaz aqui em Belém que andava à pé por aí, não tem pai, e mora lá para o bairro da Cremação, do outro lado da cidade. Mas toda vez que ele estava aqui pela área da Sacramenta, ele vinha aqui. Ele é alto, e sempre que vinha aqui já chegava pedindo, “Mestre, seu cumprimento e sua bênção”. Quando foi um dia, fazia um tempo que ele não aparecia, para você ver como são as coisas, ele apareceu com uma moto aí. “Ei, Mestre, vim pedir a sua bênção”, e eu “Deus te abençoe”. Da outra vez que ele apareceu, já foi com um carro. Aí eu disse: “rapaz, eu vou parar de te abençoar, porque daqui a pouco tu estás um cara milionário, cheio de seguranças, já vão querer te sequestrar”, e ele disse “Não, Mestre, quanto mais eu peço a sua bênção, mais a gente cresce na vida”. Aí então ele sempre me convida para ir nas rodas de capoeira na casa dele que são no segundo domingo de cada mês, mas meu tempo é muito curto. Se eu tivesse que visitar todo mundo, um domingo não ia dar. E aqui, de manhã, tem sempre alguém do meio da capoeira, do samba, do futebol, e de tarde eu procuro descansar um pouquinho”.

Pequeno altar, na entrada da casa de Mestre Ray

Pequeno altar, na entrada da casa de Mestre Ray

Aqui, no final do ano, as pessoas têm a mania de fazer uma confraternização jogando solteiros contra casados. Hoje em dia, as pessoas fazem mais Remo e Paisandu, camisa do Remo contra camisa do Paisandu. E eu fui convidado só aqui nessa área para jogar solteiros e casados, da [rua] Pedro Álvares Cabral para lá, na área aqui, nestre trecho em que eu resido, e na outra área, passando a [rua] Senador Lemos pra lá. E mais no outro, que eu nem faço parte da rua, lá da [travessa] Alferes Costa, que é uma outra rua ali, e eu nem moro pra lá, eu moro aqui. Pra vocês verem como é esse negócio das pessoas me quererem dentro dos seus eventos. Talvez porque a gente faça uma grande amizade com gregos e troianos. Se eu sair daqui, ali para a feira, que é pertinho, eu vou demorar uma hora pra voltar. Porque a gente vai passando e ouve “Ei, Mestre, venha cá”, aí a gente vai conversando, e cumprimentando, às vezes eu saio com o chapéu assim e cumprimentando “bom dia, bom dia, bom dia”. É porque a gente tem um carinho muito grande das pessoas”.

Nessa casa bem aqui defronte estão morando 27 baianos que vieram trabalhar numa demolição de um shopping center aqui em Belém. O shopping é lá da Bahia, e contratou eles. Então eu conheço alguns deles, e eles queriam até vir treinar capoeira aqui, e eu disse: “Rapaz, a Bahia não é a terra da capoeira? Então eu que tenho que aprender com vocês, e não vocês comigo”. Mas é que um tá meio ‘durinho’, e o resto não sabe nada. Eu disse que para aprender comigo, eu vou cobrar 50 reais a hora/aula, disseram que está muito caro, mas é o valor de um mestre. E eu não estou tendo tempo. Se eu fosse abrir a mão e cobrar 5 reais por cabeça, estavam tudo aí, querendo aprender capoeira. Mas é que eu não tenho tempo pra dar aula. Aí então me levaram lá em cima, pra conhecer o alojamento, eles mesmo cuidando de carne, de tudo. Domingo passado eu fui atravessar ali para comprar um churrasco, aí um deles me chamou e me pediu 4 reais emprestados para pagar quando receber. Tudo bem. Quer dizer, se eu tiver, a pessoa tem. Nem conheço direito o camarada, mas se pedir e eu tiver, eu dou. Eu acredito na pessoa. Só quando eu sei que a pessoa é de má índole, um pilantra, aí eu não dou. Mas se for um trabalhador que precisa, e eu tenho, eu dou. Eu sou deste tipo. Tento ajudar a gregos e troianos, ajudar sem olhar a quem”.

O som do CD vai rolando ao fundo, emoldurando a fala de Mestre Ray. A esta altura, ele dá um suspiro, e deixa rolar o som, para em seguida completar.

Este é Mestre Lucindo, de Marapanim. É um carimbó mais compassado. Se você observar, o carimbó não é uma coisa só, ele tem uma diferença um mestre para outro”.

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SOBRE A CAPOEIRA

Então aqui em Belém, a capoeira propriamente dita, que eu digo que tenha começado ela, foi em 1971. Comecei antes, mas eu registro como 1971. Porque na época, no governo militar, os jovens iam de uma ponta a outra do Brasil com o lema “sem lenço e sem documento”, e eu praticava capoeira, mas praticava a esmo, não tinha muitos fundamentos. Até porque na época não existia televisão, pelo menos aqui no bairro não existia televisão. Então o que ocorreu? Hoje em dia se chamam hippies, mas naquela época eram dois jovens que vieram da Bahia, e ficaram um mês radicados ali na Presidente Vargas, na Praça da República. E eles praticavam capoeira no calçadão em troca de um trocado, alguma coisa para a sobrevivência deles. Então, no horário de meio-dia, uma hora, eles queriam que eu arrumasse alguma bóia, alguma comida pra eles. E em troca eu iria aprender um pouco mais com eles. Então eu ia jogar um pouco de capoeira com eles lá, aprendendo a técnica deles. Eu tinha a minha técnica, mas era muito arcaica. Até porque eu sou um autodidata, e não tinha muito conhecimento sobre a ginga, sabia dar umas pernadas, mas não tinha aquela técnica. Então eu suguei um pouco desses camaradas, durante um mês eu levava a minha bóia lá pra eles, colocava a minha própria bóia dentro de uma latinha e levava, e em troca, sugava um pouco da técnica deles. Na época não existia capoeirista aqui em Belém. Depois de um mês, eles subiram no rumo de Macapá. Pegaram carona num navio e partiram. Aí eu adquiri mais desenvoltura na capoeira, e com isso fui tendo seguidores. Eu não me julgava mestre de capoeira”.

Para vocês verem como é a coisa. Eu não tinha nem conhecimento de como se fazia um berimbau. A primeira criação minha de berimbau foi assim, de goiabeira. Eu vi que a verga era flexível e dura, só que depois que eu colocava o arame ela ficava. Se tirava, ficava do mesmo jeito. Eu tive a ideia de começar a torrar no fogo, pra ela vergar, e quando soltar, voltar de novo. Eu não tinha noção mesmo de como era feito um berimbau antes de conhecer esses dosi rapazes. E eu botei ouriço de castanha como caixa de ressonância, e aquilo é pesado pra dedéu, saía som mas ficou pesado. Até que eu fui pesquisando, e cheguei na Cuia-Pitinga, de onde deu um som melhor, e aí eu comecei a construir berimbau com galho de goiabeira torrado no fogo com cuia-pitinga”.

Os troféus de Mestre Ray

Os troféus de Mestre Ray

E eu levava meus seguidores para a Praça da República. E numa dessas vezes, e aqui em Belém era uma inovação na época, por que existiam mestres da década de 60 pra lá mas foi coisa muito rara, Mestre Pé-de-Bola, Mestre Castanha do Pará, apareceram e sumiram. E eu estava começando um novo ciclo da capoeira ali na Praça da República. E quando a gente estava fazendo a roda de capoeira lá, era época militar, e existiam os guardas que eram chamados cosme e damião, que andavam em dupla. E aconteceu um fato, eu digo até histórico, porque passaram umas mocinhas lá, e os guardas mexeram com as mocinhas, e elas não ligaram pra eles. Então o que aconteceu? As mocinhas não deram atenção aos policiais e vieram assistir a roda de capoeira, e eles se sentiram humilhados, ou alguma coisa assim, e vieram direto em mim. Quer dizer, na roda. E chegaram lá, isso entrou na história, perguntando, quem é o mestre aí. Os meninos com medo apontaram: “é ele!”. E ó, me deixaram no fogo lá com os policiais. E eles já vieram com algemas e tudo, que aquilo era proibido, que a gente estava pisando na grama, inventando uma série de artifícios para tentar me prender. Trouxeram até a pulseira do Roberto Carlos, e eu disse “aqui ninguém vai botar pulseira do Roberto Carlos não!”, e vai pra lá, e vai pra ali, e tinha um senhor de paletó e gravata e com uma pasta presidente, e eu agradeço muito ele. Não sei quem é, não procurei conhecer. E começou a discutir com os guardas em meu favor: “Não, isso aí eu conheço. Isso é cultura!”. Falou na Bahia, tudo mais, e começou a discutir com os caras lá. E eu fiz a mesma coisa que os meus discípulos, atravessei a rua e fui embora, e ficou lá no meio da praça o berimbau, o pandeiro… Então foi o primeiro passo para ser reconhecido como mestre. Até então eu simplesmente organizava a roda, tinha eles, eles me seguiam para onde eu ia, às vezes até à pé, porque a gente não tinha verba. E um dos meus talentos era fazer camisa, calça. Eu fazia a calça o abadá, que não é esse que o pessoal chama hoje de abadá, é o abadá da capoeira mesmo”.

Então eu quis homenagear o bairro, e aqui as cores do bairro são verde e branco. E eu querendo homenagear o bairro e Deus, essa era a minha idelogia. E eu coloquei as cores do abadá de verde, do bairro, com uma listra azul, que é o céu. A camiseta branca, dois berimbaus encaixados e o nome do grupo, Filhos da Bahia. Uma homenagem aos dois rapazes que me deram uma dica sobre a capoeira. E andando pela Presidente Vargas eu vi numa lojinha lá em exposição um livrozinho, ‘Capoeira Sem Mestre’. Na hora eu não tinha dinheiro, mas dei um jeito no outro dia de arrumar dinheiro e fui comprar esse livro lá, para ter mais conhecimentos sobre a capoeira, sobre os fundamentos de modo geral, a técnica, porque até então eu jogava da seguinte forma, a capoeira tem duas vertentes, a Angola, e a capoeira regional”.

CAPOEIRA DE ANGOLA E REGIONAL

A capoeira de Angola a gente chama ela de mãe capoeira, foi a primeira capoeira que surgiu, e depois o mestre Bimba, na década de 40, transformou, aliás, ele não transformou, ele mesclou golpes de outras lutas na capoeira, que hoje em dia se chama Capoeira Regional. A capoeira de Angola eu digo até que ela é jogada mais no chão, mais lenta, devido a ela ter sido criada pelos escravos em senzalas. O camarada fala em senzala hoje em dia, o camarada pensa em um lugar alto, que colocavam os negros lá. Mas a senzala na realidade, era um buraquinho baixo onde se jogavam os camaradas lá como se fossem animais, entende? Então o camarada não poderia ficar de pé. Então eu creio que daí que tenha surgido a capoeira de Angola, porque não dá para jogar pelo alto, eles jogavam aqui mais embaixo. Esse é o meu pensar sobre de onde veio a capoeira de Angola”.

A Regional não, a gente joga mais em cima, ela aqui de pé, golpes semelhantes de outras lutas, como karatê, jiu-jitsu, que só se transforma no nome, por exemplo o Martelo, que dão outro nome lá no karatê, a Chapa, que no jiu-jitsu é outro golpe lá, Meia-Lua, Armada, que é um golpe dado no ar, o pessoal do kung-fu usa muito esse golpe, até aquele Jean-Claude Van Damme, na maioria dos filmes dele, tem esse golpe. Então a capoeira regional tem essa mesclada de golpes que nós damos outros nomes. E a capoeira de Angola, sempre que se vai fazer uma abertura de roda, tem que se começar com a capoeira mãe, que é a de Angola. Um jogo lento, compassado, e tipo uma brincadeira de troca de golpes, a pessoa tem que soltar o golpe e puxar, não deixar bater no adversário, só pra mostrar que poderia bater, mas não bate. Então assim que é feita a capoeira de Angola. Um dá o golpe e depois puxa, o outro tem que se esquivar rápido. O que deu o golpe, sabe que poderia ter acertado, e o que vai receber o golpe, se ele conseguir se esquivar a tempo, ele sabe que não acertou. Então é sempre começada uma roda de capoeira com a capoeira de Angola, e depois para-se ou então sobe-se o ritmo pra Regional. Depois que está numa capoeira de Angola, os componentes que estão ficam sentados no chão enquanto os dois jogam aqui, saem, terminou, eles vêm no pé do berimbau, pedem a bênçao em pensamento e deixam a energia aqui no berimbau que é para quando os outros dois que vierem jogar, pegarem a energia e jogar, e não acontecer nada de ruim com ninguém. Depois que para a roda de Angola que vai se passar para a capoeira Regional, os componentes que ficam ao redor da roda se levantam. Aí é jogo rápido, golpes contundentes, e jogando mesmo para bater o adversário, ele tem que ter conhecimento para se esquivar. Se ele achar que não tem condição, ele pede para sair, dá a vaga pra outro. Basicamente, é isso que ocorre dentro de uma roda de capoeira. Começa com a Angola e depois passa para a Regional. Quando é uma apresentação mais ampla, o mestre que estiver ministrando a aula, se tiver conhecimentos de Maculelê, ele encerra com Maculelê. Maculelê é uma dança que se usa bastão ou até facão, para finalizar a roda. Mas tem que ter competência, porque fazer dança com facão, tem gente que já torou o dedo”.

OS FRUTOS DO ‘FILHOS DA BAHIA’

Aqui em Belém eu sou o fundador do grupo Filhos da Bahia, que mais tarde se tornou, se tornou, não, os discípulos foram se preparando, e fundaram o grupo Senzala, em 1978. Era o ano em que eu estava parando um pouco na capoeira porque estava formando família e até me mudei aqui do bairro, fui morar no Jurunas, depois que voltamos pra cá. E eles deram prosseguimento com o grupo Senzala. Era uma série de rapazinhos, era o Mestre Pula-Pula, Mestre Naldo, e que deram sequência ao trabalho que eu vinha fazendo. Só que eles eram jovens, o mais velho era o Mestre João, que tinha 18. O resto tinha 14, 15 anos. E eles deram prosseguimento e de quando em quando eu vinha dar uma olhada neles, ficar como guardião desses meninos, porque o grupo estava se difundindo, e como tinham poucos grupos em Belém na época, os que tinham não queriam que nascessem novos. Então o que acontecia? Os camaradas que montavam outros grupos vinham para abafar, para acabar mesmo com o grupo Senzala. Então eu ficava atrás de uma touceira de pupunheira, com um banquinho, sentado lá, só observando, quando eles estavam jogando errado, só entre eles mesmos, eu ia lá e dizia “olha, é assim”, e voltava pra lá. Até porque o dono do terreiro, o ‘seu’ Nilson, cedeu o espaço, porque ele gostou de ver os meninos jogarem, levou pra dentro, comprou camisa, abadá pra eles, e quando aparecia uns camaradas formados, feitos, com 20, 25 anos, pra ir quebrar o grupo, ele dizia: “olha, mestre, fique de olho!”. Uma vez ele disse que apareceram dois camaradas e meteram o pé nos meninos, e eu falei, deixe comigo. E este ‘seu’ Nilton gostava muito de tomar um conhaque, vestia paletó e gravata para ir tomar conhaque num comércio que ficava a 15 metros do terreiro. E ele me chamava pra ficar lá, para reparar o terreiro. Aí quando terminava, botava a garrafa debaixo do braço e quando ia passando na roda, dizia: “ei, a de vocês é capoeira, mas a minha é essa daqui”.

Eu ia para a touceira de pupunheira e lá ficava, mas não dava tempo, todo dia aparecia alguém para querer dar porrada nos meninos. E nesta época eu gostava de usar roupa preta. Quando aparecia alguém e começava a meter o pé nos meninos, e nem pediam permissão, já iam entrando e metendo o pé, eu esperava só ele ficar de costas, quando ele virava eu dava uma rasteira que ele nem sabia de onde tinha surgido, daí era peia, peia, até que o camarada cansava e eu dizia “olha, joga com mais calma aí com os meninos”. Aí pronto, chega ficava mansinho, mansinho. E na época eu era muito bom em capoeira, não temia ninguém, nem altura nem largura. Eu era destemido. Então sempre foi assim, o pessoal tentando acabar com o grupinho Senzala, não conseguiram, e ano passado o grupo fez 30 anos. Foi fundado em 29 de novembro de 1978. E anda com as suas próprias pernas. E eu fiquei assim só como um guardião. Só de uns anos pra cá que eu recebi um convite para compor a diretoria e até hoje sou um dos diretores de lá”.

Durante todo este tempo aí foram feitas centenas, milhares de apresentações, SESC, SESI, Praça da República, em Belém, e também na Ilha de Marajó, tanto é que já tem descendentes do grupo em Cametá, em Marajó, por aí”.

DE UMA CAPOEIRA QUE NÃO SABE DE SUAS RAÍZES

E falando nos meninos me lembrou até uma estória de uma vez, que tem gente que não conhece a gente. Um fato inusitado que aconteceu comigo no bairro da Cremação. Eu trabalho como metalúrgico e fabrico peças para embarcação, hélices… E eu fui levar lá para um cara que mora na Cremação, e ele disse “mestre, espere aí um instantinho no bar que eu vou pegar o dinheiro e volto para lhe pagar”. Aí ele foi pra lá e demorou, e eu comprei uma cervejinha para matar o tempo. De repente se formou uma roda assim do nada, os meninos jogando, e eu achando que estavam fazendo uma homenagem pra mim. Eu pensei, né. E tinha um rapaz assim fortezinho, o líder deles, jogando lá e tudo mais, um jogo pesado, e de repente o berimbau afrouxou a corda que segura o arame, e não deu mais som, e o menino só jogou o berimbau que caiu lá para trás. O berimbau não quebrou, só afrouxou a corda. Aí eu peguei, ajeitei o berimbau, ajeitei a cabaça e comecei a tocar. Tinha dois berimbaus, contando com aquele. E eu comecei a tocar, acompanhando eles. E o rapaz fortezinho chegou pra mim e disse “ei barrigudo, sabe tocar, sabe jogar”, e saiu pro pau. Eu fui no pé do berimbau, fiz o sinal da cruz e saí pra jogar com o pequeno, e quando eu estava jogando ele vem de lá e me joga uma bufa. Eu continuei a jogar, lento, eu tenho um jeito diferente de jogar, um jeito maroto, o pessoal sempre diz que o meu jeito de jogar é diferente de qualquer outro, e quando eu vejo lá vem ele de novo com o mesmo passo, e dei [faz o gesto do golpe ‘telefone’]. Quando a gente acerta às vezes a pessoa perde a vista por uns momentos. Aí ele sentou lá no chão, eu peguei na mão dele, coloquei ele de lado, e comecei a chamar os meninos pra jogar. Aí os meninos vieram jogar lento, já todo mundo meio com medo, eu sabia que podia derrubar mas não derrubava, metia o pé na cara deles, mas puxava, mostrava que eu podia bater, mas não batia neles. Depois, a visão volta, eu já fiz isso com várias pessoas atrevidas. E voltou a visão dele, e eu chamei ele para jogar de novo, e ele já jogou macio que foi uma beleza. Quer dizer, são coisas que acontecem. Joguei mais um pouquinho com ele e depois voltei pro bar onde eu estava. Quando eu vejo, a roda toda parou para olhar, porque eles não sabiam, o menino veio com atrevimento e eu mostrei para ele que eu tenho conhecimento. E eu disse “podem continuar, eu vou só apreciar vocês daqui”. Eles continuaram jogando, e de vez em quando eles olhavam pra lá. Aí o meu cliente veio, me pagou, e eu fui embora. E ouço aquela voz: “ei, o senhor é baiano, é?”. Não, sou aqui mesmo, papa-chibé, aqui do Pará. Quer dizer, é um grupo mal formado. O mestre deles só ensinou a dar porrada, nem montar um berimbau sabiam, não sabiam nada de fundamento”.

HISTÓRIAS DA CAPOEIRA PARAENSE

Geralmente eu sou convidado, todos os anos, por exemplo, um grupo aqui, todo fim do ano, fazem um batizado. É tipo como uma prova final para ver o que o menino aprendeu durante o ano. Então o primeiro cordel que ele pega é o cordel verde, o segundo é verde-amarelo, e assim por diante. E eu sou convidado geralmente para esses batizados. Inclusive agora eu vou mais assim, quando o mestre do grupo tem consideração por mim, e assim vai. Outros mestres, que passam 5, 10 anos para vir aqui em casa…”

Porque uma vez eu fui num grupo de um rapaz que chamam Mestre Bimba para ele, o nome dele é Valdir, mas é que quando ele era pequeno, que vinha entrando aqui pelo saguão, a fisionomia era igual à do Mestre Bimba, já falecido. Aí eu disse que ele era parecido com o Bimba, e de lá pra cá pegou. Então eu fui num batizado deles, e tinha menino lá que nunca tinha me visto. Daí quando eu fui batizar lá um menino, um rapaz, assim de 18, 20 anos, e quando a gente vai batizar um aluno, não é questão de dar pancada, a gente dá uma rasteirinha, uma cabeçadazinha, e quando estes meninos vão pra festa do batizado eles levam pai, mãe, parente e tudo mais. E o menino jogando comigo lá me enchendo de ‘martelo’. E a gente como mestre, se bater no pequeno lá, a mãe, o pai, o parente lá não vai gostar, né. Mas quando eles batem na gente, o pessoal do grupo mesmo, da redondeza, batem palmas, gritam, olha, tá batendo no mestre… A gente fica numa encruzilhada, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Conclusão: este menino estava meio atrevido, e eu fiz a mesma coisa que eu fiz com esse que contei ainda agora. Soquei um ‘telefone’ nele. O menino caiu no chão e ficou, eu peguei ele, coloquei do lado, aí o mestre Bimba até parou a roda, e eu disse “não te preocupa que daqui a pouco o farol dele volta ao normal”. Foi, até que voltou. E ele botou outro pra jogar lá…”

Entra outra música, Mestre Ray pára de falar, e com reverência, pronuncia: “Verequete. É, é Verequete”.

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E quando a vista do menino lá voltou, o mestre Bimba parou a roda e disse: “olha, vocês quando estiverem jogando, não é para bater em mestre, porque o mestre tem mais conhecimento que vocês. Ele pode bater em vocês mas ele não usa dos artifícios que é para não machucar ninguém. Aí pronto. Depois, quando me chamaram de novo para batizar outro menino, a coisa já correu mais naturalmente. Esse ano que passou, lá no grupo Zambo Capoeira, do bairro Jurunas, aconteceu um fato praticamente idêntico a esse. Eu jogando com um rapaz do cordel mais alto que esse, já graduado, a mesma coisa, e eu me esquivando, e ele querendo me pegar, e o velhinho aqui ainda dá pro gasto. Quando ele vacilou, não teve jeito, uma cabeçada, ele caiu com as nádegas no chão, deu até um trabalho pro pessoal depois, tiveram que fazer massagem lá… Quando a gente derruba alguém, eu geralmente gosto de dar uma rasteirinha, pro menino cair, uma cabeçadinha sem muita maldade, só pra deslocar ele, mas esse estava jogando muito rápido, e eu me esquivando, quando ele vacilou eu só dei. Na velocidade que estava, ele se bateu. Aí depois, na entrega de cordel, eu fui lá, peguei na mão dele, tinha aquele gel de massagem, eu fiz massagem, tava lá a mãe dele, o pai dele, eu fui lá pedir desculpas, primeiro pra ele, depois pro pai e pra mãe, expliquei que era sequência do jogo, eu não tinha a intenção de machucar, e ele mesmo reconheceu que estava muito agressivo, querendo me bater, pra mostrar que estava bom”.

Geralmente quando o jovem está aprendendo, que pega um cordel mais graduado, ele quer mostrar a técnica dele, quer superar o próprio mestre, mas às vezes ele perde a noção de que não deveria estar machucando os mestres. Eu prego sempre a seguinte coisa: treinar capoeira e preservar a integridade física do adversário. Só num caso de situação extrema que deve ser usada a capoeira para se defender, não para atacar”.

UM CAPOEIRA ATREVIDO NO CAMINHO DO MESTRE

Inclusive uma vez lá no Guamá, eu e um amigo, nós tínhamos ido de um outro bairro lá pro Guamá. Só que de ônibus ia dar uma volta assim, aí o que fizemos? Fomos cortando, que ele conhecia lá as ruelazinhas e fomos cortando. Quando chegou no meio do caminho, ele convidou para tomar uma cerveja antes de seguir caminho. Chegamos lá e estávamos tomando uma cervejinha quando chegou um rapaz. Aliás ele já estava lá, num cantinho, tomando uma garrafa de pinga, sem camisa, cordão de caroço de tucumã… Aí quando o meu amigo viu, disse “ah, tu não é nada, esse aqui é que é, o meu amigo”. Eu disse “não faça isso, não faça isso que não dá certo”. Aí o cara tomava a pinga dele e jogava a capoeira dele lá no chão do bar e perguntava “o senhor é mestre mesmo?”, e eu dizia “não, rapaz, não tá vendo aí a barriga”. Mas quanto mais ele tomava a pinga, mais ele vinha, “tu é mestre mesmo? Eu tou desconfiado que tu é mestre”. “Não, eu não sou mestre, é brincadeira do meu amigo aqui”.

Aí eu tomando uma cerveja e falando sobre o serviço, resolvi pedir uma dose de conhaque, e ele viu de lá, aí disse “o senhor é mestre, gosta de tomar uma bebida forte”. E realmente, todo mestre gosta de uma bebida forte. E eu “não, é brincadeira dele”. A gente usa da psicologia. A gente faz a pessoa crer que a gente não é nada, para depois demonstrar que nós somos alguma coisa. Até que ele acreditou que eu não era mestre. Ele já estava embriagado, e eu estava com uma camisa branca, rapaz. E meio bêbado ele chegou e colocou as patas sujas dele na minha camisa. “O senhor não é mestre coisa nenhuma!”, chega ficou a marca da mão dele na camisa. Aí eu mostrei que era mestre. Meti a mão no peito dele, abri a guarda dele, segurei ele por baixo, levantei ele no segundo andar e joguei em cima de uma grade de cerveja. Foi coisa rápida. Peguei uma garrafa e fiz menção de bater na cara dele, quando ele gritou: “Ai, Mestre!”. “Ah, tu já sabe que eu sou mestre, né”. Aí eu botei a garrafa no lugar, dei a mão pra ele e puxei. Ele não sabia nem como ele tinha caído na caixa, ficou todo marcado. “Mas o senhor é mestre mesmo, estava me enganando”.

Conclusão: o camarada largou da cachaça dele e passou até a pagar cerveja pra mim. Aí ele dizia “mas o meu mestre não me ensinou isso aí que o senhor fez”, e sempre aquela questão, “o senhor é da Bahia?”. “Não, sou papa-chibé”. Ele perguntou se eu conhecia o mestre dele, o Mestre Marrom, e este Mestre Marrom um dia estava usufruindo do meu nome por aí. E ele não aprendeu comigo. Já já eu conto a história dele. Só que ele não é meu discípulo, ele é neto meu, é discípulo do finado Mestre Elias, aprendeu lá no Guamá, e não tem uma boa conduta como mestre de capoeira”.

SOBRE MESTRES E (NÃO-) MESTRES

A história desse Marrom é o seguinte: aqui na Pedreira, um discípulo dele tinha um grupo de capoeira, e na época ele nem era mestre, era contramestre, mas pra mim ele nem é considerado como mestre. Então ele veio avaliar, num sábado, os pequenos para no domingo ser o batizado. E ele nem era mestre do grupo, o mestre do grupo era um outro rapaz. E quando eu fui lá, fiquei de fora, assim, dando uma olhada, dentro do colégio mas fora da roda, e eles avaliando lá. O que ele fez com o pequeno, ele deu uma Meia-Lua de chapa no peito do rapaz, que o rapaz caiu desmaiado no chão. Ele acertou na boca do estômago que eu até pensei que tinha matado o pequeno. E ele só jogou o menino pro lado e falou: “outro”. Aí eu entrei e falei “tu tá ficando maluco? Vê se ele tá ao menos vivo!”. Aí eu fui lá, tirei a minha camisa, enrolei, coloquei no pescoço dele pra deixar a traquéia livre, fiz uma fricção devagar no estômago dele, levantei a perna até o estômago dele, até o menino voltar. Quer dizer, se eu não estou ali, aquele pequeno era até capaz morrer e o cara só colocou de lado e chamou o outro. Como se fosse um saco velho, jogou pra lá. Aí eu dei uma esculhambada nele, e até resolvi sair pra não ver mais outra coisa desse tipo”.

Quando foi no domingo, veio o batizado propriamente dito, o rapaz responsável pelo grupo, o Edinaldo, não estava, e era ele que estava avaliando. Aí eu perguntei se o Marrom ia ser batizado de mestre, e disseram que ia. E o batizado acontecendo, eu fui lá, batizei um, saí para dar um tempo, e quando terminou tudo, e ele viu que eu tinha saído, começou a falar umas coisas lá, que praticava capoeira a mais de vinte anos, que o mestre dele era o Mestre Ray, quer dizer, Mestre Mundico – é que eu tenho dois apelidos, meu nome é Raimundo, e Mundico e Ray vem de Raimundo. No carnaval eu sou conhecido como Mestre Ray, e na capoeira sou conhecido como Mestre Mundico – enfim, ele dizia que era meu discípulo, que praticava capoeira há vinte anos, e tinha lá uns cinco ou seis mestres, e ele queria que eles batizassem ele como mestre. E eu ia entrando, e quando vi ele falando que eu tinha ensinado ele, fui falando “ei, pode parar. Esse camarada aí não é meu discípulo, não. Quem for meu amigo não batize ele”. Só fui lá, disse isso e voltei lá pra frente”.

Conclusão, na hora de fazerem a roda pra batizarem ele, ninguém foi. Aí ele pegou o cordel, amarrou na cintura e se botou como mestre. Eu vou batizar um cara desses que só falta matar os discípulos? É por isso que eu discordo de certas coisas, de certos mestres de capoeira, que não têm capacidade para estar no patamar de mestre”.

Outra música, outra referência: “Essa aí é a Nazaré Pereira, é outro tipo de carimbó”.

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DA SABEDORIA POPULAR

Outra história foi a de um rapaz que chegou aqui chorando copiosamente, que tinha jogado a televisão, que ia chegar na casa dele, ia matar a família, ia tocar fogo na casa, eu levei ele lá pro cantinho ali, conversei, conversei, conversei, mais de uma hora com ele, e disse que se ele tivesse errado, que tivesse humildade para pedir perdão, e se ela tivesse errado, que ele tivesse a nobreza de perdoá-la. E hoje em dia ele tem até neto. Eu penso assim, claro que se a pessoa estudar mais, ela fica com a mente mais aberta, mas a pessoa aprende mais com a vivência, com a vida. A vida é um livro aberto e todo dia a gente está aprendendo alguma coisa. A pessoa nasce aprendendo e morre aprendendo. Eu digo até assim, que nada mais me surpreende nesse mundo. A gente aprende dia a dia, e tem mais: aprende tanto com os mais velhos quanto com os mais novos. Eu fui dar uma palestra num colégio ano passado, e no final da palestra eu disse que a pessoa tem que tirar de cada dia pelo menos uma boa ação, sem olha a quem. Então geralmente eu procuro fazer uma boa ação por dia. Eu sei que não faço uma, faço muitas todos os dias. A pessoa tem que ter paciência para escutar os mais velhos, e se agachar para escutar as crianças”.

Uma vez chegou um cara aqui em casa querendo comprar um chapéu de palha meu por cem reais. Eu podia muito bem pegar e estava até precisando, mas eu achei aquilo um insulto. Porque quando eu tenho consideração pela pessoa, eu dou gratuitamente, quer o meu chapéu, toma, mas o cara querer comprar o meu chapéu, eu achei aquilo um insulto, um desacato à autoridade! As melhores coisas que eu tenho aqui, quando eu vejo que o rapaz, mestre, contramestre, está fazendo um bom trabalho, eu dou pra ele. Por exemplo, eram duas pessoas que tinham o livro “A Saga de Mestre Bimba”. Era eu e o Mestre Romão. Aí um rapaz aqui, e eu não tinha nem lido todo o livro, eu tenho pouco tempo pra ler, leio um pedacinho, aí o rapaz chegou, “esse livro não tem aqui em Belém, me empresta ele?”. Eu nem li o livro, mas dei e disse “vai, leva o livro e lê que tem muita coisa de capoeira para aprender aqui”. Eu sou desse tipo. Se eu gostar da pessoa e ver que a pessoa está fazendo uma coisa boa, eu dou o meu melhor para a pessoa, porque a gente nunca deve dar aquilo que a gente não quer mais, aquilo que não presta mais, tem que dar aquilo que a gente tem de melhor. O meu pensar é esse”.

Mestre Ray e sua primeira-dama, Dona Nazaré

Mestre Ray e sua primeira-dama, Dona Nazaré

Uma vez veio um rapaz aqui e disse que queria uma camisa da Senzala que fosse bem antiga, aí eu fui lá em cima olhar, ver se achava, e achei uma da década de oitenta. E era histórica a camisa que eu dei pra ele, eu contei pra ele. Os primeiros discos de vinil que existiram aqui em Belém, era uma coletânea, Eu Bahia, que eram quatro, e eu tinha dois de cada um, só porque eu vi em um comércio lá e arrematei. Tudo o que eu via de capoeira eu ia lá e arrematava. Os pequenos iam crescendo dentro da capoeira, “mestre, me dê um LP de som”. Conclusão, não fiquei com nenhum aí em casa. Esses que eu tenho, que já são CD, eu tinha uma grande quantidade deles, de mestres de fora, do Rio de Janeiro, Bahia, aí o pessoal chegava aqui em casa e era “mestre, me empreste um CD”, eu fazia melhor, “toma, leva pra ti”. Hoje em dia eu só tenho esses dois aí, e esses aí eu só tenho porque eu só tenho ele, só fizeram uma reserva dele, a não ser que o cara tire uma cópia, é esse aí e um outro que eu emprestei pra um menino, até hoje ele não devolveu mais, gostou tanto que não devolveu. Berimbau eu tinha uma infinidade aí, aí chegavam e diziam “mestre, eu não tenho berimbau”, eu dizia, “toma, leva esse”.

Eu tenho uma ideia que vocês podem até aproveitar. Seria de fazer uma matéria para todas as escolas do mundo, chamada de Natureza ou Meio Ambiente. Ela seria como é a Geografia, História, só que essa matéria seria de pesquisa sobre o local onde a pessoa vive. Por exemplo, ele mora na seca, iria pesquisar o porquê da seca, se mora onde tem enchente, o porquê da enchente. A matéria seria sobre as peculiaridades do local”.

A HISTÓRIA DO BERIMBAU

Veio aqui em Belém uma moça da universidade do Maranhão, daí eu passei um domingo conversando com ela, e enquanto isso eu fazendo umas três vergas dessas, e conversando, e uma amiga dela tirando fotos, e eu ensinando como fazer um berimbau. Peguei o galho, cortei a cuia-pitinga, porque a cabaça é aquela que dá no chão, no alto assim é a cuia-pitinga. E cortei, fui tirando a massa de dentro, fazendo o buraquinho, peguei a verga, lixei bem, cortei aqui em baixo, para encaixar o arame… Isso aqui tudo é história! Dentro daquelas quatro horas que ela ficou conversando comigo aqui, montei dois berimbaus, ela fez uma longa gravação comigo e ainda levou dois berimbaus para São Luís do Maranhão”.

A história do berimbau é bonita e meio triste também. Porque quando o Marechal Deodoro da Fonseca passou a ser presidente do Brasil, ele começou a perseguir os negros. Porque os escravos foram libertados, entre aspas, pela Princesa Isabel. Eu não ponho como libertação, e tenho letras de música sobre isso aí também. Então os escravos ficaram livres, mas como eles viviam na fazenda, tinham como comer e beber. E quando eles passaram a ser livres, não tinham o seu autossustento. O que aconteceu, eles passaram a roubar, a assaltar, usando o conhecimento que eles tinham, que era a capoeira. E o Marechal Deodoro da Fonseca decretou que todo negro que estivesse praticando capoeira iria para o pelourinho, quando não, seria enforcado e o membro dele seria cortado e colocado na boca para reprimir os outros. O que os negros faziam então? Faziam então os berimbaus, e existe na capoeira um toque de cavalaria que se dá e parece um trupé de cavalo. Então se fazia uma roda de capoeira, e quando o marechal mandava prender eles davam esse toque para quem estava na roda, que vinha chegando a cavalaria, que era a polícia da época, e todo mundo debandava, ou ficava disfarçando por ali, escondiam o berimbau. E quando a cavalaria já estava muito em cima, que não dava para eles correrem, o que acontecia? Esta parte aqui do berimbau onde encaixa o arame, eles botavam uma foice para degladiar com a cavalaria, que tinha vantagem de estar com a espada e em cima de um cavalo, e o negro assim podia degladiar com eles. Então essa parte aqui do berimbau é uma parte histórica. Muitos mestres de capoeira não tem conhecimento disso. Então sempre que eu vou dar palestra sobre capoeira, eu procuro explicar sobre isso pra professores e mestres de capoeira, para eles terem mais conhecimento, e não fazerem berimbau aleatoriamente”.

FLUXOS MUSICAIS

Deixa eu botar aqui um CD de capoeira… Esse aqui não está só eu não, está eu e outros mestres. Isso foi um festival de música que nós fizemos na Escola Salesiana do Trabalho, onde foram escolhidos vários mestres para gravar um CD. Esse primeiro aí é o Mestre Valci, é neto meu de capoeira. Eu sou mestre do Mestre João, ele ensinou para o Mestre Naldo, e o Naldo ensinou pro Mestre Valci. É meu tataraneto. Ele estava até ano passado como presidente da Associação Senzala. Quando foi agora no mês de agosto, estava acabando o mandato dele, e nós indicamos outro rapaz, um que estava acompanhando de perto o trabalho da associação, o Márcio, que é contramestre, e todas as pessoas que estavam ali na assembléia levantaram o braço indicando que aceitavam a indicação dele. Outras pessoas foram escolhidas, até me indicaram também para ser presidente, mas abdiquei porque não tenho tempo”.

Esse aí sou eu. Eu não tive nem tempo de gravar, passei correndo pelo estúdio. Cheguei lá e disse assim assim assim, porque eu tmabém tenho conhecimento de estúdio, eu disse para colocar só o toque do berimbau, depois só os instrumentos, aí repete de novo, e eu cantei em cima da gravação. Eu sou um pouco bairrista, eu gosto de colocar nas músicas coisas sobre Belém, sobre o Pará, ou então falando sobre mulher. Dificilmente tem uma letra minha que não tenha um nome de mulher no meio”.

(Associação de Capoeira Senzala, uma das mais tradicionais capoeiras de Belém).

Eu agora peço licença

Pois cheguei nesse momento

Hoje a Associação Senzala

Faz um grande movimento

O jogo de capoeira

É na ginga e no pé

Mas o jogo é mais bonito

Quando é jogo de mulher

E você que chegou de fora

À cidade de Belém

Vá ao Forte do Castelo

E à Catedral da Sé

Dê um pulo ao Ver-o-Peso

E ao Palácio Lauro Sodré

Não esqueça de visitar a Virgem

Nossa Senhora de Nazaré

E pra conhecer melhor

A cidade das mangueiras

Venha à Associação Senzala

Conhecer a capoeira

.

Ê, viva Belém!

A Cidade das Mangueiras

.

Clique aqui bara baixar e ouvir.

E o pessoal gravava duas, três, quatro vezes e não conseguia, não ficava bom, e eu em menos de cinco minutos gravei a música e fui embora. Só deu tempo de gravar essa aqui. E ficou uma das melhores músicas. A questão é que o pessoal não tem o conhecimento de como fazer a gravação. Eu tenho centenas de letras de música de capoeira escritas. Todas elas têm um significado, foi um acontecimento. Uma vez eu gravei numa fita umas doze a quinze letras de música minha. Eu não tirei cópia, aí chegou um discípulo e pediu a fita, eu emprestei, e ele não devolveu”.

Eu tenho tantas letras de música que às vezes o camarada chega aqui e diz, “Mestre, cante aquela música”, e eu digo, “qual?”. Se não me disser o título da letra da música eu não lembro assim de uma hora para a outra, eu tenho que pegar o caderno, pra ler. Eu tenho uma veia artística que eu faço letras de música do nada. Faço aleatoriamente. Esse grupo, lá no Jurunas, quando tem um batizado e eles me convidam, eu levo de presente uma letra de música. Eu fiz uma vez uma para as mulheres de lá que é mais ou menos assim:

Quem nunca viu, vem ver

Se você não acredita que no samba ou capoeira

A mulherada aqui agita

Elas tocam berimbau, atabaque e agogô

Elas tocam pandeiro, reco-reco e catixi

Fazem jogo bonito, se você não acredita

Você tem que vir aqui”.

.

As minhas letras são com rimas e versos, que eu faço questão de colocar. Eu fiz uma aqui para a primeira-dama, porque ela tem uma criação de beija-flor bem ali, criação que eu digo porque ela coloca uma água com açúcar e assim quando é duas horas dá um monte de beija-flor. Então eu criei uma assim:

Beija-Flor!

Por que parou no ar?

Vem que eu quero te contar (Beija-Flor!)

Leva no bico essa rosa

Pra aquela loirinha prosa que está a me esperar

Beija-Flor!

Diga pra ela não chorar (Beija-Flor!)

É que eu não vou me demorar

Beija-Flor!

Tem duas coisas que eu gosto

Uma é a minha capoeira, e ela, que está no meu pensar”.

.

Eu crio letras assim, e todas elas têm um endereço. Uma vez… É crime ofender as pessoas, chamá-las de negras e tudo mais, e eu estava na Praça da República, e eu acho que o cara lá queria o espaço do anfiteatro. Eu estava ajeitando lá pra fazer uma roda de capoeira e o cara queria botar outra coisa, estava até com uma caixa de som, só que eu tinha chegado primeiro, e o espaço é público, quem chega primeiro toma conta do espaço. E ele disse assim: “Esse negro tá aí tomando conta…”. E eu peguei e disse “olha, eu posso ser negro, mas sou ser humano, tenho arte e cultura, e vou demonstrar aqui”. Então eu criei uma letra de música sobre isso, que é”:

Sou negro, seu moço, pois um negro eu sou

Você me chamou de negro, mas sou negro sim, senhor

Eu sou da raça negra, que construiu esta nação

No plantio dos canaviais, sob o chicote do patrão

Me orgulho de ser negro, de uma cultura sem igual

Da capoeira de Angola, e também da regional

Do Makulelê e do Candomblé, do Samba e muito mais

Pois eu sou negro, eu sou Arte

Sou Capoeira, sou Estandarte da cultura nacional”.

.

Então geralmente tem uma direção as letras de minha música. Uma vez, há uns dois anos atrás, um grupo de capoeira mulher, era só mulheres, se reuniram neste mesmo lugar, na Praça da República para fazer uma roda de capoeira, e fizeram um convite a mim, para que eu estivesse lá presente. Depois que terminou tudo, todo mundo foi embora, tinham três caras que estavam tomando pinga lá atrás de umas árvores, e eu ia passando, e ouvi um dizer “Ah, essas mulheres aí pensam que são não-sei-o-quê, porque praticam capoeira, a gente pega uma mulher dessas e senta a mão”. E eu falei que eles não podiam fazer assim. O cara falou “O que tu vai querer?”, e eu respondi, jogando o chapéu pro lado, “Eu é que pergunto o que tu vai querer”, e comecei a gingar na frente dele. Aí ele veio aleatoriamente, dando soco. Deu soco, tá perdido. Mas eu não bati com muita força, só um martelozinho. Eu só empurrei, não bati com força, e ele caiu lá no meio das árvores. “Vocês querem alguma coisa?”, e eles, “Não, ele que quer aí, a gente não quer nada não”. E eu criei outra música em cima disso”:

Não fale mal de mulher perto de mim

Não fale mal de mulher perto de mim

Cala a boca, meu amigo, que não quero ver teu fim

Cala a boca, meu amigo, que não quero ver teu fim

Não fale mal de mulher no berimbau

Não fale mal de mulher no berimbau

Cuidado, camarada, você pode se dar mal

Toma cuidado, camarada, você pode se dar mal

Não diga que a mulher não vale nada

Não diga que a mulher não vale nada

Você vai tomar rasteira, e quem sabe uma armada

Você vai tomar rasteira, ou quem sabe uma armada

Eu nasci de mulher eu tenho mulher minha filha é mulher minha neta é mulher e você o que é? É mulher”.

.

Aí elas cantavam tudo em côro, “E você o que é? Sou mulher”. Eu gravei só um CD, que esse menino levou, e até agora não trouxe. Outra eu fiz pra minha filha, a Raylena, da capoeira também:

Essa mulher é uma cobra

É venenosa, sorrateira

Na capoeira regional

Ela te pega na rasteira

É é é, é perigosa essa mulher

É é é, tem malícia no corpo e veneno no pé

É é é, é perigosa essa mulher

É é é, é filha de Ray e de Nazaré”.

.

Eu tenho umas duas ou três peças teatrais que eu perdi, pegou água e perdeu tudinho. Mas elas estão gravadas aqui na mente. Fizemos a apresentação de uma delas no SESC da Doca de Souza Franco, apresentei lá e ficamos em primeiro lugar. A história é a história de um capoeira que atravessou para uma dessas ilhas que ficam aqui de canto com Belém. E chegando lá, como tem sempre festa noturna, ele se dirigiu pra beira da maré com a namorada dele. Nisso apareceu três elementos querendo tomar a namorada dele e assaltar. O primeiro puxou um pedaço de pau, isso tudo é a peça teatral, foi ensaiada até aqui neste quintal, e rapidamente o capoeira tomou o pedaço de pau e já acertou esse. O outro puxou um facão, ele deu uma tesoura, derrubou o cara e com a perna tirou e jogou pra longe o terçado. Quando o terceiro tentou puxar uma arma de fogo, ele desarmou, e o cara saía gritando assim meio que como uma palhaçada “Ele é doido!”, e aí sai todo mundo correndo do palco”.

Livros, tenho dois pra escrever, duas estórias para escrever. Ainda não tive tempo, mas tá tudo aqui, encaixado. No dia que eu tivesse verba, não precisasse trabalhar o dia-a-dia, eu iria ficar só escrevendo. Um deles é até sobre um fato acontecido comigo. Era um tempo difícil, as coisas estavam meio difíceis aqui pra mim, e só tinha acho que água aí no fogo. Aí um rapaz ligou e disse pra eu ir lá buscar um dinheiro, e eu parti pra lá. Às nove da manhã, tomei um golinho de café, e parti. Eu só tinha uma passagem de ida. E quando chegou lá, o camarada tinha saído. Eu fiquei esperando, de nove horas até meio-dia. Meio-dia ele liga, dizendo que achava que eu não iria, e aproveitou pra viajar. Eu ainda perguntei do rapaz lá se tinha um dinheiro pra minha passagem de volta, mas ele não tinha. Aí eu me vi em palpos de aranha. Do outro lado da cidade, eu tomei um copo d`água e vim embora. Como eu tenho muitos conhecidos, eu vim cortando por dentro. Vim cortando, e resolvi ir na casa de um camarada que me devia 19 reais. Cheguei lá, ele disse que não tinha. Eu sabia que ele tinha, porque ele acabava de vender um aparenho de som grande. Mas nesse momento o cara tem que ter muita fé no Grande Mestre. Quando eu me dei conta que eu tenho muitoso motoristas conhecidos, e resolvi seguir a pé o trajeto do ônibus, mas não passou nenhum motorista conhecido”.

Andando a pé desde meio-dia, eu cheguei na Praça da República aos pedaços. Tu sabes aquele dia em que o sol dá e não deixa nenhuma sombra, aquele sol causticante. Eu fui pra debaixo de uma mangueira, pra ver se caía uma manga, pra matar a minha sede e a minha fome. Não caiu. Eu fui no chafariz ao menos lavar a cara, chegando lá não tinha água. E eu pensando o que foi que eu fiz pra estar sendo castigado dessa forma. Mas vim embora. Cheguei na Praça Brasil, e quando cheguei lá tinha um discípulo nosso que estava vendendo água de coco. Eu pedi um coco, que o negócio tava pegando, e ele disse que não podia dar, porque o patrão estava só de olho. “Nem uma pedra de gelo?”. Ele disse “Eu posso perder o emprego”. Eu já estava com a boca pregando, de tanta sede, mas disse que se já tinha atravessado metade da cidade, iria atravessar a outra metade. Andei uma linha, até que não dei mais conta de andar. Sentei na calçada, olhei pra trás e tinha uma janela aberta. Fui colocar a cara na janela pra pedir um copo de água, a mulher fechou a janela na minha cara. Aí eu não aguentei: as lágrimas desceram. Eu parei de novo, sentei, descansei um pouco, levantei e fui. Andei, andei, até que cheguei perto de casa. Quando avistei a frente aqui, estava já vendo estrelinhas. Isso já era umas quatro horas da tarde. Pensei: “não consegui nada, mas quando chegar em casa vou ter ao menos o calor da família”.

Quando eu chego em casa, meu filho mais velho diz que tem um cara me esperando num carro. Eu já penso que é bronca. Eu dei uma parada, suspirei duas vezes pra vista voltar ao normal. Quando cheguei lá o cara disse: “O senhor é que é o Mestre Ray?”. “Sou eu mesmo”, respondi. “O senhor é que fabrica hélices?”. “Sim, sou eu mesmo”. “Então tá aqui uma relação, aqui o meu nome, telefone, e 500 reais de adiantamento pro senhor”. Eu precisava de um real para a passagem de ônibus, e depois de passar por essa saga, esse sofrimento imenso, tinha 500 reais me esperando aqui há mais de duas horas. Pra ver como são as provações divinas”.

Esse é um dos fatos que aconteceu comigo que eu pretendo transformar num livro. Eu tenho muitas histórias pra contar… Mas o que era mesmo que vocês queriam saber?”

Os risos tomam conta. A esta altura, o pessoal do carnaval já está por lá, tocando um samba, esquentando para a festa que iria acontecer à tarde. Chega a dona Nazaré, a ‘Primeira-Dama’, com um delicioso refresco de manga, colhida minutos antes, e um tira-gosto. A barriga agradece, os afinados refestelam-se nas delícias da culinária paraense, ao som da turma do Bloco Chupicopico (Meninos Travessos), e assim a manhã vai cedendo espaço para a tarde, e a alegria toma conta do ambiente. Todo domingo é assim, na casa do Mestre Ray, mestre do carnaval, da capoeira, da vida ativa, que cria fluxos e engendra comunidades mais vastas.

Banda Chupicopico, (reprod. arquivo do Mestre Ray)

Banda Chupicopico, (reprod. arquivo do Mestre Ray)

LANÇAMENTO DO PLANO AGRÍCOLA E PECUÁRIO

O presidente Lula lançou hoje (02.07.08), em Curitiba, no estado do Paraná, o Plano Agrícola e Pecuário de 2008/2009. O lançamento contou com a presença do governador do estado, Roberto Requião, o secretário de agricultura, o presidente da Organização das Cooperativas Agrícolas, ministros, empresários dos setores, além, é óbvio, de agricultores, a classe mais importante.

Em seu discurso, Lula analisou a política agropastoril atual, as perspectivas futuras, a crise dos alimentos e do petróleo no mundo, a inflação na Europa e Estados Unidos, e anunciou 65 bilhões para financiamentos nos setores. Pretende que quando o mundo precisar comer, o Brasil terá o que vender. Diante de uma platéia efusiva, que chegou a cantar “Lula, lá”, afirmou que quando de sua participação na reunião em Tóquio no G8 vai falar e pedir explicações sobre as especulações que estão sendo feitas no Mercado Futuro com os alimentos e o petróleo. Já o governador Roberto Requião elogiou o Plano, comentou a experiência produtiva com um novo tipo de feijão no Rio Grande do Sul e Nordeste e o novo tipo de cana produzida em Pernambuco, com mais substância e de melhor plantio. No final da reunião, seu secretário anunciou para os pecuaristas a grande sacada leiteira do governo estadual: imposto zero na produção do leite. Alegria geral.

PLANO DA AGRICULTURA FAMILIAR

Em meio às suas falas, Lula antecipou que amanhã fará o lançamento do Plano da Agricultura Familiar, e que colocará à disposição dos agricultores 13 bilhões a serem aplicados em financiamentos. Enfático , ajuizou que a agricultura familiar não deve apenas ficar na produção de subsistência, objetivo único de alimentar as famílias produtoras, mas se estender para uma agricultura comercial, para que o pequeno agricultor possa ter dinheiro suficiente para adquirir objetos necessários a sua família: geladeira, fogão e até carro. Antecipação recebida com grande satisfação dos presentes e, lógico, dos ausentes também. Como disse Roberto Requião, é o pequeno agricultor que coloca os alimentos nas mesas das populações.

AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUA (ANA) OFERECE PRÊMIO

A Agência Nacional de Água abriu inscrição para o concurso “Conservação e Uso Racional da Água”. Podem participar empresas, governos, ONG´s e outras entidades. Os premiados serão valorosamente agraciados. Para fazer inscrição, pode ser acessado o site www. ana. gov. br/premio. Vamos aproveitar antes que “algum aventureiro lance mão” de nossa água. Porque sem água é fogo!

CAPOEIRA, PATRIMÔNIO CULTURAL?

Neste mês de julho, o Conselho do Patrimônio Cultural vai examinar e divulgar se a Capoeira deve ou não ser tombada como patrimônio cultural. Se sim, a arte/esporte do equilíbrio/antagonismo/movimento resistência negra, poderá entrar para o arquivo dos ditos históricos do Brasil. Expressão/Conteúdo lúdico confiante que os companheiros negros ofereceram a todos que acreditam na construção livre do viver.

RANKING DA FIFA*

A FIFA anunciou seu novo ranking referente às seleções de futebol do mundo. É notório aos torcedores e não-torcedores que esse ranking é cheio de, como diria Lula, maracutaia. Pesa muito o humor de seus membros votantes. Às vezes uma seleção está na hora da morte, naquele ‘parreirismo’ do futebol de resultado, do dito, “o gol é uma questão de detalhe”, e lá aparece em primeiro lugar. Desta vez, não se sabe se os afinados de Blater resolveram usar os olhos de ver, e viram o óbvio por si mesmos, ou ouviram os olhos do mundo que viu o real futebol: primeiro lugar para a Seleção da Espanha. Não dava para preteri-la em benefício da seleção Branca de Neve ou seleção Depressão/Riquelme. Enquanto isso, a seleção do anão escorregou na maçã e parou no quarto degrau do castelo encantado sem direito a beijo de príncipe.

*Colaboração estagiária-extemporânea: Coluna Chagão.

DOS DIREITOS HUMANOS DOS HANSENIANOS

Na reunião anual de Hanseníase, o Ministério da Saúde distribuiu 100 mil cartilhas com orientações sobre os direitos humanos dos portadores de hanseníase que utilizam o Sistema Único de Saúde – SUS. As cartilhas deverão ser distribuídas em cada cidade pelos gestores estaduais e municipais, e serão de fundamental importância não só para os hansenianos se defenderem dos preconceitos que ainda sofrem, mas também para diminuir o desconhecimento que às vezes produz esse comportamento.


USAR O CONTROLE REMOTO É UM ATO DEMOCRÁTICO!

EXPERIMENTE CONTRA A TV GLOBO! Você sabe que um canal de televisão não é uma empresa privada. É uma concessão pública concedida pelo governo federal com tempo determinado de uso. Como meio de comunicação, em uma democracia, tem como compromisso estimular a educação, as artes e o entretenimento como seu conteúdo. O que o torna socialmente um serviço público e eticamente uma disciplina cívica. Sendo assim, é um forte instrumento de realização continua da democracia. Mas nem todo canal de televisão tem esse sentido democrático da comunicação. A TV Globo (TVG), por exemplo. Ela, além de manter um monopólio midiático no Brasil, e abocanhar a maior fatia da publicidade oficial, conspira perigosamente contra a democracia, principalmente, tentando atingir maleficamente os governos populares. Notadamente em seu JN. Isso tudo, amparada por uma grade de programação que é um verdadeiro atentado as faculdades sensorial e cognitiva dos telespectadores. Para quem duvida, basta apenas observar a sua maldição dos três Fs dominical: Futebol, Faustão e Fantástico. Um escravagismo-televisivo- depressivo que só é tratado com o controle remoto transfigurador. Se você conhece essa proposição-comunicacional desdobre-a com outros. Porque mudanças só ocorrem como potência coletiva, como disse o filósofo Spinoza.

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CAMPANHA AFINADA CONTRA O

VIRTUALIZAÇÕES DESEJANTES DA AFIN

Este é um espaço virtual (virtus=potência) criado pela Associação Filosofia Itinerante, que atua desde 2001 na cidade de Manaus-Am, e, a partir da Inteligência Coletiva das pessoas e dos dizeres de filósofos como Epicuro, Lucrécio, Spinoza, Marx, Nietzsche, Bergson, Félix Guattari, Gilles Deleuze, Clément Rosset, Michael Hardt, Antônio Negri..., agencia trabalhos filosóficos-políticos- estéticos na tentativa de uma construção prática de cidadania e da realização da potência ativa dos corpos no mundo. Agora, com este blog, lança uma alternativa de encontro para discussões sociais, éticas, educacionais e outros temas que dizem respeito à comunidade de Manaus e outros espaços por onde passa em movimento intensivo o cometa errante da AFIN.

"Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias; que é atingido pelos próprios pensamentos como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, como por uma espécie de acontecimentos e de faíscas de que só ele pode ser alvo; que é talvez, ele próprio, uma trovoada prenhe de relâmpagos novos; um homem fatal, em torno do qual sempre ribomba e rola e rebenta e se passam coisas inquietantes” (Friedrich Nietzsche).

Daí que um filósofo não é necessariamente alguém que cursou uma faculdade de filosofia. Pode até ser. Mas um filósofo é alguém que em seus percursos carrega devires alegres que aumentam a potência democrática de agir.

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