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FESTA DE PRETA MINA NO TERREIRO DE PAI ADALBERTO

A umbanda está em festa
Neste dia de alegria
Saravá a Preta Mina
Que hoje é seu grande dia

No último domingo o Terreiro do Pai Adalberto, localizado na Av. Presidente Keneddy no Bairro do Educandos, festejou a dona de sua casa, a encantada Preta Mina.

Com a casa em festa e lindamente organizada, Pai Alberto agradeceu a presença de todos em uma noite tão especial:

Obrigado pela presença de todos vocês. A casa é nossa, e são 39 anos  de Preta Mina, todos hoje são bem vindos, vamos curtir a festa. Sintam-se a vontade como se estivessem com sua família, dentro de sua própria casa.

Pai Adalberto contou um pouco a história de Preta Mina e sobre a realização deste ritual que festeja aquela que é a dona de sua casa, e grande celebrada neste dia.

A Festa da Preta Mina é tradicional no Amazonas tem 39 anos, e ela é a dona da minha casa. Como eu vivo na Região Norte, não interessa a nação, você pode fazer keto, jeju, angola que cai neste baião que eu toco, um baião de mina. E eu carrego uma vodunça velha, uma escrava que se chama Preta mina. Ela foi encantada em Rio de Conta em Minas Gerais e é encantada em uma cobra.

Na festa de Preta Mina eu abro a gira cantando pro meu santo dentro da mina, pro senhor badé que é Xango. Quando eu termino as três ou  quatro rezas que eu faço pra ele eu viro pra Toya Verequete já trazendo os encantados, por que ela é encantada. Ai Preta Mina chega e toma conta da casa.

E logo  os ogans ou tamborzeiros começaram a batucar prepararando a gira com a sonoridade engendrada no tempo da escravidão fazendo toda a casa vibrar diferente daquelas do cotidiano de cada um dos presentes.

Logo foram surgindo os primeiros encantados e entidades da religião, enchendo  de diversas cores, pontos e criando muito axé no terreiro. Nas fotos abaixo vemos Cabocla Moça Bonita, Cabocla Jussara, Caboclo Olho D’Água, Caboclo Rompe Mato, Seu Roxo, Cabocla Joana Gunça e Caboclo Ubirajara.

 

A minha barca é nova
Nela eu vim
Ela é feita de aroeira
E de casca de jasmim

A bandeira de Oxalá.
A Bandeira de Oxalá, Brilhou, Brilhou,
E a Bandeira de Oxalá, a umbanda clareou
Clareou na Terra,
Clareou no Mar,
Clareou no Terreiro
Salve pai Oxalá.

E então a dona da casa, a encantada Preta Mina desceu na cabeça de Pai Adalberto deixando a festa ainda em maior esplendor. Os tambores rufaram mais forte e a gira continou até o começo da madrugada.

Está iluminada nossa umbanda
Está cheio de flor nosso congá
O Preta Mina é tudo que eu faço
O Preta Mina ilumina o caminho por onde eu passo

Preta Mina agradeceu a presença de todos  e convidou para continuar a festa na parte de trás do terreiro, onde se brindou mais um ano de Preta Mina na cabeça de Adalberto e onde estava posta uma mesa, repleta de deliciosos bolos e comidas.

Agradecida, agradecida
pela irmandade eu estou muito agradecida
Agradecida, agradecida
pela união estou muito agradecida
Agradecida, agradecida
Senhores todos estou muito agradecida
Agradecida, agradecida
Se precisar meus filhos contem comigo
Recebam flores, recebam flores
recebam flores e também os meus amores

Então chegou a hora de Preta Mina se despidir e voltar para o reino dos encantados. Mas antes deixou seus desejo de que todos tenham muitas realizações, paz e axé durante todo este ano.

Na paz de Deus eu cheguei
Na paz de Deus eu vou embora

Na paz de Deus ela chegou
Na paz de Deus ela vai embora
Jesus que fique com todos
Eu vou com Nossa senhora

Ao fim da festa conversamos com Pai Adalberto, que estava ao lado de Mãe Iara que veio de São Paulo para participar da festa, nos contou um pouco sobre o umolocô e sobre os preconceitos da religião afro.

A minha nação é Umolocô, o pessoa fala besteira e diz que Umolocô está totalmente extinta e não é verdade. Aqui em Manaus, o único casa de Umolocô é a minha casa, de Preta Mina. Eu nasci no Umolocô e minha falecida mãe de santo Ivone de Oxum, que fez Xango em cima de mim, e eu sou Adalberto de Xango, sou robono da casa. E eu fui feito dentro de Umolocô que é uma raiz de angola, onde as pessoas as vezes dizem que são angoleiros, mas é uma angola bate folha, que na verdade é umolocô. A diferença do Umolocô pro keto e pro angola é que o umolocô não raspa, a gente só catula, a gente não carrega kelê, a gente carrega senzala e o mucan no nosso período dos três meses. E umolocô é uma nação unida que vai de Exu a Oxalá, depende de quem tem fundamento pra fazer. A gente não tem espécie de santo, se é Xango é Xango, e não interessa a espécie do Xango. É Oxum é Oxum. A gente fala pros filhos as espécies mas não faz qualidade.

Na minha casa eu faço todos os tipos de trabalho. O umolocô é uma nação tão unida que abrange a tudo. Eu sou obrigado a abrir na minha casa no mínimo uma vez, e no máximo duas vezes por ano, eu fazer mesa branca e cirurgias espirituais. Eu toco duas vezes sacaca onde eu trago povo do fundo que vem na base do toari, da pena e do maracá pra fazer cura, tirando bicho, tirando feitiço. São linhagens totalmente diferente, então o umoloco pega todos os orixas sem ficar ninguém de fora, no caso Irôko, Ossain, Oxumare. Yéyé que eu anda nem tenho fundamento dele, ainda vou pegar, e no Brasil é um orixá que poucas pessoas conhecem, e é tratado que nem o Irôko pois não leva louça, leva cabaça, que é uma cuia. Então o umolocô puxa encantamentos de todas as regiões, ainda mais na nossa região que é muito rica, com os indigenas, os caboclos.

A maioria das pessoas quando ouve falar que somos espíritas fica com pé atrás, por que não se vê uma obra, um espírito, uma bondade, só vem um querendo acabar com a vida do outro, mas isto não leva a nada. Para você poder crescer você tem que dar incentivo e batalhar, tirar estas coisas negativas de achar que o teu colega é melhor que você. Mas ele não é. Você tem a mesma capacidade dele, lutando, estudando e se ele é bom você pode ser melhor. No instante que entram na minha casa eu quero que sempre peçam isto: quero voltar a ser visto, conquistar meu espaço, quero paz comigo, com meus amigos e inimigos e que eu tenha um bom caminho.

PELA LIBERDADE DE CULTO ÀS RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS

Seu doutorzinho quer que chame de doutor
Seu doutorzinho quer que chame de doutor
É duvidoso, cativeiro acabou
É duvidoso, cativeiro acabou
Branco sabe ler, também sabe escrever
Só não sabe dia em que morre
O preto é quem vai dizer!

Em memória ao Pai Francisco do Morro da Catita, com seu Umbandão pé no chão, que foi para o Orun no início desse ano.

Uma das principais questões hoje no Brasil, como ficou visível nas últimas eleições, é a defesa da liberdade religiosa, é a defesa constitucional do Estado laico que é o Brasil, onde se pode, segundo a lei, desde que não se ofenda a outrem, cultuar a religião que se quiser: Cristianismo, Budismo, Hinduísmo, Xamanismo, Agnosticismo, Espiritismo, Candomblé, Umbanda, Mina Jeje-Nagô, Umolocô…

É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias.” (Constituição, Art 5º-VI)

Quem não quiser também estará livre para não cultuar nenhuma: Ateísmo. E há no Brasil até quem invente novas formas de religião a partir do que venha a ser religião e da importância de se cultuar uma religião. No emaranhado de interesses mesquinhos em que se consagram todos os sistemas de todas as eras, praticamente todas as religiões se jogam na busca pela Verdade, seja para auto-aperfeiçoamento, seja como direcionador de ações. Atualizemos filosoficamente a questão em Aldous Huxley, quando ele trata a religião como sendo um filtro para conhecimento da realidade, ou no sentido de “ver o íntimo das coisas”, como diz Nietzsche sobre a poesia. Assim, mesmo alguém que se diz ateu pode estar imbuído de religiosidade.

Que lindo! Poderíamos até dizer que foi assim que Jesus Cristo, o palestino, sonhou. Mas por que a intolerância gera tantos conflitos que até se gerou um leniente ditado que diz que “religião e política não se discute” quando, ao contrário, quando a religião sai da esfera do foro íntimo – crença individual – e adentra à esfera da coletividade – persuasão política -, tem-se que se discutir? Elementar: é que grande parte das religiões, principalmente as chamadas Grandes Religiões, se emaranharam a mesquinhos interesses. Por isso que, no Brasil, dentre as inúmeras formas de discriminação que constituem o racismo está a intolerância religiosa aos cultos afro.

Para se perceber as discrepâncias que daí resultam sobre as religiões afro, basta observar um fato ocorrido numa das escolas onde a AFIN, de quem este bloguinho é vetor virtualizante, foi fazer sua explanação com o tema que vai no título deste texto. Acontece que se um adepto de uma religião cristã procura uma escola, fato corriqueiro em Manaus, para “pregar a palavra do Senhor”, ninguém chega sequer a aventar uma falta de “interesse público”, como prevê a Constituição, de catequização religiosa em espaços públicos; agora se o pessoal da AFIN aparece com um pai de santo, e neste caso com “interesse público” comprovado, e sem catequização, mas sim discutir a autenticidade das religiões afro e desfazer certas estigmatizações, há professores que protestam e ameaçam se retirar. Daí se percebe que a laicidade do Estado não está sendo observada por parte de muitos cristãos.

Não fazemos aqui uma crítica ao Cristianismo em si, que acreditamos uma religião autêntica, mas à irracionalidade de adeptos individuais e de vis interesses que subvencionam essa religião desde pelo menos sua oficialização no Império Romano, quando tendências distintas, à época de Santo Agostinho, se engalfinhavam com palavras esdrúxulas, pedras e armas, até que uma dessas tendências prevaleceu pela força física mais do que ideológica ou de fé. Desde aí, passando pelas Cruzadas, pela Reforma Protestante, pela Contra Reforma, pela Caça às Bruxas, chegando até os dias atuais com a deprimente divisão do mundo entre Ocidente cristão e Oriente islâmico, vê-se uma epopeia sangrenta que pouco tem a ver com a simplicidade e ternura do filho de Maria.

Como o Cristianismo é a maior religião no Brasil, muitas igrejas e manifestações individuais demonizam outras religiões, julgando-as violentamente segundo seus dogmas irredutíveis. Em Manaus conhecemos budistas que se queixam do preconceito que sofrem. Quer dizer, não são apenas os cultos de matriz africana, mas como os adeptos dos cultos afro, tendo o Brasil nos negros uma das etnias de nossa formação, as condenações sumárias para estes é muito mais abundante e frequente, sabendo-se que só em Manaus há cerca de 3 mil lugares, entre terreiros, barracões e bancas, onde se cultua alguma religião de matriz africana.

Talvez isso não ocorra em todo o Brasil. Ouvimos seu Baianinho do Tambor de Mina, na cabeça de Pai Miguel de Vondoreji, do Terreiro da Fé em Deus, contar que no Maranhão há padres que rezam a missa e que depois vão ao terreiro e incorporam aí suas entidades. Mas em Manaus, e provavelmente em muitos outros lugares, a lista de estigmatizações é imensa. Semana passada ouvimos uma jovem dizer que “nos terreiros de macumba as pessoas bebem sangue”. É muito comum ouvirmos que os orixás, cabocos e voduns são demônios e que todos os macumbeiros vão para o inferno.

Com argumentos rápidos e certeiros, mesmo para nós deste bloguinho, que não somos diretamente adeptos dessas religiões nem antropólogos especializados, é fácil derrubar tais preconceitos aberrantes. Esses três anos de trabalho incansável, desde que num domingo à tarde baixamos no terreiro de Pai Jeovaņo de Ajagùnnọn, já nos levaram a entrar em contato com cerca de uns 100 terreiros e barracões e nos deram algumas informações necessárias para isso, ao que juntamos nossa filosofante vontade de amor e comunhão. “Os homens são diferentes, mas não desiguais, nem separados: são como os dedos da mão. Iká ko dogbá, os dedos não são iguais, diz um aforismo nagô”, declara o filósofo candomblecista Muniz Sodré.

Para começar, vulgarmente se utiliza a palavra “macumba” de forma pejorativa e generalizada. As pessoas que assim o fazem não sabem sequer que não existe apenas uma religião afro, mas diversas, entre elas o Candomblé, a Umbanda, Mina Jeje-Nagô, Umolocô. Sem falar que os cultos afro congregam na verdade vários outros credos e entidades que não são propriamente de matriz africana, como as pombogiras, como os cabocos indígenas, o povo cigano, santos, anjos e até bruxas.

No Brasil, o caso mais curioso é a aproximação de santos católicos com orixás dos cultos afro, o que se denomina sincretismo. Como os escravos não tinham permissão para cultuar seus orixás, eles escondiam uma imagem deles entre os santos ou cultuavam algum santo que de alguma forma tinha característica que se aproximava de um orixá. Por exemplo, como a entidade por assim dizer maior católica era Jesus Cristo, então os negros relacionavam-no a Oxalá, seu orixá maior. Assim foi que Nossa Senhora da Conceição virou Oxum, São Sebastião virou Oxóssi, São Jorge virou Ogum, São Lázaro virou Obaluaê, Santa Bárbara virou Iansã e por aí vai.

Uma das maiores polêmicas ocorre na aproximação vulgarizada de Exu com o Diabo. Mas se percebe que essas aproximações são apenas providenciais; mas não, essenciais. Enquanto no Cristianismo o Diabo, o Satanás é tido como uma entidade terrível com a qual nenhum acordo deve ser feito, a não ser que se queira vender a alma ao capiroto, nos cultos afro Exu é o primeiro orixá a se louvar, sendo que é ele quem abre os bons caminhos e fecha a soleira da porta do barracão para o mau olhado. Hoje há também quem diga que Exu é na verdade o Espírito Santo. De qualquer modo, todos os adeptos dos cultos afro com os quais conversamos foram sempre unânimes de não levar a sério essa história de sincretismo, que, para eles mais auxiliaria na demonização de suas religiões, uma vez que prevaleceria, embora o Brasil sendo laico, a religião dominante.

Se observamos que uma religião como o Candomblé é muito mais antiga do que o Cristianismo, mais antiga até que o Judaísmo, e originada em uma outra realidade geográfico-política, como que ela poderia ser julgada por este? Só há uma forma: até hoje, muitos cristãos – não todos, claro – tendem a querer impor à força para as outras nações, para outras pessoas o seu credo como único e verdadeiro. Já houve muitos casos em que meios de comunicação usaram de truculência contra as religiões de matriz africana, e é por isso que existem hoje leis contra racismo e intolerância religiosa para punir as manifestações violentas e agressivas.

Em Manaus há entidades que lidam diretamente com a questão, como a Federação de Umbanda e Cultos Afro-Brasileiros do Estado do Amazonas (FUCABEAM), presidida pela querida Nochê Hunjaí Emília de Toy e Lissá, e a Federação Brasileira de Umbanda, Cultos Afro-Brasileiros e Ameríndios (ABUCABAM), presidida por Pai Lairton da Oxum. A luta dessas entidades se faz também na medida de modernizar as práticas nos terreiros, como já explicou em entrevista neste bloguinho Pai Ribamar de Xangô, coordenador no Amazonas da Federação Nacional dos Cultos Afro-Brasileiros no Amazonas (FENACABI). Há ainda a Associação Movimento Orgulho Negro do Amazonas (AMONAM), presidida pelo companheiro Luiz Costa, que faz um trabalho diretamente nas escolas.

Mas há pessoas que, embora estando no “mais baixo grau de entendimento”, repetem estigmatizações ofensivos às religiões afro apenas por medo e falso misticismo, mas que merecem alguns argumentos que lhes faça abrir os olhos. “Ter os olhos abertos é derrubar as paredes divisórias das ditas raças, classes, crenças e conceitos. Apertar o Outro contra o coração como se fosse um membro de sua própria família é coisa digna só de gente” (Muniz Sodré).

Como já dissemos, as religiões afro congregam vários outros credos. E se há preconceitos de muitos cristãos contra as afro-religiões, não os há destas para com aqueles. “Agradeço a todos os orixás e a Nosso Senhor Jesus Cristo…”, é o que dizem praticamente todos os pais de santo. Em Manaus há vários centros que realizam festas católicas, mormente os que praticam Mina Jeje-Nagô, com direito a novenas, terços e cânticos hagiográficos. Transparece que o preconceito é mais arraigado entre os chamados evangélicos, mas também estes, além de não estarem acima das leis, devem aprender a con-viver com a diferença e perceber o Outro sem as barreiras extremistas do fanatismo.

Deixamos a melhor parte para o final. Como não somos adeptos, não estamos fazendo nenhum estudo antropológico sistemático, não ganhamos nada a não ser a bênção dos orixás, cabocos, voduns e outras entidades, uma pergunta sempre recorrente nos é colocada: “Você acreditam nisso?” O filósofo da Feira de Santana citado acima, numa entrevista de 2003, falando sobre Pierre Verger, explica que a palavra “acreditar” tem vários sentidos, entre eles “aceitar”, “confiar” e “dar crédito”. Um dos motivos que causam o medo que provoca o preconceito de muitos é o vigor das religiões afro e sua autenticidade. Para quem observou fotos e conversas que tivemos, alguém que nunca foi num terreiro, se souber olhar, verá uma pequeníssima demonstração de toda a beleza que vimos nessas noites inteiras acompanhando esses rituais. Sabe quanto conhecimento e ternura há numa conversa com um preto velho? Você já viu alguém mais alegre do que aquela pombogira? Onde já se viu cigana tão linda? Que harmonia no gingado das baianas! Tantos pontos, tantas rezas maravilhosas! E o que é para os ouvidos toda a musicalidade do tambor de mina? A voz daquele caboco lembra uma história que não foi contada pela História oficial…

O papel que nos propomos não é convencer ninguém, mas não nos repitam mais aquela pergunta tola. Lutar pela liberdade de culto às religiões afro-brasileiras é hoje no Brasil a principal luta contra o racismo e, ainda mais, é a defesa constitucional do Estado laico.

Nosso papel também não é convidar ninguém para ir ao terreiro, mas se quiser ir com certeza lá nos encontraremos, porque, livres de todos os medos e preconceitos, lá sempre nos sentiremos bem e completos de corpo e alma. Axé!

PAI JOEL DE OGUM CONVIDA

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FESTA DE SEU ZÉ MALANDRO

No próximo sábado, Seu Zé Malandro completa 18 anos na cabeça de Pai Joel de Ogum, por isso ele convida babalorixás, filhos de santo, adeptos das religiões afro ou simpatizantes, enfim, a comunidade em geral para participar dessa maravilhosa festa.

Endereço: Rua São Marçal, nº 619 Cidade de Deus (Manaus-AM)

(Por trás da Pousada Laser)

Data: dia 21/03 (próximo sábado), às 20h

Telefones: (92)9155-3632 // 8146-8237

MPF/SP ENTRA COM REPRESENTAÇÃO CONTRA RECORD E GAZETA POR PRECONCEITO A RELIGIÕES AFRO

Como já foi dito aqui neste bloguinho pelo sapiente Pai Gilmar, as igrejas apocalípticas, que não alcançam o evangelho como “boa e nova notícia”, apresentam duas enunciações contraditórias entre si, ao mesmo tempo levando elementos próprios das religiões afro para sua prática (sal grosso, sessão descarrego, rosas, entre outros), principalmente as que usam espetaculares técnicas de tirar “espíritos malignos” até aí tudo bem para todos os pais e filhos de santo, todos são sempre muito abertos e solidários às outras religiões , mas, por outro lado, demonizando todas as entidades da Umbanda, Candomblé, Mina Nagô, Jeju, Umolocô, todas as religiões de matriz africana.

Na sua fantasia mirabolante, a maioria dos disangélicos provavelmente sequer sabia que existem tantas religiões afro, que elas são quase todas milenares, algumas muito mais antigas do que o Cristianismo paulino (não o de Cristo, o filho de Maria, que não carrega preconceitos e violentações), a maioria não sabe a mínima diferença entre Umbanda e Kimbanda, quase todos acreditam que Exu é o Diabo, que tudo é coisa do Diabo — não só os afro-religiosos, mas também os homossexuais, os ateus, as mulheres, não percebendo os incautos que ambos são religiões completamente distintas em sua origem. Os disangélicos não sabem que o próprio Satanás pertencia a uma seita que nada tinha a ver com a ainda seita cristã. E por aí vão desfiando o preconceito e a paranóia totalitários.

Quando as igrejas perceberam que a imagem não podia ficar somente na do Cristo pregado eternamente na cruz, muitos pastores, bispos despontaram na tonitruante tela total da televisão, e muitos passaram a utilizá-la como um  meio, acintosamente, para embrutecer ainda mais o preconceito a outras religiões, como ao próprio Catolicismo e principalmente às diversas religiões afro, denominadas, pejorativamente, de “macumba”. Enquanto a Constituição diz que o Brasil é um país laico, defendendo a pluralidade cultural e liberdade de credo.

Entre outras emissoras de Tv, a Record e a Gazeta, desde seus surgimentos, vêm desfiando esses preconceitos. Por isso, no ano passado, o Ministério das Comunicações aplicou às duas uma multa de R$ 1.012,32.

No entanto, como as discriminações continuaram, o Ministério Público Federal em São Paulo deu entrada na quinta-feira passada (5) numa ação civil pública, com o pedido de uma liminar, “para que as emissoras de televisão Record e Gazeta não exibam mais programas que ofendam às religiões de matriz africana”. A multa pedida, caso as emissoras descumpram a medida, é de R$ 10 mil diários.

Ao final da ação, o MPF pede que a Record e a Gazeta sejam condenadas a pagar, respectivamente, indenização por danos morais coletivos de 13,6 milhões de reais e R$ 2.424.300,00, correspondente a 1% do faturamento das emissoras, a ser revertido para o Fundo de Defesa dos Direitos Difusos.”

Na ação, a procuradora regional dos Direitos do Cidadão, Adriana da Silva Fernandes, autora da ação, destacou que a liberdade de comunicação deve andar em consonância com os direitos dos cidadãos, ficando, inclusive, as emissoras em questão responsabilizadas mesmo no caso de as produtoras serem independentes.

“O abuso praticado pelas rés contraria a dignidade da pessoa humana,(…) bem como os próprios objetivos de construção de uma sociedade livre, justa e solidária, com a promoção do bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.”

Xangô, o orixá da Justiça, com seu machado de aço, com certeza movimentará os raios e trovões para que seus filhos possam cultuá-lo com livre devoção, e que, com a diminuição da estupidez dos preconceitos, outras pessoas, inclusive os cristãos, possam apreciar toda a musicalidade de uma reza batida no Tambor de Mina, o vigor dos movimentos do Candomblé, a energia positiva na alegria de estar num terreiro de Umbanda…

Veja aqui a íntegra da ACP nº 2009.61.00.005800-6, distribuída à 9ª Vara Federal.

COMEMORAÇÃO DOS 100 ANOS DE UMBANDA — AMIGOS UMBANDISTAS DO ESTADO DO AMAZONAS

Umbanda 100 Anos 01 por você.

Clique nas imagens para ampliá-las.

Essa festa ocorreu no dia 15 de novembro de 2008, o dia em que se comemora por todo o Brasil os 100 anos da fundação da Umbanda, a religião de matiz africana genuinamente brasileira. A festa foi organizada por Pai André de Ogum no terreiro de Mãe Neura, que fica no Núcleo 14 da Cidade Nova, Zona Norte de Manaus, e contou com a participação de vários zeladores, pais de anto, yalorixás, filhos de anto, numa comunhão que culminou com a fundação de um movimento denominado de Amigos Umbandistas do Estado do Amazonas.

Umbanda 100 Anos 02 por você.

Pai Luiz, Mãe Neura e Pai André

Este bloguinho, que também esteve presente, traz imagens e falas de umbandistas presentes na histórica festa, a começar pelo seu organizador, o afetuoso e sapiente Pai André de Ogum:

A gente está organizando o movimento dos Amigos Umbandistas do Estado do Amazonas. Começamos este movimento hoje, no dia em que a gente comemora o centenário da Umbanda. No dia 15 de novembro de 1908, em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, a Umbanda foi fundada pelo caboco Sete Encruzilhadas. É uma religião genuinamente brasileira. Foi então aberta a tenda Nossa Senhora da Caridade, pelo médium Zélio Fernandino de Moraes, e depois propagou-se muito rápido. Depois de 55 anos de fundada a religião, já havia sido fundadas 10 mil tendas pelo Brasil inteiro. Em Manaus, hoje, há uma mistura nos terreieos, de Umbanda, Candomblé, houve uma vez que eu ouvi falar que aqui tinham mais de 2 mil terreiros de Umbanda.

Umbanda 100 Anos 03 por você.

A gente quer, com esse movimento, uma forma de reunir, de unir, de confraternizar, de falar mais sobre a religião. Tem alguns de nossos irmãos que não têm conhecimento da fundação, das origens da Umbanda. Então, é uma forma de passar mais esses conhecimentos e de marcar esse dia. Nós pretendemos agora todos os dias 15 de novembro fazer uma comemoração. A princípio nós somos um grupo de 18 zeladores de santo, de Umbanda, na cidade de Manaus. Queremos, sim, alcançar todo o nosso universo amazônico, mas isso é uma conquista que ainda vamos ter. Hoje a nossa maior dificuldade é o misticismo que as pessoas fazem da religião: que é um culto do demônio, vêem os umbandistas como feiticeiros, etc. A nossa realidade não é essa. Nós temos a nossa religião para dar orientação espiritual, para engrandecer a pessoa espiritualmente e destinar ela para o nosso Oxalá, para o nosso orixá maior, que é o nosso Deus.

Umbanda 100 Anos 13 por você.

A importância que a Umbanda tem para nós que somos umbandistas, para os filhos que freqüentam as nossas casas é a de ter um desenvolvimento espiritual que, às vezes, não encontram dentro da Igreja Evangélica, não encontram dentro da Igreja Católica. Algumas dessas pessoas encontram evolução espiritual dentro da casa de Umbanda. A importância maior é direcionar essas pessoas pelo caminho que leva ao Nosso Senhor. Ainda há muitos preconceitos, tanto umbandistas quanto candomblecistas são taxados de macumbeiros, feiticeiros, mas também o Candomblé tem ganhado muito espaço, a Umbanda tá buscando também os seu espaço. Eu acho que hoje, esse evento de hoje é um marco, é uma sementinha que a gente tá plantando pra ela crescer cada vez mais e buscar o seu espaço de verdade. Hoje no Rio de Janeiro está em festa, São Paulo está em festa, em Brasília tá tendo festa, em Curitiba tá tendo festa pelo centenário de fundação da Umbanda…

Umbanda 100 Anos 05 por você.

Para o chamado grande público, a Umbanda permanece misteriosa, mas o que se sabe, como se sabe de todas as manifestações dos negros todas as manifestações populares , é que sempre houve muitas perseguições da cultura que sempre se achou (se acha?) superior — o branco, europeu, masculino, heterossexual —, por isso as religiões afro sofreram até mesmo com as investidas policiais, e antes dos nobres senhores e capitães do mato. Quem fala, trazendo a força da história que sobreviveu por baixo da Historiografia, é Pai Luiz Queiroz de Ogum com Oxóssi e Oxum com Oxumaré:

Umbanda 100 Anos 10 por você.

A Umbanda é o trono de tudo. tudo começou na Umbanda, na época dos negros, dos escravos. Eles trabalhavam embaixo de uma árvore. Essa árvore se chamava macumbeira. Eles, com medo dos patrões, barões, eles se reuniam debaixo da macumbeira. Lá eles faziam os rituais, pros pretos velhos, e trabalhavam na cura. A Umbanda foi o nascimento de tudo. Depois foi aparecendo, com as descobertas, as pesquisas, os ensinamentos, os áfricos, aí foi aparecendo o pessoal das nações – Ketu, Angola, Candomblé. Na minha época, 50 anos atrás, que eu sou de 61, Candomblé era pé de dança, lá no Rio de Janeiro. Se catuava assim: “Vamos pro Candomblé”, aí desciam os cabocos cruzados com Oxóssi e Jurema, pra dançar o Candomblé. “Ai que Candomblé!” Aquele Candomblé bonito, então virou nação. Virou nação e foi crescendo, e hoje nós temos Ketu, Angola, da Umbanda saíram as sete linhas da Umbanda – Branca, Umolocô, a Umbanda Cruzada, Umbanda Jêju, Mina Jêju, Mina Vodum, Mina Vodunfã, Mina Nagô. Foram várias nações que foram nascendo através da nossa amada e querida Umbanda.

Umbanda 100 Anos 08 por você.

Entre os diversos presentes, ouvimos Pai Rogério Navê Oroalin com Badé, que na Umbanda seria Oxum com Xangô, que mostra em sua fala a riqueza e diversidade no culto da Umbanda:

Eu participo de um culto afro que pega muito a parte da Umbanda, onde eu me iniciei e tudo, que se chama Mina Jêju, que é cultuado no Maranhão, na minha casa eu cultuo Umbanda, encantados de Umbanda, com preto-velho, com exus, com crianças. A gente passa por fundamentos, obrigações, tem uma disciplina organizada, têm rituais secretos de iniciação, de complementos espirituais…

Umbanda 100 Anos 12 por você.

Finalmente trazemos a bem humorada e acolhedora dona do terreiro, Mãe Neura do Seu Sete Encruzilhadas, que chegou alegre e que deixou em suas vertiginosas falas as lutas da Umbanda, a sua beleza e a sua autenticidade enquanto crença religiosa. Ela, que veio do Rio de Janeiro, onde a Umbanda começou em sua fundação oficial, e demonstra as linhas que a Umbanda seguiu por estas paragens, consolidando-se por toda parte, assim como no Amazonas:

Umbanda 100 Anos 04 por você.

Eu sou a Mãe Neura, a louca do 14, o pessoal me chama assim, porque tem sempre um tempo em que a gente faz um giro, faz aquela caminhada, principalmente na época do afoxé. Na Bahia eles fazem o afoxé, aqui a gente não faz, estão tentando pra fazer agora ano que vem, e eu faço a caminhada, na sexta-feira do carnaval a gente faz aquela caminhada, e o exu vai, eu vou até o cemitério, dali eu volto, termino a gira em casa, isso tudo de dia, e depois a gente brinca o carnaval, aquela coisa toda, e eu aprendi com a minha mãe que a gente faz o prêmio, pra pedir proteção, e na quarta-feira de cinza as pessoas vem no barracão devolver pra queimar, tem todo um significado aí. Aí eles diziam que eu fazia procissão pra exu. Como também, a nossa parte de exu, o nosso trabalhador, a cada 3 meses a gente caminha com ele na estrada pra pedir progresso, prosperidade, cliente, luz, força, tudo. A gente corre em sete encruzilhadas, e leva as oferendas e vai colocando. Eu não me importo que tenha igreja Batista, Adventista, Universal, Assembléia, eu faço a minha religião, pra mim é a minha religião e acabou-se. Era procissão de exu também. Eu nunca me importei; quando eu passo eu sei que passo, foi para o bem eu estou junto. E por isso eles me chamam de “louca do 14, que faz procissão de exu”. Eu não tenho culpa; se eu tenho médium preparado, eu vou sair sozinha por quê? Eu tenho uma opinião que é o seguinte: se eu estiver bem, meus filhos vão estar, e o que eu puder fazer pelos meus filhos eu faço. Religião nenhuma dá riqueza a ninguém, ela dá força, saúde e caminhos abertos, desde que você faça por onde merecer. Que Deus diz, tá lido porque tá escrito: “Faz por ti, que eu te ajudarei.” Na nossa religião a gente faz pelos médiuns pra poder ser ajudado. Eu não posso ir no médico e o médico passar um remédio e o remédio ficar em cima da mesa, a gente deixar lá e ficar bom. Aí, mano, tá difícil milagre.

Umbanda 100 Anos 07 por você.

Na Umbanda, eu comecei em 70. Fui do Alan Kardec dos sete aos dezesseis, depois passei pra Umbanda, fiquei 12 anos no terreiro da minha mãe, no Rio de Janeiro, Terreiro de Umbanda Rei do Congo e Caboco Sete Lagoas. Benedita Anjo, que a yalorixá, continua trabalhando, com quase 90 anos. Vim pra cá em 82, mas fui primeiro para a Praça 14, na casa da minha mãe, na Dr. Machado, esquina com a Visconde, onde é uma locadora de carro hoje. Em 85 eu vim pra cá pra Cidade Nova, porque já tinha muita gente e lá era muito pequeno. Meu pai hoje é James Rios, James do Ogum. Eu tive que passar pro Candomblé não por vaidade, mas sim por necessidade, porque na casa da gente chega gente de todas as nações. Aí tu imagina a gente ter um filho bom, ma a nação dele é Ketu? Aí você não vai dar a ele o que ele precisa porque você só está na Umbanda. A minha vida é Umbanda, eu gosto dos cabocos, eu gosto dos pretos-velhos, dos exus, das rezas, das danças. O Candomblé pra mim foi um complemento, estou satisfeita também; mas eu acho assim, se você é burro velho não vai aprender uma nação como alguém que fala português e de repente vai falar inglês em uma semana. Mas a hora que eu preciso tem meu pai, tem meu irmão, Rafael de Oyá, que toca o Candomblé.

Umbanda 100 Anos 06 por você.

A Umbanda foi tudo pra mim, e é tudo; a gente quando passa de uma nação pra outra, se a gente não tiver estrutura a gente vacila muito, é como se você falasse uma língua diferente, porque espíritos pra mim todos são iguais, não existe diferença, o que muda é modo como você prepara. Eu tive uma experiência no Gêge não muito boa, com um pai de santo, que só não me derrubou mesmo porque abaixo de Deus os orixás, que graças a Deus me retiraram. As pessoas que viviam em minha casa presenciaram muita coisa desse pai de santo, que queria que eu desse a minha casa pra ele, eu perdi mais de cem filhos de santo. Eu passei uma dificuldade muito grande. Eu me vi só. Então, eu tenho uma filha de santo que é de Obá, Maria das Graças dos Anjos, ela e Ana de Oxum foi que me deram uma luz. disseram: “Você não vai cair. Um dia você deu a mão pra gente e hoje nós vamos lhe dar a mão.” Então elas me fizeram conhecer o seu Luiz, que é de Umbanda Umolocô. Seu Luiz pra mim é tudo, abaixo de Deus foi ele que me deu a mão. Depois que eu já tinha sarado, saído da enfermaria, ido pra casa me recuperar, aí eu conheci Rafael de Oyá e comecei a ter intimidade com Pai James de Ogum, e é ele que vai fazer minha obrigação de 14. Eu vou abrir a minha porta pra Manaus toda, porque o pessoal não me ver de orixá, me ver de preto-velho e exu, sou conhecida como a Neura de Seu Sete Encruzilhadas, mas eu vou fazer minha obrigação de Ketu, porque eu preciso, muitas pessoas da minha casa são de nação e eu preciso. Mas foi a Umbanda que me deu a mão, quem me suspendeu e me levantou. Ela foi meu início e foi o meu meio, não sei se será o meu fim, mas graças a Deus eu tenho só boas recordações da Umbanda. Pra mim foi uma surpresa [a comemoração dos 100 anos de Umbanda], porque não tinha muita intimidade com ele [Pai André de Ogum]. Eu conheço muita gente de nome, eu não vou não casa de ninguém, porque não tenho tempo. Eu fiquei feliz, principalmente agora que nós fomos alforriados, que nós deixamos de ser seita e somos uma religião. Quer queira quer não, a pessoa tem de respeitar, e eu faço valer isso, eu não tenho vergonha de dizer que eu sou umbandista, que eu sou espiritualista. Se eu tiver que sair de baiana na rua eu vou sair, e que fale mal de mim que eu vou ganhar é dinheiro, largo processo mesmo. É muito bom essa comemoração pra ver se o pessoal se junta mais, espero que a cada ano a gente comemore mais.

Umbanda 100 Anos 11 por você.

Na Umbanda, eu comecei em 70. Fui do Alan Kardec dos sete aos dezesseis, depois passei pra Umbanda, fiquei 12 anos no terreiro da minha mãe, no Rio de Janeiro, Terreiro de Umbanda Rei do Congo e Caboco Sete Lagoas. Benedita Anjo, que a yalorixá, continua trabalhando, com quase 90 anos. Vim pra cá em 82, mas fui primeiro para a Praça 14, na casa da minha mãe, na Dr. Machado, esquina com a Visconde, onde é uma locadora de carro hoje. Em 85 eu vim pra cá pra Cidade Nova, porque já tinha muita gente e lá era muito pequeno. Meu pai hoje é James Rios, James do Ogum. Eu tive que passar pro Candomblé não por vaidade, mas sim por necessidade, porque na casa da gente chega gente de todas as nações. Aí tu imagina a gente ter um filho bom, ma a nação dele é Ketu? Aí você não vai dar a ele o que ele precisa porque você só está na Umbanda. A minha vida é Umbanda, eu gosto dos cabocos, eu gosto dos pretos-velhos, dos exus, das rezas, das danças. O Candomblé pra mim foi um complemento, estou satisfeita também; mas eu acho assim, se você é burro velho não vai aprender uma nação como alguém que fala português e de repente vai falar inglês em uma semana. Mas a hora que eu preciso tem meu pai, tem meu irmão, Rafael de Oyá, que toca o Candomblé. A Umbanda foi tudo pra mim, e é tudo; a gente quando passa de uma nação pra outra, se a gente não tiver estrutura a gente vacila muito, é como se você falasse uma língua diferente, porque espíritos pra mim todos são iguais, não existe diferença, o que muda é modo como você prepara. Eu tive uma experiência no Gêge não muito boa, com um pai de santo, que só não me derrubou mesmo porque abaixo de Deus os orixás, que graças a Deus me retiraram. As pessoas que viviam em minha casa presenciaram muita coisa desse pai de santo, que queria que eu desse a minha casa pra ele, eu perdi mais de cem filhos de santo. Eu passei uma dificuldade muito grande. Eu me vi só. Então, eu tenho uma filha de santo que é de Obá, Maria das Graças dos Anjos, ela e Ana de Oxum foi que me deram uma luz. disseram: “Você não vai cair. Um dia você deu a mão pra gente e hoje nós vamos lhe dar a mão.” Então elas me fizeram conhecer o seu Luiz, que é de Umbanda Umolocô. Seu Luiz pra mim é tudo, abaixo de Deus foi ele que me deu a mão. Depois que eu já tinha sarado, saído da enfermaria, ido pra casa me recuperar, aí eu conheci Rafael de Oyá e comecei a ter intimidade com Pai James de Ogum, e é ele que vai fazer minha obrigação de 14. Eu vou abrir a minha porta pra Manaus toda, porque o pessoal não me ver de orixá, me ver de preto-velho e exu, sou conhecida como a Neura de Seu Sete Encruzilhadas, mas eu vou fazer minha obrigação de Ketu, porque eu preciso, muitas pessoas da minha casa são de nação e eu preciso. Mas foi a Umbanda que me deu a mão, quem me suspendeu e me levantou. Ela foi meu início e foi o meu meio, não sei se será o meu fim, mas graças a Deus eu tenho só boas recordações da Umbanda.

Umbanda 100 Anos 14 por você.

Pra mim foi uma surpresa [a comemoração dos 100 anos de Umbanda], porque não tinha muita intimidade com ele [Pai André de Ogum]. Eu conheço muita gente de nome, eu não vou não casa de ninguém, porque não tenho tempo. Eu fiquei feliz, principalmente agora que nós fomos alforriados, que nós deixamos de ser seita e somos uma religião. Quer queira quer não, a pessoa tem de respeitar, e eu faço valer isso, eu não tenho vergonha de dizer que eu sou umbandista, que eu sou espiritualista. Se eu tiver que sair de baiana na rua eu vou sair, e que fale mal de mim que eu vou ganhar é dinheiro, largo processo mesmo. É muito bom essa comemoração pra ver se o pessoal se junta mais, espero que a cada ano a gente comemore mais.

Umbanda 100 Anos 09 por você.

2ª REUNIÃO DA CARTOGRAFIA DOS CULTOS AFRO NO AMAZONAS

Cartografia 01 por você.

No domingo passado, (21) reuniram-se na sede da Federação de Umbanda e Cultos Afro-Brasileiros do Estado do Amazonas, situada a rua Pintassilgo, nº 100 – Cidade Nova II (Manaus), representantes da Umbanda, Candomblé, Mina e outros cultos afro-brasileiros para sua segunda reunião de levantamento da quantidade de terreiros que existem em Manaus, para promover a integração destes terreiros e conhecimento das principais dificuldades encontradas cotidianamente nos terreiros e pelos adeptos das religiões afro-brasileiras.

Cartografia 18 por você.

Após as orações e as palavras de Mãe Emília de Toy Lissa, presidente da Fucabeam, os trabalhos começaram, puxados por Flor (da Fucabeam) e Gláucio da Gama, pesquisador da Ufam e membro do Fopaam, que lançaram três questões para serem discutidas pelos participantes.

Em seguida, foram formados vários grupos de discussão, que se espalharam pela ampla área verde de Mãe Emília, onde funciona a sede da Fucabeam, e conversaram acaloradamente entre si sobre as questões apresentadas, enquanto produziam painéis para apresentar sucintamente seus pontos de vista.

Cartografia 06 por você.

Enquanto os diversos grupos preparavam seus painéis, conversamos com Gláucio sobre esse trabalho com os cultos-afro.

Sou Glaucio da Gama Fernandes, estou como pesquisador da UFAM, do Departamento de Antropologia, e também pelo Fórum Permanente Afro-descendente do Amazonas – FOPAAM, sou membro da coordenação e estou ajudando a fazer esse trabalho junto à FUCABEAM. O trabalho tem um objetivo, que é trabalhar a questão da liberdade de culto religioso, como diz a própria lei, a liberdade de culto religioso, os locais de culto, as liturgias, despertar a consciência dos afro-religiosos sobre o direito que eles têm de manifestar a fé. Assim como o cristão católico e protestante tem a liberdade de se manifestar e fazer os seus cultos, suas cerimônias, os afro-religiosos também tem esse direito de fazer a sua religiosidade. E o projeto A Nova Cartografia também tem como objetivo fazer um mapa cartográfico, partindo dum ponto central, que é a Fucabeam, e mapeando onde estão as casas de santo na cidade de Manaus. Vai constar num mapa onde estão situadas as casas que são federadas pela Fucabeam. A gente sabe que não é só a Fucabeam que existe como federação de cultos afro, existe a Abucabam, a Fenecabi e o Carma. E estão aí justamente pra fazer um trabalho de valorização, de afirmação da identidade afro-religiosa.

Esse trabalho tem alguma representação em interiores ou por enquanto só em Manaus?

Esse projeto Nova Cartografia Social da Amazônia é feito em todo o Brasil, na região norte, nos estados do Amazonas e Pará, tem saído fascículos a respeito dos movimentos sociais e religiosos, tudo voltado pra outros estados. Será feito o lançamento na Universidade Federal do Amazonas, nos espaços públicos e também a própria Ufam leva pra outros estados pra apresentar os fascículos que foram produzidos em Manaus, no estado do Amazonas e no interior também. Na Fucabeam existem federados não só aqui de Manaus, tem em Itacoatiara, em Nhamundá, tem Manacapuru. E a Fucabeam é também federada a uma ordem nacional em São Paulo. Então o trabalho vai visibilizar não só aqui em Manaus, mas em todo o Estado brasileiro.

A partir desse trabalho gera um conhecimento muito grande da relação dos terreiros que vão ficar mais conhecidos e vão se fortalecendo. Mas tem algum dispositivo de intervir politicamente, como mudanças de legislações…?

Nesse sentido, a federação, pelo que eu sei, tem um projeto político que no caso trabalha com a questão social e diante dessas iniciativas ela faz a sua questão política com a comunidade, principalmente, e com os federados. É ela que muitas das vezes libera alvará de funcionamento, é ela que tem o poder de fechar alguma casa se tiver irregular, que tiver acontecendo coisas que é fora do normal do culto.

Pode defender também…

Isso, pode defender. Existe um conselho na federação de advogados, que, quando tem algum problema, se a comunidade cria algum problema com alguma casa de santo, tem os advogados pra responder por eles. Então, nesse sentido, eles estão bem amparados e isso é bom porque dá uma certa credibilidade. O que eu tenho observado como pesquisador: existe muito terreiro aqui em Manaus, porém eles não tem conhecimento, muitas vezes, e não querem se filiar às federações. Uma coisa que não acontece da noite pro dia. Eu ouço muito falar que tem pai de santo que não era pra ser pai de santo porque tem todo um processo de estudo, toda uma preparação, e se não faz a preparação a gente corre o risco de ver o charlatanismo que tem. Quantos e quantos não usam a fé pra se sobressair, pra se prevalecer. E isso é muito sério. Acabam também desqualificando o trabalho daqueles que fazem com coerência, com respeito, é uma questão sagrada.

Tu estudas antropologia?

Na realidade eu sou professor da rede municipal, de ensino religioso, atualmente eu estou fazendo uma especialização em história e cultura afro-brasileira, pela faculdade Tahiri, no São José e esse trabalho que eu tô fazendo aqui já vai me ajudar no meu trabalho final da especialização. Enquanto os meus colegas não querem fazer nada voltado pra religiosidade porque eles têm aquele tabu, aquele medo, eu tô de pé atolado nos terreiros. E é bom justamente pra desmistificar até que ponto aquilo que se diz na sociedade, que se fala: “Ah, porque é macumbeiro, porque despacha…”. Não. Tudo tem uma simbologia, tudo tem um significado. Que história é essa de dizer, de onde partiu essa idéia de dizer que o teu nome vai pra boca do sapo e vai ser amarrado? É preciso desmistificar essas coisas que se falam e que acabam sendo incutidas dentro da cabeça das pessoas e sendo veiculadas, transmitidas como preconceito, como discriminação, e não é. É preciso conhecer. Se a gente não conhece, a gente corre o risco de viver na ignorância, na intolerância religiosa, principalmente, que é tão forte aqui no Amazonas. Porque em outros estados a gente não percebe, eu pelo menos, a leitura que eu tenho, a gente não vê tantos conflitos em questão religiosa em outros estados. O Amazonas, eu não sei, a gente precisa ainda fazer um estudo sobre por que as coisas aqui são tão difíceis, por que as pessoas dificultam as coisas, principalmente nesse aspecto.

Com esse trabalho talvez diminua…

É justamente o trabalho, o projeto da Fucabeam no sentido da Cartografia é apresentar à comunidade e à sociedade manauara como é que é, como é que acontece a questão do culto e o que oferece pra comunidade. Porque a gente sabe que os terreiros são espaços públicos, a comunidade vem em busca de auxílio. E tem uma coisa muito séria que eu já percebi que as pessoas vivem doentes e a doença delas muitas vezes é espiritual. E quem é que vai tratar? É o médico, aquele formado na medicina? Não, porque nunca a medicina vai descobrir o que é doença espiritual. E quem é que vai cuidar disso? São os afro-religiosos, que são muito experientes nessa parte. Tem até um projeto de lei pra se reconhecer as casas de Umbanda, o culto, como o espaço de cura, porque não deixa de ser.

Então os grupos já haviam terminado os debates, todos voltaram para o interior do barracão, onde cada um passou a apresentar seus pontos de vista, analisando cada uma das questões e colocando problemas e sugestões, que serão incluídas no fascículo a ser produzido pela Cartografia. Colocamos aqui alguns trechos das falas de representantes de cada um dos terreiros presentes que se manifestaram.

do Terreiro de Santa Bárbara

do Terreiro de Santa Bárbara

Nós chegamos à conclusão que o preconceito, em primeiro lugar, muitas vezes parte de nós mesmos, dos próprios umbandistas, e também da falta de conhecimento dos próprios adeptos, de pessoas envolvidas na religião, para depois se generalizar. Esperamos que a Cartografia traga conhecimento para nós mesmos e para toda a sociedade.

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Pai Tota

Pai Tota

Nosso trabalho espiritual exige todo um aprendizado. Não é da manhã à tarde que se faz um pai de santo. A folha cura, mas depende de como é utilizada. Existe toda uma técnica. Eu estou feliz aqui e na minha religião, o preconceito, eu espero que não seja vulgarizado.

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do Terreiro de Mãe Maria

do Terreiro de Mãe Maria

Sobre os preconceitos que sofremos na nossa religião, são de duas formas: de discriminação e de exploração. Na primeira, ocorre a discriminação religiosa e social, que é a pior de todas, família, amigos, trabalho, política. Por exemplo, na roda de amigos ou no trabalho nós não podemos dizer que somos da Umbanda, porque sofremos preconceito. Nós esperamos nessa Cartografia, da sociedade em geral, das comunidades de outras religiões que as religiões afro são como outras religiões. No caso das ervas, nosso terreiro é pequeno, é uma pena que não possamos plantar as nossa plantas, precisamos ir a uma área rural para comprar nossas ervas.

da Casa de Mina Jeje Nagô

da Casa de Mina Jeje Nagô

Nós somos da Casa de Mina Jeje Nagô, Zé Pelintra. Nós sofremos muitos preconceitos de outras religiões, principlmente da evangélica, que sempre acha que nossa religião é coisa do demônio. Preconceito cultural perante a sociedade, nossa sociedade é preconceituosa não somente à nossa religião não, mas a tudo. Nós esperamos com essa Cartografia, o reconhecimento perante a soicedade como um todo. Eu espero que meu pai, minha mãe, que meu vizinho respeite a minha religião. Porque, por exemplo, às vezes eu tenho um marido e ele não valoriza a minha religião. Como, então, o meu vizinho vai valorizar? Também acredito que é papel dessa Cartografia ampliar a divulgação das religiões afro-brasileiras para melhorar o conhecimento sobre elas. Porque, se alguém é pastor, não é por isso que ele conhece tudo da bíblia. Nós não conhecemos tudo da nossa religião. Nós vamos parendendo um pouquinho a cada dia.

do Terreiro de Pai Joel de Ogum

do Terreiro de Pai Joel de Ogum

A discriminação é feita por muitos, que não nos respeitam, as nossas diferenças. Um dos papéis da Cartografia é divulgar a nossa religião, para sermos respeitados. No nosso barracão, nós também não temos espaço para fazer plantação, então nós compramos nos mercados e feiras.

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do Terreiro de Mãe Emilia, da Fucabeam

do Terreiro de Mãe Emília, da Fucabeam

Nós, da Fucabeam, enfrentamos uma resistência muito grande das próprias pessoas do culto em se filiar, em se envolver para dar uma opinião, a ajudar os próprios irmãos, e sobre os fundamentos da religião, temos um preconceito muito grande no interior da religião no que se refere à hierarquia, alguns porque tem dois, três anos não querem respeitar os mais velhos na religião. Nós temos muitas dificuldades também nas instituições, em acesso a hospitais. A pessoa às vezes precisa de uma visita espiritual; nós temos muitas pessoas da igreja católica, de igrejas evangélicas, mas não vemos pessoas das religiões afro, um pai de santo, um babalorixá. Um exemplo, faleceu um irmão de santo nosso aqui do terreiro da Mãe Emília, e quando ele ainda estava no hospital, ela pediu pra eu ir visitá-lo, como ele estava na UTI, a médica não quis passar nem informação sobre o estado em que ele se encontrava, pelo fato de eu dizer que era irmã de santo dele. Então ela achou que eu não tinha valor nenhum, que só a família biológica tinha direito de saber sobre a saúde dele. Foi um preconceito muito grande com a nossa religião. Outro exemplo, quando a Mãe Emília foi abrir uma conta na Caixa Econômica, o gerente, só de saber que a Mãe Emília estava abrindo para a Fucabeam, ele pediu 5 mil reais para abrir a conta. Esperamos que com essa Cartografia, as pessoas venham a conhecer e se envolver mais com a religião. Nós, da Fucabeam, esperamos um reconhecimento tanto dos governos quanto das outras pessoas de outras religiões. Esperamos há muito tempo para fazer uma área verde para os orixás, o projeto do Parque dos Orixás, que todos os pais de santo, mães de santo pedem para que sejam feitos os trabalhos. Como todos estão vendo, aqui no terreiro de Mãe Emília há uma área verde muito grande, de modo que a maioria das ervas que precisamos para cura, para obrigações são retiradas daqui mesmo. Quando nós temos aqui, compramos ou falamos com um irmão que tenha.

Pai Edson de Codoense

Pai Edson de Codoense

A sociedade conhece pouco da religião afro-brasileira. Então ela prejulga e julga. Acredito que grande parte do preconceito que sofremos vem do desconhecimento da sociedade. A partir do momento que a sociedade conhece, ela passa a quebrar com os preconceitos. Eu não quero apontar o dedo, mas quem fez esse preconceito, ele vem da época da colonização do Brasil. Com a chegada da reliugião católica. Com a chegada dos escravos, trazendo a religião africana para o Brasil, fomos atacados pela sociedade portuguesa da época, e até hoje isso vem se arrastando. Que a sociedade vá conhecendo um pouco da religião, para que vá diminuindo o preconceito e a discriminação. Não temos nenhum espaço na mídia, não tem um canal de televisão, uma emissora de rádio onde se mostre um programa sobre as religiões afro. O espaço na mídia é muito restrito, temos apenas algumas revistas, alguns sites. Por incrível que pareça, mas a mídia só procura um zelador de santo, um sacerdote, os babalorixás no final do ano para prever o futuro do ano seguinte, fora isso não temos espaço. Essa Cartografia vai servir como um meio de transporte, como um meio de divulgação, vai levar para outras pessoas o que realmente acontece nos cultos afro-brasileiros. A Cartografia deve servir de elo entre os cultos afro-brasileiros e a sociedade. Quanto às ervas que usamos, existem em quase todas as feiras e mercados boxes especializados nessas ervas curativas e para as obrigações. Mas sempre tem algumas ervas que nem é possível plantar na nossa região, devido ao nosso clima tropical. Colocamos aqui o nome de algumas ervas que utilizamos no dia-a-dia; elas tem o nome científico, mas colocamos aqui os nomes populares: a corama, a babosa, o crajiru, a fruta do abacaxi, o limão, o boldo, o pobre-velho, a canela, a papoula, sacaca, jurema, mastruz, o leite-do-amapá, a raiz do açaizeiro, a imbaúba e muitas e muitas outras ervas.

Cartografia 12 por você.

Ao final, várias pessoas fizeram suas considerações, e tomamos as sábias palavras de Mãe Emília, que fez a avaliação dessa segunda reunião da Cartografia.

Hoje foi um dia pra nós muito bom, muito aproveitável de tudo aquilo que foi feito. nós escrevemos, nós falamos sobre o preconceito e essas coisas, foi ótimo, maravilhoso. Então pra mim foi um grande dia, foi um grande objetivo que nós enfrentamos e tamos conseguindo, realmente a gente fez aquilo que a Fucabeam precisava fazer, sobre o preconceito, a luta, a batalha. Estamos mais de seis anos batalhando, estamos realizando exatamente tudo aquilo que a Fucabeam precisa fazer. Esse projeto que nós temos, já entregamos no governo, o nosso santuário sagrado, tudo isso a Fucabeam realiza. A escola das crianças que nós temos aqui de futebol, dos meninos de rua, tudo isso, dos colégios. Tudo isso a Fucabeam, nós estamos conseguindo botar tudo em dia, não só a vida espiritual, mas também a vida social do povo que procura esta casa em busca de tudo pros seus filhos, pras suas crianças. Tudo aquilo que nós pensamos nós estamos conseguindo.

NOITE DE CURA COM SEU ZÉ PELINTRA NO TERREIRO DE MÃE GRAÇA DE XANGÔ

Eu vou falar pra vocês

Quem chegou no congá

É Zé Pelintra das Almas

Que veio de longe para trabalhar…

Segunda-feira à noite fomos até o terreiro de Mãe Graça de Xangô, que fica lá na rua Visconde de Utinga, no Parque das Laranjeiras, em frente ao Conj. São Judas Tadeu. Era mais uma noite de cura. Mãe Graça e os filhos da casa haviam trabalhado muito, os banhos estavam preparados, as comidas para os ebós estavam prontas e arrumadas. E logo bem mais de uma dezena de pessoas já se faziam presentes para pedir e receber as bênçãos de Seu Zé Pelintra, que baixou no terreiro alegre, cantando e dançando, para ajudar todos que buscavam o seu auxílio. E vieram também outros cabocos, como Seu Boiadeiro, que baixa em um dos filhos de Mãe Graça.

E como a noite já ia alta, Seu Zé Pelintra começou os trabalhos. Primeiro, ajudado por um de seus filhos, ele preparava um banho para cada uma das pessoas que iam ter com ele. Após o banho, ele ouvia atenciosamente a pessoa, aconselhava, apontando caminhos ou advertindo de passos falsos que a pessoa anda cometendo, depois rezava e finalmente mandava que a pessoa fosse com Deus, dando a ela um banho ou recomendando outros trabalhos.

E aproveitamos um dos poucos momentos possíveis, enquanto os últimos preparativos dos ebós estavam sendo realizados, para ouvir as sábias palavras de Seu Zé Pelintra, sobre sua história na cabeça de Mãe Graça, sobre seu trabalho e sobre as curas que ali estavam sendo efetivadas:

Eu sou um caboco, nasci pequenininho na África, vim pro Brasil, me criei em Pernambuco. Em Pernambuco eu fui um homem muito mau, fui malandro, fui pilantra, cachaceiro, mas fui médico, e hoje em dia na cabeça dessa filha eu sou advogado. E sou médico, médico do catimbó. Rei do catimbó. Pelintra quer dizer “malandro”, por causa da minha malandragem. Na cabeça de Dona Graça eu vou fazer, dia 10 de dezembro, 49 anos que eu trabalho na coroa dela.

Hoje eu estou nesta casa atendendo, você viu a quantia de gente que eu já atendi, só fazendo o bem, não peço dinheiro. Peço só o material, porque eu não posso tirar… Eu sei que a Dona Graça é uma médica, mas eu não posso tirar o dinheiro dela pra dar o material; dou trabalho de graça, mas o material a pessoa tem que assumir.

Hoje eu estou fazendo dois ebós importantes: um é de um homem que tem mais de 20 anos que não arranja emprego, e eu estou abrindo os caminhos dele para arranjar um emprego. Com o ebó que eu estou fazendo hoje, com o poder de Nosso Senhor do Bonfim, o poder das minhas almas, porque eu sou um espírito que já morri. Sou um anjo decaído, não sou salvo. Ando atrás, buscando a minha salvação, porque eu fiz muita coisa errada. Hoje em dia, quando eu estou em cima da cabeça de uma sacerdotisa, eu peço a ela que reze, reze e procure fazer o bem, pra mim evoluir e ela também; porque se uma mãe de santo faz o bem, ela só tem a ganhar de Deus. Agora, se faz o mal, tanto vai destruindo o meu espírito e a pouca luz que eu tenho, e destruindo também as outras pessoas.

Aqui nessa casa de Xangô, Obá Tundegi, minha filha é filha de Xangô, com Oxum, feita no Candomblé, na nação Keto. Eu venho na Umbanda, que foi dada pelo babalorixá que fez ela. Ela já foi batizada na Umbanda, Umolocô, Mina Nagô, e hoje em dia ela é raspada no Candomblé. Ela está fazendo no dia 10 de dezembro 49 anos de santo raspado e que eu abaixo na coroa dela. Eu sou na vida de Dona Graça um guardião, o chefe da coroa dela é José Rei Tupinambá. Ela foi raspada com 7 anos de idade na África, e morava em Fortaleza, lá ela teve um terreiro, em Santarém ela teve um terreiro, todo mundo conhece ela como Graça de Xangô. Em Santarém ela curou muita gente, tem prova, tem jornal meu, eu já tive em várias televisão, já passei até pelo Fantástico. Já dei muitas entrevistas. Agora, é como eu digo, quem sou eu pra falar de mim a não ser meus clientes. Faço tudo pra agradar todo mundo, já curei paraplégico, já curei cego, e tenho prova disso. Hoje eu tô tirando a chave de uma pessoa que tem todos esses anos sem trabalhar. Você já pensou o que é um ser humano ficar tantos anos sem trabalhar? E daqui a 21 dias o senhor pode passar aqui que o senhor vai receber a notícia de que esse moço arranjou um emprego. Vou hoje abrir os caminhos dele, porque essa casa não faz o mal, só faz o bem. Quem vier aqui pedir pra eu fazer o mal, eu mando se levantar da minha mesa…

Com a mesa dos ebós já completamente preparadas, não havia mais tempo para conversa.

Logo os chumaços de pólvora foram acesos, as três linhas dadas ao cliente e as comidas despejadas em seu corpo para abrir seus caminhos, trazer emprego e tudo mais necessário a lhe trazer uma vida melhor.

E depois dos ebós os banhos e rezas continuaram, como no caso de M. P. S., que há mais de 10 anos recebe bênçãos de Seu Zé, resolvendo seus problemas conjugais curando de doenças que estavam destruindo seu corpo, arrumando trabalho, melhorando sua situação financeira, tanto que ela entrou para a religião e hoje, com um novo marido, que também é da religião, vive feliz com a ajuda de Seu Zé Pelintra.

E a madrugada já ia embora quando ele atendeu Ana Cláudia, uma jovem e bonita moça que havia ido a primeira vez no terreiro, apenas para acompanhar uma amiga, mas admirada com a sabedoria de Seu Zé, também resolveu ouvir suas palavras. Ele esclareceu algumas situações amorosas, familiares, financeiras e outras mais que andam atordoando a moça, que, vendo a força e a verdade de suas palavras, agora também irá ser tratada com seus trabalhos.

Saímos do terreiro gratificados de ver a autenticidade da religião e Seu Zé Pelintra, esse caboco festeiro, alegre e curandeiro, continuava, incansável, a distribuir suas bênçãos, como ele mesmo diz, até a última pessoa que acredite e necessite de seus serviços…

PRETO VELHO PAI FUGÊNCIO NO TERREIRO DE PAI FRANCISCO

Eu vi cantar, eu vi cantar um rouxinol

No galho de uma roseira

E no seu canto ele dizia:

Queremos Pai Fugêncio em nossa companhia

Clique nas fotos para ampliá-las.

Mais uma vez fomos ao famoso Morro da Catita, na rua Santa Júlia, ao Centro Umbandista Recanto de Cabocla Mariana ou, como é conhecido, o terreiro do Pai Francisco, o qual estava organizado com simplicidade e encanto em cores e odores para receber os filhos e convidados para uma festa de aniversário de nove anos em que o Pai Fugêncio baixa em sua cabeça. E quando os tambores dos ogans e o xeco-xeco de dona Josefa soaram ritmados, a melodiosa voz de Pai Joel de Ogum tomou conta do terreiro…

Eu vi mamãe Oxum na cachoeira

Sentada na beira do rio

Colhendo lírio, lírio, lê

Colhendo lírio, lírio, lá

Colhendo lírio pra enfeitar nosso congar

O lírio é papai, o lírio é mamãe

O lírio é pra enfeitar nosso congá

E nos pontos entoados como deve ser um bonito e autêntico terreiro, logo o velho ex-escravo Pai Fugêncio baixou para abençoar, distribuir suas curas e compartilhar afetuosamente sua sabedoria com todos os presentes.

Vamos bater a cabeça

Em nome de Pai Oxalá

Para salvar o nosso terreiro

Para salvar o nosso congá

Boa-noite a todos, vamos cantar, vamos elevar nosso pensamento a Deus. Tá tudo muito bom. Harmonia, paz, sossego no caminho. Hoje é minha era, hoje eu tô fazendo nove janeiros no cabeçueiro de meu filho. Nove anos de trabalho. Trabalho, fundamento, tirando feitiço, trabalhando muito. Eu quero paz. Todo mundo bonito, todo mundo formoso, todo mundo baiando… Então, meus filho, Preto Velho são umas entidades muito bonitas, muito formos. É muito difícil você encontrar hoje um baiador de Preto Velho. Os Preto Velho são abandonado, mas quando tá com a bunda no chão, vai procurar Preto Velho. Eu agradeço a todos, os meus netos de santo, as pessoa que viero prestigiar esse toquizinho; agradeço a todos médium, Pai Joel, os filhos daqui da casa. Eu tô muito agradecido, tô muito feliz dessa data hoje em dia. Pra mim não importa casa cheia. O que importa é que vocês tão aqui com nego véio. Eu quero é que os filho cante com vontade. Isso aqui é nosso, isso daqui é pra nós. Então eu agradeço a todo mundo, os oganzinhos ali. Tem feijoada pra comer, tem bolo, tem guaraná, tem espumosa. Esse dia de hoje é muito maravilhoso pra esse velho. A primeira vez que eu virei na cabeça desse moço, o bichinho não tinha nada, mas nós cuidamos dele, tamo cuidando dele até hoje. Graças a Deus, meu filho tem tudo. Riqueza, riqueza pra quê? Riqueza vai embora. É melhor você suar, ganhar o seu pão de cada dia.

E logo outros pretos velhos vieram acompanhar Pai Fugêncio, participar de seu ‘baiador’ e também compartilhar com os presentes sua sabedoria. Assim baixaram Pai Benedito e Vovô Congo.

Vovô não quer casca de coco no terreiro

Vovô não quer casca de coco no terreiro

Pra vovô não se lembrar do tempo do cativeiro

Pra vovô não se lembrar do tempo do cativeiro

E chegou a vez da Mãe d’Água Roxa preencher o espaço e animar a festa com sua potente, estridente, magnífica voz e seus movimentos contundentes, puxando pontos que demonstram toda a resistência dos escravos nos tempos da escravidão dos negros que, infelizmente, continua no preconceito que sofrem.

Seu doutorzinho quer que chame de doutor

Seu doutorzinho quer que chame de doutor

É duvidoso, cativeiro acabou

É duvidoso, cativeiro acabou

Branco sabe ler, também sabe escrever

Só não sabe dia em que morre

O preto é quem vai dizer!

E veio Exu Marabô, com sua imponente presença e sua voz cavernosa, trazendo um colorido especial à festa em sua camisa vermelha.

Direto das florestas das épocas de colonização brasileira, os índios guerreiros Seu Flexeiro e Seu Ubiratã.

E veio o marinheiro Daniel, e os belos pontos das águas distantes…

Eu não sou daqui, sô marinheiro

Eu não tenho amor, sô marinheiro

Eu sou da Bahia, marinheiro só

De São Salvador, marinheiro só

Ô marinheiro, marinheiro, marinheiro só

Quem te ensinou a nadar, marinheiro só

Foi o tombo do navio, marinheiro só

Foi o balanço do mar, marinheiro só

Lá vem, lá vem, marinheiro só

Ele vem faceiro, marinheiro só

Todo de branco, marinheiro só

Com seu bonezinho, marinheiro só…

Para animar mais ainda a festa, baixou o famoso malandro Zé Pilintra…

Saravá seu Zé Pilintra, moço do chapéu virado

Na direita ele é maneiro, na esquerda ele é pesado

Cuidado, meu camarada, não meta a mão na cumbuca

Quem mexer com Zé Pilintra vai ficar lelé da cuca

Sou filho de Zé Pilintra, tenho que me orgulhar

Pra se livrar da mandinga carrego meu patuá

E assim continuou com a vinda de muitos cabocos que vinham compartilhar seus pontos, seu humor e sua sabedoria:

Caboca Jacira e Pai Joaquim…

Dona Joana Gunça e Pai José…

Seu Zé Malandro e a dona da casa, Dona Mariana…

Se a rádio-patrulha chegasse aqui agora

Seria uma grande vitória

Ninguém poderia correr

Agora que eu quero ver

Quem é malandro não pode correr

No rio Negro, mururés viraram flores

Na mata virgem sabiá cantou

Ela é a cabocla Mariana

A bela turca que aqui raiou

E assim continuou, bela e alegre como tem que ser, até o sol raiar a magnífica, animada, abençoada festa para Preto Velho Pai Fugêncio no terreiro de Pai Francisco. Saravá!

TOQUE PRA OGUM BEIRA-MAR NO TERREIRO DO PAI JOEL

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E novamente o terreiro de Pai Joel estava arrumado para mais um toque pra senhor Ogum Beira-Mar, o guerreiro, o abridor de caminhos. Enquanto os rapazes esquentavam os tambores, Pai Joel e Pai Francisco nos falaram sobre várias questões envolvendo as religiões afro, que estão distribuídas adiante. Começando com Pai Joel, a respeito desse toque, ocorrido no sábado passado.

Hoje vai ser um toque em louvor a Ogum Beira-Mar, que é o meu orixá da frente dessa casa, que vem sempre me proporcionando muitas coisas boas nesse ano. E há de se louvar ele no dia dele. Foi arriada obrigação agora no dia 23, que é o dia dele, com a presença de Pai Francisco, que é o meu pai de santo, que eu passei pra linha dele agora. Eu vim do Candomblé, e agora estou passando, já estou no fundamento dele. Vamos fazer um toque simples, humildemente, como a Umbanda, a Umolocô é, para as pessoas daqui de casa e outras próximas daqui.

Pai Francisco, então, falou sobre algumas especificidades de Ogum e das relações das religiões afro-brasileiras.

Esse toque pra Ogum Beira-Mar, que reina nas águas, é também pra todos os oguns, Ogum de Ronda, Ogum Humaitá, Ogum Sete Ondas. O toque é pra Ogum Beira-Mar, mas ele não vai virar; quem vai virar é o escravo que responde a ele. Seu Ogum só vira quando se vai fazer um bori, a saída do filho de santo. A gente aqui vai louvar a ele, e quem vem é a entidade que presta serviço a ele. É diferente do Candomblé, mas é o mesmo Ogum, só o que muda pra Umbanda são as catulações. No Candomblé ele já vai virar diferente, porque é uma nação. Mas onde tem Umbanda tem Ogum, porque ele é caminho, é ele que abre os caminhos. Todas as entidades tratam as pessoas muito bem, elas são do além, elas vêm pra suprir as necessidades do ser humano aqui na terra tá com maldição, tá com problema. Elas vêm trazer um pouco de alegria, tirando o peso de cima das pessoas. E é como Joel disse, ele passou pra minha linha, onde é tudo bonito, tudo formoso. A gente tá lutando pra ver se endireita as linhas, porque as linhas estão muito cruzadas, pra ver se as pessoas acreditam mais na nossa Umbanda. A nossa Umbanda está muito desacreditada por causa das pessoas que passam trote, enganam. Eu não aceito essas coisas, porque o santo é verdadeiro.

O senhor Cardoso, com seu vozeirão, falou, então ao público presente, puxando um Pai Nosso, para começar o toque.

Muito boa noite a todos. Peço primeiramente que todos nós façamos uma reflexão sobre tudo aquilo que nós passamos no dia-a-dia, as nossas atitudes, certo ou errado, que possamos fazer um exame de consciência, procurando corrigir, agindo melhor em todas as circunstâncias, para que nós possamos evoluir, aperfeiçoando-se numa harmonia em qualquer lugar que nós formos.

Caboca Brava Caboca Ita

Dando continuidade à conversa com Pai Joel, ele falou também sobre os trabalhos realizados por senhor Ogum Beira-Mar.

Seu Beira-Mar, ele tem estrada, ele é caminho, abertura de caminho. As pessoas que têm os caminhos presos, que não prosperam, Ogum está aí pra responder, pra abrir os caminhos e não deixar nenhum filho desesperado, não. Ele veio aqui pra terra por tudo isso aí. Ele veio abrir os caminhos de todos os filhos dele, com muita fé, com carinho, com toda a força que a Umbanda tem, e todas as outras linhas também, acima de tudo Deus e a nossa fé em conseguir prosperar com a vida. Eu estou engatinhando ainda, e pretendo melhorar cada vez mais com a energia que a Umbanda tem.

Caboca Jacira

E olha quem é o escravo de Ogum que viraria, conforme Pai Francisco falou, nada menos do que o alegre e festeiro Zé Malandro, que este bloguinho já conhece da festa passada no terreiro de Pai Joel.

Dona Mariana

Depois, Pai Joel passou a analisar e sugerir propostas para organização para que as religiões afro venham, na prática, a participar como religiões autênticas, uma vez que existe a liberdade religiosa e a pluralidade cultural garantidas constitucionalmente.

Mas não só eu, mas todo o pessoal, organizar mais a federação, procurar visitar os barracões. Quanto mais a gente se unir, mais as coisas vão dar certo, o próprio governo vai ter de dar uma orientação boa no respeito à religião. Aqui em Manaus você é discriminado, muito discriminado. A gente respeita todos, católicos, os evangélicos, eles também têm de respeitar a gente. Nós somos seres humanos igual a eles, somos diferentes apenas pela opção da nossa religião. A federação tem de agir nisso: o que tá errado? O que a federação pode fazer pra melhorar? Tem outros estados onde tem curso de fundamentos, como no Maranhão, Piauí, tem escolas de Umbanda no Rio de Janeiro, escolas de Candomblé, cursos sobre a língua yorubá, sobre folhas, pra ti aprender as qualidades de folhas. É uma faculdade, para as pessoas terem uma melhor formação, está faltando em Manaus uma escola tanto para o Candomblé quanto para a Umbanda. Até mesmo para se defender. Vem os evangélicos e, para ofender, chamam a gente de “macumbeiro”. Você sabe o que é macumba. “Venha cá, você sabe o que é ‘macumba’?” Ele não conhece, parece que eles chegam na igreja, dão uma lavagem cerebral neles, aí saem querendo ofender as crenças dos outros. Como é tudo desorganizado, cada um por si, vem gente, como aquela mulher que deu um golpe de quase um milhão, que saiu na televisão, aí a religião fica desacreditada. A gente tem que se reunir, se organizar mais — federação, terreiro; terreiro, federação — pra poder evoluir numa corrente só.

UM XIRÊ NO ILÉ AŞÉ DO PAI FRANK DE OBALUAÊ

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No sábado passado, as folhas de acocô estavam no centro do barracão de Pai Frank de Obaluaê, situado à rua 26, n°66 II etapa do São José II, para a saída do yaô Adriano da Oxum e a obrigação do ogan Gladison de Obaluaê.

O convidado para puxar o xirê foi nada menos do que o renomado Pai Ribamar de Xangô, do centenário Seringal Mirim, o qual, com seus conhecimentos, é sempre impecável nas rezas e danças para louvação dos orixás.

Nos aproximamos de Pai Ribamar para perguntar sobre o Seringal Mirim, pois ouvimos falar que fora tombado como patrimônio histórico, o que já conversamos na entrevista que publicamos aqui no bloguinho, haja vista a importância histórica desse barracão. Infelizmente ele não confirmou, e ainda acrescentou o que todos os adeptos e simpatizantes das religiões afro-brasileiras sabem: que um preconceito muito grande para com estas religiões. Pai Ribamar nos falou que vai construindo como pode, praticamente sozinho, e que estaremos convidados para a reinauguração da casa, assim que estiver pronta. Com certeza estaremos lá!

E logo vieram as quatro saídas do Dofono de Oxum Adriano. A primeira, a saída de Oxalá:

A segunda, a saída de ocodidé:

A terceira, a saída do oruncó, o nome, o nascimento do orixá. Para padrinho de santo Pai Frank convidou seu sobrinho de santo, Fábio de Oxalufan:

E a quarta, a saída de luxo, quando o orixá sai para dançar no salão, com suas roupas e suas paramentas:

Juntamente com Oxum saiu Logun Edé. Pai Frank é quem explicou-nos que esta saída ocorre porque Logun é filho de Oxum. Quem saiu foi seu neto de santo, André de Logun Edé, que é filho do babalorixá Bosco.

Em seguida baixaram Obaluaê e Ogun respectivamente em Pai Frank e Pai Bosco. Pai Bosco veio trazer o ogan Gladison de Ogun, para pagar as obrigações dele de um ano.

Quando Obaluaê já chegava na Terra, segundo a explicação de Pai Frank, saiu Jonas de Oxumaré com o deliciosíssimo lelê, a comida sagrada dele; mas depois retornou ao quarto de santo pra poder Obaluaê sair com Ogan e Ogun.

Depois que Obaluaê já havia dançado e comido, ele trouxe Oxumaré novamente para o salão.

E Obaluaê ainda voltou no final para suspender a ekédi Wilmara de Iansã.

Para confirmar o preconceito e a perseguição que as religiões afro sofrem, talvez impressionado com o vigor da música dos atabaques, as rezas autênticas do Candomblé da casa de Pai Frank, ainda apareceu um rapaz de uma denominação cristã para distribuir um panfleto e tentar provocar os presentes, mas saiu mais que apressado frente aos argumentos de Pai Gilmar.

Mas a festa continuou bela e calorosa no culto aos orixás. E finalmente saiu Oxalufan, completando o magnífico xirê na casa de Pai Frank de Obaluaê.

Ao final Pai Frank conversou conosco, falou da festa e da forma como sente e vivencia o Candomblé e sobre o ocorrido com o rapaz pentecostal:

Sempre ocorre isso, até porque a minha casa está situada no meio deles, atrás, na frente, de um lado e do outro, todos são evangélicos. A casa já recebeu ataques, como pedradas, já foi denunciada na Sedema, já vieram até fiscais aqui querendo levar os atabaques, mas não pode levar. Nós somos respaldados pela Constituição. Nós somo livres, estamos num país livre. A maioria dos barracões sofre ataque dos evangélicos. Mas, independente disso, a gente vive em função do santo, a gente não pode deixar cair a bandeira dos orixás. Eles não entendem que os orixás são partículas de Deus. Eles querem monopolizar a palavra de Deus. Eu digo sempre pros meus filhos que o Candomblé e as outras religiões são os braços dos rios. Eu não acredito que Deus seja egoísta. Eu comparo Deus ao mar. Por que ao mar? Porque ele abrange todo o planeta, de lugar pra lugar ele muda de nome, mas é uma água só, e todos os rios correm para o mar. Eu comparo os rios às religiões e Deus, ao mar, todas as religiões que estão realmente vinculadas a um culto de amor porque o culto dos orixás é um culto de amor, principalmente a Natureza. Então, todos os rios correm para o mar. Só que os evangélicos não entendem isso, eles não entendem que Deus não seria egoísta de deixar um só caminho pra tanta gente no mundo todo. Ele deixou vários caminhos para chegar a Ele, porque Ele é um Deus de amor. E o Deus deles é o mesmo nosso Deus aqui, só que a gente muda de nome porque nós somos afro-descendentes. O nosso Olorun é o mesmo Deus dos católicos, o Jeová dos evangélicos. Tudo acaba sendo uma coisa só. Entenderam?

CONVITE CADOMBLEZÍSTICO

.“Festa dos Orixás”.

.no Ilé Aşé do Pai Geovaņo de Ajagùnnọn.

Atenção comunidade do Candomblé, Umbanda, Umolocô, Mina Nagô, cultuadores e simpatizantes das religiões afro-brasileiras de Manaus, do Brasil e do Mundo, Pai Geovaņo de Ajagùnnọn e seu Ilé convidam todos para participar da Festa dos Orixás. Para quem já participou ou conhece aqui pelo bloguinho intempestivo a beleza das festas públicas das religiões afro, esta com certeza será uma festa de beleza indescritível, na qual serão tocadas as rezas de todos os orixás, que vestirão a sua roupa no salão e comerão sua comida. Com a presença de vários babalorixás conhecidos e respeitados em todo o país. Imperdível! Compareça com seu axé e receba as bênçãos de todos os orixás.

Local: Rua Belforroxo, s/n — Jorge Teixeira IV (Manaus-AM).

Data: Amanhã, sábado, 05 de abril de 2008.

Horário: a partir das 18h.

Contato: 3682-5727 //3638-7472 //8111-5335

PUXADA PRA PAI FUGÊNCIO NO TERREIRO DO PAI FRANCISCO

Numa noite linda que tinha luar

Preto-Velho orou a Zambi pra cativeiro acabar”

Fomos na noite de quinta-feira passada para uma “puxada” para o preto-velho Pai Fugêncio, no terreiro do Pai Francisco, lá no Morro da Catita, Zona Leste de Manaus. Antes de iniciar, Pai Francisco explicou-nos o que era uma “puxada”. Pai Fugêncio baixaria, pitaria o seu cigarro, faria algum trabalho que houvesse, mas não haveria os pontos todos e a roda como ocorre num ritual de “toque”. E quando o preto-velho baixou, conversador como é, pudemos falar com ele sobre diversos assuntos, que remetem não só à religião, mas também à forma de como os negros eram violentados no Brasil e na América e das resistências e as adaptações que precisaram fazer para preservar o seu ser. Assim, juntamente com as conhecidas formações quilombolas e sua luta contra as violentações coloniais, temos as tradições culturais dos negros que perduram, apesar de, como bem observa o sábio preto-velho, o preconceito também perdurar. Mas aí vão algumas fraternas palavras de Pai Fugêncio para amolecê-las e deixar passar a liberdade, a diferença e a pluralidade…

DAS VIVÊNCIAS DO PRETO-VELHO PAI FUGÊNCIO

Meu nome é Pai Fulgêncio, um dos preto velhos mais novo que tem na Aruanda. Sou mestre de casa, mestre de corrente. Trabalho muito com os meus irmãos que são outros pretos véio. E eu tô na cabeça desse moço já faz 12 anos agora em maio. Trabaiando muito na cabeça desse moço, dando resultado nos meu trabaio e sempre tratando as pessoas, os pecadores bem. Sou humilde, gosto de conversar, dar conselho, gosto de iluminar o caminho do pecador que vem inté na casa da gente pra procurar uma luz, um caminho, uma determinação. Porque as vezes o pecador tá tão aflito, meus filho, vai em muitas casas e não tem esse afeto, não tem esse amor, a entidade não conversa, a entidade não fala nada, e nóis somo mestre. Então a minha casa é uma casa boa, é uma casa de paz, viu meus filho. Eu sou um preto velho, eu sou o mais novo da tribo dos velho, da senzala, do cativeiro, aonde nóis trabaiemo, aonde nóis apanhemo porque naquele tempo era assim. Os reis tinha muito escravos, muitos anos mil anos atrás. Então nóis trabaiava pros branco. Então eles precisavam de escravo pra trabaiá, pra botar as terras deles em funcionamento, os gados deles, as coisas deles tudinho. Então, meus filhos, nóis apanhemos muito. Nóis trabaiemo muito, nóis tinha que tocar jumento, nóis tinha que tocar vaca, era cabra, era tudo, ovelha. Nóis se levantava cedo, muito cedo. Nóis carregava de milho, de mandioca naquele tempo. O capacho do dono tava ali olhando; se num trabaiasse, apanhava. Olha só o tamanho da chibata de couro de boi, que dói, meu filho, dói muito. Então nóis semos um preto véio que sofremos, todos os preto velhos sofreram. Uns batiam muito, ficavam aleijados, outros derramavam sangue, outros quebravam braço, cuma essa preta velha que é a senhora Anastácia, que morreu amordaçada, como vocês podem ver que a boca dela tá tampada em ferro. Por que? Porque ela era contra a escravidão, era contra o que os branco fazia, o que os rei fazia com nóis. Então uma palavra que nóis dissesse lá, era tudo contra, meu filho. Ninguém tinha direito de nada, o nosso direito só era trabaiá. Cumê, cumia muito pouco.

Nosso Pai Oxalá, Deus, ele é o maior, ele é o supremo maior. Então ele já vinha habitando, já estava pra habitar. Então ele deu, ele transmitiu essa moça formosa, que é a Princesa Isabel. Ele mandou uma filha de Deus dele pra aforriá, dar a carta de aforria para nóis. Tirar nóis da escravidão, que nóis vivia, mas nóis, eu não sinto nenhum rancor, nenhum de nossos irmãos porque já foi muitos mil anos, né? Hoje nóis somos curandeiro, trabalhador, nóis cura, nóis vem na cabeça do médio pra curar, pra dar uma luz amiga pro filho, fazer santo direitinho. Então, meu filho, eu não tenho mágoa, nenhum dos preto velhos tem mágoa. Nóis se lembra. Quando a gente vê aqui na terra, no plano terreno, o pessoal se matando, é um derrubando o outro, é o outro tendo inveja porque tudo Deus deixou isso que não tivesse, mas como a carne é fraca, como o ser humano tem inveja do outro, aconteceu isso. Num era isso que Deus queria, Oxalá nosso pai, mas tá acontecendo. É gente desempregado, é gente passando fome, quantas mil pessoa num têm numa hora dessa sem comer. É muita gente, meu filho. Quantos velhinho num tão no hospitá, quantas criança já num cumeram uma hora dessa. Então tudo isso é uma coisa feia, uma coisa que dói, porque nóis temos sentimento, nóis temo alma, nóis somo alma, somo espírito. Nóis temos sentimento pelos pecador de terra.

DAS VIOLENTAÇÕES QUE PERDURAM: O PRECONCEITO RACIAL

Tem muito, muito preconceito. Num era pra ter preconceito, porque Deus quando veio ao mundo, quando veio na Terra, ele não distinguiu ninguém. Ele deixou a palavra dele clara na pedra onde ele pisou, na pedra onde ele escreveu. Só que com o passar dos anos, os tempos, os pecador já começaram a colocar outras coisas no livro, outras coisas na Bíblia que num é. Porque Deus tem muita coisa formosa, tem muita coisa que tá encoberta, que nunca foi revelado. No plano espiritual tem muita coisa que os pecadores num sabe, por isso tem muita gente que num acredita. E outras pessoas vão pela cabeça dos outros também. É muito preconceito. Hoje em dia, se o pecador é preto, ah! É porque ele é preto. Mas todo pecador tem seu valor. Pode ser preto, pode ser branco, pode ser o azul, pode ser vermelho, pode ser qualquer cor. Todos eles, todas essas sementes tem o seu valor. Agora a humanidade, as pessoas que num vê o valor em cima das pessoas, mas a pessoa tem valor em alguma coisa, ela tem coração, tem carne batendo dentro dela, não é pedra. Burro, que é burro, que é brabo a gente adestra, meu filho, por que o ser humano não pode se educar ele? Trabaia muito, mas ele vai se tocando, ele vai se firmando. Então hoje é difícil, o preconceito é muito difícil. Ah!, o fulano é isso. Aquele preto, ele não pode entrar na empresa fulano de tal porque ele tem aquela cor. Mas por que que não pode? Ele também não corre sangue nas veias dele, só por causa da cor? A cor morena, meu filho, é a cor mais segura da humanidade. A cor morena é a cor que mais custa envelhecer, é uma cor segura. Assim como você ou você tem uma cor bonita, formosa, são gente boa, gente que presta solidariedade pros outros, pros seres humanos. Quando o pecador presta essa seriedade do outro ser humano, os senhores tão fazendo coisa formosa aos olhos de Deus e Deus fica feliz com vocês e os Orixás. As entidades de vocês que vocês carregam, porque na minha frente tem dois filhos de Oxalá, um Oxalufã e um guiã, um oxalá velho e um oxalá novo. O Oxalá velho é um Oxalá muito solidário. Se ele tira a camisa do corpo é pra dá pro irmão. É muito meigo, gosta de ajudar as pessoas, não gosta de luxo, porque todo mundo tem seus gostos. Mas o Oxalá assim que é mais pra frente é o Oxalá Guiã. Filho de Oxalá Guiã gosta de festa, gosta de brincar, gosta de tá na bandaiera, porque puxou um pouco pro santo também. O Oxalá, quando ele andava no mundo, ele num só pregava não, ele brincava também, ele conversava com os discípulos. Oxalá velho não. Ele tem a qualidade do Oxalá do meu filho, é mais calmo, ele tem pena. Pecador pode tá ali enfiando a faca nele, mas ele tá com pena, mas aí Deus tá vendo né, meu filho?

DO TRABALHO ESPIRITUAL NECESSÁRIO

O meu trabalho que eu faço, meu filho, eu trabalho em todo lugar. Em todo lugar eu trabalho, eu trabalho no cemitério, no templo, cachoeira, dentro da cabeça, dentro do barracão, do templo. O único trabalho que a gente não faz muito é o trabalho pra maldade. Só se alguém mandar uma demanda pro nosso filho e nóis tem que se defender, aí nóis tem que pegar a demanda e jogar pra cima de quem mandou, porque também eu não posso ficar assim. Num tá fazendo nada, então por que que tá demandando? Então o único trabalho que nóis num faz é maldade, porque nóis tem força, tem poder pra fazer maldade. Eu faço cura, eu tiro bicho de pé, eu tiro bicho de canela, eu tiro bicho de coxa, de garganta, eu tiro bicho de toda parte do ser humano, porque eles mandam fazer feitiço pra tudo quanto é lado. Eu trabalho nessa área de tirar feitiçaria, tiro ebó de ecu. Ebó de ecu é um tipo de ebó que é só coisa ruim, é só aqueles bichão de dentro do cemitério. Porque muito bicho, muita coisa feia que quer acabar com o ser humano, que eles mandam pra fechar, pra acabar o pecador. Isso é um trabalho muito perigoso. Tiro feitiçaria, tiro ebó pra iluminar o caminho do pecador. O pecador chega com a gente: “eu tô sem trabalho”, “minha vida tá assim”. É, meu filho, então vamo vê o que que tá acontecendo. Aí eu vou ver o santo do pecador, eu vou ver quais são os oduns que regem na vida do pecador, porque o santo tem o odum negativo e se num tirá o odum negativo aquela pessoa num vai pra frente, nunca sobe. Ela pode fazer estrutura, estrutura, mas num sobe. Por quê? Porque não tiraro o odum. Então tem que tirar o odum negativo e deixar o positivo. Então nóis rezamo em criança, nóis rezamo em velhinho, nóis fazemo santo. Quando o pai de santo num qué fazer, a gente fáiz, faço cura. Todos esses trabalhos eu faço, só num faço trabalho de amor. Esse negócio de amor num é comigo. Amor é com dona Mariana, é com essas cabocas. Então trabalho de amor eu não faço, eu só faço trabalho pra cura. Gosto muito de trabaiá na cura pra ver o pecador feliz, ver o pecador bom. Olha, aqui eu já cuidei de gente que num tinha pé. Pai Fulgêncio, eu vou ficar bom? Você tem fé em Deus, meu filho? Tenho. Mas parece que num tem. Porque eu digo na cara do pecador, espírito num mente. Se Deus colocou o espírito na terra é pra falar a verdade. Assim mesmo, o pecador sem fé, sem acreditar, eu tiro o feitiço pra mostrar que o espiritismo é o espiritismo.

Eu digo, meu filho, eu vou fazer a minha parte. Vosmicê não tem fé, eu tenho fé e creio que sou um espírito e eu vou tirar isso de você. Aí, com o passar do tempo, os dias que eu vou trabalhado, o pecador começa a ter fé . Ele começa a vê que aquele trabalho está dando certo. Eles estava doente e está começando a ficar bom. Se ele estava sentindo uma dor, essa dor tá começando a sumir. Então ele vai começando a acreditar. Quando ele fica bom, ele acredita, porque tem muitos que não acreditam no espiritismo. Acham o espiritismo moda. Acham que o espiritismo é brincadeirinha. O espiritismo é uma coisa muito séria. É uma coisa que o pecador tem que entrar e saber sair. Então a pessoa nunca deve brincar com forças ocultas. Nóis tamo vendo, nóis somo isso, nóis somo essa fumaça que sai do meu cachimbo. Então muitas pessoas num acreditam e elas acabam acreditando com o trabalho que nóis tamo fazendo em cima deles. Eu trabalho há muito tempo aqui na cabeça desse meu filho e dando resultado.

DA INTRANSIGÊNCIA RELIGIOSA SEGREGADORA

Meu filho, eu não sou contra. Nenhuma entidade, nenhum espírito é contra a religião de ninguém. Quem é pastor, quem é crente, quem é irmã, quem é pastora. Nóis só lamenta e fica muito triste com as coisas que acontece. Chega um pessoal da igreja, entra, aí eles querem ver o que tem dentro da casa dos outros, num tem educação, porque a educação começa de casa. E aí quando esse pessoal chega eles começam a xingar. Ah, mas aqui é a casa do demônio! Que demônio? O senhores já viram o demônio dar alguma coisa pra alguém? Então eles se acham os salvos. Ninguém está salvo, meu filho. Pecador nenhum está salvo. Todos vão esperar a volta do homem, no dia do juízo finár. Ele vai vim e ninguém vai saber. Ele vai bater de porta em porta e quem é que vai dar um copo de água pra ele. Ele vai vim simples. E você sabe, se chegar um mendigo na casa do pecador, eles mandam logo chutar. Se chegar um barbudo velho na sua casa, quer dinheiro, manda ele pastar. É assim que eles fazem. Eles num sabem o que aquela pessoa ta passando. Às vezes é um aviso pra própria pessoa. Então isso é muito feio, isso é muito ruim. Eles xingam, eles debocham. Se o pecador pega santo na rua, eles jogam pedra. Tá fazendo uma sessão, eles atiram pedra. Então isso, meu filho, é uma coisa muito feia. Isso a gente não aceita. A gente tá indo, tentando. Nóis sempre conversa com os Orixá maior e um dia vai mudá, tá mudando, tá começando a mudar. Vai chegar um dia que os pessoal que são crente de outra religião vai ver que não é nada disso. Todos os pecador é espiritual. Claro, tem a Igreja Universár, lá dentro tem muita ovelha boa e tem muita ovelha ruim. Em todo lugar de religião tem gente boa e tem gente ruim. Tem gente que entra na religião só pra enricar. Religião não enrica ninguém. Enrica esses pecador daqui da terra que aí eles vão pra igreja e, olha eu quero 200 patacos pela fé, eu quero mil patacos pela fé. Deus não vende fé pra ninguém. Deus quer a fé própria. Ninguém compra a fé, a gente conquista a fé. Como é que um pecador pode lhe comprar? Ele não vai lhe comprar. Se você é uma pessoa de Deus, é um ser um ser humano que acredita em Deus, ele pode lhe dar milhões e você vai dizer não, primeiro meu caráter, primeiro meu nome, eu não vou me vender. Mas o que pode fazer se tem hoje em dia isso. Se o pecador vem e pega uma cuia dessa, olha, eu quero saber se tem alguma coisa de bom ou se tem alguma coisa quer comprá. Vai levar essa cuia? Num vai levar. O corpo vai pra terra e o espírito vai prum lugar onde ele vai esperar o último dia. Todos vamos ser julgados. Aí o pecador chega e ai, eu tô na igreja eu tô salvo. Não tá não. Fáiz tudo o que num presta, fala mal da vida dos outros. Você vai passando e olha, aquele preto, olha a roupa que ele veste, não tem nem coragem de comprar roupa pra ele. Mas num olha pra trás. Num olha pra trás que o rabo de palha tá pegando fogo. Aí deus castiga. O Orixá maior castiga. Aí eles bota a mão na cabeça e diz ô, meu Deus, o que foi que eu fiz? O que foi que eu fiz, sabendo o que foi que fez e ainda pergunta pra Deus o que foi que fez. O que se faz aqui na terra se paga aqui mesmo e o resto se paga no juízo final. Quem ele vai escolher pra subir com ele, as almas. É uma coisa muito feia, mas aqueles evangélicos que vem eu atendo, meu filho atende.

Aqui já veio até evangélicos ser cuidado e eu tratei muito bem. Tratei de uma evangélica que tava com um bicho na barriga e agora a moça tá bonita, tá bela, tá gorda. Ela era da finura desse bastão aqui, magrinha, magrinha porque o bicho tava dentro dela. E ela foi pro casaca branca [médico] e num dava resultado de nada. Então a moça veio porque ela quis. Consultei ela, olhei ela tudinho, dei uma olhadinha na vidência, coloquei a mão na barriga, e o bicho se mexia assim, o bicho andava. “Minha filha isso daí é um feitiço que botaram pra você, um trabaio que fizeram pra acabar com você”. “Tem jeito?”. “Tem, só num tem jeito pra morte”. E eu trabalhei pra moça e hoje a moça tá boa. Pagou meu filho direitinho, não explorei. Porque todos trabalho, meu filho, a gente tem que cobrar porque cansa muito a matéria. Nóis em cima da matéria cansa muito. Nosso trabalho é com a mente do filho. Nóis num somo cobra-reza. Se chegar um pecador, eu não tenho nada, quantas veiz eu e meu filho tirou dinheiro do bolso dele, obrigação material do bolso dele pra fazer. Muitas veiz. Passei aqui mais de três anos trabaiando de graça, fazendo caridade pra Deus ver a minha sabedoria que ele me deu e a sabedoria do meu filho, que ele aprendeu, porque ninguém nasce sabendo.

DOS MISTÉRIOS E NATUREZA DOS ORIXÁS

Então, meu filho, é isso que eu faço aqui, é doutrinando os médiuns, é fazendo o santo direitinho, é ensinando a partilha da Umbanda, que é pra aquele filho num ficar batendo cabeça de porta em porta. Então eu falo a verdade. E muitos pecadores não querem ajudar. Os pecador só querem saber da mentira. Mentira não dá camisa a ninguém, mentira só dá sofrimento, mentira só dá problema, mentira não levanta ninguém. É melhor falar a verdade que não vai ser castigado. Então é isso que eu faço aqui na minha casa. Ajudar o próximo, levantar a bandeira de Oxalá pra que nóis possa caminhar, no santo maior e dá caminho pro pecador. Nóis levantando essa bandeira branca: se Deus é por nóis, quem será contra nóis. Ninguém, meu filho, eles podem inté tentá contra vocês, contra meu filho, mas eles num consegue. E quando tiver na reta final, Oxalá dá a rasteira, porque ele é pai. Ele zela por todos filhos, ele zela pelo aleijado, pelo cego, ele zela por todos. Tudo nessa terra, ele deixou uma terra linda, inté os pássaros, os bichos de dentro da mata eles trabalham, eles caçam a própria comida deles. Eles semeiam a mata pra nascer mais árvore, pra dar mais fruto pra eles comerem. Porque se eles comerem o fruto da mara e não semear como é que eles vão viver? Num vive, porque eles vão comendo, vai acabando, vai morrendo, e aí? Então eles têm que comer, semear a mata, das semente que eles comem, daquilo que eles comem. Então vai crescendo outra mata e nunca morre, nunca vai morrer, porque são trabaiadô. Então aqui na terra o pecador destrói muito, o pecador destrói muito a natureza. O mar é bonito de se ver. Você entra dentro do mar, você se encanta. É muito mistério. É mistério dentro da mata, é mistério dentro da água, é mistério nas encruzilhadas, é mistério no templo. Tem muito mistério. O negócio é que os pecador num quer procurar, eles num querem saber. Eles só procuram quando tão com demanda, com a vida ruim, ou tão com problema, aí eles procuram. Mas num devia ser assim, mas vai fazer o quê? Então a gente deixa na mão de Deus e dos Orixás.

CONVERSAS DO TERREIRO DO PAI FRANCISCO

Fomos até o terreiro do Pai Francisco e enquanto caía uma chuva, com sua costumeira candura, o respeitabilíssimo Pai de Santo falou sobre diversos assuntos da religião Umolocô. Assuntos que dizem respeito tanto aos que comungam dessa religião quanto aos que simpatizam e querem conhecer, e também para aqueles que vêem nas religiões afro-brasileiras não somente um culto, mas resistência de uma parte de nossa cultura que sobreviveu na vivência, na luta de pessoas que ao longo de toda a história brasileira foram estigmatizados, sofrendo violentações físicas e epistemológicas por cultuar sua autêntica religião.

AS PRÉ-VISÕES: OGUM, OXÓSSI E OXALÁ

Vai ser um ano de muita fartura, um ano de muita coisa boa. Vai ter guerra sim, porque senhor Oxóssi é um guerreiro, senhor Ogum é um guerreiro, Oxalá é o maior, é o supremo, que é o nosso pai e que rege todos nós e todos os orixás. Então, vai ter fome, vai. Vai ter desgraça, vai. Vai porque onde tem coisa boa também tem desgraça, mas vai ter prosperidade, trabalho, muito amor. Muita luta das pessoas que não conseguiram atingir seus objetivos no ano passado. Vai ser um ano maravilhoso pra quem gosta de correr atrás. E a gente tem que ir na busca da nossa sobrevivência, do nosso respeito, da nossa justiça da bonança, do amor, da fartura, de tudo. Então isso foi o que deu nos búzios e nas cartas também. Muita guerra, deu que políticos vão se dar mal, vai ter muitos políticos corruptos, gente que vai enganar o povo. Então tudo isso cai, tudo isso acontece. Mas vai ter muita coisa boa, de união com o próximo. Um ano maravilhoso pras pessoas que vão atrás, gostam de axé, que gostam da verdade, que gostam das coisas boas. Então Oxalá, Oxóssi e Ogum, eles vão mandar esse ano todinho. Quem é filho de Ogum, vai ganhar muita coisa; quem é filho de Oxalá, muito mais; quem é de Oxóssi, também vai ganhar. Todas as pessoas vão ganhar. Aqueles que não são do ramo também vão ganhar, porque não é porque não são filhos de santo que não vão, mas quem é da cabeça é só correr atrás que vai conseguir seu objetivo.

TERREIROS E FALSOS TERREIROS

A minha casa é assim, é uma casa simples, mas é uma casa que tem força, é uma casa que as pessoas vêm todo dia: pra fazer trabalho, pra consulta, pra resolver problema, e eu também, que tenho meus problemas, deixo um pouco os meus de lado e vou ajudar os outros. As nossas entidades, elas ajudam a gente. Então a gente ajuda, fazendo bondade, fazendo cura. Quando mandam maldade pra mim, eu me defendo. Quando mandam alguma coisa pra mim, querendo acabar com minha casa, fechar minha casa, já teve muita gente que fez muita coisa, não sei por que. Nós somos simples, nós somos de cor, se tivesse um canal que mostrasse assim a nossa cultura, mas uma cultura bonita, porque tem muita gente aí que finge que está com a entidade, pra extorquir, pra enganar as pessoas. Então, daqui pra 2009, quem sabe Deus Oxalá, nosso Pai, nosso Pai Oxóssi, nosso Pai Ogum, nosso Pai Xangô, todos os orixás, nossa Mãe Iansã, nossa Mãe Oxum, nosso Pai Obaluaê, tem muita gente boa, que trabalha. Mas tem muita gente que só sabe meter o pau na gente: pecador chega, “olha, por quanto é que tu faz?”, “me dá 4 mil reais”. Aí a pessoa vai dar o jeito dela, às vezes vende casa, tira o dinheirinho dela do banco, mas não tem êxito naquele trabalho. A gente pega a fama por causa dessas pessoas. Aí as pessoas já ficam desacreditadas, elas não querem mais procurar um terreiro pra se cuidar; às vezes a pessoa tá com um feitiço, mas a pessoa já andou tanto, que ela acaba procurando a igreja, ela prefere procurar a Deus. Deus tá vendo aquela situação, mas lá não é o lugar dela ser curada. É preciso procurar uma religião espiritual pra tirar aquilo. Já veio muita gente aqui, “olha, eu tô assim, me desenganaram”, “senta aí, minha filha, te acalma”, vou conversar tudinho, como já veio várias pessoas aqui com coisa feia, com bicho na barriga, bicho na garganta; agora tem uma moça que está com um ‘nozão’ deste tamanho na garganta; o bicho anda prum lado e pro outro; ela já foi na casa de uma mulher, a mulher faz dois meses que tá cuidando dela e nada. Ela disse que já gastou 2 mil com a mulher. Tudo isso vai nos arruinando. Por que não saiu? Porque ela não estudou. Ela não procurou uma mãe de santo ou um pai de santo, um zelador de santo, pra estudar, pra entidade ensinar, porque a entidade sabe. Quando a gente não sabe, ela pula em cima da gente e ela mesma faz, ela mesma cura. Às vezes eu não sei uma folha, mas minha entidade, que é da mata, da água ou da encruzilhada, ela sabe. Eu não sei, mas ela sabe. Ela incorpora e vai cuidar da pessoa. E deixa pro filho, “olha, eu cuidei dessa pessoa assim, o material foi esse e deixo pro meu filho, que pra ele aprender”. Tem muita gente, “ah!, eu abro uma casa”, eu digo, “gente, barracão é uma coisa divina, é uma coisa fina e muito perigosa”, pra você montar um barracão, você precisa passar por uma feitura, você primeiro tem de passar pelo mandamento, você tem de passar por um bori, por um obi, por um amanci de santo, um amanci de ervas daí que você vai se elevando espiritualmente, você fica deitado um mês com seu santo, aí sim, você vai estar aprendendo, porque ninguém nasce sabendo, você aprende comigo, eu aprendo com você, tem coisas que você sabe que eu não sei. O coração dos outros é terra que ninguém anda, e nem a mente; a mente das pessoas, o espírito, ele só consegue pegar as coisas quando você tá pensando naquela hora, aí ele capta rapidinho o seu pensamento, então se ele viu você em alguma ocasião, se alguma entidade reconheceu você, “olha, eu lhe conheço de algum lugar, já lhe vi aqui”. É uma coisa muito bonita, muito maravilhosa.

UMA NOVA ASSOCIAÇÃO

Na minha casa eu sempre tenho cliente, eu trabalho direto, eu corro pra ali, eu corro pra cá, aí eu vou construindo devagarzinho, porque a gente não tem apoio da federação, a gente não tem uma federação que dê apoio pra gente, a federação é só pra arrecadar a graninha e encher o bolso dos pais de santo, não é todos, mas têm muitos. Agora nós estamos entrando numa associação, com a Dona Helena, aqui da Cidade de Deus, o Gilmar, que é uma pessoa de luta, tá pegando o nome da gente, porque a federação é pra arrecadar dinheiro pros terreiros, algum filho de santo que chega carente, porque tem muita gente que não tem dinheiro pra comprar uma roupa, não tem dinheiro pra fazer uma obrigação, chega filho de santo aqui que não tem nem casa pra morar. E quando chega aqui tem emprego, tem amor, tem casa pra morar, porque ele vai cuidar do santo, a gente se rebola daqui, se rebola dali. Todos os médiuns que vêm pra casa da gente não vêm bem, eles sempre vêm com problemas, ou de santo, ou de família, ou de amor, ou de feitiço, ou de alguma mazela.

POLÍTICOS NO TERREIRO: SEMPRE OS MESMOS

Os políticos são os primeiros a procurar a gente, quando está perto das eleições eles procuram logo os terreiros, “olha, eu te dô tanto, eu quero ganhar”; se é vereador, “olha, eu vou te ajudar nisso”, mas só que muitos deles mentem, aí a gente se mata de trabalhar, coloca as entidades pra trabalhar, dá aquelas oferendas todas, e quando ganham esquecem, mas só que eles não esperam o que vai acontecer, porque assim como as entidades dão, elas recolhem rápido, num piscar de olhos, por isso que muitos políticos se dão mal, é por isso que se descobre muito podre dos políticos, porque eles fazem pacto, dão muita coisa pra entidade pra ganhar pra presidente, governador, vereador, depois eles se esquecem, mas se é ela que induz aquele povo todo, até os que são contra, a votarem nele. Tem gente que não acredita que existem forças ocultas, mas como não existe se Deus é uma força oculta? Deus é espírito, ele não é carne. Ele foi carne, sofreu, morreu, pra mostrar pra gente ter um pouco de piedade, mas assim como existiam discípulos dele que eram ruins, como conta nas histórias dele que nós conhecemos, porque a verdadeira história a gente não sabe. A verdeira história de Cristo é por aí, mas falta muita coisa, muitos papéis sumiram na época dos nossos antepassados, muitas pedras sumiram. Assim como existem pessoas boas, têm pessoas levianas, que está com você e tá lhe traindo, a gente tá vivendo isso todo dia, meu filho. Então a gente tem de pular prum lado, pular pro outro, ver o que está acontecendo.

NA INCOMPREENSÃO DAS DIFERENÇAS

O candomblé é uma coisa boa. O Candomblé existe. Uma vez veio um rapaz aqui do Candomblé que falou uma coisa que eu não gostei, querendo me rebaixar. Eu não sou Candomblé, eu sou Umolocô, mas ao mesmo tempo somos Candomblé, porque Umolocô é junto com o Candomblé. Eu estudo muito o Candomblé. A única coisa que não se faz aqui é catular. Aí ele chegou aqui querendo me rebaixar, dizendo que a minha religião não existia, que a gente não tinha nada, que só quem tinha era ele que era do Candomblé. Eu fiquei muito chateado. Ele quis dizer que a gente não era nada, só é quem tem santo. Mas é claro que aqui tem santo. Em todo lugar o santo tá. Se você é da Umbanda, na Umbanda se faz bori. Como é que o santo não tá lá? Agora na Umbanda antiga não se faz bori. A Umbanda antiga era só uma imagenzinha do caboco, faz o amanci de frutas, o amanci de ervas, o caboco vira, faz aquele trabalho, mas não fazia nem bori, nem obi. A pessoa só tinha amanci na cabeça, não recolhia pra santo. Agora não, na Umbanda que nós estamos agora já faz bori. Aí eu disse “olhe, eu tenho santo, você quer ver, eu tenho foto”, aí eu amostrei só uma coisinha que não ia dar importância, porque a gente não pode mostrar. Aí uma vez ele veio assistir, aí ele quebrou a cara, ele viu como era meu trabalho, que eu tinha espírito de verdade. Acho que ele tava pensando que eu não sabia, porque ele estudou muito. Mas você sabia que às vezes aquela pessoa mais humilde é que tem sabedoria? Às vezes aquela pessoa estudou muito, mas o estudo não glorifica ninguém. Às vezes aquela pedrinha mais miudinha que você vê lá no chão, “pra que que eu quero essa pedra, essa pedra não serventia de nada?”, mas é aquela pedrinha que faz brilhar, é isso que o pessoal não sabe. Então eu pego as pequenas pedrinhas do chão pra mim construir o meu castelo. Eu não vou pegando as pedras mais brilhosas que vêm não. Eu vou pegando aquela mais pequenininha, que é pra poder eu ir polindo ela, pra depois ter meu sucesso.

PRECONCEITOS E MARMOTAGENS

Ainda existe muito preconceito, mas nessa parte onde nós vivemos, no Amazonas não devia ser assim, é uma terra bonita, com muitas matas, muita água, terra de Pai Oxóssi, de Mãe Oxum. Agora é que está se esbangindo a cultura, a Umbanda, o Candomblé, Ketu, Umolocô, agora é que estão se expandindo, as pessoas estão aceitando mais, mas ainda tem gente que joga pedra, que xinga. Tem lugar que a gente vai que meu Deus do céu, é pombogira sentando na perna de homem, pombogira beijando, que é isso, não existe isso, isso é mentira, é a Dona Mariana comendo peixe na cabeça do seu menino. As pessoas que conhecem sabem que isso é mentira. Como é que a Dona Mariana vai poder se apaixonar por você na minha cabeça? Ela pode ter um amor, um carisma, ela gosta de você como pessoa. A entidade tem sentimento. Se você passar por ela, “oi, Dona Mariana!”, ela vai sentir, ela vai lhe ajudar, ela vai se doer por você, mas esse negócio de amor, beijar na boca, a pombogira sentada na perna do homem, na cabeça de uma bicha, não tenho nada contra, sou homossexual, mas me dou muito respeito, assumo o que eu sou. Uma vez eu fui numa festa, a pombogira com um salto desse tamanho, um batomzão no beiço. Aonde fica a moral do homossexual? Fica no chão, porque a pessoa que vai chegar e ver aquilo vai dizer “ah, isso aí não é a entidade, isso aí é a bicha que tá fingindo”. É o equé. Tem gente que tem raiva de mim porque eu falo isso, mas eu vou falar. Se a pessoa é homossexual, não tem problema, Deus também foi tentado na juventude dEle. Foi Deus que colocou no mundo, veio da genética, ninguém é culpado. Seja o que você é, se você gosta de uma pessoa, goste. Não fique mostrando pro mundo que você é aquilo assim, por causa que isso aumenta o preconceito também. Agora as pessoas têm que saber se defender, o homossexual ou a lésbica tem que saber se defender, o negro, o branco, porque pra todos nós pode existir preconceito. Se a pessoa tem o nariz torto, os outros falam; se a pessoa tem o olho assim, “olha o olho dela”. Isso acontece porque às vezes o homossexual não tem coragem de dar em cima do cara, “olha, eu gostei muito de você, eu quero conversar com você”. Eu quando quero uma coisa eu vou, eu não vou botar a entidade no meio. E o meu nome como é que vai ficar, “olha, o Pai Francisco”? Deus me livre!

A FAÍSCA SOLIDÁRIA DE PAI FRANCISCO

Uma casa de santo tem de ser respeitada, o pai de santo tem de se dar respeito, botar moral em cima dos médiuns. As únicas casas que eu vou, gosto de ir, é a da Dona Maria José do Japiim, que tem um barracão de zinco, e no Jeovano, porque ele me trata bem, uma vez ele também veio aqui, ele cantou. A nossa umbanda é tudo de bom, eu não sou de Manaus, eu sou piauiense, mas aqui eu não ando enganando ninguém, minhas entidades trabalham direito, graças a Deus, meu trabalho é certo. Nunca veio alguém bater na minha porta reclamando de um trabalho que eu fiz e não deu resultado. E tudo a gente pede a providência de Deus, porque Deus é que dá o caminho pra nós, mas têm as forças ocultas mais embaixo, aí Deus não mete mais a sua mão, quando têm um irmão que têm forças ocultas abaixo dele, aí esse é que tem mais poder aqui embaixo, aí Deus já não mete a mão dele. Na minha casa eu sou uma pessoa muito meiga, eu trato as pessoas bem, eu gosto muito de dar conselho, eu gosto muito de dar mão amiga. Às vezes vem gente de longe aqui, conversar comigo, pedir um conselho. Aí diz, mas o senhor me ajudou; eu digo, “não, meu filho, eu sou apenas uma faisquinha”. Mas se chega na minha casa, tem comida, vamos comer; se tem café, a gente toma; se tem janta, a gente janta. E eu vou assim, vou levando minha casa pra frente, tenho muitos filhos, e a gente vai seguindo o caminho da gente, a gente erra, mas o santo não, se a lei do santo é aquela, eu tenho que fazer aquilo. Meu Pai Oxalá, no dia que eu for errar, me dê uma luz, uma força, me ilumine…


USAR O CONTROLE REMOTO É UM ATO DEMOCRÁTICO!

EXPERIMENTE CONTRA A TV GLOBO! Você sabe que um canal de televisão não é uma empresa privada. É uma concessão pública concedida pelo governo federal com tempo determinado de uso. Como meio de comunicação, em uma democracia, tem como compromisso estimular a educação, as artes e o entretenimento como seu conteúdo. O que o torna socialmente um serviço público e eticamente uma disciplina cívica. Sendo assim, é um forte instrumento de realização continua da democracia. Mas nem todo canal de televisão tem esse sentido democrático da comunicação. A TV Globo (TVG), por exemplo. Ela, além de manter um monopólio midiático no Brasil, e abocanhar a maior fatia da publicidade oficial, conspira perigosamente contra a democracia, principalmente, tentando atingir maleficamente os governos populares. Notadamente em seu JN. Isso tudo, amparada por uma grade de programação que é um verdadeiro atentado as faculdades sensorial e cognitiva dos telespectadores. Para quem duvida, basta apenas observar a sua maldição dos três Fs dominical: Futebol, Faustão e Fantástico. Um escravagismo-televisivo- depressivo que só é tratado com o controle remoto transfigurador. Se você conhece essa proposição-comunicacional desdobre-a com outros. Porque mudanças só ocorrem como potência coletiva, como disse o filósofo Spinoza.

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CAMPANHA AFINADA CONTRA O

VIRTUALIZAÇÕES DESEJANTES DA AFIN

Este é um espaço virtual (virtus=potência) criado pela Associação Filosofia Itinerante, que atua desde 2001 na cidade de Manaus-Am, e, a partir da Inteligência Coletiva das pessoas e dos dizeres de filósofos como Epicuro, Lucrécio, Spinoza, Marx, Nietzsche, Bergson, Félix Guattari, Gilles Deleuze, Clément Rosset, Michael Hardt, Antônio Negri..., agencia trabalhos filosóficos-políticos- estéticos na tentativa de uma construção prática de cidadania e da realização da potência ativa dos corpos no mundo. Agora, com este blog, lança uma alternativa de encontro para discussões sociais, éticas, educacionais e outros temas que dizem respeito à comunidade de Manaus e outros espaços por onde passa em movimento intensivo o cometa errante da AFIN.

"Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias; que é atingido pelos próprios pensamentos como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, como por uma espécie de acontecimentos e de faíscas de que só ele pode ser alvo; que é talvez, ele próprio, uma trovoada prenhe de relâmpagos novos; um homem fatal, em torno do qual sempre ribomba e rola e rebenta e se passam coisas inquietantes” (Friedrich Nietzsche).

Daí que um filósofo não é necessariamente alguém que cursou uma faculdade de filosofia. Pode até ser. Mas um filósofo é alguém que em seus percursos carrega devires alegres que aumentam a potência democrática de agir.

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